Termino de um Amor Proibido
Eu, tão imerso na corrente da vida, mal percebi que o passado é fugaz: escapa pelos dedos, atravessa os dias, costura memórias ao presente e, silenciosamente, escreve aquilo que chamamos de destino.
Como as águas escuras do Rio Negro, cheias de mistérios, assim eu te imagino.
Desconcerto-me diante dos teus encantos, dessa beleza estonteante que me torna simples e me faz apenas me deixar levar.
Pode até me chamar de Solimões. Serei apenas o curso do teu prazer.
Ecos da alma, capazes de nos levar para tão longe, mas também de nos trazer para mais perto quando nos permitimos compreendê-los.
É verão de dezembro. O sol foi tão gentil enquanto eu buscava as palavras de alguns versos. Versos estes que mexiam com a minha inquietude, aquela que não doma o mundo selvagem lá fora, mas que é suficiente para me fazer vagante.
Ainda que eu caminhe nos trilhos que a vida reserva para mim, o tempo e o vento, às vezes, insistem em mudar o rumo, como se soubessem que certos desvios são necessários para nos levar exatamente onde precisamos estar.
Quiçá este seja o nosso refúgio: perder-se na mansidão deste oceano azulado, observando a calma das ondas. Desprovido da inquietude, misturo-me à natureza; ela me move, me comove. A orla me faz sentir parte dessa natureza infinita.
É incompreensível que ainda existam guerras que se pretendam santas na Terra. Talvez, no invisível que não nos é dado enxergar, até santos e anjos se enfrentem em combates que escapam ao entendimento humano, como se toda luta, em sua essência mais misteriosa, fosse uma tentativa de tocar aquilo que habita o reino do indizível.
O que eram apenas resquícios… tuas águas ainda fluem em meu peito. Guardadas no silêncio das profundezas do oceano, podes ouvir a minha voz, pois sou onde o mar deságua os teus pensamentos.
O sono é leve para os caminhantes noturnos.
Meus pensamentos ainda esbarram nos seus e, nesse silêncio, você retorna como uma febre que não passa.
A vida é movimento, como as quatro estações em eterno retorno.
É vento que semeia caminhos invisíveis, sol que desperta a terra adormecida, primavera que rompe o silêncio em flores.
É chuva que cai sem pressa e nunca regressa sem antes transformar tudo o que toca.
Quando as flores do seu jardim já não têm o mesmo fulgor, a mesma cor, o mesmo perfume… não adianta apenas regá-las. Antes de tudo, é preciso mudar as raízes.
A vida floresce quando aprendemos a regá-la, mas também a atravessar, com paciência, as quatro estações.
