Textos de Filosofia
PRINCESA DA NOITE E O TRÂNSITO DO INAUDÍVEL.
Há uma noite que não começa no escuro.
Ela principia no primeiro intervalo entre dois sons.
Antes do acorde existir.
Antes da mão tocar a matéria do mundo.
Essa noite caminha em passos regulares.
Não corre.
Não implora.
Ela avança como quem conhece o destino e mesmo assim aceita cada desvio.
Seu pulso é constante como a respiração antiga da terra.
Seu coração repete arpejos como quem recorda uma memória que nunca foi esquecida.
Surge então a Princesa.
Não coroada por ouro.
Mas pelo silêncio que antecede cada nota.
Ela não reina pelo poder.
Reina pela permanência.
Tudo passa ao redor.
Ela permanece.
Seu vestido é tecido de sombras móveis.
Cada dobra nasce de um grave profundo que sustenta o mundo sem pedir reconhecimento.
Os sons baixos são colunas invisíveis.
São raízes que se enterram no tempo para que o céu não desabe.
A melodia não se impõe.
Ela se inclina.
Desenha curvas como quem respeita a dor do existir.
Há doçura em sua ascensão.
Mas nenhuma ingenuidade.
Toda nota sabe que cairá.
E mesmo assim sobe.
Quando a linha melódica se eleva.
Não é fuga.
É coragem.
É o espírito ousando olhar acima da própria noite.
Mas logo retorna.
Porque sabe que a verdade não mora no excesso.
Mora no equilíbrio entre desejo e limite.
O tempo não se rompe.
Ele se alonga.
Cada compasso é um passo dado com reverência.
Como antigos peregrinos que sabiam que chegar rápido era perder o sentido.
Há um momento em que a música suspira.
Não por cansaço.
Mas por compreensão.
Ali o som aprende que não precisa provar nada.
Apenas ser.
Os arpejos continuam.
Pacientes.
Persistentes.
São como estrelas repetindo o mesmo gesto há milênios.
Nunca cansadas.
Nunca apressadas.
E quando a intensidade cresce.
Não se torna violência.
Torna-se densidade.
A noite se adensa.
A Princesa caminha mais alta.
Mas não mais distante.
Ela conduz o ouvinte para dentro.
Não para fora.
Porque toda verdadeira epopeia não é conquista de terras.
É travessia da alma.
No trecho final não há triunfo ruidoso.
Há aceitação elevada.
O som repousa como quem cumpriu sua tarefa eterna.
Nada foi perdido.
Nada foi ganho em excesso.
A noite fecha os olhos.
A Princesa permanece de pé.
Guardando o que não pode ser dito.
Sustentando o mundo com a delicadeza de quem conhece o peso do silêncio.
E quando o último som se dissolve.
Não é fim.
É retorno ao invisível.
Pois a verdadeira música não termina.
Ela continua onde o ouvido já não alcança.
A LUCIDEZ ENTRE O PENSADOR E O IDIOTA.
O pensador, mesmo quando dorme, permanece desperto. Não desperdiça o tempo alheio em choros estéreis nem se detém nas perdas que a vida naturalmente impõe. Ele escreve desde cedo e, ao escrever, não registra apenas ideias, mas atravessa vidas. Observa os acontecimentos da noite e dos dias com igual atenção, pois sabe que a consciência não repousa quando a lucidez é vocação.
Em oposição silenciosa, o idiota não busca a verdade, mas a confirmação do próprio ruído interior. Sua filosofia não nasce da dúvida, mas do medo de pensar. Ele transforma a ignorância em abrigo e a convicção vazia em escudo. Enquanto o pensador interroga o mundo para compreender a si mesmo, o idiota interroga apenas para vencer, não para aprender. Um escreve para existir, o outro fala para não se sentir pequeno.
O pensador toma da pena uma única vez diante do papel, não por economia, mas por precisão. Logo a abandona para acolher outros pensamentos, compreendendo que o silêncio também é linguagem. Ele incomoda porque não se curva ao consenso, mas vive tranquilo porque não depende de aplausos nem se fragiliza diante da censura. Já o idiota permanece, gira, insiste. Sua lógica é circular porque seu espírito não se move, e ele chama de firmeza aquilo que é apenas recusa de revisão interior.
