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A HUMILDADE DA RAZÃO DIANTE DO INFINITO
REFLEXÕES SOBRE A INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA.
VII
O Livro dos Espíritos — Allan Kardec.
Marcelo Caetano Monteiro.
Na sétima parte da Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita, Allan Kardec apresenta uma das mais profundas advertências filosóficas e morais de sua obra: a necessidade da humildade intelectual diante dos grandes enigmas da existência.
O Codificador não combate a razão; ao contrário, ele a coloca como instrumento indispensável para a investigação da verdade. Porém, demonstra que a razão, quando afastada da prudência e dominada pelo orgulho, transforma-se em obstáculo ao progresso do conhecimento.
A frase inicial possui uma força extraordinária:
“O homem que julga infalível a sua razão está bem perto do erro.”
Kardec revela um paradoxo essencial: quanto mais o homem acredita possuir a verdade absoluta, mais distante pode estar dela. A verdadeira inteligência não se manifesta pela arrogância de afirmar que nada mais existe além do que já se conhece, mas pela capacidade de reconhecer os limites temporários do próprio entendimento.
A história da humanidade confirma essa reflexão. Muitas descobertas que hoje são consideradas fundamentais foram inicialmente rejeitadas porque ultrapassavam os conceitos estabelecidos de determinada época. O desconhecido frequentemente causa resistência, pois obriga o pensamento a abandonar antigas estruturas e abrir espaço para novas perspectivas.
Kardec recorda:
“Mesmo aqueles cujas ideias são as mais falsas se apoiam na sua própria razão...”
Essa observação possui profundo valor psicológico. O erro raramente se apresenta como erro aos olhos daquele que o sustenta. O indivíduo equivocado normalmente encontra justificativas internas para suas convicções. A razão, quando utilizada sem humildade, pode tornar-se uma ferramenta para defender preconceitos, e não para buscar a verdade.
A razão verdadeira não é aquela que simplesmente confirma nossas opiniões; é aquela que possui coragem para examiná-las.
A RAZÃO COMO LUZ, NÃO COMO ÍDOLO.
A Doutrina Espírita estabelece uma relação equilibrada entre fé e razão. Kardec não propõe uma crença cega, mas uma fé raciocinada, capaz de enfrentar o exame da consciência e da inteligência.
Entretanto, ele alerta para um perigo: transformar a própria capacidade intelectual em uma espécie de autoridade absoluta.
Quando alguém declara, consciente ou inconscientemente:
"Aquilo que não compreendo não pode existir",
está colocando o próprio conhecimento limitado como medida do universo.
Essa postura revela uma inversão filosófica: o homem deixa de investigar a realidade e passa a exigir que a realidade se limite ao seu entendimento.
A natureza, porém, é infinitamente maior do que qualquer concepção humana.
O sábio reconhece:
que conhece algumas verdades;
que ignora muitas outras;
que o progresso depende da constante ampliação do saber.
O ORGULHO DISFARÇADO DE RACIONALIDADE.
Um dos pontos mais contundentes do texto é a afirmação:
“O que se chama razão não é muitas vezes senão orgulho disfarçado.”
Kardec identifica um fenômeno moral: algumas pessoas utilizam argumentos racionais não para encontrar a verdade, mas para proteger suas próprias certezas.
A razão iluminada pela humildade conduz ao progresso.
A razão dominada pelo orgulho conduz à estagnação.
O orgulho intelectual pode ser mais difícil de perceber do que o orgulho comum, porque frequentemente se apresenta com aparência de superioridade lógica. O indivíduo acredita estar defendendo a inteligência, quando, na realidade, está apenas defendendo suas limitações.
A CIÊNCIA E O PROGRESSO HUMANO.
Kardec utiliza a própria história das descobertas humanas como exemplo.
Muitos conhecimentos hoje aceitos foram considerados absurdos no passado. Ideias sobre astronomia, medicina, física e diversas áreas foram rejeitadas porque ultrapassavam a compreensão vigente.
A humanidade evolui justamente porque alguns homens tiveram coragem de ultrapassar fronteiras estabelecidas.
O passado ensina que o impossível de uma época pode tornar-se a realidade de outra.
Por isso Kardec dirige sua mensagem aos homens ponderados:
“Aos que são suficientemente ponderados para duvidar do que não viram...”
