Silêncio
No templo do tempo
No silêncio antigo da tarde, dois olhares se cruzam sem pressa, são ecos de promessas caladas, amores que o mundo não confessa. O espaço é sagrado, suspenso, onde o toque é mais que pecado. Ali, o tempo curva-se manso ao reencontro tão desejado.
São mãos que se lembram do gesto, são vozes que tremem no ar. E o proibido, por um instante, parece enfim se libertar. Há um perfume de saudade pairando entre os corpos imóveis, como se o tempo, em reverência, parasse para ouvir seus nomes.
Os olhos dizem o que os lábios temem, e o coração, inquieto, reconhece o caminho antigo. Não há culpa, só memória, um amor que não se apaga, apenas se abriga no abrigo do tempo.
E quando o sol se despede, tingindo de ouro o instante, fica no ar a certeza: o que é verdadeiro, mesmo oculto, sempre encontra um jeito de voltar.
Se eu fosse poeta, homenagearia
cada voz preta que rasgou o silêncio do Brasil.
Homenagearia Maria Firmina dos Reis —
a primeira luz que escreveu a fuga e a dor,
plantando cais de memória em terra de esquecimento.
Homenagearia Luís Gama —
ferro forjado em palavras, libertando nomes,
vindo das chagas para erguer a lei com verso.
Homenagearia Cruz e Sousa —
que fez do céu um espelho de expatriadas almas,
tecendo símbolos como quem reza contra o vento.
Homenagearia Solano Trindade —
com o batuque antigo no peito, palavra viva do terreiro,
poeta do povo, do samba, do salto que não se cala.
Homenagearia Machado de Assis —
ironia que desarma o pudor das verdades,
um espelho complexo onde se lê a cor do país.
E homenagearia tantas outras,
vozes anônimas nos quintais, nas cartas, nos jornais,
mães de rima, operários de verso, crianças de refrão —
todos os poetas negros do Brasil, uma constelação de nomes.
Se eu fosse poeta, faria altar com seus poemas,
acenderia lamparinas sobre as páginas gastas,
faria do silêncio um salão de festa,
transformaria o esquecimento em arquivo de resistência.
E recitaria seus nomes como quem chama antepassados:
para que a memória dance, para que a história ouça,
para que o futuro herde mais do que palavras —
herde voz, coragem e a beleza inteira de ser ouvido.
Se não for verdadeiro,
nem útil,
nem necessário…
prefiro o silêncio.
O que não nutre,
não precisa permanecer.
Escolho com cuidado
o que atravessa meu campo.
“O tempo é o mestre invisível que ensina a existir, molda com dor, corrige com o silêncio e, ao final, consome o próprio ensinamento para devolvê-lo à eternidade.”
M. Arawak.
Quando o Ser se Torna Silêncio
Chega um ponto em que o barulho do mundo já não faz sentido.
Tudo começa a soar igual, pesado, distante.
Então vem o cansaço, e junto dele a vontade de parar, respirar e simplesmente existir por um instante sem ter que provar nada.
É nessa pausa que algo em nós desperta.
Não é um pensamento novo, é uma lembrança antiga — a de que estar vivo é, antes de tudo, sentir.
Quando o som lá fora se apaga, a gente começa a ouvir o que sempre esteve dentro.
Sem pressa, sem pressão, as coisas se ajeitam.
A vida mostra que o que realmente importa nunca esteve perdido, só coberto pelo ruído das urgências que criamos.
O poder que ignora limites termina por destruir quem o usa.
O saber que se recusa a duvidar acaba se fechando em si mesmo.
E o amor que quer prender o outro se transforma em controle.
Nada que nasce do medo dura.
O que é leve atravessa o tempo, o que é sincero permanece.
A sabedoria não chega por esforço, ela aparece quando paramos de lutar contra a vida.
Ela vem no silêncio, quando o coração entende o que a razão não alcança.
Não é algo que se aprende, é algo que se reconhece — um saber que já estava ali, esperando calma para se revelar.
Às vezes, tudo desaba.
E a gente acha que acabou.
Mas não acabou.
Foi só o jeito da vida mostrar que há outro caminho.
O caos não vem punir, vem mudar o rumo.
A queda não é derrota, é movimento.
A gente vive entre o sentir e o compreender.
Entre o que o mundo mostra e o que o coração traduz.
Quando o olhar se acalma, o mundo muda de cor.
Quando o gesto é honesto, o tempo parece mais gentil.
Ser forte não é resistir a tudo, é saber entender quando é hora de soltar.
E quem continua bom mesmo depois de se ferir já entendeu o que é amar de verdade.
Não é preciso prometer nada nem planejar demais.
O agora basta.
Quem está inteiro no presente não teme o que vem.
Porque tudo o que muda, muda para ensinar.
O futuro não depende de crença, depende de consciência.
