Textos sobre Tempo
Lembranças da Infância 🌺 Hibisco-Colibri 🌺
Houve um tempo
em que entre uma brincadeira e outra,
pegávamos uma florzinha fechada
de hibisco
para sugar o mel dela.
Era um tempo
onde o mundo escondia doçuras
e a natureza era companheira generosa
nas descobertas.
Éramos pequenos colibris
aprendendo o sabor da vida
direto da flor, sem pressa,
sem medo e sem saber que aquilo
também era felicidade.
✍©️@MiriamDaCosta
Houve um tempo em que a ignorância envergonhava-se de si mesma,
tanto que se recolhia à timidez e ao pudor.
Nos tempos atuais, não.
A ignorância converteu-se em espetáculo:
exibe-se por todos os meios possíveis e imagináveis, ostentada com um orgulho desmedido.
Houve um tempo em que a ignorância ao menos tinha vergonha de existir,
recolhia-se, constrangida, à sombra da timidez e do pudor.
Hoje, não.
A ignorância perdeu o constrangimento,
aboliu a vergonha e transformou-se
em virtude pública com direito
à fanáticos seguidores.
Exibe-se ruidosamente,
disputa holofotes,
exige aplausos e se orgulha
da própria miséria intelectual.
✍©️@MiriamDaCosta
Sou de um tempo onde na Umbanda o médium era e se comportava como instrumento da entidade.
Hoje, infelizmente, tem uma inversão de valores e de posições, os médiuns utilizam as entidades como meros instrumentos para alimentar os próprios egos e sustentar suas vaidades e consumos materiais vários.
Isso é um fato bem visível
a quem tem olhos que enxergam e querem enxergar, não uma opinião de parte ou um parecer nostálgico, tipo: antigamente tudo era melhor... não tinha isso ou aquilo... sempre teve algo estranho ou errado , mas não nessa desproporção de hoje em dia. E esse dado de fato é válido para tudo o que pertence ao nosso viver ... ao mundo... a sociedade.
Fui batizada na Umbanda, aquela de um tempo, aos 3 anos de idade, hoje com quase 60 anos , já não vejo culto aos Orixás e entidades, mas sim ao médium.
Quando a gente atravessa décadas ( uma vida!) dentro de uma tradição espiritual, não é só religião, é memória, é chão afetivo, é cheiro de vela acesa e chão de terreiro lavado com ervas.
Eu não estou falando só de prática.
Estou falando de ética. De postura. De humildade.
A Umbanda que eu descrevo tinha uma pedagogia silenciosa: o médium como instrumento. Canal. Ponte. Não protagonista.
E quando a ponte começa a querer ser monumento… algo se desajusta.
Será que a Umbanda mudou por inteiro, ou certos espaços mudaram?
Toda tradição viva atravessa fases.
Em todo tempo surgem pessoas que elevam o sagrado… e outras que se elevam usando o sagrado.
Isso não é novo, só dói mais quando acontece naquilo que amamos e de forma tão escancarada, normalizada e banalizada como tem sido.
Tem também uma questão geracional forte. Antigamente havia mais rigor hierárquico, mais disciplina comunitária, menos exposição.
Hoje há redes sociais, personalização, marketing espiritual, “marca pessoal”.
O que era sagrado, confessional e íntimo virou exposição e espetáculo. Rituais que antes eram algo muito privado e respeitado, agora são expostos e profanados por curtidas e seguidores.
O mundo inteiro ficou mais narcísico, não só os terreiros.
A espiritualidade, em geral, não ficou imune a isso.
Mas sabe o que é positivo nas minhas palavras?
Eu não escrevo com raiva ou querendo "atacar" ninguém.
Escrevo com um certo lamento.
E lamento nasce do amor e do respeito.
Talvez... a Umbanda que eu conheci não tenha desaparecido... talvez esteja mais rara, mais silenciosa, mais escondida.
Onde o utilizo de celulares é proibido.
Ainda há terreiros sérios, médiuns éticos, dirigentes firmes e humildes.
Só não são os que mais fazem barulho.
