Sobrevivência
Para alguns, a leitura é um hobby. Para outros, é sobrevivência. É a arte de respirar através das palavras, de fugir sem partir, de sentir sem se perder. E talvez seja por isso que quem ama ler nunca está verdadeiramente sozinho: porque sempre existe uma história pronta para acolher seu coração e silenciar, ainda que por alguns instantes, o barulho do mundo.
Crônica
Campeonato Nacional da Sobrevivência
Se o brasileiro colocasse na política metade da paixão que coloca no futebol, talvez o Congresso tivesse comentarista esportivo, VAR e até torcida organizada fiscalizando votação.
Imagine a cena:
— Foi pênalti ou não foi?
— Não sei. Mas a reforma tributária passou sem ninguém perceber.
Enquanto isso, milhões de especialistas em escalação discutem durante semanas se o lateral deveria jogar mais avançado, mas não sabem o nome do vereador que ajudaram a eleger.
No futebol, o cidadão conhece a tabela de cor, a artilharia completa, os cartões recebidos, os confrontos históricos e até a previsão de chuva para o dia da partida.
Já na própria carreira...
— Como está seu plano para os próximos cinco anos?
— Que plano?
— O profissional.
— Ah... achei que você estava falando do campeonato.
E assim segue a vida.
O brasileiro acorda cedo, enfrenta ônibus lotado, trânsito engarrafado, fila, burocracia, boleto, carnê, prestação, taxa, imposto e mais uma coleção de surpresas que parecem surgir diretamente da criatividade nacional.
Trabalha de segunda a segunda para, no final do mês, descobrir que o salário entrou na conta apenas para fazer uma visita rápida.
Mal chega e já vai embora.
As contas fazem festa.
O dinheiro nem participa.
Mas seria injusto dizer que o povo vive apenas de sofrimento.
O brasileiro possui uma habilidade rara: consegue fabricar felicidade com matéria-prima quase inexistente.
Faz churrasco com pouco carvão.
Faz festa com pouco dinheiro.
Faz amizade na fila.
Faz piada da própria desgraça.
E quando a vida aperta, ainda encontra força para sorrir.
Talvez seja por isso que os governantes gostem tanto de oferecer distrações. Afinal, um povo entretido reclama menos.
Desde os tempos antigos existe uma fórmula famosa: pão e circo.
Por aqui, às vezes falta o pão, mas o circo nunca atrasa.
Quando não é futebol, é novela.
Quando não é novela, é reality show.
Quando não é reality show, aparece alguma polêmica da semana para ocupar a mente de todo mundo.
Enquanto isso, os anos passam silenciosamente.
Os cabelos embranquecem.
Os sonhos envelhecem.
As prestações se multiplicam.
E a aposentadoria parece um personagem de ficção.
Ainda assim, existe algo admirável nisso tudo.
Mesmo carregando dificuldades que derrubariam muita gente, o brasileiro continua acreditando no amanhã.
Continua ajudando o vizinho.
Continua dividindo o pouco que tem.
Continua encontrando beleza nas pequenas coisas.
No café compartilhado.
Na conversa da calçada.
No gol marcado aos quarenta e cinco do segundo tempo.
No abraço sincero.
Na família reunida.
Talvez a verdadeira riqueza nunca tenha estado nas contas bancárias.
Talvez ela esteja justamente nessa capacidade extraordinária de sobreviver sem perder completamente a alegria.
Mas confesso uma coisa.
Se um dia o brasileiro resolver acompanhar sua educação, sua profissão e a política com a mesma paixão que acompanha uma final de campeonato, o mundo inteiro vai precisar rever seus conceitos.
Porque aí deixaremos de disputar apenas a taça da sobrevivência.
E passaremos a jogar a grande final do desenvolvimento.
Até lá, seguimos em campo.
Entre boletos e esperanças.
Entre trabalho e sonhos.
Entre migalhas e sorrisos.
Porque desistir nunca foi o esporte favorito do brasileiro.
Autor: Sandro Sansão da Silva Costa
(Sobrevivência)
Por Marcio Melo
Às vezes não dá pra estar onde todo mundo está
e abraçar a todos.
Às vezes é preciso ser seletivo.
