Soneto da Falsidade de Vinicius de Moraes
Saudade da minha terra
Saudade da minha terra
Pois aqui nao sei viver
Quero ir embora
Minha mão eu quero ver
Aqui na cidade grande
tenho motivos pra sofrer
pois não tenho a minha mãe
A razão do meu viver
Tenho meu trabalho
Tenho minha profissão
So não tenho minha felicidade
Pois deixei no meu sertão
Voltarei mãe
Para ficar ao seu lado
Pra matar minha saudade
E por você ser consolado
Assim como o peixe não foi feito para viver na Lua, nós não fomos concebidos para viver envergonhados. Mas o que você faz? Aonde vai? A maioria enterra isso numa lata de lixo no fundo da alma e segue em frente - ou tenta. Mas as coisas que enterramos nos governam. Aquilo que desconhecemos irá nos destruir.
PAIXÕES
Amores, latejo em ti, nas saudades, por onde
Estive! e sou estórias, e rasto, e madrugadas
E, em recordações, o meu coração responde
Num clamor tal ao vendaval e folhas levadas
Daqui do cerrado, e teus cipós, e tua fronde
Gorjeiam as melodias, e desenham estradas
Na memória, onde, além, o passado esconde
Da pressa, e as doces perfumadas alvoradas
Recordo, choro em pranto, eram dias felizes
No prazer, tal uma flor, de ti, pimpo e exulto
E eu, suspirando, poeto loas com cicatrizes
Tu golpeada e finda, - e eu fremirei sepulto:
E o meu silêncio cravado, em vão, tal raízes
Se estorcerão em dor, penando sem indulto.
© Luciano Spagnol
poeta do cerrado
Novembro de 2018
Cerrado goiano
Olavobilaquiando
Através da vidraça os olhos já não alcançam
o horizonte em detalhes acinzentados,
descortina-se lá fora a visão da liberdade,
embora ali dentro existam braços acorrentados
Sobre a mesa simples a louça especial,
ornando com a toalha de renda branca e linda,
tingida por pétalas de flores caídas,
apenas lembranças, outra tarde quase finda...
O corpo transpirou e quase dormente
deixou agitar o coração em desarmonia,
n'alma os sonhos, aos poucos, sucumbiram...
Percebeu grande vazio, tão de repente !
flutuando nesse escuro vácuo de agonia,
ao amor que se ausentou, lágrimas surgiram...
Aos encantos vindos de ti me apego
Embebido à sombra de teu carinho
Certo de não mais estar sozinho
E se for preciso do mundo abnego
De súbito na vida me acho cego
Ao ver surgir a ti novo caminho
Restando-me a tristeza que carrego
Assim o jasmim se exibe espinho
É o destino agindo fora de hora
Um alerta agudo no peito que arde
E de repente te vejo ir embora
Dar valor ao que se tem é pura arte
Ante o adeus que surge cedo ou tarde
Porque na vida toda pessoa parte
A TERCEIRA LÁGRIMA
Se o homem destemido jamais chora
Eu digo que até Deus pode chorar
Pois já que tudo pode, a qualquer hora
Pode também, sentido, lacrimar.
Pois vi, num rosto, a fome da criança
Carente, solitária, numa praça
Todo amargor, toda desesperança
Daquela vida só, fria, sem jaça.
Seus olhos eram vozes a implorar
Era um espelho, a angústia em seu olhar
A refletir, dolente, os olhos meus.
Sem entender o senso do destino
Vi merejar nos olhos do menino
Plácida e triste a lágrima de Deus!
Oldney Lopes©
TOLICES
"Todas as cartas de amor são ridículas"
Pessoa bem o disse, com razão
Uma fala de amor é uma gotícula
No mar revolto e turvo da paixão
Pior quando há palavras de ironia
Camuflando os agrores do ciúme
Instigando o torpor de uma agonia
Que surge, imotivada, num queixume
Prefiro então ridículas tolices
Declarações, ainda que mesmices,
Palavras ternas de doce sabor
Então desejo pois de minha amada:
Se para me dizer não tem mais nada
Diga-me ao menos tolices de amor!
ELA
Ela me afoga, ela me traz à tona
Ela me me mata e traz de volta a vida
Ela me acolhe e cuida e me abandona
Prende, encurrala e mostra-me a saída
É ela quem acende a luz nas noites
E apaga a escuridão no amanhecer
E acaricia-me com seus açoites
E me maltrata com seu bem-querer
É ela a minha musa mais dileta
Ela é meu rio: curso, leito e borda
É ela o meu trajeto, a curva, a reta
Que guia-me nos sonhos e me acorda
Que quando estou vazio me completa
E que quando estou pleno me transborda!
Oldney Lopes©
INDIZÍVEL
Pobre incapaz, nosso vocabulário
Que tenta definir o que é o amor
Jamais o encontrará no dicionário
Quem nunca houver provado o seu sabor
Amor nunca se explica com palavras
É mais do que a maçã, mais que a serpente
Amor é amo e faz de almas escravas
Amor é servo e serve a quem o sente
Amor é assim: princípio, meio e fim
Raiz e solo, orvalho e flor, jardim
É dupla eternidade em todo agora
Vida de dois em um, da carne ao pó
Dois corações pulsando como um só
Uma só alma, que em dois corpos mora!
Oldney Lopes©
FUGAZ
Amor de sonho e vida e de esperança
Que por ventura e gáudio logrei tê-lo
Foi sonho e vida que curtí com zelo
Com esperança firme e confiança
Mas triste é amor que morre em tenra idade
Que é de um sonho, quando cessa o lume?
Que é da vida, evolado o perfume?
E da esperança, cessada a vontade?
Percebo deste amor o esvoaçar
Enevoar, perder-se na distância,
E dissipar-se em prantos eternais
É sonho - esvaído ao despertar
É vida - envelhecida já na infância
Esperança - chamada nunca mais!
Oldney Lopes©
DESDÉM
Já não espero mais pelos carinhos
E muito menos peço por amor
Já percebo, nas flores, mais espinhos
E vejo sombra onde foi esplendor
Tudo o que peço agora é atenção
Um "bom dia", um "boa noite", um "tudo ok"
Presença que me extirpe a solidão
Uma resposta, um gesto ou um "não sei"...
Prefiro um rude não ao cruel desdém
Quando só peço um doce querer bem
Rogo atenção e espero, paciente
Mas eis que essa alma, fria como um gelo,
Ignora e menospreza o meu apelo
Nem se cala, nem nega e nem consente!
