Ruth Rocha Amor
COMPANHIA
Tudo chega ao mesmo tempo
À mesma hora.
Lembranças repetidas
Nas suas ordens de chegada.
Quando me quieto,
Depois do ritual de preparar-me
Para deitar.
Quando ponho a cabeça
E aqueço os panos por entre o corpo
Tudo chega,
Lembranças tuas, lembranças.
Que vêm como pássaros buscando ninho
Aquecer os filhotes
Que ao dia receberam visitas rápidas,
De borboletas, restos de insetos,
Que só receberam ao bico,
Mas nenhum beijo.
E tudo chega e todos se deitam.
A cama é estreita,
Faltam lençóis pra nós.
E eu vou pegar.
Se pelo menos eles dormissem
E me deixassem solto em sonhos
Ou pesadelos de os machucar,
Rolar por cima,
E sob o meu peso,
Deles quebrarem-se
De desistirem e não mais voltarem.
E eles vem, instintivamente rindo,
Em todas as noites,
Quando da minha investida
De deitar sem ti.
De contar-me só
Num espaço hostil.
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naeno*comreservas
LEMBREM DE MIM
Lembrem de mim
Como quem viu um beija-flor
Uma solidão,
Uma tristeza.
Como quem viu a flor
Um risco de desespero,
Uma fragilidade, sozinha.
Que viu o beijo dos dois
As núpcias e a proteção,
O protetor protegido,
A alegria guardada.
Lembrem de mim
No beija-flor e na rosa
Em mim beijando,
Em mim beijado.
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Naeno*comreservas
MÃOS DE ANJO
Eu quero uma mulher
Que saiba lavar o seu rosto com minhas lágrimas.
Que saiba passar o tempo a fio, comigo.
E sentindo-se acompanhada de Deus.
Quero uma mulher
Que saiba costurar a vida
Em seus remendos mais invisíveis.
Que saiba varrer a tristeza,
E recolhê-la ao lixo, e fique limpa,
Não guarde mágoas do que não fiz,
E não tenha rigor no que propositei.
Eu quero uma mulher que saiba limpar
Os resíduos que houverem no meu coração,
De outras vidas passadas. Que me passe a mão.
Quero uma mulher
Que saiba enxugar meu pranto,
E que o dela, permita-me secar com o meu sopro.
Quero uma mulher
Que saiba cozinhar o tempo ruim
E faça o melhor prato e o ofereça a mim.
Quero uma mulher
Na vigília dos meus sonhos
Que seja um batom na minha boca
Que seja o seu perfume em minha roupa.
Quero uma mulher
Que seja, ela dentro de mim,
Quero esta mulher,
Apanhada nas mãos de um anjo.
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MATULÃO
Vivo das lembranças...
De levantar do chão meus pés andarilhos.
Nessas investidas, quase muito eu vi.
A florada no seu tempo
Escutei com displicência o argumento dos homens
Duvidosos das chuvas, de língua seca.
Remôo essas lembranças
Eu apanhando do chão
Meu matulão cansado da estrada
E eu um homem desertificado,
Orado, rezado, benzido pelas sombras boas.
Cacho de alecrim, pra espantar mutuca,
E deixar um cheirinho
Que a gente logo abusa.
E de noitinha ouvir a sinfonia mais desencontrada
A saparia escondida do maestro ensaboado.
Araras no topo jogando migalhas,
Que os bichos rasteiros
Comiam lembranças do chão.
Adoeço só de ver as estradas encobertas,
E um céu descoberto, nem uma nuvem que se pise.
Quanto mais me disto desses lugares meus.
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naeno*comreservas
RITO
De paixão, acesa e viva,
faço cada frase...
De prazer, intenso e puro,
faço cada parágrafo...
e te descrevi em tua ausência
Na distância e no vazio.
És luz que rasga as trevas,
Inspiração, utopia e lenda,
Um rito que não cansa, pontilhar
Aqui, inalo o amor que me ofereces
No vento que me afaga o corpo,
Inspiração profunda,
Expiração ausente,
Querendo manter-te
Aqui dentro do coração.
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naeno*comreservas
Idealizei e a conquista não se deu, mas se dará, é uma questão de tempo. Ser feliz... Sob quais circunstâncias, Deus me aviará.
Deus dará o sinal.
Bondade, discernimento, reconhecimento da igualdade entre todos os seres.
