Reflexão de Passado

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Apegos ao passado criam grilhões invisíveis. O desapego é a chave da liberdade.

Carta IV — A Solidão: Reflexão sobre a solidão e o tempo


Mais oito anos haviam se passado, e as rugas no meu rosto tornavam-se evidentes; os meus ossos perdiam cada vez mais a força; o tempo revelava-me o cansaço. A solidão sufocava-me como espinhos na garganta; os meus lábios secaram como um rio sem água; a sede matava-me aos poucos.


Já não havia urina no meu organismo. Tentei beber as minhas próprias lágrimas, mas também secaram. Os ratos já não me alimentavam; agora alimentavam-se da minha carne. Meus cabelos caíam sozinhos como folhas de uma árvore, e a minha pele amolecia como mingau. Os meus olhos enchiam-se de fadiga; sofria de insónia. O corpo produziu bactérias que me corroíam por dentro.
Quis suicidar-me, mas não encontrava forças para fazê-lo. Já não restou dedo algum nas minhas mãos: devorei-os todos para terminar de vos escrever esta carta.


O fundo das paredes oferecia um profundo silêncio. Ainda assim, era meu desejo voltar a ouvir, só mais uma vez, o grito alegre das crianças na aldeia de Kandembe; o canto dos pássaros na floresta de Mayombe; o canto do galo nas madrugadas; o sorriso das senhoras quitandeiras no mercado de Kalukembe.


Infelizmente não pude concretizar esse desejo. As correntes no meu pescoço e as grades que me prendem não me permitem realizá-lo. Aliás, já não me resta muito tempo. A solidão tornou-se um vício que se alimentava da minha penúria e dos traumas da minha lembrança. Quanto mais próximo dela eu me encontrava, mais perto me sentia da morte.


Talvez…


Será que devo arrepender-me das minhas escolhas?
Será que fui ingénuo ao preservar os meus ideais?
Será este o preço a pagar por ser diferente deles?


De que vale estar livre do calabouço, se lá fora continuarei a ser escravo?
De que adianta recuperar a voz, se lá fora me haverão de retirá-la?
De que vale livrar-me destas correntes, se lá fora existirão outras algemas à minha espera?


Aqui, ao menos, ainda posso falar, pensar alto e questionar.

E lá fora?


Não me haverão de censurar por pensar?
Não me haverão de açoitar por falar?
Não me irão condenar por contestar?
Não me irão matar por questionar?


A dúvida, o ceticismo e o remorso ganharam espaço na minha mente e no meu coração.


Tentei conversar com as paredes, mas elas não possuíam ouvidos. Procurei perguntar aos espíritos daquela masmorra, mas já haviam partido. As caveiras ao meu redor exigiam silêncio. E as únicas coisas que ainda podiam dialogar comigo eram a morte e a solidão.

Tudo mudou. O passado tão concreto se desfez. Os amores mais recíprocos, se perdem com o caminhar do tempo. Nada é o que já foi.
- Marcela Lobato

O passado não é um lugar de permanência, mas o prefácio necessário para a história que começamos a escrever hoje.
Reno Fioraso

Escravo é quem se prende ao passado e à própria ignorância, incapaz de viver o presente e de extrair qualquer prazer das lembranças que o aprisionam.

Reconhecer e honrar a ancestralidade não é carregar um peso, nem idealizar o passado. É aceitar o que foi, como foi e, a partir disso, florescer com inteireza, autenticidade e liberdade.

Um passado pecaminoso, as vezes pode se tornar uma prisão para os que vivem nele.
O presente sempre vem mostrando a chave de como sair desse lugar.
E o futuro? Bem esse vai depender do quanto você buscou a chave para ser libertado.

“O passado, por vezes, bate à porta para nos confrontar. Acolha-o com gentileza: ele ignora as tempestades que você atravessou para permanecer de pé no agora.” - Leonardo Azevedo.

“A serenidade nasce quando o futuro deixa de ser ameaça e o passado deixa de ser prisão.” - Leonardo Azevedo.

“Quem reage com raiva ao presente frequentemente responde, na verdade, a feridas do passado.” - Leonardo Azevedo.

⁠“Refletir sobre o passado vivido, o presente em movimento e os propósitos que desenhamos para o futuro é exercício de consciência e intenção. A razão que nos habita não nos permite entregar tudo ao acaso.”

⁠Temos como prática rotineira olhar apenas para as coisas do passado, ou para aquilo que está bem próximo a nós, e a prestar atenção apenas no que acontece no dia de hoje. Porém, é necessário que aprendamos a olhar mais adiante, observando com cautela o caminho que estamos percorrendo, para que possamos evitar os problemas que poderão sobrevir sobre nós e transpor os obstáculos que, porventura, surgirão, ou até mesmo evitá-los, escolhendo uma rota alternativa. Como diz um conhecido provérbio: "Quem muito olha para trás, acaba tropeçando. É para a frente que se olha, que se anda e que se vive!"

O passado não define, o presente ressignifica.

Penso demais no passado. Talvez porque o passado seja o único lugar onde ainda tentamos encontrar respostas para aquilo que já nos feriu. E enquanto o futuro chega devagar, eu fico presa nesse intervalo entre o que aconteceu e o que ainda pode acontecer.

Vejo-me novamente a contemplar um passado de um estado anímico irrepetível para mim; em que se torna improvável voltar a ignorar aquilo que as palas dos meus olhos cobriam.

A ontologia do ser, o humano em demasia, ecoam numa mente que só sabia viver. Mente essa que aprendeu a viver antes de entender o que é estar vivo.

No presente há sempre algo do passado, porque o que foi bem vivido nunca será esquecido.

Lembre-se nada é mais valioso do que o tempo investido naquilo que mais importa.
O passado ficou na lembrança.
O futuro é incerto.
Más o presente, esse sim é onde podemos fazer tudo acontecer.
⁠

O passado se revê, o presente se escreve; o futuro talvez nem nos dê palco.

⁠O mundo precisa
Saber a verdade
Passado não volta, futuro não temos e o hoje não acabou
Por isso ame mais, abrace mais
Pois não sabemos quanto tempo temos pra respirar
Fale mais, ouça mais
Vale a pena lembrar que a vida é curta demais

Quando você acorda: o passado — seu futuro e presente que começam a dormir.