Ruth Rocha Amor
AMO A NOITE
Eu amo a noite, por que à luz inexistente,
Tudo tem forma e nome de gente.
E eu amo toda gente.
Como amo os animais, pessoas descendentes,
Do mesmo olhar, vitral,
Alguns de modos complacentes.
Eu amo a noite, não por ti
Que deitas em meu leito displicente,
Não pelo o amor,
Amo por que a noite muda meus olhos.
E eu não vejo no mesmo lugar
Os mesmos tristes pensamentos.
Amo a noite, não por ti, violão
Que ao meu regaço, sentimental
Põe-me a cantar para as estrelas.
Amo a noite pela calmaria que tudo faz,
Que tudo passa, para ser no dia
Gestos esquecíveis,
Tempos retomáveis da minha infância,
Onde o medo ainda vive quieto.
Risonho e ofensivo, um algoz.
Eu amo a noite e não detesto o dia,
O dia de fazer, de pegar os quilos,
De morrer daquilo...
Eu amo a noite porque nada há
E por seu silêncio expor,
Nem um burburinho , nem sinto,
As batidas tortuosas do meu interior
PECADO
Apedrejem esta criatura culpada de todo o azedume de nossas vidas,
Foi ela quem ardilosamente tramou com os espíritos nossa descida.
E que nas noites em que dormíamos sonhando com as rosas
Foi ela quem lançou a praga irretratável e todas vimos fenecidas.
Lancem-na mais à frente, no meio dos condenados da inquisição,
É ela um ser disforme que sob a blasfêmia se cobre,
E nega a Deus, e dos prantos seus, nenhum tem o gosto da lágrima cristã,
Reneguem os seus feitos que por seu tempo já o bastante pra chamar-se cobra.
Eis o que destila a sua boca curta, os seus lábios úmidos, seu andar disperso,
E nem aprende a fala, dos nomes se esquece. Como entrega-la o nosso destino,
Se de queda em queda ela não tem calos, e o que pronuncia ninguém dintingue.
O que logramos em esperar por ela, ainda por pintar-se, uma branca tela.
Talvez se acerte em isolá-la longe, e nos dias vindouros, vemo-la de novo.
Se o azar cessou... Era só uma criança.
Alguém diz claridade do dia... no escuro, vela.
SERÃO TEUS OLHOS
Quando me dou frente a frente
Com os teus olhos de louca
Fica a impressão de que vi,
Algo de extremo e pouco
E vou ao delírio, perto
Já da minha loucura
Fico gritando o teu nome
Em aflita amargura.
Se quando olho os teus olhos
E não vejo os meus refletidos
Fixo-me no chão só pra ver
Se os meus não caíram
E de pura dolência
Caio por terra e vejo
Já no fio do precipício
Enxergo e não creio.
Que tu não veja em meus olhos
Esta claridade
aveludada, mas plenas
O que faz a idade
São os teus olhos meus
São só minhas verdades
As tuas eu busco e não conto
Se tenho encontrado.
COMO EU GOSTO DE SER POETA
Ai, como eu gosto de ser poeta.
E ser o homem de andar reto,
Ter um caminho limpo à frente e atrás.
Poder dizer o que sinto, como verdades
Sem ferir, fazendo valer o lirismo
Como didática a que todos aprendam
Que a vida é boa, e é um ofício
Que a vida é para viver não para matar.
Ai, se meus filhos fossem como eu
Sonhadores, que perdem ou acham tempo
Brincando com as nuvens
Contando estrelas, arrepiados ao ver uma rosa
Valorizando os espinhos que a protegem.
Ai, como doeria ser outra coisa
Ter outra vida que não esta...
Ter a vida em festa quando um velório passa,
Porque se assenta em minha cara
Que aquela alma não está perdida
Encontrou-se afinal, lá no édem
Nos confins dos céus, ao lado de Deus
Onde pulsa a verve do cantador
Do inventor dos sonhos.
Amo a poesia como amo o melhor de tudo...
O que se expõe aos meus ouvidos quando
Duvidosa, ela nos agasalha em seu regaço
Ai vida bela assim, ai ventura sem fim!
Ai, agora uma mulher dentro de mim.