O meu sonho confunde-se com o sonho de todos e assim, de Deus. Ver os homens vivendo o presente com os olhos de uma criança na véspera do natal, esquecidos do passado, até do que aprenderam, para que a vida se torne uma eterna didática e o futuro a certeza de se aportar sem correr perigos, plenamente, já em estado de presente.
E de onde vem o meu sonho, se sempre estive tão atento a tudo, preocupado e encandeado com o cair de um galho esguio de uma árvore desproporcional ao vão aéreo em que ele se precipitaria?
Ouvia uma cigarra nos finais de tarde como quem ouve Mozart numa cantata de piano e violino, ou um Chico Buarque, extremamente melancólico em suas palavras de saudade explícitas, ou algo dos Beatles lá do tempo de todos de minha idade.
Meu sonho vem das noites em que estive plenamente sonolento, com as mãos pendendo fora do pano da rede no prazer de ver as palhas do teto de minha primeira casa se transformando em uma entrada de mar tomada de ondas brancas. Chama isto, o sonhador, o sonho que não incomoda e nem nos guarda e nem nos revela, não que entendamos. Com um pouco mais de esforço vê-se o menino sentado à frente da TV assistindo a um programa cibernético, ou o simples pousar leve, sereno, esperado, no meio de tantas nuvens, onde se colocam aqueles que ainda não formaram uma idéia ou um estereótipo para Deus nem para os anjos. Confunde céu com nuvens, com luzes de um início de uma quermesse, quando mil foguetes explodem tornando o alto, fulgurante, iluminado por todos os lados.
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MENINO
Quando eu era um menino mirrado
Bem pequeno, que dava mal pra se ver
Eu já muita coisa sabia,
Porque tudo o que as pessoas falavam
Eu ouvia, em todo lugar eu cabia
E ninguém me percebia,
Ou faziam de conta que eu não existia.
Portadores de miopia,
Assim foi, que nunca me viam.
Em mim a vontade pelo que não sabia,
Curioso como um papagaio aprendiz,
E ninguém me via,
E tudo eu ouvia.
Quando comecei a falar,
Não comecei pelo que a minha mãe dizia,
Me pus a falar de coisas já de aprendiz,
Discutia geografia,
Calculava a geometria,
Delineava a filosofia,
O que acontecia no dia a dia,
Citava já algumas poesias,
E mais, curioso eu ouvia.
A história de Cristo eu sabia,
Do inquisitório, da condenação, eu via,
O erro maior da história, e não entendia,
Como é que se mata Deus, e Ele assim permitia.
De Sócrates a verdade que se puniu,
Contava a estória de Lampião
Do seu encalço, a polícia,
Armada de artilharia, mirando ele e Maria.
Mas continuava tão pequeno,
Que tudo que eu dizia,
Ou ninguém nada entendia,
Ou, como a mim não percebiam.
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naeno*com reservas
MUNDO
Desde criança, ainda pequeno,
O meu desejo era ganhar o mundo,
Não em partes de latifúndio,
Mas por todo ele palmilhar,
Botá-lo por entre as pernas,
Varar seus veios, caminhos,
E assim seguir, indo, indo.
Queria me deparar
Com as diferenças previstas,
Um mundo todo à minha vista,
De ele todo me aproximar.
Carregando em meus bornais,
O pó fecundo das estradas,
Imagens de novas pessoas,
E assim seguir à toa,
Sabedor que o mundo foi,
E sempre será como é,
De Deus, de nenhum homem,
Quem só tem direito ao nome,
E não o pode demarcar,
Assim julgava eu,
Um dia me prolongar,
Nos retos estreitos e ir,
Voltar só quando bem cansado,
Das aventuras tresloucadas.
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naeno*comreservas
ÉS TU MORENA
És tu morena, flor açucena
O sol surgindo quando vem de clarear
A natureza, águas e matas
Luar tão belo e uma onça a espiar.
És tu, morena, rio vertente
A cachoeira que a seca não faz parar
És a colina, és a campina
Cheiro da terra quando a chuva vem molhar.
És tu, morena, o beijo eterno
Desse namoro da rosa com o beija-flor,
O sincopado do chico preto,
Pombo correio, mensageiro do amor.
Não é só isso, bem mais tu és
És os acordes das canções dos imortais
Na lira branca, no violão
Dos passarinhos que cantam nestes quintais.
