Pensamentos Mais Recentes

Se a graça me alcançou apesar de quem eu era, não tenho o direito de decidir quem é indigno de ser alcançado por Cristo.

Quando olho para dentro de mim, não encontro motivos para me achar superior; encontro motivos para agradecer pela graça.

Quem realmente conhece a própria natureza não se vangloria da salvação; se maravilha com a graça.

Eu não fui salva porque merecia; fui salva porque Cristo teve misericórdia de mim. Por isso, creio que a graça também pode alcançar qualquer pessoa.

A religião pergunta:  Quem merece ser salvo?  A graça responde:  Ninguém merece;  Cristo salva pela graça.

Quanto mais conheço a mim mesma, menos consigo condenar o outro e mais admiro a misericórdia de Deus.

Se Deus tivesse usado como critério o meu merecimento, eu estaria perdida. Foi a graça que me encontrou.

As Aves Que Aqui Cantam


O verde rompe o asfalto com firmeza,
um sopro de aragem na urgência do dia,
onde o concreto ergue sua frieza
e a vida pulsa em pura sinfonia.


Não há muro alto que cative o vento,
nem torre fria que anule o seu cantar;
o tempo avança em cada movimento,
lembrando a alma o dom de respirar.


As aves que aqui cantam na cidade
são as mesmas que cantam em todo lugar;
até no cemitério cantam a vida é passageira,
e o peito vibra ao ver o sol raiar.


Recordam o pó, mas cantam a aurora,
o instante breve, o sopro que é eterno,
a ânsia pura de viver agora
antes que chegue o silêncio do inverno.


Vagar pelas ruas é buscar o sentido
no voo ligeiro que cruza o azul,
entre o grito urbano e o peito ferido
que busca o norte, o leste, o sul.


Ser ave e ser homem é cruzar o abismo,
é ser faísca acesa na escuridão,
encontrar no trânsito o lirismo
e a paz profunda dentro do coração.

Quem foi verdadeiramente alcançado pela graça não fecha a porta para o pecador; aponta para Cristo.

Olhar para a própria natureza deveria quebrar o orgulho e produzir uma certeza: se Cristo me alcançou, Sua graça ainda pode alcançar muitos outros.

PROFESSOR DE POETA


No sertão nasceu um mestre
Que ensinava sem cartilha,
Com a viola e a palavra
Fez da rima uma família;
E mostrou que a poesia
Também nasce na partilha.


Sou Poeta sem diploma no canudo,
mas cumpro o verdadeiro papel público
do intelectual Matuto.


Patativa do Assaré,
Ave sábia do sertão,
Transformou sua poesia
Em denúncia e oração;
Fez do verso uma ferramenta
De cultura e reflexão.


Sou Poeta sem diploma no canudo,
mas cumpro o verdadeiro papel público
do intelectual Matuto.


Seu cantar veio da roça,
Da enxada e do terreiro,
Da pobreza, da esperança,
Do vaqueiro e do roceiro;
E ensinou que o pensamento
Não precisa de dinheiro.


Sou Poeta sem diploma no canudo,
mas cumpro o verdadeiro papel público
do intelectual Matuto.


Em “Cante Lá, Que Eu Canto Cá”,
fez do canto profissão,
mostrando que cada terra
tem seu modo e tradição;
E que a voz de quem trabalha
também merece atenção.


Quando falou do “Caboclo Roceiro”,
deu ao campo dignidade,
fez da vida do agricultor
um retrato da verdade;
E levou para a poesia
a voz da comunidade.


Em “Triste Partida”,
fez a dor se levantar,
retratando o nordestino
obrigado a migrar;
E fez muita gente longe
do sertão se emocionar.


Não é apenas um poeta
que o tempo pode guardar;
Patativa é professor
que continua a ensinar:
quem conhece sua obra
tem mais força pra pensar.


Sou Poeta sem diploma no canudo,
mas cumpro o verdadeiro papel público
do intelectual Matuto.


Os poetas o admiram
pela força do seu dizer,
pela forma tão simples
de fazer o povo entender;
pois sabia transformar
o sofrer em aprender.


Negreiros Neto assim diz,
com respeito e clareza:


“O poeta é um título
da mais alta nobreza,
dado ao matuto analfabeto
e aos doutores da letra.”


Patativa nos mostrou
que a escola pode ensinar,
mas também existe a vida
com seus modos de educar;
e o poeta que a observa
tem lições pra revelar.


Foi professor de poetas,
sem cobrar mensalidade;
sua sala era o mundo,
seu diploma, a humildade;
seu quadro era o sertão,
sua matéria, a verdade.