Não dependendo de críticas positivas ou negativas, o pensador simplesmente é. Sua natureza evola em torno do próprio estro, fiel àquilo que o constitui. O idiota, ao contrário, precisa do olhar alheio para sustentar a própria ilusão de sentido. Um avança em silêncio, outro estagna em barulho. E assim, enquanto o idiota escolhe permanecer igual por medo da dor que o pensamento verdadeiro provoca, o pensador aceita essa dor como preço da lucidez e segue adiante, porque compreendeu que pensar é um ato de coragem e existir com consciência é a forma mais alta de dignidade humana.
AMOR INSCRITO NA CARNE.
O corpo é a página derradeira onde a alma escreve aquilo que não ousa dizer em voz alta.
Esta escrita gravada no dorso declara que amar é aceitar a disciplina do sofrimento.
Não há promessa de repouso.
Há apenas o compromisso com a beleza que exige fidelidade mesmo na ausência.
Cada signo afirma que o amor verdadeiro não se confunde com prazer.
Ele é vigília.
Ele é renúncia.
Ele é a lenta educação do desejo para que não se torne posse.
O amor aqui não acolhe de imediato.
Primeiro ele fere.
Depois ele forma e quase cuida.
A arte desta escrita não pretende consolar.
Ela convoca.
Quem a lê é chamado a abandonar a leveza vulgar e a suportar o peso da profundidade.
Amar torna se um ofício leve ao mesmo momento severo.
Uma escolha diária entre a dignidade do sentir e a fraca facilidade do esquecimento.
Essa distinta escrita ensina que o belo não adorna a vida.
O belo em prantos a julga rogando perdão.
Ele exige que a alma cresça até doer.
Que suporte a ausência sem transformar a saudade em rancor, mas num lugar.
Que permaneça fiel mesmo quando o amor não retorna e ele olha para trás.
Filosoficamente esta escrita proclama que sofrer por amor não é derrota.
É prova, batalha aberta ao julgamento deliberado e em paz.
Só sofre quem reduziu o outro a objeto e dá de si o valor além do próprio objeto seja qual ele for.
Só padece quem não negociou a própria essência, porque deveras vezes podia-se fazer um bom negócio às honras das plêiades.
O amor que não dói é apenas hábito.
O amor que dilacera é formação do ser.
Aqui o amor não salva do abismo.
Ele ensina a caminhar dentro dele sem perder a verticalidade, pois é amor.
Aquele que ama segundo esta lei aceita perder.
Aceita esperar. aceita aceitar.
Aceita permanecer inteiro mesmo quando tudo lhe falta, esse é o dom amor.
O leitor que se detém diante desta escrita não sai ileso., me desculpe.
Ela o obriga a buscar em si um amor que não pede garantias.
Que não exige retorno.
Que não teme a solidão, porque ela existe, ela virá, mas é chamado tudo isso de amor por alguém, mas é.
E somente quem atravessa a dor sem corromper a ternura e a delicadeza da gota d'água na ponta de uma frágil folha torna se digno da beleza que o amor promete no silêncio do tempo e na promessa da própria crença.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
NO INTERIOR DA FERIDA.
Escritor: Marcelo Caetano Monteiro.
Não peço que a dor se retire. Ela já não é estrangeira. Habita-me como uma presença inevitável, tão íntima que sua ausência seria mutilação. Acostumamo-nos um ao outro nesta estrada do mundo, onde o amor é escasso não por impossibilidade, mas por temor. Poucos ousam sustentar o peso da liberdade que amar exige.
Estou ajoelhado nela, e ela ajoelha-se em mim. Não há hierarquia nesse pacto. Há cumplicidade. A dor não me domina, tampouco eu a domino. Existimos no mesmo espaço, como duas consciências que se reconhecem no silêncio. Dói, mas é minha. E justamente por ser minha, não a repudio. Seria negar a própria textura do que sou.
