So quero que tu me Queiras
Não é talento que atrai o céu.
É coração queimando.
E só queima o que foi entregue.
Só pega fogo o que foi deitado no altar.
O orgulho, o ego, o plano próprio, o pecado secreto — tudo deve ser posto ali.
Sou o pior, eu sei,
Não há coroa em mim, só cicatriz.
Mas foi aí, na minha lama,
Que o Céu me olhou… e disse: “Filha, vem, feliz!”
Não sou digna nem de olhar pra cruz,
Mas nela vejo o sangue de Jesus.
Que me lavou, me redimiu,
E no pó me ergueu e me revestiu.
Agradeço pela frieza que enfrentei,
Pois ali eu aprendi que só em Ti me apoiei.
Quando faltou o abraço, veio o Teu consolo,
Quando me deixaram, Tu me foste o solo.
Obrigado, Pai, até pelas feridas,
Pois nelas senti Tua presença bendita.
Transforma a frieza que me rodeia,
Em brasas de amor, numa alma que anseia.
Ah, como dói negar-se a si mesmo,
Rasgar vontades, crucificar o ego preso.
Mas é só assim que a vida floresce,
No solo da humilhação que o céu enriquece.
Ele é o Amor que não calcula,
Que não exige, só chama.
Mas muitos escolhem a lei sem compaixão,
Enquanto Jesus oferece… a cruz e o pão.
Efluir
Fosse tristeza só minha, choraria, mas é de meu corpo, das juntas a alma, mais que o sangue.
Fosse sangue só meu, morreria, mas é da vida, pobre vida, esvai-se em sangue, agora, também em lágrimas.
Nebulocoginição
Que vejo eu, se ver é só ideia vã,
Reflexo vão da mente, sombra escura?
Se tudo quanto é mundo se me espelha,
Será o mundo real? Ou só figura?
Quem me afirma que há pedra, céu e chão,
Se tudo é sonho feito em consciência?
Talvez o Sol se apague ao meu fechar,
E Deus, talvez, em mim só tenha essência.
De que me serve a carne e seu quebranto,
Se não sei se é de mim, ou de um invento?
Pois posso ser apenas leve encanto,
Imagem ou curto pensamento.
Permito-me no divã
devo falar do que atormenta
livros que não li
fotos que não fiz
vezes que sorri
do ressentimento
da decepção
das palavras ditas
benditas as que não falei
a gota que faltava eu expulsei
O pensamento pode te levar a lugares incríveis, você pode criar um mundo só seu e compartilhá-lo se assim desejar.
Você até pode parecer, ser forte, não abaixar a cabeça para ninguém e no fim do dia, só querer chegar na sua casa e tomar um banho quente, mas você também pode ir em um canto e chorar, Deus ficará orgulhoso da mesma forma.
Com certeza tenho um coração, ou algo parecido pulsando em mim, só não sei onde e nem quando o perdi.
Mesmo cercado de vozes, às vezes sou só silêncio. Aprendi que a solidão não mora na falta de pessoas, mas no espaço invisível entre o que sinto e o que o mundo enxerga. Há dias em que sou multidão por fora e deserto por dentro, mas ainda assim, sigo procurando um olhar, um gesto simples, que me alcance além das palavras.
Às vezes, desejo sair do meu corpo e ser só sombra, livre da dor que insiste em ficar. Mas este corpo pulsa, me chama a resistir. E mesmo na escuridão, nasce uma luz pequena, promessa de que a aurora sempre pode voltar.
O escuro só existe para que a luz alcance seu milagre, é o contraste secreto da alma, a sombra que, como um véu antigo, realça o ouro escondido na essência da verdade.
O tempo é um mestre tardio, só entrega respostas quando já não há perguntas, cura quando a dor já foi assimilada e oferece lições quando já não há mais como aplicá-las. Sua sabedoria chega sempre depois da necessidade.
O amor, em sua natureza mais crua, é um paradoxo temporal e emocional, sua verdadeira dimensão só se revela na experiência da perda. Enquanto presente, é banalizado pela rotina, negligenciado pela falsa segurança da permanência. Somente na ausência é que suas camadas mais profundas se tornam perceptíveis, como uma arquitetura invisível que só se desenha no vazio.
PENSAMENTO SOLTO
Eu estou passando.
Outros estão nascendo.
Um dia só um retrato, talvez, venha a revelar algo de nós.
Mas tudo isso será recordação
E recordação é coisa falha como falha é a vida.
Abril/ 1971.
