Textos Reflexivos de Amor
Numa cova no chão, havia uma lápide com os dizeres: "Aqui jazem os sonhos nunca alcançados". O homem de pé, frente a frente com aquilo, sentiu um gosto amargo na boca. Ali estavam todos os amores irreais, as profissões nunca alcançadas, as viagens perdidas, os bebês que nunca saíram do imaginário. Ele anda para os lados até que lê o verso da lápide, onde estava escrito: "Estão aqui por faltar coragem aos corações, garra para as conquistas, agir mais que imaginar. Mas aqui não é o fim de todos os sonhos se você que está lendo não se enquadra nesse perfil."
Reflexivo, ele virou-se para frente e saiu do local. Prontamente tratou de resolver aquilo, pegou o telefone e ligou pra ela: "um chopp gelado pra hoje, tá afim?"
Não perderia mais tempo, recusava-se a ter seus sonhos em qualquer outro lugar que não o altar das realizações.
Por que vocês homens viram bebês grandes quando estão gripados" ela pergunta enquanto se direcionava até ele, segurando uma xícara de chá de maçã (seu favorito). O clima louco sempre o afetava. Jogava bola na chuva, abria a geladeira com o corpo quente, andava descalço pela casa, todas aquelas coisas que sua mãe sempre dizia pra ele não fazer. "Amor, não faça perguntas que eu não posso responder. Acho que nós homens odiamos ficar doentes. Quando a oportunidade surge, queremos só um pouco daquele mimo". Ele respondeu. E olhou para ele com uma expressão bem séria, mas depois libertou um sorriso no canto da boca, dizendo: " vai lá jogar bola na chuva, seu bebezão! "
Enquanto ela saía, ele desmarcava uma partida com os amigos através do celular.
Se uma mulher cuidadava de um homem manhoso, ela merecia total atenção. O que valeu alguns filmes, pipoca e todas as coisas que ela gostava, preparadas por ele, é claro.
Tomava altas doses de esperança, doses cavalares, e pra dificultar as coisas, não tinha pena de misturar. Drinks de suavidade, copos de gentileza, garrafas de charme. Ao preparar a refeição, era muito rigoroso. Uma pitada de temperança, duas colheres surpresa e uma de audácia.
Gostava de ser exagerado em 60% da vida, e os outros 40% eram mais serenos.
Porém aquele era um dia especial, tentava aceitar tudo com cuidado, perfeição e um par de taças bem representativas. Ao ouvir os cachorros, corre para a sala, apaga as luzes e com o abrir da porta ele diz: "Feliz 2 anos de namoro! Espero que não tenha achado o terno meio exagerado, eu juro que se achou eu desfaço tudo e vamos passar o nosso dia vendo TV"
Ela não conseguia responder, em sua mistura de lágrimas, risos e beijos. Percebeu que era só o segundo ano de toda vida ao lado da pessoa certa.
Tomava altas doses de esperança, doses cavalares, e pra dificultar as coisas, não tinha pena de misturar. Drinks de suavidade, copos de gentileza, garrafas de charme. Ao preparar a refeição, era muito rigoroso. Uma pitada de temperança, duas colheres de surpresa e uma de audácia.
Gostava de ser exagerado em 60% da vida, e os outros 40% eram mais serenos.
Porém aquele era um dia especial, tentava ajeitar tudo com cuidado, perfeição e um par de taças bem representativas. Ao ouvir os cachorros, corre para a sala, apaga as luzes e com o abrir da porta ele diz: "Feliz 2 anos de namoro! Espero que não tenha achado o terno meio exagerado, eu juro que se achou eu desfaço tudo e vamos passar o nosso dia vendo TV"
Ela não conseguia responder, em sua mistura de lágrimas, risos e beijos. Percebeu que era só o segundo ano de toda vida ao lado da pessoa certa.
"Olha, não me leva a mal. Eu já gostei de alguns caras antes e só saí com as piores experiências. Que garantias eu teria de que você não é igual a todo mundo?"
Uma simples caminhada mudou de tom, ele percebia nos olhos dela aquela vontade de querer acreditar que ele era o cara certo, que em todos os karmas que cruzaram seu caminho, aquele rapaz era sua luz no fim do túnel.
