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Solteiro talvez seja uma palavra muito forte… mas, no momento, estou online. 😏

*O Céu e o Inferno Funcionam em Horário Comercial* - Naquela sexta-feira o bar estava cheio, como quase toda sexta-feira em que as pessoas precisam esquecer que passaram mais cinco dias fingindo que gostam da própria vida. Música baixa demais para ser ouvida e alta demais para permitir uma conversa decente. Um cantor sozinho, no fundo, brigava com o violão e com alguma música antiga que ninguém mais lembrava direito. Fumaça de cigarro subia entre as lâmpadas amareladas. Copos vazios ocupavam as mesas como pequenas provas de fracasso.

Eu estava no meu canto habitual do balcão. O lugar onde ninguém pergunta muita coisa e o barman já sabe que não precisa conversar comigo.

Foi então que dois casais se aproximaram. Sentaram perto demais. Não porque quisessem minha companhia. Apenas porque o bar estava cheio.

E quando quatro pessoas bebem juntas, em algum momento alguém decide que a verdade precisa ser dita.

Começaram falando de amor. Não sei por quê. Talvez fosse o álcool. Talvez fosse sexta-feira. Talvez as pessoas só consigam falar de amor quando já estão cansadas de praticá-lo.

A mulher dizia que no começo era diferente. Havia mensagens de madrugada. Promessas. Planos. Juras de que nunca deixariam a rotina destruir aquilo que tinham encontrado.

O homem riu.

Não foi uma risada engraçada. Foi aquela risada curta de quem já decidiu que o outro está exagerando.

Ela continuou.

Disse que no começo ele queria saber onde ela estava. Perguntava como tinha sido o dia. Queria ouvir seus problemas. Fazia planos para o fim de semana. Dizia que ela era diferente das outras.

Depois vieram as contas.

O trabalho.

O cansaço.

A televisão.

O celular.

A cama.

A obrigação de acordar cedo.

A vida.

Aquela velha assassina silenciosa.

Ela disse que o amor tinha desaparecido dentro da rotina.

Ele respondeu que aquilo era frescura.

Mimimi.

Romantismo hipócrita.

Disse que ninguém consegue viver de declaração de amor. Que a vida real era outra coisa. Que depois de alguns anos ninguém fica perguntando como foi seu dia.

Ela olhou para ele como se tivesse acabado de descobrir que dormia com um desconhecido.

Talvez tivesse.

O outro casal tentou amenizar.

Não funcionou.

A conversa ficou mais quente. Vieram acusações antigas. Coisas guardadas durante anos, esperando uma sexta-feira, quatro cervejas e um bar lotado para sair pela boca.

Eu continuei bebendo.

Não porque não tivesse opinião.

Eu tinha.

Tenho opiniões demais.

Esse é um dos meus problemas.

Fiquei pensando naquela história de amor que começou com promessas e terminou em planilhas, horários, boletos e silêncio.

Talvez o homem tivesse razão.

Talvez a mulher tivesse razão.

Talvez os dois estivessem errados.

O problema é que o amor costuma morrer muito antes de alguém perceber que ele morreu.

Não há funeral.

Não há certidão.

Ninguém aparece para dizer que acabou.

Ele simplesmente começa a ser substituído por pequenas coisas.

Uma resposta que não vem.

Um abraço que fica para depois.

Uma conversa que nunca acontece porque há alguma coisa mais importante na televisão.

Um beijo mecânico.

Um jantar em silêncio.

Uma cama dividida por dois corpos que já vivem em países diferentes.

E então alguém percebe.

Tarde demais.

Foi ali, ouvindo aquela mulher reclamar e aquele homem chamar tudo de frescura, que pensei em uma coisa bastante simples.

Nós passamos a vida procurando o Céu e tentando escapar do Inferno.

Como se houvesse uma porta em algum lugar.

Como se depois da morte alguém fosse entregar uma senha.

Como se Deus fosse um funcionário público sentado atrás de uma mesa cósmica conferindo documentos.

Talvez seja tudo muito mais simples.

Talvez o Céu e o Inferno não estejam esperando por nós.

Talvez já estejam aqui.