Essa dúvida não é incredulidade negativa; é prudência investigativa.
O espírita, segundo Kardec, não deve aceitar tudo sem análise, mas também não deve rejeitar aquilo que desconhece apenas porque ainda não possui compreensão completa.
A atitude correta é a pesquisa sincera.
O HOMEM NÃO CHEGOU AO APOGEU DO CONHECIMENTO.
Outro ensinamento fundamental encontra-se nesta passagem:
“Não creem que o homem haja chegado ao apogeu nem que a natureza lhe tenha facultado ler a última página do seu livro.”
Essa frase possui uma dimensão filosófica profunda.
Kardec convida o ser humano a abandonar a ilusão de completude. A humanidade está em constante desenvolvimento. O conhecimento é uma construção progressiva.
Assim como uma criança não compreende os pensamentos de um adulto, o espírito humano, em sua jornada evolutiva, ainda possui muito a aprender diante da vastidão universal.
Na perspectiva espírita, o progresso intelectual acompanha o progresso moral. A verdadeira sabedoria não está apenas em acumular conhecimentos, mas em desenvolver virtudes como:
humildade;
tolerância;
prudência;
amor à verdade.
A ADVERTÊNCIA DE KARDEC AOS ESPÍRITAS.
Este trecho da introdução também é um chamado direto aos estudiosos do Espiritismo.
O espírita não deve assumir uma postura de superioridade perante os demais, pois o conhecimento espiritual exige ainda mais responsabilidade.
A Doutrina Espírita não deve ser utilizada como instrumento de vaidade, mas como caminho de transformação moral.
O verdadeiro espírita é aquele que compreende que:
a verdade pertence a Deus, não ao homem;
o conhecimento é uma conquista gradual;
toda revelação deve ser examinada com equilíbrio;
a inteligência deve caminhar junto com a caridade.
Aquele que conhece a Doutrina e permanece dominado pelo orgulho ainda não compreendeu sua essência.
CONCLUSÃO.
Na Introdução VII de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec oferece uma das maiores lições de filosofia espiritual: a inteligência humana é uma ferramenta sublime, mas não deve transformar-se em soberana absoluta.
A razão é uma luz; porém, quando o orgulho cobre essa luz, ela deixa de iluminar e passa a criar sombras.
O progresso espiritual exige uma atitude permanente de abertura diante do infinito. O homem sábio não é aquele que afirma conhecer tudo, mas aquele que possui humildade suficiente para continuar aprendendo.
Como princípio fundamental, permanece a advertência de Kardec:
Aquele que acredita possuir a última palavra sobre todas as coisas fecha as portas para o próprio progresso. Aquele que reconhece seus limites abre-se para a verdade.
FONTES:
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita — Item VII. 1857.
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo VII — “Bem-aventurados os pobres de espírito”. 1864.
KARDEC, Allan. A Gênese. Capítulo I — “Caráter da Revelação Espírita”. 1868.
KARDEC, Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Diversos artigos sobre razão, progresso e conhecimento espiritual. 1858–1869.
Na ausência da opção óbvia, torno qualquer alternativa simplesmente irresistível.
A felicidade n seria uma invenção?
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O Triunfo Silencioso do Amor sobre o Orgulho.
Vencer o orgulho diante daqueles que nos são indiferentes é mais do que um gesto moral — é uma conquista íntima. O orgulho não se manifesta apenas na oposição direta ou no ressentimento contra quem nos fere; ele também se oculta na frieza, na indiferença e no desprezo pelo convívio humano.
Allan Kardec adverte em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo IX, item 6, que “o orgulho é o sentimento que mais separa os homens uns dos outros”. A indiferença, que parece apenas um silêncio social, é, na realidade, um muro invisível erguido pelo orgulho contra o dever de fraternidade.
A psicologia espiritualista nos mostra que o silêncio não é apenas ausência de palavras, mas pode ser também a ausência de reconhecimento e de afeto, capaz de ferir tanto quanto o conflito aberto. Joana de Ângelis lembra em O Homem Integral que a indiferença cria estados de “desconexão afetiva”, afastando consciências umas das outras e impedindo a solidariedade de se firmar.
No convívio social, mesmo quando nos sentimos tentados a ignorar aqueles que nos parecem indiferentes ou irrelevantes, somos convidados à lição do Cristo: “O que quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles” (Mateus, 7:12). Assim, o triunfo não está em ter razão ou em manter distâncias, mas em silenciar o orgulho e estender, mesmo sem palavras, uma atitude de amor.