Ele suavizou seus passos, sorriu e disse: "Bom, primeiramente, minha mãe sempre dizia que eu não sou todo mundo. Em segundo lugar, não posso te dar garantias. Eu posso prometer que meu desejo é de fazê-la feliz hoje, será o meu desejo amanhã, e depois de amanhã também. A única promessa que posso fazer é que farei o meu melhor sempre."
Ela não soube responder, ao faltar palavras, cobriu a situação com o ato do primeiro beijo. Decidiram descobrir juntos, até onde a vida os levariam.
"Olha, não me leva a mal. Eu já gostei de alguns caras antes e só saí com as piores experiências. Que garantias eu teria de que você não é igual a todo mundo?"
Uma simples caminhada mudou de tom, ele percebia nos olhos dela aquela vontade de querer acreditar que ele era o cara certo, que em todos os karmas que cruzaram seu caminho, aquele rapaz era sua luz no fim do túnel.
Ele suavizou seus passos, sorriu e disse: "Bom, primeiramente, minha mãe sempre dizia que eu não sou todo mundo. Em segundo lugar, não posso te dar garantias. Eu posso prometer que meu desejo é de fazê-la feliz hoje, será o meu desejo amanhã, e depois de amanhã também. A única promessa que posso fazer é que farei o meu melhor sempre."
Ela não soube responder, ao faltar palavras, cobriu a situação com o ato do primeiro beijo. Decidiram descobrir juntos até onde a vida os levariam.
Sentados num banco de praça, surgiu uma pergunta intensa. "Por que as pessoas expressam o quanto estão felizes para as outras? Por que o mundo está radiante ao nosso redor, no momento em que vivemos em miséria? Quando o amor é sentido no ar, e a paixão pode ser vista em cada esquina e beco mas não nos alcança."
Uma pergunta tão bem fundamentada, precisaria de uma resposta à altura. Mas ele não tinha nenhuma para ela. Se sentia vivendo naquele enigma, que talvez nem a própria Esfinge seria capaz de responder.
"Não faça perguntas difíceis, garota. Quando o mundo cheirar a amor, sorria, quando cheirar a paixão, sorria mais ainda. Acho que se você consegue sentir esses sentimentos com tanta intensidade, talvez eles estejam mais próximos de você do que imagina."
Ela percebeu a indireta, segurou a mão dele, colocou o cabelo por trás da orelha e sorriu.
"Talvez tenha razão..." Disse a moça, percebeu que o mundo era cheio de surpresas.
Amei até o limite da equação
Até o alvorecer da Criação,
Onde o sentimento divino fez - se o homem
Deu vida ao barro, tornou - se Adão.
Amei nos primórdios da civilização
Quando o Nilo regava o Egito,
O reino de Salomão construído,
Os guerreiros reinavam no Japão.
Mesmo quando ainda não existia, eu já era amor.
Quando a Torre de Babel crescia,
Até o momento em que o céu não tocou.
Fiz de base ao sentimento, amor.
Que brota, atravessa as eras mundo
Que de tão sublime e profundo
No mundo, derrotou a dor.
Ousei ser o senhor dos teus sonhos
Dos teus desejos agora sou rei.
Curandeiros dos seus desenganos,
Um nobre do amor que plantei.
Senhora das águas brilhantes
Emudece as estrelas no céu.
Fortalece os ventos uivantes,
Resplandece tua luz sobre o véu.
Pode um homem ser feliz sem conhecê-la?
Podem as deusas lá do céu não invejar?
Se nesta terra deuses e mortais disputam
A direção inquietante do seu olhar.
Infelizes no inferno Dantesco,
E os que somem debaixo do mar.
Jamais presenciarão a menina dos olhos,
Daqueles que por ti, as belezas do mundo vieram criar.
Debruçada sob a janela, observando o caminhar das pessoas, ela nem percebe alguém que a observava de pé, ali atrás.
"Oi amor, por que você tá aí parado me olhando?" Disse ela questionando aquele gesto. O rapaz avidamente responde. "Por nada, é que eu te vejo assim olhando pela janela e sinto medo." Disse ele. "Mas medo de que?" Ela pergunta. O rapaz olha diretamente em seus olhos e diz: "medo de acordar. Medo de estar vivendo o mais belo sonho de toda minha vida e de tão real, nem imaginar que é uma peça pregada pela minha mente. Eu não tive muita sorte no amor nessa vida, mas ganhei lá loteria com você. E quando te vejo eu só peço a Deus pra que se for sonho, ele me deixe dormindo só mais um pouco."