O horizonte tornou-se cinza. Não o cinza da neutralidade, mas o da revelação. A alegria que ainda subsiste vem úmida, dissolvida nas lágrimas que não pedem testemunhas. Há uma lucidez amarga na compreensão de que a felicidade fácil é distração. O que permanece é a densidade da experiência.
Deixa tudo como está. Não por resignação, mas por fidelidade à busca. Ainda procuro a verdade, e essa procura não admite adornos. A diferença, que antes feria como julgamento, perdeu importância. Diante do absoluto, as comparações são ruído. Cada ser está ligado à própria travessia.
Se poucos amam, é porque amar implica assumir o risco da própria exposição. Amar assim é aceitar que não há garantias. É lançar-se ao outro sem a promessa de retorno. E, ainda assim, continuar.
Permaneço na linha fina do meu horizonte. Não por esperança ingênua, mas por decisão consciente. A dor não me define, mas me revela aos poucos a mim mesmo. E enquanto a verdade não se deixa capturar, sigo caminhando, mesmo que o caminho seja feito de sombra e silêncio. É pura lição e essência absoluta do absoluto. Gratidão.
DA ESCRITA COMO DESTINO DA CONSCIÊNCIA.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Não nascemos prontos.
Somos rascunho.
Somos folha ainda em branco
à espera da coragem de ser escrita.
O mundo não nos entrega sentido acabado.
Entrega-nos silêncio.
E diante desse silêncio
erguemos a palavra.
Não a palavra leve.
Mas a palavra que pesa.
A que nasce do conflito interior.
A que atravessa a noite da dúvida
e ainda assim decide existir.
O escritor não sobe a um palco.
Desce ao abismo.
Ali onde a consciência se fragmenta.
Ali onde as perguntas não têm resposta imediata.
Ali onde o ser confronta sua própria nudez.
Escrever é expor-se sem plateia.
É enfrentar a si mesmo
antes de enfrentar o mundo.
Cada frase é um ato de responsabilidade.
Cada parágrafo é escolha moral.
"Depois que eu partir."
A frase não é melancolia.
É exame de consciência.
Que restará de mim quando o corpo cessar.
Que ideia permanecerá.
Que inquietação continuará a arder.
A tinta seca.
O papel envelhece.
Mas o pensamento, se verdadeiro,
migra para outras mentes.
O escritor não busca aplauso.
Busca coerência interior.
Busca traduzir o indizível
e dar forma ao que inquieta o espírito humano desde sempre.
Escrever é organizar o caos.
É impor estrutura à angústia.
É transformar dor em conceito.
É converter amor em reflexão.
Não se trata de ornamentar a realidade.
Trata-se de iluminá-la.
Mesmo quando essa luz revela fissuras.
Há coragem em quem escreve com lucidez.
Porque escrever com lucidez
é admitir a própria finitude
e ainda assim escolher deixar vestígio.
O texto é mais que linguagem.
É presença prolongada.
É consciência que atravessa o tempo
e dialoga com quem ainda não nasceu.
Eu sou o que escrevo.
Sou a soma das ideias que sustento.
Sou a responsabilidade de cada palavra que lanço ao mundo.
O corpo findará.
O silêncio retornará.
Mas aquilo que foi pensado com verdade
continuará a provocar,
a inquietar,
a despertar.
Porque a escrita não é som que se dispersa.
É pensamento que se fixa.
É chama intelectual que passa de mente em mente
e se recusa a apagar-se.
E no confronto inevitável com o tempo,
descobrimos que viver
é redigir a própria consciência
com a dignidade de quem sabe
que cada linha escrita
é uma escolha eterna diante da própria alma.
DA GÊNESE INVISÍVEL DO VERSO.
Antes do primeiro poeta, já havia silêncio.
E o silêncio não era vazio. Era potência.
A palavra não começou na boca humana. Ela começou na necessidade metafísica de significar o mundo. Quando o primeiro ser consciente contemplou o céu e sentiu a vertigem do infinito, ali germinou o germe do poema. O verso nasce no assombro. Nasce da insuficiência da prosa diante do mistério.