Até se afastar de algumas pessoas
por autopreservação e sobrevivência.
Alguns grupos se formam pra buscar melhorias
e nos ajudam a alcançar objetivos em comum.
Mas outros se aproximam só pra sugar
e nos infectar com o veneno deles.
Às vezes, mesmo amando, é necessário
se distanciar
pra não ser destruído por quem já desistiu de tudo.
Nem todo argumento lógico nasce da razão; às vezes, ele é só a nossa sobrevivência emocional tentando parecer sensata.
Quando a necessidade de sobrevivência se locomove ao lado de escolhas, a decisão e o direito se rompem, restando apenas a morte e a vida.
O trabalho não é apenas meio de sobrevivência, é a ponte invisível entre o que sonhamos e o que conseguimos tocar.
O perdão foi estratégia de sobrevivência, perdoar não apaga, organiza o futuro, livre ando sem correntes.
As pessoas vivem em modo de sobrevivência, zumbis funcionais, presas a rotinas que já não questionam. São espectros de si mesmas, movem-se, mas não despertam, respiram, mas não vivem.
Deixar ir não é amnésia emocional, é a cirurgia de sobrevivência que a alma exige para preservar seu futuro.
Nem todo afastamento é escolha. Às vezes é sobrevivência. É o limite de quem suportou além da conta. É o instante em que permanecer custa mais do que partir. E partir, por mais doloroso que seja, torna-se necessário.
“Acima da mera sobrevivência mecânica, está o direito inegociável de viver. Devemos utilizar o breve tempo da nossa existência para o crescimento real, para o compartilhamento, para a gratidão e para o reconhecimento da grandeza da vida.”
Pensar se torna um ato de sobrevivência. Questionar, uma forma de não aceitar o absurdo como normal.
Não se acostumar com o errado. Não silenciar diante do que fere.
Porque “não pirar” não é ignorar —
é entender, sentir, refletir… e ainda assim escolher não se perder.
Helaine machado
Não É Voto, É Sobrevivência
Democracia… dizem.
Mas nas urnas, o povo vira número,
e nas mesas de poder,
vira moeda — trocada no escuro.
Eleição não é festa,
é leilão disfarçado de escolha,
promessas sobem no palco…
e caem antes de sair da folha.
Quem paga essa conta?
O mesmo de sempre — o invisível,
o pobre que vota com fome
e depois segue sem o mínimo possível.
Eles negociam futuro
como quem divide um prêmio,
enquanto nas ruas o povo
divide o pouco… e o silêncio.
Isso não é disputa — é ferida aberta,
não é política — é abandono organizado,
porque enquanto uns brigam por cargos…
outros brigam pra não morrer calados.
Helaine machado
O povo… ah, o povo.
Cansado, ferido, distraído
entre promessas, novelas e sobrevivência.
Um país onde a corrupção
já nem se esconde mais nas sombras;
ela sorri diante das câmeras
enquanto o trabalhador conta moedas no fim do mês.
Não entendo essa democracia
em que os rombos são anunciados em voz alta
e, ainda assim,
muitos seguem aplaudindo os próprios algozes.
Trocam indignação por espetáculo,
consciência por conveniência,
e o futuro vira refém
de discursos embalados em bandeiras.
Enquanto isso,
os mesmos colocados no poder
esfregam na cara da população
a indiferença, o descaso, o abandono.
E nós?
Seguimos divididos,
gritando lados, defendendo nomes,
quando talvez devêssemos defender pessoas.
Porque um país não se destrói apenas pela corrupção dos poderosos…
mas também pelo silêncio
de quem se acostumou a sobreviver dentro dela.
— Helaine Machado
A urgência pelo sucesso para uns e para outros pela sobrevivência; o tempo cada vez mais em competição olímpica; solidão na multidão e, pior, em família; a avalanche digital da informação que nos tira o filtro que separa a verdade da mentira; o engessamento da empatia, sensibilidade e da intuição; um único momento de reflexão pela leitura, não de um livro, mas por uma simples frase, pode despertar a reprogramação de uma vida.
Portanto, quem puder se doe com a palavra, compartilhe sua experiência com o positivismo e a luz. Pode ser sim de grande ajuda.