Falar o que depois disso? Ela não soube. Tem coisas que simplesmente entram em nossos ouvidos e calam o coração.
"Lendo poemas de novo?", ela perguntou. Um hábito adquirido, ainda é um hábito, mas naquele caso significava um algo mais. Ele olhou para ela e sorrindo respondeu: "Acho que poetas são basicamente uma representação do que todos nós seríamos se tivéssemos o dom de nos expressar. Se eu pudesse demonstrar todos os sentimentos que tenho por você, eles viriam como poesia, mas escrever não é bem o meu forte, então prefiro te enviar uma todas as manhãs e imaginar seu sorriso ao ler."
Ela completou o sorriso dele com outro sorriso: "o almoço tá pronto, vem pra mesa.", disse para o rapaz que um pouco antes de se levantar do sofá falou: "Poetas são ótimos em palavras, Drummond, Poe, quem diria, tô lendo até Horácio. Mas se soubessem o que se passa em meu coração, não saberiam jamais colocar no papel." Dedicou palavras tão belas ao coração dos amantes, onde dormiam os poetas e eternos apaixonados.
Vai por mim! Você pode arriscar todas as simpatias, cantadas, papos-cabeça, que mesmo assim pode não dar certo. Porque você talvez não seja atraente para quem gostaria de ser, mas acaba sendo para alguém improvável ou que não consiga a sua atenção, somente por seus olhos estarem voltados para a direção errada.
Já dizia Dante: " Pois perder o seu tempo, desagrada mais a quem mais conhece seu valor."
É um fato sólido e inquestionável da própria vida!
Como posso compreender o mundo?
Como posso tornar o irreal em algo possível?
Quando as impossibilidades são tão agudas que tornam-se palpáveis, visíveis, olfativas...
Como posso dizer que a vida segue, quando não é o que quero dizer?
Quando não ter respostas é a forma que a própria vida encontra para ser professor, mentor, mestre. Aquela que ensina a lição muda e surda, esperando que eu, cego, a compreenda.
Facilita minha partida, não me estendes os braços na chegada. E paciente, meditando, aguardo...
Sem saber se devo, se posso, se é bobagem ou tempo perdido.
Pacientemente relevo aquilo que todos os componentes químicos do meu corpo acusam como cilada. Pois cair na armadilha é o mantra dos tolos, dos otimistas, e até dos apaixonados.
Toda palavra escrita, advém.
Advém do falante ator
Do calado escritor,
Do homem comum.
Daquele que chora
Daquele que mente,
Daquele que ri.
O que fala
O que sente,
Provém do sentir.
Poesia vem da escrita rústica
Do palavreado comum,
Da gíria arrastada
Da dose tragada
Até de um copo com Rum.
É a expressão educada
Presente farsante
De amigo, parente
Amante.
Sim! É possível poetizar qualquer coisa!
É possível banalizar a dor
Amolecer o cansaço
Até, acalentar o amor.
Não é necessário muito pra um relacionamento dar certo. É preciso apenas conexão e parceria. Um homem depois de um longo dia de trabalho, pode querer uma parceira pra ser o seu player 2 no videogame. Uma mulher pode querer um parceiro ouvinte, que ouça e opine sobre aquela rotina pesada que ela teve no serviço. Conexão pra perceber que quando ele tá zangado, ela toma a frente, e quando ela tá triste é ele que se emociona. É reconhecer nos olhos que o brigadeiro de panela tá pronto, é se entender na cama, no sofá na cozinha e nas decisões. É ver aquele mesmo filme pela enésima vez, só porque ela ama, ou até mesmo ver aquele jogo de futebol, só porque ele não curte torcer sem companhia. É sentir ciúmes na medida certa, também, por que não?
Amor sem conexão é paixão. Paixão sem parceria é amizade. No fim, essas duas coisas são base de sequência de ocorrências à frente.
Não vou prometer muita coisa. Prometo apenas que no frio não vai faltar aquele café, no calor sempre terá aquela gelada. Uma série de filmes que eu acho absolutamente incríveis, mas que você provavelmente vai odiar (principalmente por serem longos). Prometo também ser o ouvido quando precisar falar, e ainda mais a voz quando precisar de conselhos. Serei riso na tristeza, e ainda mais na alegria. Até me aventurar na cozinha, mesmo que a preguiça domine minhas ações.
