Retomar uma Amizade
MEU QUINTAL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Uma rede me aguarda no quintal;
numa sombra que a mão até apalpa;
rede não social, por ser só minha,
só aceita o calor de minha pele...
Os calangos procuram meus sinais,
a mangueira não sabe o que dizer,
nem a cobra cipó entre a folhagem
faz menção de saber aonde ando...
Vim ao bairro buscar o que não planto
no meu canto, na terra de arvoredo;
volto logo a compor essa paisagem...
Minha fauna se une à minha flora
nesta hora de ausência inesperada;
meu quintal me requer, pois mora em mim...
ORAÇÃO E FÉ
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Se eu tivesse uma fé que me levasse a orar, jamais teria uma oração decorada. Dessas que todo mundo admira por seus termos corretos, a concordância em dia, o rebuscamento e a total ausência de pleonasmos e vícios. Conheço minha emoção à flor da pele, quando trato de assuntos não materiais; quando caio no campo dos afetos; dos sentimentos ou instintos. Do que não se define pela intelectualidade ou a frieza do conhecimento acadêmico.
É por isso que acredito mais nos fiéis religiosos do que nos líderes, com todos os seus conhecimentos adquiridos em seminários, onde o divino ou sobrenatural vira tese. Torna-se objeto sistemático dos mais rebuscados estudos científicos que buscam explicações pela lógica, sendo que nenhuma lógica explica o que deságua no campo da fé. E a fé, como até eu sei, é o fundamento do que não se vê nem está preso ou sujeito a provas, mas ao livre sentimento e aceitação sincera de cada um.
O verdadeiro conhecimento religioso não é exatamente o conhecimento. Por isso é intuitivo e livre. Quem conhece com o coração, conhece de natureza; de sentimento e percepção profundos. Por isso, conhece mais do que aquele que aprendeu o que julga saber nos bancos da formalidade. Por meio de catedráticos que também aprenderam de outros catedráticos que ao longo dos tempos ou das idades do mundo fizeram da fé uma ciência exata.
Além dos simples de formação, conheço gente de formação acadêmica invejável, mas que tem essência e se mantém no patamar de ser humano comum. Que se reconhece notoriamente, não por palavras, mas por postura, um “perfeito” ignorante confesso dos assuntos que não são de nossa alçada. Conhecem a literatura e a história humana segundo a Bíblia, no entanto sabem que nada sabem além das abordagens, pois a Bíblia não é um tratado que dissecou a natureza, o pensamento e a biologia do possível Deus.
Por isso a minha oração, caso eu fosse religioso, perderia todas as arrotações do meu pretenso saber. Pelo menos pretendo crer que assim seria depois do que já observei do nenhum saber humano sobre o que não há como saber. Ouso crer que só é sincera uma oração submissa; que não sai da mente. Ela é o coração gago numa voz sumida e sem convicção de méritos. Oração é coração. Só falta o c.
DEDO EXTRA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Estou passando por uma... frase difícil. Mas confio no texto de minha vida. Manterei o controle desta história, porque a caneta é minha. É um membro do meu ser... meu dedo existencial. Nada vai amputá-lo de quem sou.
DE UM GRANDE AFETO IMPROVÁVEL
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Quase nunca, mas ocorre uma pessoa ter tanto carinho, amizade – e respeito – por outra, quase sempre de outro gênero, que acabe se permitindo certos desprendimentos e confidências, e com real pureza de propósitos ou intenções. Isso pode ser um problema, se toda essa carga de sentimento e confiança não for correspondida com exatidão pela outra parte. Aí surge aquele pé atrás e vem o distanciamento sem prévio aviso, de quem não está preparado para tanta entrega e tamanha falta de noção resultante da certeza de uma recíproca irrestrita, o que justificaria essa cumplicidade.
Temos que ter freios e filtros, para não sermos tão seguros da igualdade afetiva do outro, pelo menos até que o outro dê sinais relevantes da mesma intensidade; a mesma entrega; os mesmos tons. A coincidência do exato afeto raro na extremidade oposta é ainda mais rara do que o próprio afeto. Poucos indivíduos têm estrutura para viver algo tão delicado, belo e ao mesmo tempo tão fácil de ser confundido na linha tênue que o separa do abuso. É compreensivelmente normal que tanta gente se arme contra sentimentos tão improváveis – e suas manifestações tão peculiares –, pela natureza misteriosa dessa raridade. De fato, muitas pessoas fingem essa pureza de alma e coração, para cometerem dissimuladamente certas improbidades pseudo-afetivas.