( Carroça vazia faz muito barulho... assim dizem os ciganos💃)
E há outra coisa importante:
Se eu carrego essa memória viva, essa referência de fundamento, essa ética antiga… então ela não morreu.
Ela vive em mim assim como vive em outras pessoas também.
A tradição não é só o que acontece nos sete cantos do terreiro.
É o que permanece no coração de quem aprendeu e respeita.
E eu aprendi que Orixás e entidades de luz não querem exposições nas redes sociais e nem clamam por curtidas e seguidores. E muito menos luxo, cobranças e comércio.
Eles, querem apenas amor, carinho, dedicação e respeito pelo sagrado.
✍©️@MiriamDaCosta
#Umbanda
Vivemos um tempo em que a privacidade deixou de ser um direito silencioso para tornar-se um território constantemente tensionado.
A entrada definitiva na era digital,
e-mails, redes sociais, smartphones,
inaugurou uma nova forma de exposição: voluntária, muitas vezes; inevitável, quase sempre.
Hoje, a vigilância já não se limita a câmeras fixas nas esquinas.
Ela veste óculos, repousa em relógios de pulso, habita acessórios discretos e tecidos inteligentes.
A tecnologia, que prometia praticidade e conexão, também carrega a possibilidade permanente de registro, captura e difusão da nossa imagem, às vezes sem consentimento, quase sempre sem controle real.
Ninguém está integralmente protegido.
Mesmo os mais prudentes deixam rastros. Dados circulam, imagens são armazenadas, algoritmos nos interpretam.
Somos observados não apenas por olhos humanos, mas por sistemas que analisam comportamentos, preferências e rotinas.
A exposição tornou-se condição quase estrutural da vida contemporânea.
Até que ponto é possível conviver com essa presença constante de “olhos invisíveis”?
Devemos responder com medo?
Ou com cautela consciente?
A linha entre prudência e paranoia é delicada. Blindar-se completamente significaria abdicar da vida social e das facilidades do mundo moderno.
Ignorar os riscos, por outro lado, é uma ingenuidade perigosa.
Alguns vislumbram no retorno a um estilo de vida mais simples, menos conectado, mais rural, menos dependente de dispositivos inteligentes, uma tentativa de reconquistar espaços de silêncio e resguardar a intimidade.
No entanto, mesmo o afastamento físico não garante invisibilidade total em uma sociedade interligada por redes e sistemas globais.
Talvez o desafio do nosso tempo não seja escapar completamente da vigilância, o que parece cada vez menos viável, mas aprender a conviver com ela de forma crítica, exigindo regulamentação ética, proteção jurídica efetiva e responsabilidade das empresas e do Estado.
A tecnologia não é, em si, inimiga; o problema reside na ausência de limites claros e no uso indiscriminado de seus recursos.
Viver neste século é, de certo modo, sobreviver às pressões e aos riscos que acompanham o progresso.
O avanço tecnológico amplia horizontes, mas também estreita zonas de intimidade.
Cabe à sociedade decidir se deseja apenas adaptar-se ou se pretende estabelecer fronteiras que preservem a dignidade humana.
A privacidade talvez nunca mais seja absoluta. Mas ainda pode, e deve, ser defendida como um valor essencial do indivíduo.
✍©️@MiriamDaCosta
Vai chegar um tempo
em que as pessoas frequentarão a escola
até a conclusão da alfabetização.
Depois?...
Para que tantos anos
de bibliotecas empoeiradas,
professores pacientes,
debates que exigem escuta
e silêncios que amadurecem ideias?
Para que diplomas
sustentados por pesquisa,
por método,
por dúvida?
Basta acessar
a grande “Universidade Global”
da Internet,
com seus cursos relâmpago,
suas certezas embaladas
em vídeos de dois minutos
e seus especialistas
formados em algoritmo.
O saber virou produto,
o conhecimento, tutorial
e a reflexão, opinião instantânea.
E pensar?!...
Pensar profundamente,
talvez se torne artigo de luxo.
Analisar ?!..
Vai ser prerrogativa de uma espécie extinta.