E não me leve a mal, eu não sou de ver filmes românticos, mas eventualmente eu posso sair pra ir ao banheiro, porque olho cheio d ' água não fica legal. Enfim, pretendo ser tudo aquilo que precisarmos para adicionar um "pra sempre" em cada segundo de nossas vidas.
"Meu maior erro foi oferecer uma vida que julgava perfeita, quando o perfeito na vida está nos erros, nas imperfeições. Ofereci algo sem o peso, sem consequências, e esqueci que são essas consequências que nos dão o medo e a coragem pra arriscar todas as boas cartas que temos na mão."
Ela pausou seu pensamento dito, olhou menos para o chão, como de costume, mais para os olhos. Decidiu que aquela mochila de arrependimentos não poderia ser o seu fardo e escolheu largar. Ele que nunca gostou de carregar peso, só se aproximou com mais um passo. "Perder tempo pra que né?". O beijo trouxe todas as palavras não ditas, antes mesmo da cerveja esquentar. Ganhariam e perderiam tempo juntos, nas filas, nas praças, no ônibus.
DE COR
Esse jogo de correr é sem fim
Você corre das contas,
Dos problemas,
De mim.
Foge de tudo
No início
Meio
Fim.
Sabe o que busca e tem medo
Sabe o que quer e não estende a mão.
Destrói tua prosa e teu verso
No medo de outra ingratidão.
Esquece que outrO risco é viável
Abre mão do que há de melhor.
Sozinhos são todos mais livres
Livres, infelizes e só.
Abre os braços e vá de encontro
Desencontro que ata esse nó.
Ser feliz é possível, é palpável
Eu prometo, disso eu sei de cor.
O Trem das Cinco e Quinze
Na Suíça, os trens são pontuais como o bater de um relógio de cuco. Foi às cinco e quinze da tarde, precisamente, que ela entrou no vagão carregando uma mala de rodinhas desengonçada e um livro sob o braço. Ele já estava lá, sentado próximo à janela, com os olhos perdidos nos Alpes que desfilavam como pinceladas brancas e cinzas. O sol de inverno, baixo e pálido, fazia o lago de Zurique cintilar à distância, como um espelho quebrado.
Ele a viu primeiro tropeçar no degrau do trem, recuperar o equilíbrio com uma risada abafada pelo cachecol vermelho. Ela se sentou diagonalmente a ele, dois assentos de distância. Entre eles, apenas o silêncio alpino e o leve rangido do trem nos trilhos. Até que, em algum momento após St. Gallen, ele perguntou, em um alemão hesitante, se ela sabia a que horas chegariam a Lucerna. Ela respondeu em inglês, com sotaque francês: "Você fala como quem decorou as frases de um manual ontem à noite". Ele riu, confessando que era brasileiro, um arquiteto em fuga de um projeto mal resolvido no Rio. Ela, por sua vez, era belga, pianista, voltando de um concerto em Viena onde havia tocado Chopin para uma plateia de casacos de pele e suspiros contidos.
No vagão-restaurante, dividiram uma garrafa de vinho branco suíço tão seco quanto o humor dela. Ele falou de linhas retas e concreto; ela, de escalas menores e metrônomo. Quando o trem atravessou um túnel, a escuridão os uniu mais do que a luz: naquele breu repentino, suas mãos se encontraram sobre a mesa de mármore, e nenhum dos dois soube dizer quem havia se movido primeiro.
Em Lucerna, desceram juntos, embora ela devesse seguir para Bruxelas e ele para Milão. Na plataforma número 3, sob o relógio que marcava sete e quarenta e três, ele lhe deu um cartão de visita rabiscado com o número de um hotel em Veneza. Ela lhe entregou uma partitura improvisada no verso de um mapa de trem, com notas que subiam e desciam como os trilhos que os haviam levado até ali. Prometeram escrever, ligar, encontrar-se na primavera. O beijo foi breve — um sopro de vapor no ar gelado —, mas suficiente para que, anos depois, ambos ainda se perguntassem se o gosto daquele momento havia sido de vinho, neve derretida ou simplesmente de *quase*.
