Sem Resposta
Eu não sou feito de respostas.
Sou feito de rachaduras.
Por dentro, tudo em mim é barulho:
pensamentos tropeçando,
memórias se mordendo,
desejos que não cabem no corpo.
Eu existo em estado de urgência.
Tenho dias em que me sinto infinito
e outros em que mal caibo em mim.
Tenho vontade de ser tudo
e medo de não ser nada.
Eu me desmonto com frequência.
E não é metáfora.
Eu me desmonto mesmo.
Ideias, identidade, planos, certezas —
tudo cai no chão.
E eu junto os pedaços
com mãos tremendo.
Não sou estável.
Sou vivo.
Carrego perguntas como quem carrega feridas abertas:
quem eu sou quando ninguém está olhando?
quem eu seria se não tivesse aprendido a me esconder?
quem eu posso ser se eu parar de pedir permissão?
Às vezes eu me sinto grande demais para esse mundo pequeno.
Às vezes pequeno demais para meus próprios sonhos.
Eu sinto tudo no limite:
o amor rasga,
a perda ecoa,
o desejo arde,
o medo grita.
Não sei sentir pouco.
Se eu te disser que sou forte,
é porque você não viu minhas noites.
Se eu te disser que sou sábio,
é porque você não viu quantas vezes eu me perdi.
Eu sou feito de tentativas.
E de fracassos belos.
E de recomeços malfeitos.
E de coragem improvisada.
Não me peça equilíbrio.
Eu sou terremoto aprendendo a andar.
Mas deixa eu te contar algo:
se você me ler e doer,
é porque tem algo em você querendo sair.
Porque todo mundo anda por aí
se amputando emocionalmente
para caber.
E eu não quero caber.
Eu quero existir.
Eu quero que minhas contradições respirem.
Que meus abismos tenham nome.
Que minha bagunça seja honesta.
Eu não sou exemplo.
Sou espelho.
Se você se vê em mim,
não é coincidência —
é humanidade.
Você também sente demais.
Você também finge menos do que parece.
Você também tem um caos bonito aí dentro
pedindo para ser reconhecido.
Então não se organize.
Se entenda.
Não se controle.
Se escute.
Não se esconda.
Se permita.
Porque viver
não é parecer inteiro —
é continuar mesmo em pedaços.
E se alguém te chamar de intenso,
agradeça.
Pior seria ser vazio.
Não se complica,
não se prende a conflitos:
prefere o silêncio,
a resposta interior,
a força e o respeito próprio.
Nem todo silêncio quer resposta.
Descansar não é desistir, é recarregar o humano.
Há dias em que sobreviver já é produção suficiente.
O corpo também pensa, só mais devagar.
Às vezes a melhor ideia é não ter nenhuma hoje.
A verdadeira inteligência não reside na precisão da resposta, mas no caos controlado de uma memória que se permite tropeçar em si mesma.
Não confio em quem tem todas as respostas, pois o mundo é feito de perguntas que ninguém ousa formular.
A filosofia não é um acúmulo de respostas, mas uma metodologia viva: um modo rigoroso de pensar que transforma perguntas em caminhos e o pensamento em criação de sentido.
Ás vezes a alma não pede respostas, pede descanso, dar-se pausa é escolha de sabedoria, no silêncio a força volta a nascer, descansar é preparar-se para recomeçar.
A fé genuína é questionadora, não aceita respostas prontas. Ela pede provas, duvida e, depois, acredita com convicção medida. Essa fé é adulta: não precisa de cenários épicos para existir. Vive de pequenos milagres domésticos e de evidências quietas. E se fortalece no exame honesto dos próprios limites.
O silêncio é o porta-voz da verdade que o verbo se recusa a nomear, a resposta não está no grito, mas na topografia fria dos vazios que o barulho
deixou para trás.
Descobrimos o Divino não nas respostas prontas, mas na força de aguentar a dúvida sem se desesperar. A pressa em rotular a dor nos impede de ver a beleza oculta do mistério que ela traz, é no silêncio da espera por entender que o Espírito prepara o futuro, usando o tempo certo de Deus.
.. Não procuro as respostas,
deixo que o tempo as traga até mim. Um dia, bem próximo ele irá me apresentar à felicidade. Agora sim eu sei onde ela está, meus olhos agora se abriram pra enxergá-la, pra te enxergar e eu quero ficar assim, me deixa assim..
Você pode até não encontrar as respostas para todas as perguntas. Mas tenha sempre em mente todas as perguntas para qualquer resposta.
