Suave como a Pimenta
Ela está naquela fase de fingir que não dói. Acorda fingindo que não sente falta e vai dormir tentando convencer a si mesma que logo isso passa. Aliás, já está passando, porque faz uma semana que parou de buscar incansavelmente notícias sobre a vida dele e não chora há quatro dias. Um verdadeiro recorde.
Querer sempre mais sempre fez parte do ser humano...
Não achar que tudo já está bom o suficiente, também.
Não dar valor às possibilidades que acontecem sempre fará parte do cotidiano de qualquer um, acreditar nas probabilidades é o medo que muitas pessoas sentem.
Sentem talvez por medo de sentir medo depois... Talvez por achar que não tem jeito, que as coisas acontecem da maneira que tem que ser.
Mas também acreditam que se pode moldar, mesmo que pelas beiradas, o futuro.
Contradição de ser, querer ser e pretender ser...
A pretensão é perigosa!
Ser é subjetivo e limitativo...
Querer ser é um objetivo!
O objetivo guia a malícia de ter feito...
Estar aberto a novos fatores é flexibilidade ao acaso.
Nada se conquista por ele... Mas o acaso das falhas facilita a perda.
Ah, faz parte não acreditar em todo... Mas espero que duvides do que não é certeza.
Encarar a mentira com um sorriso é tão difícil como encarar a verdade com inveja.
Reparei nos seus olhos, boca, nariz e foi como se estivesse encarando alguém comum. O que seria ótimo se não infinitamente estranho. O vazio relâmpago de não sofrer me fez perceber o quanto encontrar a cura pode ser assustador. Como pude olhar dentro dos seus olhos e não sentir nada? Você vestiu a normalidade. Te vi e não senti bulhufas. Me senti esquisita. Tudo ficou vago. Desabitado. Livre. Oco. Ao ponto de eu enxergar a dor como preço razoável para não se precisar reerguer o mundo.
Passou da hora de eu te deixar para trás por mais que a minha alma siga gritando que ainda posso reverter a situação. Não adianta acreditar. Sei que não posso. Mas esse amor, ele é como cerveja saideira de bar, sempre tem mais, nunca é a última. O meu amor por você anda diminuindo, mas, ainda assim, é o suficiente para me arruinar.
Naquele dia eu estava largado, um pouco alto da bebida, totalmente o oposto de como gostaria que ela me visse – não que eu ficasse pensando em como deveria estar quando nos esbarrássemos, mas ali, tudo o que pareceu ter perdido importância voltou a importar. O universo novamente se reduziu ao espaço que ela ocupa na terra e o bloco se resumiu a como eu chegaria nela para insistir de novo em tudo aquilo que jurei nunca mais tentar. Quando o destino nos apronta uma dessas, como é que a gente faz para enfiar novamente na cabeça que não é para ser?
Pelo que aprendemos socialmente, parece impossível. Mas às vezes nos surpreendemos com as possibilidades. Mãos que rezam, também podem matar!
