Se ela quer Voar a porque tem Asas

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A noite é mestre em revelar a verdadeira face do desejo. Ela não julga, apenas mostra o que pulsa. Algumas verdades aparecem em roupas simples. E eu as recebo com humildade de aprendiz. Porque cada desejo é também mapa para a cura.

A fé discreta que me guia não exige manchetes. Ela é lamparina no corredor escuro de madrugada. Quando tropeço, ela me ampara sem pergunta. Não se impõe, só existe como companhia fiel. E eu sigo, grato pela pequena luz.

A solidão que cura é diferente da que fere. Ela é companhia seletiva e não abandono cruel. Dar-se a ela é permitir ouvir a própria voz. E essa escuta traz respostas que o barulho não permite. Volto de lá mais inteiro, menos fragmentado.

A esperança madura não exige certezas absolutas. Ela cresce em terreno de perguntas bem feitas. Satisfeita com pouco, ela floresce mesmo na escassez. Cultivá-la é trabalho de jardinagem diária. E os frutos, quando vêm, têm sabor de testemunho.

Não busco a estética da frase bonita, mas a crueza da palavra honesta, mesmo que ela me deixe exposto e sem defesas.

Existe uma exaustão que o sono não cura, ela reside onde os remédios não alcançam e onde só a ponta da caneta consegue tocar.

Sou confidente da madrugada, ela é a única que aceita minhas versões sem filtros, meus colapsos e minhas confissões inconfessáveis.

Escrever é o meu método de hemorragia controlada: deixo sair a dor para que ela não me mate por dentro.

Minha esperança é uma sobrevivente teimosa, mesmo ferida e sem fôlego, ela insiste em se manifestar nos escombros.

Não escolhi a resiliência, ela foi a única saída em um cenário onde a fragilidade era punida com o esquecimento.

A esperança é uma visita inesperada, ela senta em silêncio, não promete nada, mas sua presença torna o ar menos pesado.

A dor é o único mestre que nunca mente, ela nos despe de todas as vaidades até que sobre apenas o osso da nossa fragilidade radical.

O mundo exige uma produtividade que minha dor desconhece, pois ela opera em um fuso horário onde o segundo é uma eternidade de esforço apenas para respirar. Sou um desertor dessa guerra pela felicidade compulsória, preferindo a paz de ser apenas um resto de esperança.

Carregar a própria alma é o trabalho mais pesado do mundo, especialmente quando ela insiste em se encher de pedras coletadas em caminhos que já deveriam ter sido esquecidos. Cada passo é uma negociação com a gravidade, um pedido de clemência ao chão que parece me puxar para baixo.

A poesia não salva ninguém do abismo, mas ela nos dá uma lanterna para que possamos descrever os monstros enquanto caímos. É a arte de cair com elegância, transformando o impacto inevitável em uma estrofe que o mundo lembrará quando não estivermos mais aqui.

O tempo não cura, ele apenas anestesia a ferida até que ela se torne uma cicatriz rígida, que dói sempre que o tempo muda ou que a alma esfria. Não acredite em quem diz que o tempo resolve tudo, o tempo apenas acumula poeira sobre o que não tivemos coragem de limpar.

Há uma solidão que não depende da ausência de pessoas, ela se instala mesmo em meio à presença, porque não é sobre estar acompanhado, é sobre ser compreendido, e isso é algo que raramente acontece de verdade.

A dor não chegou de uma vez, ela foi construída, em camadas tão sutis que quase passaram despercebidas, até que um dia percebi que já não era mais o mesmo, mas também não era alguém completamente perdido.

A justiça na terra não desce do céu como um raio de luz, ela germina em silêncio, como semente lançada em solo firme, cultivada pelas mãos daqueles que se recusam a ser cúmplices da opressão silenciosa. Cada palavra dita em defesa da verdade é mais do que um gesto humano, é como uma centelha de luz que insiste em brilhar mesmo nas sombras, erguendo, pouco a pouco, um lugar onde a dignidade não é apenas lembrada, mas vivida. Há uma voz mansa que sussurra no íntimo, convidando à retidão mesmo quando ninguém vê, lembrando que a verdadeira justiça começa no invisível, nos gestos pequenos e nas escolhas solitárias. Não espere por um julgamento final para ser justo, faça do seu próprio caminho um testemunho vivo, onde cada atitude carrega o peso de algo maior do que si mesmo, como se, em cada decisão, o eterno tocasse o instante.


- Tiago Scheimann

A dor não me destruiu, ela me desfez em mil pedaços e foi ali que eu aprendi a me reconstruir de formas que jamais imaginei.