A linguagem ordinária organiza. A linguagem poética revela. Por isso o poema não é invenção arbitrária, mas emergência. Ele irrompe quando a realidade excede os limites do discurso comum. Surge quando o espírito percebe que há algo que não pode ser dito diretamente, mas apenas insinuado.
A tradição sempre intuiu que o poeta não cria do nada. Ele participa de uma corrente anterior. Na Antiguidade, falava-se em inspiração. Não como superstição, mas como reconhecimento de que a consciência individual é atravessada por conteúdos que a ultrapassam. O poeta é médium da memória cultural. É intérprete de uma herança invisível.
O útero simbólico de onde procedem os poemas é a própria história do espírito humano. Cada geração deposita ali seus temores, seus êxtases, suas quedas e suas redenções. O escritor que nasce em determinado século não começa em branco. Ele herda mitos, ritmos, arquétipos, formas. Ao escrever, ele reorganiza esse patrimônio.
Sob a perspectiva psicológica, o verso é condensação de experiências arcaicas. Sob a perspectiva metafísica, é atualização de princípios permanentes. A imagem do útero mantém-se rigorosa. Há concepção, há gestação, há parto. O poema exige maturação interior. O precipitado é apenas discurso ornamentado. O verdadeiro verso é aquele que atravessou a noite da consciência.
A continuidade entre escritores não é mera influência externa. É consonância estrutural. Quando dois poetas separados por séculos expressam angústias semelhantes, não é coincidência. É a condição humana reiterando-se sob novas circunstâncias históricas. O estro é continuidade do humano diante do enigma.
Não há criação autêntica sem humildade diante da tradição. A ruptura que ignora o passado empobrece-se. A inovação legítima é transformação, não negação. O novo que possui densidade é aquele que conhece suas raízes. A árvore que despreza o solo seca-se.
Assim, o metapoema reconhece sua própria origem e ultrapassa-se pelas entranhas permissivas de quem é leitor e criador . Ele sabe que fala de si mesmo enquanto se produz. Ele assume que sua voz carrega ecos. Não reivindica isolamento. Reconhece-se como elo de uma cadeia que começou antes e continuará depois.
O ponto final não encerra o processo. Ele apenas delimita uma forma provisória. O silêncio que o sucede já contém o germe do próximo verso.
E é nesse ciclo ininterrupto que a poesia se mantém como testemunho da grandeza e da fragilidade humanas, perpetuando-se como chama que não consome apenas papel, mas ilumina consciências através dos séculos.
No tempo certo a gente entende, que todas as flechas de maldades que, em algum momento, foram lançadas contra nós; nada mais foram, que poderosas ferramentas permitidas por Deus, para aperfeiçoar o nosso processo de amadurecimento, conhecimento e evolução.
Para cada pessoa que nos há conhecido antes deste evento, vale a pena apresentarmo-nos; por mais uma vez.
Muito prazer!
Os antigos sábios já diziam que é necessário disciplina com a mente para se viver bem. Eles entendiam que existia uma relação entre a filosofia e a medicina. Se você almeja boa saúde; jogue fora todo o lixo que contamina o seu interior.
Pensar bem é um remédio capaz de curar qualquer doença da alma.
Cicatrizes que Florescem
Eu carrego o peso dos dias não ditos,
os ecos de passos que não me pertencem,
fragmentos de uma estrada sem destino,
onde a dor se enrola nas raízes do tempo
e floresce como cicatriz que canta.
Há um grito em cada gota de chuva,
uma confissão no som que corta o vento.
A alma se espraia pelos campos secos,
e o coração, inquieto,
brota em flores que não pediram cor.
Sou rio que deságua na própria margem,
meu curso incerto entre pedras e paus,
correndo por entre trilhas rasgadas
que costuram minha pele ao chão da existência.
Não há ponte que atravesse o que sou.
Em noites de silêncio denso e cru,
a lua sussurra verdades que não quero ouvir,
desvenda os espelhos internos,
onde sou herói e vilão,
onde luto contra meu próprio reflexo
até me tornar pele, osso e vontade.