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naeno*comreservas
TEU OLHAR
Teu olhar
É uma estrela no céu, no céu,
Mar azul,
E um náufrago, sou eu,
Tuas retinas,
Sempre na luz.
Pois teus olhos
Também é o sol.
Lindo, infinito
O mesmo sol sobre mim
El sol calliente,
Qui ay de brillar
Aqui em la plaia.
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naeno*comreservas
FARDO
São tantas vinhas e fados
São tantas minhas saudades
São tantos mares serenos
São tantos ais, são venenos.
São tantas marcas no corpo
Tantas lembranças de um porto.
Tantos destinos havia
O céu tantas terras cobria
São mais os ventos que guiam
Que o meu coração que cativas.
Te vendo eu me alucino
E talvez seja,
O destino que eu ganhei
Esta parada.
A distância que eu ainda não gostei.
Ou a vontade de beijar-te.
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naeno*comreservas
PASSARINHO
Estou fazendo a minha parte,
Passarinho,
Estou vertendo água dos olhos.
Gota a gota, derramando, passarinho.
Sem nem ter quem me console.
Estou fazendo dessa dor
Uma promessa
Que sem nem ver, estou pagando
E sem ter razão, que vida,
Passarinho, eu canto ainda,
O teu nome vou chamando.
Passarinho um rio indo
Na corrente é um destino
Que só se acaba com a morte.
Contravir é sacrifício
Que só peixe faz perdido
Confundindo o sul e o norte.
POBRESINHO
Pobre de mim
Que ainda espero por um beijo teu
Meu coração, na certa não entendeu
Que aquilo foi despedida.
Pobre de mim
Que fico triste quando alguém me diz
Que te encontrou de vida tão feliz
Eu era o teu pesadelo.
Só que quando eu me sinto assim
Tão pobrezinho
Eu desço a lata no fundo do poço de mim
E bebo do amor que é meu.
Só que quando eu me sinto assim
Tão machucado
Eu deito leve no colo
De amor bem forrado
E choro no amor que é meu.
Ninguém me ama como eu
Ninguém me engana como eu
E nos reveses da vida
A ferida do amor doeu.
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naeno*comreservas
O DIA REPETIDO
O dia de hoje está como o de ontem
As mesmas luzes incidentais,
Os mesmos minutos perigosos
A mesma indumentária suada,
Os mesmos contadores postos.
A solidão que senti ontem
Hoje se firma na condição de sol
Do que tem em mim guardado
Prenunciando o mesmo tempo,
De claridade e jeito destoado.
Hoje se comprometem as rosas
Fulgurarem sobre o capinzal
Os gira-sóis acompanham o sol
Ora alegres, ora prevendo, ora tristes
Será, serão, e terão sido os dias
Com esta mesma presença obrigatória
Com a mesma cara que não se viu pela manhã
E não pressente a fúria impressa nela.
Guardem-se os dias, vamos às noites,
Ver algo novo no fulgor da lua,
E que sua claridade mostre
O que o sol presumiu não saber.
Venha a escuridão soturna.
De dias incompletos, quero viver.
Sem as astúcias como anda a luz
Ora nos mostra, ora se some
E o tempo todo ela é quer nos ver.
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naeno*comreservas
SONHEI
Te puxei pelo coração
E encostei a tua boca
No meu regaço beijei
Os teus cabelos de gosto
Da pessoa que eu amo inteira.
Apago da tua visão
Meu batom carmim
E te verei campina
Verde toda direção
Entre os montes cimo
Dos meus seios.
Eu sorvo toda a tua pele
Toda, tudo tão inteiro
E tudo será como eu quero
Como um beijar primeiro.
E onde tu me tocares
Serás como Midas
Mas não será o duro ouro
Vais ser minha comida
Te elevarei ao poço
Da minha vida
Rainha por um tempo bom
E eu terei caído.
Amor, amor, amor
Te chamarei, querida
Me sugarás teu beija-flor
Todo equilíbrio
Uma canção dos ditos
De Moraes Vinícius
E musicarei os versos
De Neruda, em vida.
NAENO
PECADO
Apedrejem esta criatura culpada de todo o azedume de nossas vidas,
Foi ela quem ardilosamente tramou com os espíritos nossa descida.