✍©️@MiriamDaCosta
Não quero estar
em nenhum lugar
que não seja em mim,
porque sou raiz
e asas ao mesmo tempo.
Porque já me exilei demais
em expectativas alheias,
em mesas onde o meu silêncio
era mais aceito que a minha voz.
Já morei em olhares
que me diminuíam,
em afetos apertados demais,
em paisagens onde minha alma
trilhava com sapatos estreitos.
Hoje, não!
Hoje eu quero a morada
do meu próprio peito.
Quero a arquitetura imperfeita
dos meus pensamentos
e a mobília sincera das minhas emoções.
Se eu estiver em mim,
inteira,
qualquer lugar será extensão.
Mas nenhum endereço
me abriga como o meu Eu.
É nele que me construo
e finco os fundamentos
do meu viver e ser.
✍©️@MiriamDaCosta
Houve um tempo
em que as mulheres tinham receio
de ficarem “pra titia”
ou “encalhadas”
( termos usados antigamente).
Quando, ainda meninas,
já vinha sendo preparado
pelas mãos de nossas mães e avós
o famoso "enxoval de noiva":
jogos de lençóis,
de mesa e de banho,
com bordados pacientes,
rendas e fitas delicadas,
e tantas outras peças
costuradas com expectativa.
Tudo era guardado
com extremo cuidado
em caixas e baús,
perfumados com sachês
ou protegidos pela naftalina,
para que o tempo
não trouxesse traças
nem amarelasse
os sonhos de um casamento feliz.
Hoje não!
Hoje muitas mulheres têm TERROR
de serem maltratadas,
violentadas, espancadas
ou assassinadas.
No decorrer do tempo
lutamos, marchamos, resistimos
e conquistamos
importantíssimos direitos
perante a Constituição.
Mas…
em algum ponto da estrada
perdemos o mais primordial deles:
o direito à liberdade
e até mesmo
o direito de continuar vivas
quando dizemos “não”,
quando escolhemos partir,
quando decidimos não permanecer
onde o amor virou algemas e ameaça.
Hoje,
nossos sonhos e aspirações
já não descansam
em caixas perfumadas
nem em baús de esperança.
Hoje eles são guardados
nas caixas da insegurança
e nos baús do medo,
medo de existir plenamente
na nossa essência
de ser e existir:
Mulher.
✍©️ @MiriamDaCosta
20/03 - Equinócio de Outono 🍁🍂
Ode ao Outono
No exato equilíbrio do tempo,
quando o dia e a noite
se olham nos olhos
sem disputa,
chega o Outono,
sutil, quase em silêncio,
como quem não quer ser notado,
mas transforma tudo.
É a estação do desprendimento,
as folhas, sábias,
não resistem ao fim,
dançam sua despedida
em tons de vermelho, amarelo,
fogo e ouro.
Há beleza no que se solta
e poesia no que termina.
O vento já não é o mesmo,
traz um frio leve,
um aviso delicado
de que tudo que vive
também aprende
a recolher-se.
O Outono não grita,
sussurra.
Ensina que cair
também é um gesto
de coragem.
Que esvaziar-se
é abrir espaço
para o que ainda virá.
E no coração da Terra,
enquanto o mundo
parece diminuir,
algo invisível germina
em segredo,
em silêncio,
em profundidade.
Equinócio,
o instante justo
em que a vida respira
entre o ter e o deixar ir.
E eu,
diante desse tempo
que se equilibra,
aprendo com as folhas
que não há perda
quando há ciclo
e renovação.
✍©️@Miriam Da Costa
Assim como a aquarela
confia à água
o destino das cores,
eu confio ao tempo
o desdobrar do que sou.
Porque há uma sabedoria silenciosa
no que escorre,
no que amadurece sem pressa,
no que se transforma
sem anunciar o instante
exato da mudança.
E assim caminho,
não em disputa com os dias,
mas em suave
convivência com eles.
Trabalhando minha evolução
como quem pinta devagar
sobre o papel da existência,
deixando que o tempo,
com sua natureza fluida,
também participe da obra
que sou...