Em O Livro dos Espíritos, questão 766, Kardec pergunta: “O homem, procurando a sociedade, não faz mais do que obedecer a um sentimento pessoal ou há, nesse sentimento, um objetivo providencial de ordem geral?” A resposta é clara: “O homem deve progredir. Sozinho não o pode, porque não dispõe de todas as faculdades; falta-lhe o contato com os outros homens.” Eis a confirmação de que o convívio social é indispensável ao nosso triunfo moral.
O silêncio do orgulho isola, mas o silêncio do amor edifica. A vitória verdadeira não está em afastar-se dos indiferentes, mas em transformar o próprio coração em ponto de encontro.
Conclusão:
Triunfar sobre o orgulho é aprender a amar em silêncio, onde a palavra não chega e onde o gesto simples de fraternidade se torna um evangelho vivo.
O milagre não é absurdo porque está além da nossa explicação; ele é extraordinário justamente porque está além do curso ordinário da natureza.”
Tentar medir um milagre com uma régua humana é um contrassenso.
A Bíblia é uma revelação de milagres. Se aceitamos que Deus criou a física, também aceitamos que Ele pode suspender ou moldar a física quando quer, seja fazendo um machado flutuar na água, suspendendo o sol no céu ou sustentando a vida na arca. Tentar reduzir a ação de um Deus infinito à limitação da lógica humana é tirar o próprio Deus da equação.
Ternura e Atrevimento — A Venustidade de um Anjo numa simples Arte
Numa soma de alguns traços, cores e textura, vejo uma linda mulher, um anjo de belas curvas; a sincera expressão do seu belo rosto está impaciente — impaciência típica de quem já esperou o suficiente.
Pois consistente é a sua intensidade, faz valer cada segundo do seu tempo. A sua ternura é evidente, mas não deve ser confundida com ingenuidade. Apimenta instintos e sentimentos; adoça notavelmente a realidade.
Atrevimento e simplicidade se misturam naquela arte singela e tão expressiva — um ser angelical na forma de uma venustidade doce e atrevida, de muita personalidade —, uma emoção farta de uma inspiração viva na sua totalidade.
Eu sou o que penso,
pensei em ser o super homem,
e voei mesmo sem capa para voar,
na minha mente eu vou pra qualquer lugar,
sou de aço, tenho poder, sou de outro planeta,
mas a criptonita que me deixa fraco,
é o desprezo que existe no seu olhar!
Os olhos e os pés voltados para frente nos ensinam que não devemos condicionar as nossas vidas ao passado.
Pense nisto.
*O RELÓGIO QUE VOLTOU A ANDAR*
A chuva começou antes do almoço e, por algum motivo, resolveu ficar.
Não era uma chuva forte. Era pior. Daquelas que molham a cidade por horas sem produzir nenhum acontecimento digno de nota. O céu baixo, as janelas fechadas, o frio entrando pelas frestas. Um dia feito para não sair de casa.
Meu bourbon tinha acabado na noite anterior.
Considerei sair para comprar outra garrafa. Cheguei a procurar as chaves. Depois olhei pela janela e achei que morrer de frio por uma garrafa de bourbon seria uma maneira muito idiota de continuar vivo.
Deixei as chaves sobre a mesa.
Foi quando a energia acabou.
A casa ficou quieta de uma maneira diferente. A geladeira parou, o computador apagou, o relógio da cozinha perdeu os números vermelhos. Até a chuva pareceu mais próxima.
Acendi uma vela.
O cheiro da parafina tomou conta da sala quase imediatamente. Nunca entendi por que velas têm cheiro de coisa velha. Talvez porque geralmente só as acendemos quando alguma coisa deu errado.
O gato apareceu no corredor, olhou para a vela e depois para mim.
— Não fui eu.
Ele ficou me olhando mais alguns segundos.
Talvez estivesse tentando decidir se acreditava.
Ou talvez estivesse apenas esperando a hora da comida.
Abri uma das caixas empilhadas no armário.
Eu vinha adiando aquilo havia meses. Dentro havia documentos antigos, fotografias, recibos, cartas, cartões de visita de gente que provavelmente já tinha mudado de telefone três vezes ou morrido. Era impressionante a quantidade de papel necessária para provar que uma pessoa existiu.