Sou Poeta sem diploma no canudo,
mas cumpro o verdadeiro papel público
do intelectual Matuto.


Hoje, quando um poeta
pega a pena para escrever,
leva um pouco de Patativa
sem sequer perceber;
pois quem bebe dessa fonte
aprende também a viver.


Patativa, velho mestre,
teu legado é imortal;
tua poesia permanece
feito estrela no quintal;
Nordeste que vira verso,
sertão que vira jornal.


E aos doutores da palavra,
aos poetas do sertão,
fica viva a grande lição
do mestre da inspiração:
a maior sabedoria
é ter voz e coração.


Sou Poeta sem diploma no canudo,
mas cumpro o verdadeiro papel público
do intelectual Matuto.


Se Patativa foi mestre,
nós seguimos a lição:
fazer da poesia ponte,
da palavra, comunhão;
e colocar nosso verso
a serviço da nação.

Minha salvação não é um troféu que me torna superior; é uma prova de que a misericórdia de Deus é maior que a miséria humana.

A mente humana se adapta a tudo, menos a uma falta de rotina.Nesse emaranhado é que mora a loucura !




_James Richard

Não me glorio por ter sido escolhida para condenar quem ainda está longe; me glorio em Cristo, que é poderoso para salvar.

A graça que me salvou é a mesma graça que me ensina a desejar que outros também sejam salvos.

No fim, ninguém poderá dizer: Eu mereci. Toda boca se calará diante da graça, e toda glória pertencerá a Cristo.

Uma hora, cada fragmento encontra o seu lugar e tudo o que parecia disperso revela o caminho que eu estava construindo.

“Crônica do Inferninho”

Eu estava prestes a sair do trabalho quando decidi chamar um Uber para me levar para casa. Assim, poderia relaxar um pouco no caminho de volta, depois de um dia bastante cansativo.

Quando o Uber chegou, entrei no carro e disse:
Boa noite!
O motorista respondeu educadamente:
Boa noite, senhor!

Seguimos em direção à minha casa.

De repente, o motorista me fez uma pergunta:
O senhor não gostaria de passar pelo inferninho antes de chegar em casa?

Respondi imediatamente:
Não, obrigado!

Pouco depois, ele perguntou novamente:
Tem certeza de que não quer passar pelo inferninho antes de ir para casa, senhor?

Tenho! Quero chegar em casa o mais rápido possível!

Mais uma vez, o motorista insistiu:
Tem certeza mesmo de que não quer conhecer o inferninho, senhor?

Já com certa irritação, respondi:
Não! Quero ir para casa. Estou muito cansado e quero descansar.

Mas, novamente, o motorista tocou no assunto:
Tenho certeza de que o senhor vai gostar do inferninho.

Dessa vez, alguma coisa despertou minha curiosidade.
Afinal, o que é esse tal de inferninho?

O motorista respondeu com um sorriso nos lábios:
O senhor precisa ir até lá para conhecer.

E completou:
Quem vai ao inferninho gosta muito.

O senhor não quer ir lá conhecer?

Não! Quero ir para casa, por favor!
respondi, já bastante irritado.

Claro, senhor. Não vou mais falar do inferninho.

Fez-se um silêncio total dentro do carro…

Mas, de repente, fui eu quem ficou com vontade de perguntar:
Onde fica esse inferninho?

O motorista respondeu:
O senhor gostaria de ir até lá?

Mas me diga primeiro: que diabos é esse inferninho?

Ele respondeu:
O senhor precisa ir lá para descobrir.

Você não pode simplesmente me dizer o que é esse inferninho?!

Não. O senhor tem que ir até lá!
exclamou o motorista.

Sério?! Eu tenho mesmo que ir para descobrir o que é?

Com uma voz muito convincente, ele respondeu:
Tenho certeza de que o senhor nunca viu um lugar como o inferninho.

Aquilo aumentou ainda mais a minha curiosidade.

E o motorista completou:
Tenho certeza de que o senhor vai gostar!

Pronto. Minha curiosidade foi parar nas alturas.

Comecei a imaginar que devia ser um lugar cheio de mulheres, muita bebida, música alta… uma verdadeira zona!

Fiquei pensando naquele inferninho durante alguns minutos e, finalmente, perguntei:
Você pode pelo menos me dizer o que tem lá?

O motorista respondeu:
O senhor precisa ver com os próprios olhos. Não posso dizer nada.

Aquilo me deixou com a pulga atrás da orelha.

Que lugar seria aquele? Até o nome era uma tentação! Devia ser bom demais. De repente, até o meu cansaço havia desaparecido.