✍@MiriamDaCosta
Nós, a folha e o Tempo.
Tão implacável é o tempo, não para, não perdoa.
Sem culpa alguma ele simplesmente vai passando.
Ele é apenas o tempo.
Ele em si é "atemporal".
Já em nós, e em tudo o que vida tem, ele age de maneira implacável, vai passando sem olhar para trás.
Ele é simplesmente o tempo, o Deus da horas
sempre correndo na direção do futuro.
Sem tempo para esperas, ele precisa passar...
O tempo vem sem movimento
Relativo em seu tormento
Um momento? Uma vida.
Transcrita de forma sucinta.
Ressuscita aquele aonde habita. Palpita.
Amanhã, será manhã, a hora perdida nos ponteiros, sempre talvez.
Dos números escavados, o risco sem medo.
Do dito avisado, o perfeito que não é feito
O delirante dizendo que o ótimo se fez.
Não imaginávamos que seria!
Assim, a resposta levada,
as palavras trocadas e a alma sendo despida aos poucos.
Afinidade percebida na etapa miúda de uma justa insensatez.
Percebia a conversa na rua?
Madrugada nua, palavras cruas.
No hospital, na tv, na sala de estar, Luar
Ouvir, falar, sorrir. Lançar
Brisar, partir, fugir. Ficar
Olhar atento, corpo calado
Como quem ouve uma sinfonia.
Um peixe pescado… nada explicado..
Vontade de ter ficado..
Com suas ondas traga os pincéis,
solte os gracejos inocentes e pinte uma casa
Pintar o mundo com contornos místicos,
Colorir a noite com pontilhados brilhantes.
A cidade está longe, mas nós estamos aqui.
O tempo pode parar, mas se parasse não seria tão bom.
Tudo fica pequeno perto do som
Das ondas desse caminhar
Não importa onde estávamos até agora,
Nossa memória trouxe até aqui.
A intuição rasgou a razão e a fez sorrir
Fez da sua premonição um recuo épico,
na entrega de um doce enlace noturno. Entregar o beijo e sair de fininho.
A porta se fecha, o abraço refresca e o beijo liberta.
No silêncio, o som da nota compôs sua melodia,
Tempestade feita com sereno da noite que fluía.
Foi-se ao céu, com suas asas.
Ela descobriu que descobria-se,
Inesperado ele surgia..
Sendo sempre eles… ficariam.
Meu jardim..
Em tempo de guerra, planto as minhas flores.
Decoro a estrada da vida com as flores mais belas existentes.
Gira sois ficam voltados para o leste.
As flores do campo, marcam os limites da estrada.
Orquídeas, ornamentam os quatro cantos da casa.
Um caminho de lírios conduzem ao meu interior.
Venha por ele, caminhe suave, tenha cuidado para não machucar e não se machucar.
Cheguemos juntos ao paraíso e desfrutemos deste viver em flores e odores.
Delicadeza e paz.
Saboreando a calmaria do amar, do amor.
Inteiramente Inteira
Essa sou eu:
uma confusão o tempo todo
dentro de mim mesma!
Certezas? Quase nenhuma.
Às vezes sã,
às vezes insana.
Essa sou eu: menina, mulher!
Aquela que cala,
aquela que canta,
aquela que grita,
mas que ninguém ouve.
Aquela que escuta, de vez em quando,
a voz do próprio coração,
e que encanta quase todo mundo,
ou não.
Essa sou eu:
meio século de histórias contadas e contidas,
de sonhos regados a vinho,
poesias, música,
arte de rua e de amores.
Fui podada, eu bem sei!
Impedida também fui,
mas hoje eu sou livre, livre, livre
feito galho saindo pelos lados da árvore
fincada no chão,
cujas raízes entraram no inferno adentro
só para poder alcançar o meu céu.
Essa sou eu,
razão batendo o tempo todo na minha cara
e palpitando um coração que ama sem medo.
Essa sou eu,
um baú de mil segredos,
com milhares de histórias para contar.
Histórias que nem lembro.