O Céu aparece quando conseguimos amar alguém sem transformar o amor em contrato.

Quando não fazemos carinho esperando receber carinho de volta.

Quando ajudamos sem guardar recibo.

Quando ouvimos sem preparar uma resposta.

Quando permanecemos ao lado de alguém não porque temos medo de ficar sozinhos, mas porque queremos estar ali.

Isso parece pouco.

Não é.

O mundo inteiro está cheio de gente fazendo negócios em nome do amor.

Eu te dou isso se você me der aquilo.

Eu faço isso por você, portanto você me deve aquilo.

Eu fui fiel, então você precisa ser fiel.

Eu trabalhei o dia inteiro, então você deve entender meu silêncio.

Eu pago as contas, portanto tenho direito a não prestar atenção em você.

Eu sou seu marido.

Eu sou sua mulher.

Eu sou sua família.

Eu sou seu.

É aí que começa a desgraça.

Porque amar alguém não deveria significar possuir alguém.

Mas nós gostamos de possuir.

Casas.

Carros.

Pessoas.

Opiniões.

Memórias.

Até os mortos nós queremos possuir.

Dizemos que alguém é nosso.

E depois reclamamos quando essa pessoa começa a respirar longe de nós.

O homem do bar dizia que aquilo era romantismo hipócrita.

Talvez fosse.

Mas existe uma hipocrisia ainda maior: fingir que uma relação continua viva apenas porque duas pessoas ainda dividem o mesmo endereço.

Há casamentos que são funerais com financiamento imobiliário.

Há relacionamentos que continuam apenas porque ninguém quer explicar aos outros que acabou.

Há pessoas que dormem juntas durante vinte anos e nunca mais se encontram.

E há outras que se encontram por uma hora e conseguem lembrar uma à outra que ainda estão vivas.

O Inferno talvez seja isso.

Não o fogo.

Não o demônio.

Não as correntes.

É olhar para alguém que um dia foi importante e perceber que você construiu uma muralha entre vocês, tijolo por tijolo, usando orgulho, ressentimento, silêncio e pequenas crueldades.

Depois sentar diante da muralha e perguntar por que ninguém mais consegue chegar até você.

O ódio também funciona assim.

Ele começa pequeno.

Uma mágoa.

Uma injustiça.

Uma palavra.

Depois cresce.

Você começa a dividir o mundo.

Os bons e os maus.

Os que merecem.

Os que não merecem.

Os que são como você.

Os outros.

E quando percebe, seu coração virou uma repartição pública.

Entrada proibida.

Documentação obrigatória.

Atendimento mediante agendamento.

O curioso é que quase ninguém percebe quando entra no Inferno.

As pessoas continuam trabalhando.

Pagando contas.

Postando fotografias felizes.

Comemorando aniversários.

Trocando presentes.

Dizendo “eu te amo”.

Tudo perfeitamente normal.

É por isso que o Inferno funciona tão bem.

Ele não precisa parecer Inferno.

Basta parecer rotina.

Olhei para o casal outra vez.

Ela estava chorando agora.

Ele olhava para o celular.

Aquilo me pareceu mais cruel que qualquer grito.

Porque existem momentos em que o desprezo é mais violento que a raiva.

A raiva ainda reconhece a existência do outro.

O desprezo simplesmente desliga a luz.

O cantor no fundo começou outra música.

Ninguém prestou atenção.

O barman recolheu alguns copos.

A fumaça continuava subindo.

A sexta-feira continuava funcionando.

O mundo não tinha parado para assistir ao fim daquele pequeno amor.

Nunca para.

É uma das coisas mais humilhantes sobre estar vivo.

Você pode estar destruindo alguém por dentro e, do lado de fora, o garçom continua servindo cerveja.

Talvez seja por isso que eu não acredito muito nessa conversa de esperar o Céu.

Se existe algum lugar melhor, talvez ele comece quando aprendemos a não transformar a vida dos outros em nosso campo de batalha.

Talvez comece quando paramos de cobrar amor como quem cobra uma dívida.

Talvez comece quando conseguimos dizer “eu errei” sem acrescentar um “mas você também”.

Talvez comece quando percebemos que algumas pessoas não precisam de uma solução.

