Se eu Fosse se Namorado

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O domingo está acabando — já é tarde — amanhã a gente começa de novo. Eu me sinto às vezes tão frágil, queria me debruçar em alguém, em alguma coisa. Alguma segurança. Invento estorinhas para mim mesmo, o tempo todo. Me conformo, me dou força. Mas a sensação de estar sozinho não me larga.

Eu me enganei tanto com o ser humano que ando com preguiça de me entregar.

Ah, as mulheres...
Foram feitas para serem amadas,
e eu às amo.
Mas elas também querem sair pelo mundo,
ganhar a vida - ganhar o mundo! - porque se amam,
e amam!
E amo vê-las a sumir por aí,
sem nem notarem que estou eu
a lhes amar por aqui...

Perdoem o silêncio, o sono, a rispidez, a solidão. Está ficando tarde, e eu tenho medo de ter desaprendido o jeito. É muito difícil ficar adulto.

Caio Fernando Abreu
Caio Fernando Abreu: Cartas. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 2002.

A gente tem o vício (eu, pelo menos) de matar a alegria com mil análises críticas que geralmente não têm nada a ver.

Enquanto isso, navegando eu vou sem paz, sem ter um porto, quase morto, sem um cais.

Eu sou um experimento, nada certo, nada definido, tudo em estado de transição.

Eu não sou feito essa gente que ama e de repente tchau, e se acabou.

Mas é que a verdade nunca me fez sentido. A verdade não me faz sentido! É por isso que eu a temia e a temo. Desamparada, eu te entrego tudo – para que faças disso uma coisa alegre. Por te falar eu te assustarei e te perderei? mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia. A verdade não faz sentido, a grandeza do mundo me encolhe. Aquilo que provavelmente pedi e finalmente tive, veio no entanto me deixar carente como uma criança que anda sozinha pela terra. Tão carente que só o amor de todo o universo por mim poderia me consolar e me cumular, só um tal amor que a própria célula-ovo das coisas vibrasse com o que estou chamando de um amor. Daquilo a que na verdade apenas chamo mas sem saber-lhe o nome.

Clarice Lispector
A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.

Sei que eu mesma não presto. Mas eu te digo: eu nasci para não me submeter; e se houver essa palavra, para submeter os outros. Não sei porque nasceu em mim desde sempre a ideia profunda de que sem ser a única nada é possível. Talvez minha forma de amor seja nunca amar senão as pessoas de quem eu nada queira esperar e ser amada.

Clarice Lispector
Minhas queridas. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.

Nota: Trecho de carta a Tania Kaufmann, de 8 de julho de 1944.

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E é justamente por eu nunca ter sido inteira pra você que meu fim de amor também não consegue ser inteiro.

Se eu tivesse que viver a minha vida novamente,eu cometeria os mesmos erros,só que mais cedo.

Tentando conciliar o irreconciliável
Eu quis fazer real o abstrato
Quis fazer da noite eterno dia
Quis encontrar o amor
Onde o amor não ia...

Eu só pensava: eu não valho tanto. Daí a pouco já estava pensando: e eu que não sabia que valia tanto.

Clarice Lispector
Todas as crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 2018.

Nota: Trecho da crônica Mal-estar de um anjo.

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Se alguma coisa é decepcionante eu sei que essa coisa não é "nada", porque o "nada" não é decepcionante.

As pessoas vêm e me falam: “Você não vai conseguir”. E então eu vou lá e surpreendo elas. E quer saber uma coisa? Não existe nada melhor do que isso.

Porque, pra ter você por perto um pouco,eu tive que não querer mais ter você por perto pra sempre. E eu soquei meu coração até ele diminuir. Só pra você nunca se assustar com o tamanho.

Eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tarde, ou manhãs, não importa a cor, éé, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é?

Essa força me ajuda a viver
por isso eu não desisto
Essas mãos que amparam o meu ser
São as mãos de Jesus Cristo

O que estou sentindo agora é uma alegria. Através da barata viva estou entendendo que também eu sou o que é vivo. Ser vivo é um estágio muito alto, é alguma coisa que só agora alcancei. É um tal alto equilíbrio instável que sei que não vou poder ficar sabendo desse equilíbrio por muito tempo – a graça da paixão é curta.

Clarice Lispector
A paixão segundo G. H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.