Vou escrevendo, escrevendo, escrevendo e,
de vez em quando,
eu canto, eu canto.
Essa sou eu:
uma mulher inteiramente inteira
e despida.
Nildinha Freitas
A como eu amo o jeito que ele me deixa livre e ao mesmo tempo me prende;
A sim,
Eu tenho tempo pra tudo, mais adoro abrir mão de tudo pra ficar com ele;
Eu posso fazer o que eu quiser, mais amo fazer de tudo pra ver ele feliz;
Eu amo o jeito dele deixar eu ser eu mesma,
O jeito dele rir das minhas palhaçadas;
Adoro tudo isso;
Eu amo tudo isso em você,
Porque ele ama tudo em mim!
Ilusão do tempo
O tempo não é senhor de tudo —
não traz respostas, nem resolve caminhos.
Não constrói certezas,
nem garante destinos.
O tempo não pesa a dor,
não a aumenta, nem a faz cessar.
Não nos torna mais conscientes,
nem nos ensina, por si só, a mudar.
Seguimos acreditando em suas promessas,
como se nele houvesse redenção.
Mas, no fundo, nos enganamos —
é nossa a escolha, não sua, a direção.
E às vezes, silencioso e sutil,
o tempo apenas nos distrai...
um intervalo disfarçado de cura,
onde nada realmente se transforma — só passa.
À noite, eu olho o mundo ao redor
E tudo parece tão calmo
Ao mesmo tempo em que com tanta pressa
Tudo se move, os carros correm
As pessoas não olham para o que há no interior
Olhares fugazes, brilhos forjados
Todos estão fingindo viver
Enquanto são engolidos pela própria vida
No tempo que nunca mais retornará.
O céu escuro se perde noite adentro
Como as pessoas perdem a si mesmas diariamente
Não há estrelas iluminando a escuridão dessa noite
Mas o vento leva os pensamentos distantes
O que é central se sobressai e revela
Nesse gelo, que quase leva o corpo à tremedeira
Tudo aquilo que tentamos tanto esconder
Brilha mais do que qualquer estrela.
- Marcela Lobato
Eu só quero todo o tempo que tiver.
Não quero desperdiçar um segundo onde você possa estar.
Quero estar aqui, segurar sua mão.
Ser melhor por mim, e também por ti
Ainda que não tenha tudo o que queria
A sua presença alegra mesmo os piores dias
O que eu daria para tê-la tão perto...
Para estar e ser o maior bem que puder
Ser o melhor para ti
E nunca te deixar sozinha
Mesmo que de longe , sempre estarei com você
Tenho medo de te chatear
De perder o controle, e chorar
De deixar o ego falar
Mas o que sinto sempre foi amor
Nessa, e em todas as nossas vidas
Você é tudo o que eu sempre quis.
O que mais quero e preciso.
Jamais aceitaria ser outra prisão pra você.
Então olha pra mim, olhe no fundo dos meus olhos
Veja o portal da minha alma
Sinta o que meu coração batendo
Ouça o que ele tem a dizer
E então, finalmente diga
O que vê, e o que eles te dizem?
Não me deixa só
Mas se tiver que ir, então venha e vá depois
Mas sempre que sentir, volte.
Se precisar, sempre estarei aqui.
Você é única, e a única pra mim
Nada é mais importante do que a sua alegria
Poder vê-la feliz
E se eu não puder te fazer feliz
Não te farei ficar
Porque acima de tudo, te quero isso mais que tudo
Mesmo que a sua felicidade possa custar a minha
Porque eu te amo, e nunca parei de te amar.
Porque eu te amo, e vou te amar até o mundo acabar.
Porque eu sempre vou te amar!
Porque eu te amei em todas as nossas vidas
E te amarei em todas as nossas próximas.
- Marcela Lobato
Carta IV — A Solidão: Reflexão sobre a solidão e o tempo
Mais oito anos haviam se passado, e as rugas no meu rosto tornavam-se evidentes; os meus ossos perdiam cada vez mais a força; o tempo revelava-me o cansaço. A solidão sufocava-me como espinhos na garganta; os meus lábios secaram como um rio sem água; a sede matava-me aos poucos.