Finalmente aprendi que o encontro de duas almas tão similares e alheias a desejos comuns é um grande acontecimento. Mas temos que ter bom senso, muito critério e profunda observação do outro, para termos certeza de que o encontro é incontestável. Não sendo o caso, as nossas demonstrações intensas de amizade extrema podem gerar temor, conflito, aversão e, às vezes, alguma medida radical. Tenhamos inteira consciência da sociedade na qual vivemos, e sendo assim, respeitemos completamente o direito alheio à não recíproca ou à relutância em relação ao caráter de nossa entrega.
Sobretudo, saibamos reconhecer o equívoco de nossas expectativas e identificar a hora de retirar os excessos... tornar comum o que é especial... tirar do plano superior o que nutrimos sozinhos e assumir uma relação como qualquer outra. É inconcebível que o ser humano desperdice comida, tempo e afeto.
PERDÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Raivoso e no auge de uma discussão, chamei o indivíduo de cão sarnento. Gritei, mesmo, em alto e inequívoco som: “Seu cão sarnento! Seu cão sarnento!”. Ele se assustou com a minha ira e se foi. Achou melhor não continuar ali, destilando aquela ironia que me deixara transfigurado. Adivinhou meu próximo passo, que seria fazer com ele o que meninos malvados fazem com os cães sarnentos que proliferam nos subúrbios.
Mas devo confessar que, passado aquele momento refleti. Comecei a sentir um remorso imenso do que fizera. Da ofensa impensada e descabida que tanta gente nem acreditou ouvir da boca de uma pessoa que sempre tenta ser tão serena, reflexiva, social e até ecologicamente correta. Cheguei à conclusão de que fora intempestivo, cruel, truculento e desumano em meu xingamento, especialmente pela comparação que fiz.
Não demorei a vencer o brio e fazer o que era certo. Fui pedir perdão. Não tinha ideia de como seria recebido, mas fui lá. Vesti a coragem de ser humilde, assumi o risco de ser humilhado, abri meu coração e parti para o desafio às cegas. Um desafio que terminaria espantosamente bem, porque fui recebido como se nada houvera. Como se eu nunca tivesse gritado aquelas ofensas que ainda ecoavam em minha mente.
Meu alívio foi total. Tirei das costas um peso que não podia levar por longo tempo. Minha consciência me condenava duramente. Eu mesmo já me punia. Não conseguia me perdoar pelo comportamento insano. Fui surpreendido com uma lição de humildade, ao ser acolhido com afeto. Não precisei me humilhar para ser perdoado. A comunidade canina, muito melhor do que o ser humano, já me perdoara no ato da ofensa.
VALE VIDA
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Uma vida só vale seu tempo cumprido
entre sonhos, ações, utopias, verdades,
o cupido, as paixões, desafios aceitos
e as quedas seguidas de novos perigos...
Não há mundo que valha um só giro no espaço
se não for pra causar as vertigens de praxe,
pra borrar nossa guache, nossas aquarelas,
nos fazer insistir e pintar outros quadros...
Todo tempo se cumpre com horas feridas,
porque vidas precisam afrontar a morte
ou serão evasivas; vazias de causa...
Vale a pena viver sem certeza e promessa,
sem a peça que sempre nos falta encaixar
e assim desfazemos pra fazer de novo...
LETRA NOVA PARA UMA VELHA CANÇÃO
Demétrio Sena, Magé – RJ.
É tanto pranto
para chorar,
que é como ter
um mar em mim...
Guardo as águas
de muitas mágoas;
dor sem fim.
Em minha estrada
sem horizonte,
não acho ponte
pra outro amor...
Morro aos poucos,
na solidão
dessa dor.
Estou sem céu,
sem lua, estrelas,
meu caminhar
é infinito...
Abafo angústias
e meu silêncio
devora o grito.
Nem mais espero
a quem amar
como te amei
num tempo findo...
Já não vivo,
percebo apenas
que vou indo.
Agora eu sei,
não há no mundo
um sentimento
mais denso e fundo...
Este amor
é minha sorte;
vida e morte.