E agora? O que eu faço???

Minha mulher pensa que estou trabalhando…

Hum…

O que eu faço???

Uma coisa era certa: se eu não fosse conhecer aquele inferninho, aquilo ficaria martelando na minha cabeça pelo resto da vida. Afinal, a curiosidade de um homem que se preze pode ser maior do que qualquer outra coisa!

Mas não.

Não cometi esse erro.

E ponto final!

Está bem falei para o motorista.
Pode me deixar em casa.

E ele me levou.

Mas aquele inferninho ficou na minha cabeça, me perturbando…

E tenho certeza de que ainda vai me perturbar por muito tempo.

Afinal…

Que diabos é esse inferninho???

E você?

Teria ido para casa… ou teria pedido ao motorista para levá-lo ao inferninho?

"Se não sabes, cala-te.
A vida te contará...!"
Haredita Angel
17.08.25

Eu não pedi que você ficasse.
Há um momento exato em que o amor deixa de ser tragédia
e passa a ser apenas clima.
Como garoa em roupa esquecida no varal.
Como cheiro de cigarro preso no banco de um carro antigo.
Como aquela dor de cabeça que já não preocupa ninguém
porque aprendeu a morar no corpo.
Você arrumava as coisas lentamente
e eu pensei, com uma serenidade quase ofensiva:
ela finalmente cansou de mim.
Não de mim inteiro —
isso seria grandioso demais —
mas desse homem pela metade
que chega do hospital cheirando antisséptico e cidade,
que fala de literatura latino-americana
como quem tenta salvar alguma dignidade do mundo,
que coleciona moedas estrangeiras
porque nunca conseguiu pertencer completamente ao próprio país.
Escorei no Renault noventa e um.
O carro estalava baixo, esfriando o motor,
como um animal velho respirando durante o sono.
Acendi um tabaco ruim.
Misturei mate uruguaio no fumo.
Não por boemia.
Nem estética.
Por superstição.
Alguns homens rezam.
Outros adulteram o cigarro.
Você passou por mim sem dizer nada
e eu gostei disso.
As grandes despedidas são profundamente constrangedoras.
Ninguém deveria transformar amor falido em espetáculo.
Pensei em Manuel Bandeira olhando janela de pensão barata.
Pensei em Benedetti entendendo tarde demais
que Montevidéu sempre foi uma maneira elegante de sofrer.
Pensei em Clarice,
naquela coisa terrível dela de perceber a alma das coisas
até quando elas já estavam mortas.
E então percebi uma coisa pequena,
quase ridícula:
eu tinha sobrevivido tempo demais.
Sobrevivi aos problemas.
Às cobranças que pareciam ser infinitas.
À vergonha de pedir ajuda.
À escola sugando meus últimos gestos humanos.
À fumaça.
À exaustão.
À sensação humilhante de fracassar devagar.
Sobrevivi até mesmo à esperança,
o que talvez seja a forma mais adulta de tristeza.
Você abriu o portão.
O barulho do ferro ecoou na rua vazia
como ecoam certas decisões irreversíveis:
sem dramaticidade,
apenas definitivas.
Eu poderia dizer que ainda te amava.
Mas seria inútil.
O amor, às vezes, não acaba.
Ele apenas perde utilidade prática.
Então fiquei ali,
encostado naquele Renault cansado,
fumando um cigarro adulterado com erva estrangeira,
olhando você ir embora
como quem observa um país desaparecer pelo retrovisor.
Sem raiva.
Sem poesia suficiente.
Sem salvação.
Só aquela melancolia fronteiriça
dos homens que aprenderam tarde
que viver também é perder território.

“Deixe para trás o que te atrasa e siga com propósito.”

*O QUARTZO E O BASALTO*


*SiO₂*


O primeiro número apareceu na tela antes que alguém terminasse o café.


Era uma reunião de escritório.


Daquelas que começam com uma apresentação cheia de gráficos e terminam com alguém dizendo que precisamos melhorar os indicadores.


No meio, vieram os números.


Depois as queixas.


Depois mais números.


Perguntas.


Repreguntas.


Questões que não tinham sido pontuadas direito e deixaram dúvidas em alguns.


Era só ter explicado antes.


Mas isso seria esperar demais de uma reunião.


Alguns perguntaram.


Outros ficaram quietos.


Era mais seguro.


A sala era bonita. Cara. Vidros por todos os lados. Mesa grande. Ar-condicionado. Uma tela enorme na parede.


O nome da empresa também era bonito.


Dava a impressão de que ali se fabricavam soluções.


Nomes assim são úteis.


Fazem parecer que existe alguma coisa acontecendo.