E que nas noites em que dormíamos sonhando com as rosas
Foi ela quem lançou a praga irretratável e todas vimos fenecidas.
Lancem-na mais à frente, no meio dos condenados da inquisição,
É ela um ser disforme que sob a blasfêmia se cobre,
E nega a Deus, e dos prantos seus, nenhum tem o gosto da lágrima cristã,
Reneguem os seus feitos que por seu tempo já o bastante pra chamar-se cobra.
Eis o que destila a sua boca curta, os seus lábios úmidos, seu andar disperso,
E nem aprende a fala, dos nomes se esquece. Como entrega-la o nosso destino,
Se de queda em queda ela não tem calos, e o que pronuncia ninguém dintingue.
O que logramos em esperar por ela, ainda por pintar-se, uma branca tela.
Talvez se acerte em isola-la longe, e nos dias vindouros, vemo-la de novo,
Se o azar cessou, é só uma criança. Alguém diz promessa, no escuro, vela.
MATULÃO
Vivo das lembranças
De levantar do chão meus pés andarilhos.
Nessas investidas, quase muito eu vi...
A florada no seu tempo certo,
E vi errado o argumento dos homens
Duvidosos das chuvas, de língua seca.
Morro das lembranças
Eu apanhando do chão
Meu matulão cansado da estrada
E eu um homem desertificado,
Orado, rezado, benzido pelas sombras boas.
Cacho de alecrim, pra espantar mutuca,
E deixar um cheirinho
Que a gente logo abusa.
E de noitinha ouvir a sinfonia mais desencontrada
Da saparia escondida nas locas.
Arengas na estrada de cobra e lagarta,
Araras no topo jogando migalhas,
Que até eu, com a fome no estômago, alimentada,
Pegava e comia, essas lembranças do chão.
Adoeço só de ver essas estradas raspadas,
E um céu descoberto, nem uma nuvem que se pise
Quanto mais me disto desses lugares meus.
VOLUNTÁRIO
Por um momento que durou sua vida toda
Ele foi do voluntariado de cuidar de tudo,
Passava à vista todas as manhãzinhas
As borboletas que nunca as alcançava dormindo
E saudava com o olhar mais venturoso,
Cheio de coragem, audácia e cor,
Os canários belgas postos ao sol nas sacadas.
E visitava de fora, o casulo no seu tempo
De rebento. Fazia emendas nas asas dos passarinhos
Triscadas pelos helicópteros invasores dos seus espaços.
Ia aos lixões demarcar pontos para os urubus,
E lhes dava conselhos, quão perigoso é o sul.
Fazia festa e quermesse para os beija-flores
E lhes beijava o bico, provando do néctar.
Dava nome e sobrenome a todos os outros,
Quem não era parente seu, era do seu amor
E assim amava o tempo, que não se ver
Só por querer criar condições lá dentro
Para que lhe fosse surpresa todo dia, a aurora.
AMAR
Amar é um rito
Amar é um grito
Amar é um fito
Amar toca o mito
Amar é bonito.
Amar não é desdito
É o que faz renascido
Amar é rolar no infinito
Amar no infinitivo.
A carne no seu gemido
O mar, na sua mesmice
Amar é sair do sito
Amar é conter um grito
Amar é soltar um grito.
Amar é como gripe
Dá um cansaço esquisito.
Uma viagem aos limites
Trazer das estrelas o brilho
E na distância perdido
Ver o mundo, um granito
Pedaço de um quarto aflito
O interminável bendito.
Todos os beijos prescritos
Os gestos mais precisos
Que se consegue, um alarido.
Gente dentro da gente, inciso
Amar é o que tem cabido
A parte melhor, amor parido.
Amor, um nome, amar, da vida.
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naeno* com reservas de domínio.
QUERER
Querer e poder são por dois olhos
Uma visão do extremado
E não do fim
A beleza que encanta e tanto eu olho
É o que vejo em em ti
E não há em mim.
O ter e o querer são, por prisão
A razão de fazer-seSem ter fim:
O esplendor de uma rosa
Quando ela abre
Os teus olhos também
Se alargam assim.
Bem dizer, mal dizer eternamente
Sempre o não
Quanto mais eu falo sim
O suor do teu corpo
Inteiro brilho
De um brilhante lapidado de mim.
O fazer e o benzer a obra feita
Algo bem findado assim.
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naeno*comreservas