VOLTANDO A CHORAR
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Passei muitos anos sem chorar. Sem verter uma lágrima; fosse de alegria, tristeza, dor. Era um ser humano impassível por fora. Cheio de sentimentos; ressentimentos; emoções contraditórias; porém, sem pranto.
Quando minha mãe morreu, a maior dor que já senti foi também minha cura. Rachaduras imensas se abriram dentro de mim, para que o Velho Chico acumulado em minh´alma entornasse todo. Fiquei surpreso comigo, ao recuperar a capacidade perdida. Sabia que não me tornara desumano, mas criara uma casca bruta, grossa e destruidora para o meu ser, que definhava dentro do corpo.
Naquele momento, eu chorava copiosamente pela mãe que tanto fiz chorar quando saí de casa. Quando fui conhecer o mundo e a fiz andar por longo tempo em meu encalço, numa luta insana para me acompanhar sem ser percebida. Para saber com quem eu andava. Quem me acolhia e dava guarida. Sobretudo, para não me perder de vista e ao mesmo tempo não negligenciar meus oito irmãos.
Chorar a morte de minha mãe foi reencontrar minha humanidade. Fazer voltar ao âmago meu eu perdido. Esquecido entre os escombros da primeira infância triste, reprimida e de violência paterna, que depois virou abandono paterno e obrigou a todos nós – meus irmãos, nossa mãe e eu – lutar com unhas e dentes contra um mundo que não nos deu moleza. Uma vida que nos testou muito além dos limites.
Mas vencemos. Foram muitos anos, e muita gente pensou que não sobreviveríamos, mas vencemos.
E a minha mãe – nossa mãe Maria de nove santos demônios revoltados por todos aqueles anos de muitas privações e quase nenhuma esperança – nunca esmoreceu. Nós os filhos, muitas vezes esmorecemos; porém ela juntou filhos, mundo e vida, carregou a todos nas costas, no colo e no coração, sempre que os nossos passos cederam ao peso de uma realidade que fechava todos os horizontes.
Depois que minha mãe morreu virei manteiga derretida. Não por coisas grandiosas nem emoções criadas para fazer chorar, mas por sutilezas. Delicadezas entranhadas nas brutalidades do mundo e percebidas por mim, que aprendi a percebê-las. Vira e mexe um acontecimento sutil, de significado ou ressignificado discreto me arranca lágrimas também discretas, e às vezes, até nem tão discretas.
Mesmo na hora da morte, minha mãe fez algo tamanho por mim. Ela me curou de não chorar. Devolveu minha percepção emocional. Fez-me rever a vida pelo prisma da simplicidade, o valor do afeto, a beleza em nuances e o quanto precisamos uns dos outros, quer sejamos família, familiares, amigos, colegas, vizinhos e até conhecidos de nos cruzarmos nas ruas em direção à padaria.
Só tive, pela vida inteira, motivos para ser grato à nossa mãe. E à vida, com todas as pedras no caminho, por todos nós, os nove, sermos cheios de graça, porque somos filhos de Maria... de Maria do Mundo.
EXPRESSO 666
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Há um Cristo forjado entre seres de bem;
uma crista que aguça exaltações febris;
um além prometido pra este momento
em que todos precisam de alguma miragem...
Multidões enaltecem a lenda fugaz;
bradam raivas ungidas, fanatismo pátrio;
pregam paz e guerreiam redundantemente,
por efeito maciço de alguma hipnose...
Um rebanho tangido por gritos de ordem;
umas tristes ovelhas alegres de tontas;
todas prontas pro dia de seus holocaustos...
São regidas por ódio e por frases sagradas,
vão marcadas pra terem uns dias de glória
e depois amargaram seus anos de culpa...
APELOS MODESTOS
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Quem tiver um amor sobrando aê,
uma sobra de afeto – qualquer um,
qualquer prisma, soslaio dum olhar,
venha ver quanto bem lhe faço em troca...
Serei grato por gestos e palavras,
por afagos discretos nos cabelos,
minha lavra de sonhos e carências
tem apelos modestos e sutis...
Eu aceito até beijo em minha testa;
faço festa por mão mais generosa
e não vou exigir além da conta...
Tenho tempo; quem sabe lhe seduzo,
mas me privo de abuso e peço aê,
sua esmola de afeto inicial...
PROMISSÓRIA DO MUNDO
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Uma voz me convoca pra onde não sei,
cada dia mais perto baforeja n´alma;
feito lei que se cumpre com termo de busca;
faz arresto e me cobra os impostos do tempo...