Eu olhava para a tela e pensava que talvez existisse.


Mas não.


Existiam números.


E pessoas tentando fazer os números parecerem importantes.


Foi aí que uma coisa começou a me incomodar.


Não eram as cobranças.


Cobrança faz parte do trabalho.


Todo mundo cobra alguém.


E quase sempre existe alguém cobrando quem está cobrando.


É uma cadeia alimentar.


Só que, naquela sala, havia uma combinação que me incomodava.


Número e ser vivo.


Caso 1847.


Protocolo 3921.


Atendimento concluído.


Meta atingida.


Parece simples.


Só que o número não acorda de madrugada.


O número não perde o emprego.


O número não tem uma mãe doente.


Não fica olhando para o teto tentando descobrir como vai pagar uma conta.


Não sente vergonha.


Não sente medo.


Não se arrepende.


O número não sabe que existe.


O sujeito atrás dele sabe.


E essa diferença parecia não caber naquela sala.


Precisamos dos números.


Eu sei.


Seria idiota dizer o contrário.


É preciso registrar.


Classificar.


Medir.


Organizar.


Sem isso, ninguém sabe quantos entraram, quantos saíram, quantos foram atendidos.


O problema começa quando o número deixa de ser ferramenta.


Quando passa a ser o objetivo.


Quando a pessoa deixa de ser alguém que precisa de uma solução e vira apenas mais um caso atendido.


Atendido.


Essa palavra me incomodou.


Atendido não significa resolvido.


Uma ligação é atendida.


Um telefone é atendido.


Uma torneira pode ser atendida.


Uma pessoa também.


Mas uma pessoa não é uma torneira.


Embora, naquela sala, às vezes parecesse.


As pessoas que queriam os números estavam longe.


Não em quilômetros.


Em outra coisa.


Talvez nunca tivessem visto um daqueles rostos.


Talvez tivessem visto.


Depois de algum tempo, isso não faz muita diferença.


Um rosto vira estatística quando você precisa justificar uma meta.


E o mais engraçado era que essas pessoas também estavam sendo pressionadas.


Por quem?


Por gente que queria solução.


Aí estava a piada.


Queriam solução.


Cobravam números.


Queriam mais casos assistidos.


Mais atendimentos.


Mais produtividade.


Mais eficiência.


Mais indicadores.


E, no final, mais números.


Poucas soluções.


A máquina estava funcionando perfeitamente.


Só não estava resolvendo nada.


Foi quando pensei no quartzo.


Não porque eu entendesse de geologia.


Não entendia.


Mas algumas coisas aparecem na cabeça quando você está cansado de ouvir a mesma conversa.


O quartzo é comum.


Está por toda parte.


A matéria-prima não tem nada de especial.


Talvez nós também sejamos assim.


Gostamos de acreditar que somos únicos.


É uma necessidade humana.


Ajuda a suportar a própria existência.


Dizemos que somos diferentes.


Que temos nossa história.


Nosso jeito.


Nossos problemas.


Mas a matéria-prima é quase sempre a mesma.


Medo.


Desejo.


Raiva.


Solidão.


Vergonha.


Esperança.


Vontade de ser reconhecido.


Todo mundo carrega alguma coisa disso.


O que muda é a formação.


E então pensei no basalto.


Na minha cabeça, ele era o mundo.


A pressão.


O lugar.


A família.


O trabalho.


As perdas.


Os fracassos.


As humilhações pequenas.


As pessoas que ficaram.


As que foram embora.


As que deveriam ter ficado.


Tudo aquilo que chega de fora e, depois de algum tempo, deixa de parecer de fora.


O basalto não fica simplesmente ao redor.


Ele entra.


Deixa marcas.


Algumas ficam tanto tempo que começamos a chamá-las de personalidade.


Foi aí que percebi que talvez a reunião tivesse alguma coisa a ver com isso.


O sistema também entra na gente.


Começa pedindo um número.


Depois pede uma meta.


Depois um resultado.


Depois uma justificativa.


Quando você percebe, está falando como a planilha.


Usando as mesmas palavras.


Pensando nos mesmos números.


Medindo pessoas pelo que pode ser contado.


Talvez fosse isso que me incomodava.


O mundo nos forma.


O sistema nos classifica.


E nós confundimos as duas coisas.


Uma coisa deixa marcas.


A outra coloca etiquetas.


Uma participa daquilo que nos tornamos.


A outra quer saber onde nos colocar.


É mais fácil assim.


Cargo.


Função.


Resultado.


Histórico.


Currículo.


Nome.


Número.


Tudo cabe numa planilha.