De gente que saiba ouvir antes de reagir, sentir antes de julgar, viver antes de explicar.
Quando o ser se torna simples, o mundo fica mais claro.
Nada precisa ser vencido quando é compreendido.
Tudo o que buscavas sempre esteve aí,
esperando o momento em que parasses de correr.
A sabedoria não é conquista, é retorno.
E o silêncio — esse mesmo que agora te abraça —
é o lugar de onde nunca saíste.
O silêncio mata
Não porque seja barulhento.
Não porque seja violento à primeira vista.
Mas porque é limpo demais para incomodar quem prefere se sentir correto.
O silêncio é o álibi dos que sabem.
É o abrigo moral de quem entende exatamente o que está acontecendo, mas escolhe não tocar no assunto.
Não por dúvida.
Por conveniência.
A sociedade não falha por falta de discurso.
Ela falha por excesso de encenação.
Defende valores em público e os abandona no primeiro instante em que eles exigem atitude.
Todo mundo reconhece a injustiça quando ela acontece com os outros.
O problema começa quando reconhecê-la exige posicionamento.
Quando exige perda.
Quando exige coragem.
É nesse momento que o silêncio aparece travestido de maturidade, de equilíbrio, de bom senso.
Mas não é nada disso.
É medo.
É cálculo.
É autopreservação.
O silêncio não é ausência de opinião.
É a decisão consciente de não agir.
É a escolha de proteger a própria imagem enquanto alguém suporta o peso inteiro da violência.
Quem se cala não está fora do problema.
Está dentro dele.
Sustentando.
Normalizando.
Permitindo.
Nenhuma estrutura injusta sobrevive apenas pela força de quem oprime.
Ela sobrevive porque encontra terreno fértil em quem observa e não interfere.
Em quem percebe, mas não confronta.
Em quem prefere não se comprometer.
A verdade desconfortável é esta:
muita gente não se cala porque não sabe o que fazer.
Cala porque sabe exatamente o que deveria fazer
e decide não fazer.
O silêncio é a forma mais educada de traição moral.
Não deixa marcas visíveis.
Não compromete discursos.
Mas cobra um preço alto de quem sofre e um preço invisível de quem se omite.
Uma sociedade que se orgulha do próprio silêncio não é pacífica.
É treinada para evitar responsabilidade.
E todo mundo que lê isso sabe, no fundo,
em que momento escolheu calar.
Em que situação desviou o olhar.
Em que instante preferiu não se envolver.
Não é acusação.
É espelho.
Porque quando o silêncio é confortável demais,
é sinal de que alguém está pagando o custo no lugar de quem se cala.
E isso, cedo ou tarde, exige reflexão.
“O inimigo não age no barulho da multidão, mas no silêncio do coração; é ali, a sós, que o verdadeiro combate espiritual acontece.”
Liberdade vigiada
Minha voz não nasceu para o silêncio
Mas tentam calá-la
Com leis que servem ao poder
Com dogmas que não aceitam perguntas
Com costumes que se erguem
Como muros
Entre o direito de existir e eu.
Dizem
Não fale
Não questione
Não ouse
Não seja atrevida!
O medo é a corrente mais afiada
A prisão mais invisível
Usam-no como chicote
Fazendo de cada gesto de coragem
Um risco de punição.
Mas a palavra não se apaga.
Ela encontra frestas
Escapa pelas brechas do tempo
Grita em olhares
Se escreve nas ruas
Se levanta na boca de quem resiste.
Liberdade de expressão
Não é concessão de governantes
Nem favor de religião
Nem migalha de convenção social.
É direito de ser humano
De pensar
De discordar
De criar
De recriar
De questionar
De expandir
De viver sem algemas no pensamento.
Revoltante é saber que
A história repete seus cárceres
Vozes queimadas em fogueiras
Enterradas em ditaduras
Tantas hoje esmagadas
Em nome de ordem
De fé
De mercado.
Mas eu insisto em dizer
A liberdade é chama que não morre
Quanto mais tentam sufocá-la
Mais se espalha no ar
Mais vontade tem de se soltar
Mais cria coragem
Para chegar a outras mentes
Que criarão a mesma coragem
E gritarão.
E quem hoje se julga dono da verdade
Há de perceber
Cedo ou tarde
Que nenhuma força
Cala para sempre
A voz da humanidade.
Entre a caneta e o silêncio
Como professora, caminho...
não sobre chão firme,
mas sobre cacos de expectativas
e pós de esperança.
Cobram de mim o impossível:
números que sorriam para relatórios,
metas que brilhem nos gráficos,
resultados que não cabem no peito,
mas são expostas em planilhas frias.
Na sala de aula,
ecoam não vozes curiosas,
nem sussurros
em busca de saber,
mas do peso do desinteresse.