Ele seguiu para o sul, onde o concreto de seus projetos ganharia raízes. Ela voltou ao norte, onde as teclas do piano a esperavam, frias e pacientes. Escreveram-se por um tempo, cartas que levavam semanas para cruzar a Europa, até que uma delas se perdeu no correio de Berna, e a outra, por orgulho ou cansaço, nunca foi reenviada.
Anos mais tarde, numa estação em Genebra, ele reconheceria uma melodia ao piano distante — *Nocturne op. 9 nº 2* — tocada por mãos que já não usavam anel. Sentado num banco, deixaria o trem das cinco e quinze partir sem ele, paralisado pela doce crueldade de um destino que os reunia apenas em segundas estrelas, estações erradas, e em todas as versões não vividas daquela tarde nos Alpes, onde o amor foi tão preciso quanto um horário de trem, e tão fugaz quanto o vapor de seu hálito misturando-se ao frio.
"A Chuva que Trouxe Você"
O Rio de Janeiro acordou coberto por um véu de nuvens cinzentas. A chuva fina, persistente, descia sem pressa, transformando as calçadas em espelhos que refletiam os contornos da cidade. Era um dia que parecia pedir café quente, janelas embaçadas e histórias para contar. Foi assim, entre pingos e esquivas, que Clara e Mateus se encontraram — ou reencontraram — na esquina da Rua do Ouvidor, no Centro.
Clara, de guarda-chuva vermelho desbotado e tênis encharcados, corria para escapar do aguaceiro quando tropeçou em uma poça. A bolsa escorregou de seu ombro, derramando livros e um caderno de esboços no asfalto. Antes que pudesse se lamentar, uma mão firme apareceu em seu campo de visão.
— Deixa eu ajudar — disse o dono da mão, um rapaz de cabelos cacheados e óculos respingados de chuva. Ele usava um casaco azul-claro, já manchado pela umidade, e um sorriso que parecia desafiar o tempo ruim.
Ela o reconheceu na hora. Mateus. Aquele colega de faculdade que sempre sentava no fundo da sala, desenhando nos cantos das folhas durante as aulas. Nunca haviam trocado mais que um "bom dia" tímido.
— Você... faz Arquitetura, né? — perguntou Clara, recolhendo um livro sobre Gaudí que ele entregou.
— E você desenha melhor do que qualquer um do curso — respondeu ele, apontando para o caderno aberto no chão, onde um esboço do Bondinho de Santa Teresa dominava a página.
A chuva insistia, mas eles pararam no meio da calçada, rindo da situação. Mateus sugeriu um café ali perto, no Largo das Artes, e ela aceitou antes mesmo que ele oferecesse dividir o guarda-chuva.
O lugar era pequeno, cheio de mesas de madeira riscada e o cheiro do expresso fresco. Enquanto secavam as mangas, a conversa fluiu como a água escorrendo pelas vidraças. Descobriram que ambos tinham o hábito de caminhar pela cidade nos dias chuvosos, colecionando detalhes invisíveis sob o sol: grafites escondidos em becos, o brilho das pedras portuguesas molhadas, o silêncio incomum da Praça XV.
— Acho que te vi uma vez desenhando no VLT — confessou Clara.
— Era eu! — ele riu, surpreso. — Você passou correndo com um casaco amarelo. Até tentei te chamar, mas o bonde fechou a porta.
O tempo lá fora parecia ter parado, assim como o relógio dentro do café. Quando perceberam, já era tarde, e a chuva diminuíra para um mormaço. Mateus acompanhou Clara até o ponto de ônibus, sob o guarda-chuva agora compartilhado sem cerimônia.
— A gente podia... fazer isso de novo — ele sugeriu, as pontas dos dedos roçando os dela ao devolver o caderno.
— Ficar encharcado e perder o ônibus? — ela brincou, mas seus olhos não disfarçavam a esperança.
— Não. Descobrir o Rio devagar, como se fosse a primeira vez.
Quando o ônibus chegou, Clara subiu os degraus sem saber se o calor no rosto vinha do café ou do aperto de mão prolongado que deixaram para trás. Na janela, viu Mateus acenando, até que a neblina e o trânsito o levaram para fora de sua vista.
Naquela noite, enquanto a cidade secava sob um céu estrelado, Clara abriu o caderno. Na última página, um desenho novo: ela, de guarda-chuva vermelho, sorrindo sob a chuva do Rio. E no canto, um número de telefone e uma frase: "Amanhã promete sol. Mas podemos torcer por outra tempestade."