Menos a parte que interessa.


A planilha não quer saber quem você era antes.


Não pergunta o que fizeram com você.


Não pergunta o que você fez consigo mesmo.


Quer uma célula preenchida.


E nós preenchemos.


Porque é mais fácil.


Talvez seja essa a parte mais miserável.


Nós mesmos ajudamos a desaparecer.


Depois reclamamos que ninguém nos enxerga.


É uma piada ruim.


Mas também não dá para jogar o basalto fora.


Essa é a parte desagradável.


Se eu arrancar tudo o que me formou, o que sobra?


Não sei.


Talvez uma pedra.


Talvez nada.


Durante muito tempo pensei que identidade fosse encontrar alguma coisa escondida dentro de nós.


O verdadeiro eu.


Uma espécie de núcleo intacto.


Hoje acho isso bonito demais para ser verdade.


O que existe em mim antes do mundo?


Não sei.


O que o mundo colocou em mim?


Isso eu sei.


Algumas coisas eu aceitei.


Outras eu recusei.


Algumas tentei arrancar.


Não consegui.


Outras entraram tão fundo que passaram a parecer minhas.


É difícil separar.


Talvez não seja para separar.


O basalto me feriu.


Também me deu contorno.


Não agradeço pelo que doeu.


Não sou tão idiota.


Mas reconheço as marcas.


Existe uma diferença.


Talvez identidade seja isso.


Não uma coisa pura.


Não uma essência esperando ser descoberta.


Uma disputa.


O que sou.


O que fizeram de mim.


O que aceitei.


O que recusei.


E o que ainda consigo fazer com tudo isso.


Foi quando pensei novamente no homem dentro do protocolo.


Talvez fosse esse o problema.


O protocolo não era o homem.


O número não era o homem.


Mas, depois de algum tempo, todos começaram a agir como se fosse.


E fazemos isso fora do escritório também.


Transformamos alguém em um erro.


Em uma dívida.


Em um cargo.


Em um passado.


Em uma aparência.


Em uma opinião.


Depois esquecemos o resto.


É mais confortável.


Um ser humano inteiro dá trabalho.


Um número não.


Saí da reunião com a sensação de que havíamos contado tudo.


Menos o que importava.


Os números estavam corretos.


As planilhas fechavam.


Os indicadores provavelmente seriam apresentados como bons.


No dia seguinte, tudo estaria ali novamente.


As metas.


Os protocolos.


As cobranças.


Os gráficos.


As pessoas.


Ou o que sobrasse delas depois dos gráficos.


Fiquei pensando no quartzo.


No basalto.


No número.


Talvez os três tivessem mais em comum do que eu gostaria.


O quartzo não escolheu onde nasceu.


Nós também não.


O basalto participou da formação.


O mundo também.


O número veio depois.


Esse, pelo menos, deveria ser apenas uma ferramenta.


Mas talvez a pior coisa não seja virar número.


Talvez seja começar a acreditar que somos um.


E aí fica difícil saber onde termina o que somos e começa aquilo que colocaram em nós.


Talvez seja isso que chamamos de identidade.


Não saber exatamente quem somos.


Mas ainda conseguir perceber quando estão tentando nos transformar em outra coisa.


Somos quartzo.


Somos basalto.


Somos a pressão.


Somos as marcas.


E, às vezes, somos também o idiota que olha para tudo isso e tenta entender.


Saí da sala.


Ninguém perguntou pelo homem dentro do protocolo.


Também não esperava que perguntassem.


Afinal, a reunião tinha terminado.


E o indicador precisava fechar.

“Aprenda a abandonar aquilo que te atrasa, sejam hábitos, pessoas ou qualquer outro peso. Nem tudo precisa acompanhar você até o fim, pois o sentido da jornada está em percorrer o caminho com propósito.” — Leonardo Azevedo.

Foi pelo momento, plenamente absorto em mim mesmo, engendrando novas luzes como reflexo de uma alma puramente fugidia, minha alma, sustentada por meros caprichos mundanos que sutilmente elevam-na, que me vi atropelado e arrastado pela, por agora, vertical vontade alheia, impetuosamente me sopra ao ouvido sua inequívoca vontade. Miserável me tornei; foi-me pior seguir tal alento; não poderia, nem se quisesse, evitar a verticalidade. Mesmo pífio segundos, tornar-me-ei desamparado do ante deleite, ao alentado fomento do capricho alheio, toda a transcendentalidade ordinária, minha modesta, pois, havia perdido.

Independentemente do que pensem ou falem de mim, continuo sendo a prova de quem sou.
Aldemi E.de Matos