Olhares vagos,
mãos cansadas antes mesmo de escrever,
corações distraídos pela promessa fácil
de um benefício que paga a presença,
mas não compra o desejo de aprender.
O apoio?
Palavra bonita nos discursos,
mas ausente no cotidiano.
As leis que um dia protegeram
vão se dissolvendo
como tinta velha sob a chuva.
E o que sobra?
Um palco de cobranças
e a plateia da indiferença.
As famílias,
cansadas, omissas ou descrentes,
entregam seus filhos e filhas
como se fossem um pacote:
"Está aqui. Ensine. Cuide. Resolva. Eduque."
Os governos, contadores de cifras,
olham para o professor e veem um custo,
não um pilar, muito menos investimento.
“Os professores ganham muito,
incham a folha,
têm muitos direitos,
férias duas vezes ao ano,
piso salarial,
gratificações, recompensas,
rateios...
ganham apenas por quatro horas de trabalho
E ninguém vê as horas
roubadas de nossas famílias,
de nosso lazer,
de nossa saúde.
Querem índices
querem estatísticas,
querem provas,
querem resultados sorridentes,
mesmo que as almas chorem.
A carreira…
longa estrada de títulos caros
para salários curtos,
onde a gratificação é um remendo
que nunca vira tecido inteiro.
Trabalhar muito, viver pouco.
E o docente,
esse resistente,
esse malabarista de sonhos,
continua ali,
mesmo quando o respeito já não chega,
mesmo quando a violência não é só física,
mas se infiltra como veneno lento
no corpo e na mente.
Um dia, perguntaremos:
O que fizemos da educação?
Transformamos o mestre em operário de metas,
a sala de aula em linha de produção,
o saber em moeda barata.
E, talvez tarde demais,
descobriremos que sem professor
não há futuro que se escreva.
O milagre da vida
No silêncio do instante,
uma semente desperta,
brotando esperança em terra fértil.
Cada batida do coração,
um tambor que anuncia a dança do existir,
o milagre invisível que se repete,
sem roteiro, sem ensaio.
A vida se espalha em cores e sons,
em risos que ecoam pelo ar,
em lágrimas que regam a alma,
em gestos pequenos que salvam mundos.
É fogo e água, tempestade e calma,
um pulsar incessante que desafia o vazio,
um abraço entre o efêmero e o eterno.
Ser vida é ser mistério aberto,
é carregar no peito a luz e a sombra,
é ser parte do tudo sem jamais se perder.
O milagre acontece agora, sempre
no respirar profundo, no olhar atento,
na coragem de recomeçar
todos os dias!
nadas (in)versos
fiz do silêncio um idioma
e dos nadas, um abrigo
o que em mim parecia vazio
era só verso ao contrário
esperando quem soubesse ler
carrego abismos bem vestidos
sorrisos que nunca contam tudo
há verdades que só existem
quando ninguém está olhando
não me explico — me inverto
sou sombra que pensa
e nos meus nadas mais fundos
mora exatamente
o que não ouso dizer
Meu silencio não quer dizer "Não".
então...
Tolice pensar que sabe o que sinto.
Pensar que não minto.
No final de tarde
Navego no silêncio
Fascinante instante que abastece a alma
Leveza do meu contemplar
Pássaros despedido da tarde
Enquanto renovo diante da beleza
Busco a conexão que o por do sol pode oferecer.
Poema:
O Dom, o Aprendizado e a Sabedoria
Há dons que nascem no silêncio,
brilham no olhar de quem busca,
não pedem palco nem aplausos,
apenas o espaço da alma justa.
O dom é semente divina,
plantada no tempo da fé,
cresce em meio às dúvidas,
floresce em quem não desiste de ser quem é.
Mas o dom sozinho não basta,
precisa do chão do aprendizado,
da queda que ensina o passo,
do erro que forja o resultado.
Aprender é servir ao propósito,
é lapidar o talento com dor,
é entender que o caminho mais duro
é o que mais revela o valor.
E quando o dom encontra o saber,
nasce a sabedoria serena,
que não grita, apenas ilumina,
que não impõe, apenas ensina.
A sabedoria é o fruto maduro
de quem viveu com humildade,
e entendeu que o maior mestre
é a própria vontade.
JR TEIXEIRA
Escrevo-me
quando o silêncio pesa
e a alma pede morada.
Escrevo-me
não para ser lida depressa,
mas para ser sentida
no tempo certo do coração.
Há dias em que sou rascunho,
outros em que sou verso inteiro.
Mas sigo,
mesmo borrada,
mesmo em construção.
Escrever-me
é não desistir de quem sou,
é juntar pedaços de fé,
cicatrizes e esperança
numa mesma linha.
Porque enquanto me escrevo,
eu existo.
Inteira.
Viva.
Aprendendo a ficar.
_escrevendo.me
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