Comecei pelos documentos.
Certidões.
Contratos.
Papéis de bancos que já nem existem.
Depois encontrei fotografias.
Uma delas me pegou desprevenido.
Eu estava mais jovem, numa praia que não reconheci de imediato. Havia outras pessoas na fotografia. Algumas eu lembrava. Outras não.
Fiquei olhando meu próprio rosto durante um tempo.
Não gostei muito do sujeito.
Parecia confiante.
Isso me incomodou.
Eu não me lembrava de ter sido tão confiante.
Talvez eu apenas tivesse aprendido a posar.
Continuei remexendo na caixa.
Encontrei um relógio de pulso.
Eu o reconheci.
Era meu.
Coloquei-o sobre a mesa.
O relógio estava parado havia anos. A pulseira estava ressecada e o vidro tinha um risco atravessando o mostrador.
Aproximei-o do ouvido.
Nada.
Era estranho escutar o silêncio de um relógio.
Pensei em quantas coisas param sem que ninguém perceba.
Depois achei a velha chave de dar corda.
Ainda estava junto dele.
Dei algumas voltas.
O ponteiro dos segundos começou a andar.
Tic.
Tic.
Tic.
O gato levantou a cabeça.
Olhou para o relógio.
Depois voltou a deitar.
Eu ri sozinho.
Aquele animal tinha um talento irritante para não se impressionar com as coisas certas.
Fiquei sentado no chão, cercado por fotografias e papéis.
Foi aí que percebi que eu tinha passado boa parte da vida tentando guardar provas de que certas coisas aconteceram.
Fotografias para lembrar de pessoas.
Documentos para provar acontecimentos.
Cartas para conservar frases que alguém havia escrito quando ainda queria que eu as conservasse.
Como se a memória fosse uma repartição pública e, sem carimbo, nada tivesse validade.
Peguei uma fotografia.
Naquela época eu ainda achava que tinha tempo.
Não muito.
Mas algum.
É uma diferença importante.
A gente não percebe quando passa a contar a vida de outro jeito. Primeiro pensa em anos. Depois começa a pensar em coisas que ainda dá para fazer. Depois em coisas que talvez não valha mais a pena fazer.
E então surgem os pequenos acordos.
Não vou hoje.
Amanhã eu vejo.
Depois eu compro.
Depois eu telefono.
Depois eu arrumo.
Depois eu saio.
Depois.
Essa palavra tem uma capacidade impressionante de ocupar uma vida inteira.
O relógio continuava fazendo seu trabalho sobre a mesa.
Eu não.
Pelo menos naquele momento.
Eu estava sentado no chão de uma sala fria, com fome, sem bourbon, ouvindo a chuva e um relógio que eu tinha esquecido que existia.
O gato levantou, atravessou a sala e parou diante da janela.
Ficou ali olhando a chuva.
Pensei que talvez ele soubesse alguma coisa sobre permanecer.
Logo depois percebi que aquilo era apenas mais uma das minhas maneiras de transformar um gato em personagem da minha cabeça.
Ele provavelmente estava olhando um pássaro.
Ou querendo sair.
Ou pensando em comida.
Talvez não estivesse pensando em nada.
Essa última hipótese me pareceu bastante ofensiva.
E útil.
Voltei às fotografias.
Uma delas tinha uma dobra no meio.
Passei o dedo sobre ela, tentando alisá-la.
Não adiantou.
Deixei assim.
Durante muito tempo achei que continuar fosse uma espécie de vitória.
Hoje não sei.
Também não sei se é esperança.
Nunca fui muito bom com essa palavra.
Às vezes continuar é apenas aquilo que acontece quando você ainda não parou.
Você acorda porque o corpo acorda.
Faz café porque sempre fez.
Atende o telefone porque ele tocou.
Paga uma conta porque alguém inventou a conta.
Alimenta o gato porque, aparentemente, o gato não está disposto a participar das suas crises existenciais.
E isso vai formando uma espécie de rotina sem discurso.
Talvez seja pouco.
Naquele dia, foi o que eu tinha.
A energia voltou no começo da noite.
A geladeira ligou.
O computador acendeu.
O relógio da cozinha voltou aos números vermelhos.
A casa recuperou seus pequenos ruídos.