FAVORECE
Ela me ofuscou com seus faróis em luz alta
E eu coladamente passei ao lado dela.
Mas nenhum grito de amor,
Se não eu já ficava
Ainda hoje estava com os meus olhos de choro.
Olhando a lua, pensando nela,
Vendo as estrelas, querendo ela,
E ela um jato lançando fumaça em mim.
Ela me confundiu com um pássaro qualquer
Que dorme cedo e voa a hora que bem quer,
Mas nenhum gemido de amor,
Se não eu tinha ido,
E até agora estava, seu, comprometido
Bem recaído, por esse amor tão delicado,
Cortando chuvas me enrolado em toalhas,
Vendo, mexendo a minha vida num varal.
Acostumei-me a não ser visto de perto
E me constrange o olhar, quanto mais belo.
E o dela pega na memória,
A maltratar de amor assim.
Ainda agora eu pensei nela e veio à flora
Umas tonturas, um desejo de entregar
O que possuo, o que vou ganhar
A vida tem sido bem louca em me amar.
TRAJES DO DIA
Cobriu-se do mesmo claro
Tecido fino, feito à mão
De uma teia que ninguém vê.
Começa agora
O dia a dar seus beijos
E a nubente
Despoja-se no campo branco.
E a vestimenta
Da primeira mostra
Vem como maré rasteira
O sol marcando as calçadas
Os campos desocupados.
A cor agora é outra.
Um tecido cor de ouro
Que os olhares ofusca
E reluzente enobrece a moça.
Na mudança do tempo um ser se manifesta:
“A felicidade é esta chama branda
Que não queima e vem do céu.
Dela se enfeitam
As colinas as campinas,
E bem repete o milagre
Que só Deus faz:
Ressuscitar a semente
Sob os escombros do tempo
Que ela se deu”.
Tinge-se o dia
De um cinzento
De fogo pigmentado.
E o preparo, é um agasalho.
Agora é a noite
Separada.
OLHA O MUNDO
É corriqueiro você de repente ser agasalhado por uma mão triste, e de tristeza ser tomado. É banal a unanimidade dos que te vêem triste, dizer: "Joga esta tristeza pra lá, a vida é linda! Vamos que eu te mostro as estrelas no seu aparecer, te mostro um pôr-do-sol, de um lugar que nunca vistes. Amo-te, fica assim não.... eu estou aqui, sou teu amigo pro que der e vier. Amigo é para essas coisas! Amigos são estes que te afagam que te consolam. Não vês, eu estou aqui, do teu lado. Nada tens a temer. O mundo é um albergue, enquanto a tua casa não fica pronta. E é beijo, beijo, beijo, beijo, afagos, conselhos, palavras de incentivos, indicações de livros de auto-ajuda: Paulo Coelho, Paulo Trevisan, O Segredo, e ainda te fazem ver o martírio de Jó, como ele encarou e suportou tudo, além de outros tantos que estão na lista dos mais vendidos.
Eu nunca falo na generalidade. Ninguém conhece todas as pessoas, nem externamente, nem o interior e cada um é o que é, como é. E muito mais difícil é saber de que interior são provenientes. Mas a verdade de que a hipocrisia, a fala falsa, a palara só da boca, são atos predominantes, isso cá é verdade.
Tu te arrombas de dores, de uma confusão que crias sobre a vida e suas prioridades valorosas, esperneia, chora, baixa ao hospital, e o mundo continua o mesmo, os carros passam em velocidades diferentes. E tu escutas dentro do teu quarto, as pessoas fazendo planos explícitos para os dias por vir, e tu ouves vozes que te penetram os tímpanos a os inflamar, numa confirmação de que o mundo não está nem aí para a tua dor. Que ele não está nem aí para por ti, nem por ninguém que como tu está se sentindo na mais absoluta solidão. Traído, e isso, te leva, por pura fragilidade do teu corpo, dos teus sentidos, a julgar-se traidor. Os outros é que são bons. Tu és a uma escória. " O que vieste fazer mesmo aqui por essas bandas"? O mundo não tem um alqueire reservado para ti. Não existe um leito desocupado onde tu possas deitar. O mundo não se incomoda com tua dor. Nem fica em teu assédio, na fila de espera, louco por te ver, te afagar e te assegurar dessas incertezas que povoam a tua cabeça e o teu coração.