E quando o sol, ao fim de seu fôlego,
se deita sobre os montes quebrados,
meu corpo, feito de sonhos e poeira,
abre os braços para um horizonte que se dissolve
no vão entre ser e querer ser.
Eu permaneço inteiro
na tempestade que arranca galhos secos,
pois sou árvore que cresce do avesso,
raiz que abraça o abismo
e flores que desafiam o solo.
Sou também a calmaria que sucede o caos,
a certeza que nasce do chão devastado,
o tronco que se curva, mas não quebra,
que desafia o vento com sua seiva viva
e canta, mesmo quando a dor ecoa.
Entre o Assassino e a Vítima
Quem sou eu?
Um humano imperfeito,
destroçado entre o espelho e a carne,
cometendo crimes contra mim mesmo,
atentados sutis que corrompem a alma
e rasgam a pele da consciência.
Sou vítima ou assassino
daquilo que me tornei?
Voluntário no ato de me ferir
ou involuntário na arte de desmoronar?
Sou necessidade que enlouquece,
psicose que se veste de razão,
ou um delírio lúcido que encena
a tragédia de ser quem sou?
Sou mesmo louco?
Ou a loucura é a máscara
que uso para não ver a verdade
do caos que me habita?
Sou mesmo eu?
Ou sou um espectro fragmentado,
uma nota dissonante
na sinfonia do que jamais fui?
Indizível.
Como nomear o vazio que preenche
os espaços entre meus gestos?
Como afirmar com certeza
que sou algo além do que falha
ao tentar existir por completo?
Se a dúvida me define,
sou tanto a ferida quanto a lâmina,
a mão que acolhe e que esmaga,
o vulto que se esconde atrás de um rosto
que mal reconhece sua própria sombra.
E se o espelho estilhaçado
reflete múltiplos eus
que coexistem na fissura do real?
Serei eu o caco que corta
ou o reflexo que sangra?
Sou a colisão entre o ser e o não ser,
o vértice do abismo onde a dúvida ecoa
e a própria identidade se desfaz.
Há um grito que rompe o silêncio,
uma palavra que treme na garganta,
como se nomear-se fosse desabar
e aceitar-se fosse um pacto
com a dor que me habita.
E no limiar dessa guerra interna,
sou o paradoxo que respira,
uma verdade que mente para si mesma
enquanto tenta sobreviver ao próprio fardo.
Ser é ser incompleto.
Sou a imperfeição que sobrevive
no abismo entre razão e caos,
desafiando a lógica
com um coração que ainda pulsa
mesmo quando a mente implora por trégua.
Naufrágio em Mim
Minha cama vira barco
quando a noite se estende
como um oceano sem margens,
e minhas lágrimas desenham
rotas incertas na pele
de um horizonte que nunca chega.
No grande vazio
onde o silêncio ecoa,
não sei para onde navegar.
Sou marinheiro de olhos fechados,
tateando as ondas com mãos vazias,
e a bússola que carrego
não aponta o caminho
para lugar algum.
Sinto fome,
uma ânsia que não cabe
no peito salgado de mágoas.
Dê-me de comer,
mas que seja algo
além desse vazio repetido,
além desse sal que corta a boca
e engasga meu grito mudo.
E quando tudo se perde
no mar que me afoga,
ele é meu único refúgio,
porto improvisado
nas águas turvas do medo.
Sua voz é como farol
que rompe a escuridão,
e eu, à deriva,
me deixo ser salvo
pela calma que ele traz,
pela promessa de terra firme
onde meu corpo cansado
possa, enfim, descansar.
Então, quando o calor de sua mão
toca minha pele fria,
a tempestade se dissolve
como névoa ao amanhecer.
A luz que ele lança sobre mim
é cais onde meus olhos secos
desaguam esperanças.
E no balanço desse barco incerto,
encontro o ritmo da paz
que tanto busquei
nos ventos que me arrastaram.
Naquele porto improvisado,
eu sou embarcação que cansa,
ancorando meus medos no peito
de quem não teme minhas águas.
Ele, farol e cais,
é o norte que escolhi seguir,
a promessa de que, mesmo à deriva,
há um destino além da tormenta,
um abraço onde o barco repousa
e meu naufrágio se desfaz.