Eu poderia ter ligado a televisão.
Não liguei.
Fiquei ouvindo o relógio de pulso.
Tic.
Tic.
Tic.
O gato dormia no sofá.
Guardei os documentos de volta na caixa.
As fotografias, não.
Deixei algumas sobre a mesa.
Não por nostalgia.
Ou pelo menos foi isso que disse a mim mesmo.
Depois fui até a cozinha.
Abri a torneira.
Bebi água.
Não era bourbon.
Mas era água.
Voltei para a sala.
O relógio continuava andando.
Dessa vez não o tirei do ouvido.
Fiquei apenas escutando.
E, naquela noite, pela primeira vez em algum tempo, não tive pressa nenhuma de fazê-lo parar.
Há abraços que são conversas inteiras
sem uma única palavra. Quando a boca silencia, a alma traduz-se no toque.
“Seja você quem for, tenha sempre como meta muita força e determinação, e faça tudo com muito amor.
Um dia você chega lá.”
Todos os dias tenho desejado
como manda a lei dos namorados:
vir a contar galáxias contidas
nos teus olhos apaixonados.
Compartilhar contigo sonhos
absolutos no banco da praça,
para não pedir à vida mais nada.
ESPELHOS PARTIDOS À BEIRA DO MAR.
A cena ocorre à beira da praia, numa noite em que a lua se desfaz sobre a água, refletida em pequenos fragmentos de mar como se o próprio céu tivesse quebrado um espelho. O narrador, dilacerado pela ausência, conversa com a amada que já não está entre os vivos e com o filho que o oceano tomou. O vento arrasta vozes indistintas, confundindo-se com o soluço incessante das ondas.
NARRADOR:
Meu filho me amava... Sim, ele verdadeiramente me amava. Agora, diante de nossos espelhos partidos, sorrimos como quem ainda tenta recompor os fragmentos de um impossível. E eu sei... sei que, nesta hora, ele me procura, lá em alto-mar, onde repousam segredos que nenhum de nós ousou desvendar.
AMADA (voz etérea, surgindo entre as rajadas da brisa):
Não chores tanto, meu bem. O mar apenas devolve aquilo que nunca nos pertenceu inteiramente.
NARRADOR:
E que me resta, senão ir buscá-lo? Ele me encantava com aqueles olhos de esmeralda viva... Ah, não partas, meu amor! Se fores, talvez nunca mais me encontres. Foi aqui, nesta praia, que nosso filho te esperou durante quatro noites, sustentado apenas pela fé — essa última lâmpada dos desesperados — de que regressarias.
Mas tu jamais voltaste ao nosso casebre, tão singelo, tão pequeno, e ainda assim aceso pelas chamas de um amor que parecia capaz de desafiar o próprio destino.
AMADA:
A esperança que nele ardeu também me sustentou. Mas o tempo é breve para aqueles que se amam demasiadamente e parece infinito para aqueles que permanecem esperando em silêncio.
NARRADOR (ajoelhando-se na areia):
Por isso te suplico: não vás!
Mas aqueles olhos... Ah, aqueles olhos! Deus os quis para Si antes mesmo que tivéssemos aprendido a compreendê-los. Foram uma dádiva breve, como as flores que desabrocham somente para adornar um instante e, depois, entregam ao vento a sua última fragrância.
AMADA (a voz se afastando, quase confundida com o rumor das ondas):
Então espera...
Espera-me como esperaste o retorno impossível. Espera-me até que as ondas levem a última chama que ainda te arde no peito.
Porque, quando a brisa cessar e a noite recolher seus últimos murmúrios, nós três seremos apenas um só sopro — indivisível, silencioso — respirando eternamente no coração de Deus.
NARRADOR (em lágrimas, contemplando o mar):
Eu esperarei.
Pelo filho que partiu.
Por ti, meu eterno amor.
Esperarei enquanto houver mar, enquanto houver lua, enquanto alguma estrela se atrever a permanecer acesa sobre estas águas.
E, quando a última brisa me levar...
quando a areia apagar meus passos...
quando já não houver voz capaz de chamar por ninguém...
restará apenas o mistério.
E talvez, no centro desse mistério, eu finalmente encontre vocês dois.
"Na primeira parte da vida, a gente aprende.
Na segunda parte, a gente conquista.
Na terceira parte, a gente retribui"
Denzel Washington