Precisam apenas que alguém fique.

E talvez o Inferno já esteja funcionando quando transformamos toda relação em uma disputa para descobrir quem sofreu mais.

No fim, ninguém vence.

Só sobra alguém com razão e outro sozinho.

Terminei minha bebida.

Levantei.

Antes de sair, olhei mais uma vez para os quatro.

A discussão continuava.

Talvez continuasse até o fechamento.

Talvez até a manhã seguinte.

Talvez por mais vinte anos.

Não sei.

O que sei é que todos nós temos uma escolha pequena e diária.

Podemos amar.

Ou podemos negociar.

Podemos perdoar.

Ou podemos colecionar dívidas emocionais.

Podemos abrir a porta.

Ou construir outra parede.

O Céu não parece exigir muita coisa.

O Inferno também não.

Ambos são baratos.

Funcionam vinte e quatro horas.

E não precisam de religião, sacerdote ou julgamento final.

Basta olhar para a pessoa ao nosso lado.

Se ainda conseguimos amá-la sem exigir pagamento, talvez por alguns minutos estejamos no Céu.

Se precisamos odiá-la para justificar nossa própria existência, provavelmente já chegamos ao outro lugar.

E o pior é que ninguém precisa morrer para descobrir.

Basta continuar vivendo exatamente como está.

Isso costuma ser suficiente.

“Quem aprendeu a viver em paz não troca sua serenidade por nada neste mundo.”

Estamos On-line?

Mais um dia no escritório. A mesma mesa engolida por papéis amarelados. Um computador que parece saber mais sobre mim do que qualquer confissão que eu já fiz em voz alta. Um telefone que grita quando o mundo não deveria ter voz. E uma fila de gente com o olhar gasto, esperando.

Esperando uma solução.

É quase cruel como ainda chamamos isso de solução. Quase sempre é só mais um protocolo frio, mais um formulário que não sangra, mais uma senha esquecida, mais um número que ninguém sabe decifrar. Um labirinto de papel e código onde a dor entra viva e sai desidratada.

As pessoas chegam com problemas mais viscerais, reais até o osso, e recebem respostas virtuais, sem carne, sem cheiro, sem peso. Querem resolver a vida pela tela como quem tenta estancar uma hemorragia com papel. O mundo aprendeu a transformar qualquer desgraça em número de protocolo — e isso, de algum jeito, nos parece normal.

Eu observo.

Estamos todos on-line.

Pelo menos é o que dizem.

Há gente conectada ao banco, ao trabalho, ao aplicativo, ao governo, ao médico, ao amante, ao ex-amante, ao desconhecido que nunca viu seu rosto e ainda assim opina sobre sua vida. Sabemos quem comeu o quê, quem viajou para onde, quem morreu sozinho, quem traiu sem piscar, quem enriqueceu e quem perdeu a própria dignidade no processo.

Sabemos de tudo.

Menos de nós.

O computador continua aceso.

Uma luz pálida, quase doente, tremendo na minha frente.

Talvez seja isso que chamamos de vida agora: uma luz insistente dizendo que ainda estamos disponíveis, como mercadoria em prateleira.

Mas disponíveis para quê?

A fila cresce como um organismo vivo, respirando devagar, pesado, impaciente.

Cada pessoa carrega uma pequena tragédia particular, escondida mal e mal sob a pele: uma aposentadoria que nunca chega, uma dívida que morde por dentro, um benefício negado, um documento perdido, uma doença que não espera, uma separação que ainda sangra, um filho que depende de um sistema que não sente nada, um pedido que depende de outro pedido, que depende de uma assinatura que depende de alguém que não está.

A humanidade inventou a burocracia para domesticar o caos.

Depois inventou a internet para acelerar o colapso.

Talvez seja por isso que essa palavra — conexão — me soa cada vez mais como uma piada mal contada.

Estamos conectados a tudo.

E desconectados de quase tudo que ainda pulsa.

Falamos em nuvem como se ela tivesse consciência, como se guardasse algo além de dados frios. Mas talvez ela só armazene nossos rastros: fotos sorrindo enquanto por dentro tudo desaba, conversas vazias, promessas digitais, e uma quantidade obscena de ruído disfarçado de vida.