É a voz da ciência do que já vivi
ou dos passos que o mundo permitiu aos pés,
do que vi desta vida e fiz dos meus caminhos
e me dei de presente para ter futuro...
Lentamente o passado processa meu ser,
porque ser o que fui com tal fome voraz
o feriu tão a fundo pela consistência...
Promissória do mundo estendida sem dó;
uma só dentre as notas desta não canção
do silêncio da voz que fala e cala em mim...
UM QUASE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
És a minha pendência mais remota,
uma vaga na fila dos meus anos,
minha nota mais tênue de pesar
por um belo momento não vivido...
Mesmo assim és lembrança terna e grata,
porque tive paixão correspondida,
mas a vida mostrava o julgamento
pelo qual não seríamos poupados...
Há um quase que ainda me consola,
um luar que preserva sua fase
neste sonho que sabe o quanto é sonho...
A minh´alma transporta nostalgia
desse dia que as noites perpetuam
semeando saudades do futuro...
SEM PINGO NO I
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Uma vida em conserva não serve pra mim;
sempre fui a varejo; fora do pacote;
um caminho sem fim, sem atalho pra outros
não é mote pro sonho que levo comigo...
Há um mundo em redor e preciso entendê-lo,
percorrer o que os olhos alcançam daqui,
pois o gelo da espera sobre as esperanças
é um pingo no i que se perde no mar...
Ser feliz no caixote não faz o meu tipo;
quem me planta não colhe, pois o vento extrai;
sou a folha que vai, ao sabor do que vem...
Sempre volto, mas venho pelas minhas asas,
Tenho casas no espaço e são todas de ar;
um amor só me prende se me libertar...
DESPEDIDA
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Minha ida excessiva merece uma vinda;
eu exclamo demais, pra ter só reticências;
esta voz mal consegue tocar teu silêncio
pra dizer como és linda e furtar um sorriso...
Mas não posso viver dessa esmola diária
nem bater a carteira da tua nobreza,
quando minha pobreza de fundo afetivo
não encontra mais trunfo pra ter atenção...
Meu ainda não soube despertar teu já,
pois entrego sem fim, sem jamais receber,
a não ser que provoque algum descuido em ti...
Eu te fiz majestade que já não alcanço,
porque danço em excesso e nem há melodia,
se tu és fantasia que não dá em mim...
CAMINHOS DO AMOR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Uma troca de opostos e recusas
que se aceitam no vão das oponências,
desafiam dormências e silêncios
latejantes na sombra do querer...
O amor das impossibilidades,
dos carinhos com farpas e faíscas,
com verdades que tentam se ferir
em um ringue de abraços disfarçados...
Eis o ponto em que nossas diferenças
podem ter semelhanças decisivas,
fontes vivas de sonhos em comum...
Descaminhos se cruzam no vazio
e vazios preenchem um ao outro,
sobre o fio que logo será ponte...
REFLOR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Um amor vem distante; já consigo ver;
uma brisa me beija e fica seu aroma;
minha soma de vidas revela o que sinto,
já no broto que mama no seio do tempo...
A minh'alma grisalha teme o verde amor,
um orvalho me cobre de sonhos dormentes,
vejo dentes-de-leite na boca do espaço
e a flor dos anseios está no botão...
Mas também me conheço e me vejo sofrer
até ver que o que tenho são muitas lembranças
e serão de saudades as outras vivências...
Quanto menos tiver pra recordar no fim
será menos em mim pra secar e ruir
ou morrer de morrer de sentir novas dores...
VERBO COISAR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Uma coisa que dá no que não dá pra ver,
que se sente sentir quando menos se sente,
vem pra mente, passeia pelo coração,
volta e volta fugindo até da própria fuga...
Um sentido que faz pro que não faz sentido;
desnorteia e dá norte pra desnortear;
é pedido negado que o instinto atende,
esse ter e não ter que se toma emprestado...
Ora finge que finge o que de fato é fato,
o boato é concreto no abstrato em si,
no seu pingo no i que maiúsculo é sem...
Quando a gente se coisa é a coisa mais linda;
se ainda não sei do que chamar a chama,
só me chama e me atende, quando eu te chamar...
