Pensamentos Mais Recentes

Há batalhas em que vencer o adversário é fácil; difícil é não se tornar semelhante àquilo que combatemos.

Aquele que não exige permanência daquilo que nasceu para partir sofre menos diante da impermanência do mundo.

Quanto mais violentamente tentamos possuir o que é transitório, mais profundamente somos possuídos pelo medo de perdê-lo.

O desejo promete eternidade às coisas que a própria natureza condenou à passagem.

A mente é o primeiro território da existência: antes que o mundo nos fira, já o interpretamos; antes que o mundo nos liberte, já o imaginamos.

Tudo aquilo que nasce carrega, secretamente, a sentença de sua dissolução.

Conquistar multidões é uma façanha do poder; conquistar a si mesmo é a rara vitória daquele que já não precisa de inimigos.

O ódio alimenta-se da própria chama que pretende lançar sobre o outro; somente quando renuncia ao incêndio encontra a possibilidade da paz.

Hoje eu consegui me olhar,
e enfim, eu me vi.
E dentro desse meu ver,
vi teu olhar me acenando.
Olhos de saudade,
calmos, fundos,
e as meninas dos teus olhos
bailando só pra me chamar atencão.
Não era mais espelho,
era encontro.
Eu me olhando,
e você morando no meu olhar.
(Saul Beleza,)

Quem assume fardos alheios curva a própria espinha e lesiona a visão do próprio destino.

A razão pode iluminar os mecanismos da existência, mas não necessariamente seu fundamento; quanto mais avançamos na explicação do mundo, mais percebemos que compreender como algo acontece não equivale a descobrir por que há algo para acontecer.

A beleza não elimina a dor, assim como a rosa não revoga os espinhos; talvez a maturidade consista precisamente em aprender a reconhecer a delicadeza sem exigir que o mundo deixe de ferir.

O intelecto possui uma tentação perigosa: transformar sua própria janela em horizonte e acreditar que aquilo que não consegue compreender simplesmente não existe.

A natureza não conhece a serenidade que a imaginação humana atribui à existência; sob a superfície da ordem, a vida permanece atravessada pela disputa silenciosa entre necessidade, sobrevivência, desejo e finitude.

O corpo é a primeira fronteira da consciência e talvez sua mais incômoda verdade: antes de sermos ideias, projetos ou biografias, somos matéria vulnerável atravessando o tempo.

Nenhuma conquista deveria exigir como pagamento a destruição do corpo, porque o indivíduo que sacrifica a própria saúde para possuir uma vida melhor pode descobrir, tarde demais, que perdeu justamente o instrumento pelo qual poderia vivê-la.

De longe, uma existência parece uma narrativa dotada de sentido; de perto, revela-se uma sucessão quase caótica de encontros, perdas, escolhas, acasos e pequenas decisões que somente retrospectivamente aprendemos a chamar de destino.

Reconhecimento é acreditar em algo que não depende de você Aconteça.

Ler pode ampliar o pensamento, mas também pode substituí-lo; há uma forma sofisticada de ignorância que consiste em conhecer milhares de pensamentos alheios para jamais enfrentar a solidão de produzir um próprio.

Cada consciência constrói uma fronteira invisível ao redor do mundo e, frequentemente, confunde os limites de sua própria percepção com os limites da realidade.

Enquanto alguns contabilizam as horas para descobrir como fazê-las desaparecer, outros percebem que o verdadeiro desperdício não está no tempo perdido, mas na vida que poderia ter adquirido forma dentro dele.

Nascemos sob a aparência de uma dádiva, mas a consciência transforma a existência em uma espécie de dívida metafísica que nenhum patrimônio, sucesso ou reconhecimento consegue definitivamente quitar.

O destino distribui circunstâncias que não escolhemos; nossa liberdade começa, talvez, na maneira como interpretamos as cartas antes de decidir como jogá-las.

Escrever poemas é a arte de equilibrar o amor nas cordas bambas da vida


Marcio Melo

A moral começa quando reconhecemos no sofrimento alheio algo que poderia ter sido nosso; a compaixão dissolve, por um instante, a confortável ficção de que existimos separados dos demais.