O Lobo e os Abutres
Em leito, sinto
oh, quão frio,
lobo só, sem matilha,
eco de uivo calado
que reverbera na pedra crua.
Não tema,
está só!
Não reclame, diziam eles,
engula o choro
como quem engole a própria sombra.
Em leito, sentia
já não mais,
mas, nada!
Frio sou
não!
Tornei-me
um vulto que se dissolve
na geada da madrugada,
uma presença que ecoa
no vácuo entre o ser e o deserto.
Em leito, sentiria
na pele,
rasgando o instinto
como faca cega.
Seleção natural
de almas partidas.
Quantos lobos
perecem em si mesmos
por não entender
que há algo errado
na dança da sobrevivência?
Em leito, sinto
coração, não mais.
Odor pérfido
de carniça ao amanhecer.
Não eram lobos,
eram abutres
vestidos de companheiros,
espreitando o cansaço
da fera solitária.
Liberdade, enfim?
Ou apenas a descoberta
de que a solidão
é menos vil
do que a falsa aliança
dos que fingem caçar juntos
mas apenas esperam
o momento da queda?
E quando o sol rasga a penumbra
como lâmina quente,
vejo o rastro das garras
que um dia julguei companheiras.
Eles não uivam,
não caçam,
não sangram pela honra
de viver em matilha.
São carniceiros,
esperando o último suspiro
da presa que pensavam ter domado.
Então ergo meu uivo
para o alto,
rompendo o céu cinzento
com o brado de quem
não teme mais a escuridão.
O eco invade os vales,
acorda os corvos,
faz tremer as sombras
que habitam a floresta.
E descubro,
na solidão que corta,
a liberdade crua
de ser lobo
entre abutres.
Não sou ferido,
sou a cicatriz que se ergue,
o instinto que sobrevive
ao banquete dos falsos.
Sou a fera que renega
o pacto da servidão.
Sou o silêncio que precede
o grito dos justos,
a promessa de que mesmo só,
o lobo sempre voltará
a caminhar sob a lua
sem temer as aves de rapina.
Monólogo ao Mar
Às vezes, assim penso, vivo
um monólogo diário,
ecoando pensamentos soltos
pelas vielas da alma
onde não há atalhos,
apenas passos
que ressoam no asfalto molhado
de manhãs silenciosas.
Em frente ao mar,
dedico-lhe meus devaneios,
como cartas lançadas ao vento
sem, ao menos, um pingo de receio.
Discorro sobre você,
como se as ondas fossem
páginas brancas
esperando minhas confissões.
O mar, atento,
ouve com paciência de quem
já engoliu mil naufrágios
e ainda assim permanece,
se comunicando
através de suas ondas,
mergulhante, deslizante, ascendente,
um discurso contínuo
que cabe àqueles
que mantêm os olhos bem abertos
decifrar.
E eu, narrador solitário,
me vejo parte da maré,
flutuando entre a certeza
e o esquecimento,
tentando entender
se o que entrego ao mar
é o peso dos dias
ou a ânsia de ser ouvido.
O vento salgado
me corta os lábios
enquanto o mar responde
numa marola discreta,
como se dissesse
que palavras se dissolvem
como espuma,
mas sentimentos permanecem
ancorados no fundo.
Talvez ele saiba
que não há resposta certa,
pois enquanto me desfaço
em palavras e sonhos,
ele se refaz
em ciclos e ondas,
e assim seguimos,
dois monólogos paralelos
que jamais se tocam,
mas se compreendem
no silêncio que resta
após o último sopro de vento.
E então, na maré baixa,
percebo que talvez
o mar também sussurre
suas incertezas para a areia,
e que nós,
vagando por nossas marés interiores,
somos tão mutáveis quanto ele,
sempre buscando a margem
onde a alma repousa.
E enquanto observo
o encontro da água com a terra,
sinto que viver é isso:
um eterno diálogo
com o imenso e o indomável,
uma troca de segredos
entre solidão e grandeza.