A MESMA PESSOA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quero em cada pessoa, realmente uma;
não importa o momento que atravesse agora,
seu outrora, o futuro que faz cara incerta
ou a mágoa recente (que não provoquei)...
Venha triste ou feliz, mas a mesma pessoa
no sorrir, no chorar e dizer o que dói,
na peleja e na loa, seja enferma ou sã,
caçarei o seu eu nos desvãos de su'alma...
Prezo cada verdade como veio a mim;
não as formas diversas, as conveniências,
a má fé ou doença do próprio caráter...
Vejo em todos os seres o que se mostrou
nos instantes da faixa de apresentação
e do show na versão que se vendeu pra mim...
AS NATUREZAS OPOSTAS DO PERDÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quem não cobra uma dívida; não se vinga de alguém que lhe fez mal... quem finge não entender ofensas, desfeitas e desconfianças; deixa para lá o desprezo, a injustiça e a preferência que o preterem, este sim, perdoa... mesmo que não fale manso, não se forje contrito e não sorria ou abrace a contragosto, por mandamento e promessa divina.
Muitas vezes, o perdão se faz acompanhar de reaproximação e festejo; regozijo e 'reconfiança'... mas tantas outras, de uma cautela que o bom senso recomenda, para que outro evento indesejado não torne tudo ainda mais grave que antes do perdão. Isso varia de perdoado a perdoado; de perdoador a perdoador, com os seus temperamentos e as previsões baseadas em alguma reincidência, por exemplo.
Também tenhamos cuidado com a seguinte hipocrisia: acharmos perdoável quem queremos perdoar ou que alguém perdoe, mas acharmos imperdoável quem não conseguimos nem aceitamos que o outro perdoe. É nesse ponto que o perdão perde a idoneidade, por se tornar seletivo e camuflar seus conflitos de interesses.
Tudo soma-se ao fato inquestionável que nossas asas são de cera... elas se derretem ao calor de momentos e não as recompomos com facilidade. Somos inapelavelmente humanos, por mais santos que pretendamos ser aos olhos de quem nos interessa por motivos nem sempre relevantes.
VENDILHÕES DO PRÓXIMO
Demétrio Sena - Magé
Com uma trajetória marcada pelo amor, a humildade, o perdão e todo bem que fazia sem exigir nada em troca, Jesus Cristo ficou furioso apenas uma vez. Esse não era o seu normal... foi um destempero do Jesus humano, que nunca se repetiu. Ele mesmo deve ter se repreendido por perder a cabeça e agredir pessoas, ainda que por motivo compreensível.
Os cristãos raivosos e truculentos em razão de um projeto politicopartidário de poder, de uma série de preconceitos injustificáveis e do fanatismo que há muito deixou de ser apenas por questões religiosas (o que já era ruim) adoram citar o Cristo destemperado e agressivo, quando impõem seus pontos de vista extremos e radicais... quando querem ser obedecidos e ostentar comando... e isso não tem nada a ver com vendilhões do templo, pois eles próprios são vendilhões, entreguistas e negociadores inveterados da própria fé.
Esses mesmos cristãos dizem, constrangidos, que Deus É Amor, mas rasgam a boca para gritar que Ele também É Fogo Consumidor... fogo! Ira! Raiva! Destruição, castigo, pragas do Egito! Josué e seus homens invadindo cidades e dizimando seres humanos! Davi decapitando Golias após matá-lo! Sodoma e Gomorra em chamas, a humanidade afogada no dilúvio... guerras... monstros do apocalipse, o caos. Deus não Serve, depois de mandar o filho à terra em missão de paz, com palavras e práticas de amor... sem espadas e varapaus... e sem as Marias Madalenas apedrejadas.
O evangelho dos Cristãos de hoje não é o de Cristo. Cristo é cheio de mimimi, para os que abarrotam templos com suas manias de grandeza... seus espíritos extremistas de políticos e lacaios da repressão e da ditadura. Usam a figura de Cristo, por ele já não estar aqui para repreender sua truculência e má fé. Para tais cristãos, Cristo bom é Cristo morto.
- Relacionados
- Textos de amizade para honrar quem está sempre do seu lado
- Versos de Amizade
- Frases de Amizade
- 72 frases de amigos que reforçam o valor da amizade
- Mensagens de amizade para valorizar e celebrar quem sempre está ao seu lado
- Frases de carinho e amizade para expressar gratidão e afeto
- Cartas de Amizade