A nuvem não sabe quem somos.

E, às vezes, suspeito que nós também não.

Existe uma espécie de wi-fi interno. Não sei se é alma, instinto ou só um nome bonito para o que foi sendo abafado aos poucos.

Alguma coisa dentro da gente deveria ainda captar sinais.

Um desconforto no peito.

Um arrepio sem motivo.

Um silêncio que pesa.

Um aviso bruto, quase animal, dizendo: pare.

Mas o dia inteiro somos atravessados por notificações.

O celular vibra como um nervo exposto.

O computador pisca como um olho doente.

O telefone cospe vozes.

Alguém chama.

Alguém exige.

Alguém cobra.

Alguém vende.

Alguém promete salvação em três cliques.

E depois nos perguntamos por que estamos exaustos, como se a resposta não estivesse gritando o tempo todo.

Talvez nossos neurorreceptores não estejam quebrados.

Talvez estejam apenas afogados.

É difícil ouvir qualquer coisa pequena quando o mundo inteiro decidiu gritar dentro da sua cabeça.

A sociedade aprendeu a ocupar cada fresta do silêncio. Música forçada no elevador. Tela acesa na sala. Podcast enchendo o carro. Vídeo mastigando o almoço. Mensagem invadindo a conversa. Notificação mordendo o sono.

Nunca estamos sozinhos.

E, ainda assim, nunca estivemos tão abandonados por dentro.

Fico encarando a tela.

E me vem aquela pergunta antiga, quase primitiva, que ninguém aguenta sustentar por muito tempo: de onde diabos vem tudo isso?

A vida.

A consciência.

Esse impulso cego de continuar mesmo quando nada faz sentido.

Aquela coisa estranha que empurra alguém a acordar numa terça-feira qualquer, vestir a própria pele como se fosse uniforme, pegar um ônibus lotado, engolir trânsito, entrar numa fila e passar o dia tentando consertar problemas que já nasceram condenados a serem substituídos por outros.

Talvez exista mesmo uma inteligência maior.

Talvez exista uma nuvem original, viva, pulsante, indiferente.

Talvez sejamos só fragmentos dela, esquecidos de si mesmos.

Ou talvez não exista absolutamente nada.

Um vazio elegante, sem explicação, sem propósito, sem testemunha.

E isso, de algum modo, também parece plausível.

A diferença é que ninguém recebeu o manual.

Entramos aqui sem instruções, sem mapa, sem legenda.

Passamos anos tentando decifrar o painel de controle da própria existência, apertando botões aleatórios, esperando que algo acenda.

Depois alguém nos chama de velhos.

E o sistema começa a falhar de verdade.

Memória falha.

Joelhos rangem.

Dentes cedem.

Sono vira fuga.

E então aparece a mensagem final, sem emoção, sem piedade:

encerrando sessão.

Sem atualização.

Sem suporte.

Sem segunda tentativa.

A fila continua.

O telefone grita outra vez.

O computador exige uma senha como se ainda houvesse controle.

Uma pessoa pergunta se falta muito.

Eu olho sem saber o que responder.

Nunca sei.

Talvez seja essa a única honestidade que ainda não foi censurada dentro de nós.

Não sabemos por que estamos aqui.

Não sabemos o que somos quando ninguém está olhando.

Não sabemos para onde isso tudo está nos levando.

Mas seguimos on-line.

Sempre on-line.

Publicando fragmentos de felicidade para provar que ainda existimos.

Dando opiniões como quem tenta convencer a si mesmo de que pensa.

Acumulando contatos para fingir que não estamos afundando sozinhos.

Comprando coisas para simular vitória.

E encarando uma tela brilhante enquanto alguma coisa dentro de nós, em silêncio absoluto, tenta desesperadamente estabelecer uma conexão que nunca chega.

Talvez o problema nunca tenha sido o sinal.

Talvez o problema seja que desaprendemos a escutar o que ainda está vivo por dentro.

A fila finalmente se move.

Um corpo se levanta.

Outro ocupa o lugar como se nada tivesse acontecido.

O telefone volta a tocar.

Eu encaro a tela do computador.