O mar nada exige,
apenas acolhe,
como se dissesse
que a liberdade reside
em aceitar a fluidez
e não temer os ciclos.
Por fim, sorrio,
pois entendo que o mar
não é apenas ouvinte,
mas também mestre
de uma sabedoria inquieta,
que ensina a ser vasto
sem perder a essência,
e a permitir-se tempestade
sem deixar de ser calmaria.
Identidade
O homem, por mais que se erga sobre inúmeras sobreposições, não se afasta de si mesmo, pois é projeção de sua própria essência. Com respeito às sobreposições, não são estas desvios de quem ele realmente é, mas sim manifestações da mesma identidade, como reflexos de uma virtude essencial que se desdobra de diferentes formas sem perder-se.
"Penso, logo existo."
Fora o que nos remete de forma óbvia...Essa frase me lembra o silêncio do budismo. E Em algum momento me faz pensar nas religiões. Também me remete uma defesa entre o ego, a racionalidade e a emoção.
É difícil encontrar um ponto final quando o assunto é pensamento ou existência.
A MENTE OU A CONSCIÊNCIA NÃO É A ALMA NEM É O ESPÍRITO!
A Mente ou a Consciência não é a Alma nem é o Espírito!
A Alma não é a Mente ou a Consciência nem é o Espírito!
O Espírito não é a Alma nem é a Mente ou a Consciência!
A Mente também é Consciência!
A Mente também é Conteúdo que no Espírito é Invariável enquanto na Alma é Variável.
A Mente também significa Consciência, porém, é mais conhecida em Psicologia como sendo Pensamentos ou Informações gravadas e fluentes no Cérebro, e em Filosofia ou em Espiritualidade como sendo Alma ou Espírito.
A Mente ou a Consciência não é a Alma nem é o Espírito, mas sim, constitui o Conteúdo Invariável no Espírito e Variável na Alma! Pois, a Mentalidade ou a Consciência de uma Pessoa pode Mudar, mas a do Espírito não Muda!
A teologia tem que partir do clamor dos mais pobres, encontrar Deus nos humildes e mansos para poder anunciar um Jesus Cristo que salva não pela religião, mas pela FÉ.
Entendendo que fé , todos tem, pois é dimensão humana que se abre para o metafísico, assim, ateus tem fé, cristãos tem fé, budistas tem fé, ninguém foi destituído da fé, alguns, apenas não a compreendem e acham que fé tem que estar dentro de uma doutrina.
Fé, portanto, é aquilo que nos move para o outro, para a outra e no fim, para Deus.
Esqueça a religião, apague da sua mente a doutrina e entenda de uma vez por todas: Ninguém foi deixado de lado pelo criador, e Ele não os olhou pelo Continente onde nasceram, pela cor de sua pele, pelas suas preferências sexuais ou políticas, pela sua posição religiosa ou estudiosa acerca D'Ele, Ele os olhou como parte de sua CRIAÇÃO.
Rogério SIDAOUI- Teólogo e Cientista das Religiões.
A brevidade dos dias são como os orvalhos em folhas ao resplandecer da aurora, se formam e logo evaporam.
Os ponteiros são alados e mesmo que calados voam alto de forma tal que não podemos alcançar.
Ele não para, não volta e não pula fases, só existe agora. Não se preocupe com o que não pode controlar.
“É inegável que a religião faz bem para muitas pessoas.
Porém também é inquestionável que muitas pessoas fazem mal para religião. Esses falsos/as profetas acham que enganam a religião, que enganam até Deus. Mas na verdade enganam somente outras pessoas e principalmente a si mesmas”.
•Francisco Lemos•
A vida é que nem dançar forró bêbado, às vezes a gente cai, mas levanta para continuar a dançar. Assim como no forró, não podemos dançar sozinho, na vida também não. Mesmo embriagado, só os trapos, tem aquela bebadazinha que quer dançar um forrozinho com a gente, mas a tonteira da bebida faz com que a gente só veja e deseje alguém que não queira beber, dançar, cair, levantar e seguir dançando nesse forró chamado vida embriagado de sonhos, expectativas e alegrias.