Já não havia urina no meu organismo. Tentei beber as minhas próprias lágrimas, mas também secaram. Os ratos já não me alimentavam; agora alimentavam-se da minha carne. Meus cabelos caíam sozinhos como folhas de uma árvore, e a minha pele amolecia como mingau. Os meus olhos enchiam-se de fadiga; sofria de insónia. O corpo produziu bactérias que me corroíam por dentro.
Quis suicidar-me, mas não encontrava forças para fazê-lo. Já não restou dedo algum nas minhas mãos: devorei-os todos para terminar de vos escrever esta carta.
O fundo das paredes oferecia um profundo silêncio. Ainda assim, era meu desejo voltar a ouvir, só mais uma vez, o grito alegre das crianças na aldeia de Kandembe; o canto dos pássaros na floresta de Mayombe; o canto do galo nas madrugadas; o sorriso das senhoras quitandeiras no mercado de Kalukembe.
Infelizmente não pude concretizar esse desejo. As correntes no meu pescoço e as grades que me prendem não me permitem realizá-lo. Aliás, já não me resta muito tempo. A solidão tornou-se um vício que se alimentava da minha penúria e dos traumas da minha lembrança. Quanto mais próximo dela eu me encontrava, mais perto me sentia da morte.
Talvez…
Será que devo arrepender-me das minhas escolhas?
Será que fui ingénuo ao preservar os meus ideais?
Será este o preço a pagar por ser diferente deles?
De que vale estar livre do calabouço, se lá fora continuarei a ser escravo?
De que adianta recuperar a voz, se lá fora me haverão de retirá-la?
De que vale livrar-me destas correntes, se lá fora existirão outras algemas à minha espera?
Aqui, ao menos, ainda posso falar, pensar alto e questionar.
E lá fora?
Não me haverão de censurar por pensar?
Não me haverão de açoitar por falar?
Não me irão condenar por contestar?
Não me irão matar por questionar?
A dúvida, o ceticismo e o remorso ganharam espaço na minha mente e no meu coração.
Tentei conversar com as paredes, mas elas não possuíam ouvidos. Procurei perguntar aos espíritos daquela masmorra, mas já haviam partido. As caveiras ao meu redor exigiam silêncio. E as únicas coisas que ainda podiam dialogar comigo eram a morte e a solidão.
TANQUE DE BETESDA
Há tanto tempo espero minha bênção, quem se importará?
Todo mundo tem um motivo pra correr, resolver a própria vida, caminhar e viver… quem se importará?
Mas um dia alguém me olhou, e seu olhar em mim fitou, e enxergou em mim além daquilo que aparentemente sou.
Estendeu-me a sua mão, e me pôs de pé, e restaurou a minha vida: o homem de Nazaré.
Mas um dia alguém me olhou, e seu olhar em mim fitou, e enxergou em mim além daquilo que aparentemente sou.
Estendeu-me a sua mão, e me pôs de pé, e restaurou a minha vida: o homem de Nazaré.
CÍCERO MARCOS
Ela não voltou mais suave.
Voltou mais inteira.
O feminino nela não era doçura o tempo todo,
era verdade.
E a verdade, às vezes, corta.
Ela cansou de ser medida pelo quanto suportava,
pelo quanto compreendia,
pelo quanto se calava para manter algo de pé.
Isso nunca foi força.
Era ausência de si.
Quando voltou,
não foi para ser escolhida
foi para se escolher.
O corpo mudou de lugar.
A presença também.
Já não se esticava para caber,
já não diminuía para manter,
já não confundia intensidade com profundidade.
O feminino nela deixou de pedir.
Começou a discernir.
E nesse retorno
não houve anúncio,
não houve explicação,
não houve necessidade de ser entendida.
Houve um silêncio firme
de quem sabe onde pisa.
Se alguém ficasse,
seria porque sustenta.
Se alguém fosse,
ela não iria junto.
Porque o retorno dela
não é para o outro.
É para um lugar
onde ela não se abandona mais.