Uma presença às vezes demonstra apenas o interesse de uma certa pessoa, ou um certo mundo, fazerem o exercício comum de mostrar-te a cara, que esteve lá do teu lado, mesmo que não se trisque e acomode-se numa cadeira frontal a ti, desfiando um cofo com algodão em fios, de palavras sem sentido, sem o sentimento verdadeiro de um igual teu.
Existem pessoas sensatas e honestas tamb[em aí pelo mundo, bons contigo e com os outros, pessoas de bom sentimento, pessoas verdadeiras, favoráveis a todos até a si próprios, existem. Tanto que estamos todos nós a procurá-las, por onde passamos. intimamente tu te indagas será essa a pessoa verdadeira. A pessoa com as qualidades que até a mim deixaria orgulhoso? Porque então o mundo está repleto, de solidão. Um apocalipse de água e fogo está à nossa frente. Senão pra quê a correria desenfreada de todos, porque a passagem despercebida dos que estão sendo soqueadas por seus flancos, enquanto correm, e gesticulam e olham desconfiadamente para os lados. Os possíveis itinerários do fogo que limpa os caminhos ou das águas que os tornem mares profundos.
LUGAR VAZIO
Antes de me dizeres quem és,
Me dizes quem eu sou.
Que assim perto de ti
Sempre esqueço o meu nome.
Como fico esquecido do teu.
Nada de importante nisso.
Se é por ti que choro
Se é por mim que amas.
Antes de dizeres meu nome
Varres a casa inteira,
Pode ser que exista outro por aqui.
E poderá ser eu trancafiado
E não me vejo pela escuridão,
Por isso não me sinto,
Vejo os teus dois lados,
Se amassei teu lábio,
Posso até ter saído.
Quando a escuridão chegar e tudo parecer impossível, não desista. Corra atrás. Sempre tem alguém olhando por ti, sempre vai ter alguém querendo o seu bem, alguém que torce por você. Acredite, lute, vá com fé e nada o deterá!
Um bom emprego ou uma promoção pode mudar a sua cabeça, o seu jeito de agir, mas nunca permita, a ambos, mudar o seu caráter.
POEMA DO CÉU
Se eu vier a nascer de novo
Pedirei ao Senhor da vida:
Seja esta a vez da minha morte.
Mandai-me velho,
Com todo o tempo que tive
Deixai-me progressivamente
Eu regressar.
Largai-me cambaleante como uma criança
Nos seus primeiros passos.
Que daí eu desça, remoçando.
Com a carga de tudo o que é meu
Das coisas que vi e fiz.
E siga esquecendo, desaprendendo
Diminuindo ou aumentando.
E que tudo vá se diluindo e consistindo
No olhar atento e sentidos perfeitos de moço.
E que siga esquecendo,
Tudo que lembre dure o tempo de esquecer.
Que a mim seja da beleza
De primeiro ver o crepúsculo
Pra só depois ver a aurora.
Que as estrelas e a lua, eu veja antes
Que a luz ofuscante do sol.
Que as mulheres se surpreendam
Com os beijos que sugarei de suas bocas
Que eu siga de tudo esquecendo...
Que as estações se invertam
Da forma como eu venho vindo e indo.
Que eu veja as águas que não se repetem
Descidas distas dos meus olhos, um dia.
Que as chuvas primeiras sejam as derradeiras
E eu já colha antes de plantar.
Que o meu primeiro presente, uma bola furada
Dê-me a alegria de um menino encantado.
Que eu desça ou suba deslembrando...
Desaprendendo, tendo o sentimento adulto.
Até sentir-me
No regaço de minha mãe
Sugando o colostro,
Que se abram as portas
Por onde entrei e saí
E de tudo esquecido.
A educação é a única arma com a capacidade de construir e reconstruir o mundo.
Levada a sério a educação para todos, estaremos entregando aos que gostam de armas de destruição, uma arma poderosa, capaz de estirpar a burrice e diminuir as desigualdades. Além disso, com excessão da religião, só a educação é capaz de proporcionar a aparoximação, de de modo infinitamente mais proveitoso.