E, por alguns segundos, não faço absolutamente nada.

Só isso.

E penso que talvez estar realmente conectado seja exatamente isso:

aguentar alguns segundos sem ser invadido por nada.

Só você.

Sua cabeça.

Seu silêncio.

E aquela pergunta incômoda, crua, quase sangrando por dentro, que nenhum aplicativo jamais vai conseguir responder:

quem diabos está usando você enquanto você acredita estar vivendo?

A gravidade do mundo não reside nas rochas, mas no pêndulo invisível que ensina o caos a virar ritmo.
Reno Fioraso

*O FILTRO É O PROBLEMA*

No primeiro sábado realmente quente depois do inverno, fui ao parque central da cidade.
Não por esperança. Tenho idade suficiente para desconfiar de qualquer coisa que prometa renovação.
A primavera tinha chegado sem pedir licença. Havia flores demais, folhas novas demais, gente demais tentando recuperar em poucas horas aquilo que o frio havia roubado durante meses.
As crianças ocupavam os espaços com a irresponsabilidade própria de quem ainda não descobriu que a vida cobra juros. Algumas brincavam. Outras apenas estavam ali, largadas ao sol, como se não houvesse nada urgente no mundo.
Os adolescentes circulavam em pequenos grupos. Ensaiavam aproximações. Um olhar demorava mais que o necessário. Uma risada surgia sem motivo. Um deles ajeitava o cabelo antes de passar perto de alguma garota. Pequenas operações de guerra, ainda sem mortos.
Os adultos eram mais complicados.
Alguns caminhavam como se estivessem cumprindo uma obrigação médica. Outros conversavam, sorriam, fotografavam flores, filhos, cães, os próprios pés, qualquer coisa que pudesse provar depois que haviam participado daquele dia.
Havia também os de sempre.
Sentados com a expressão de quem fora condenado a respirar o mesmo ar que os outros.
Reclamavam da quantidade de pessoas.
Do barulho.
Das crianças.
Do calor.
Da primavera.
Esses deveriam ter ficado em casa.
Não porque o mundo lhes devesse silêncio, mas porque certas pessoas carregam uma espécie de quarentena particular. Saem de quatro paredes e levam outras quatro dentro da cabeça.
O curioso é que chamavam aquilo de realidade.
Fiquei observando.
O parque não era bonito.
Também não era feio.
Era apenas um lugar cheio de gente tentando interpretar o que estava diante dos olhos.
E foi aí que percebi o truque.
Talvez o caos nunca tenha sido tão caótico quanto parece.
Talvez o problema esteja no sujeito que olha.
Um homem vê uma multidão e sente ameaça.
Outro vê companhia.
Um enxerga crianças fazendo barulho.
Outro enxerga infância.
Um vê adolescentes desperdiçando tempo.
Outro reconhece, com alguma vergonha, a própria juventude.
A mesma cena. Cabeças diferentes.
E cada cabeça jurando possuir a versão correta.
Passei boa parte da vida fazendo isso.
Escolhendo um ângulo.
Defendendo uma interpretação.
Chamando suas preferências de princípios e suas feridas de experiência.
Depois comecei a perceber que muita coisa que eu chamava de verdade era apenas uma maneira confortável de permanecer sentado dentro da minha própria versão dos acontecimentos.

O sujeito cria uma explicação.
Depois passa a viver dentro dela.
Cria um inimigo.
Depois precisa encontrá-lo todos os dias.
Cria uma identidade.
Depois passa o resto da vida protegendo-a.
Cria uma história sobre si mesmo.
E quando alguém ameaça essa história, reage como se estivessem tentando arrancar-lhe a pele.
Talvez liberdade seja uma coisa bem menos gloriosa do que imaginamos.
Talvez seja simplesmente deixar de acreditar tanto na própria narrativa.
Eu olhei novamente para as pessoas.
As crianças continuavam brincando.
Os jovens continuavam tentando impressionar uns aos outros.
Os adultos continuavam fingindo que sabiam para onde estavam indo.
Os mal-humorados continuavam mal-humorados.
Nada havia mudado.
Só havia mudado o lugar de onde eu estava olhando.
E isso foi desconfortável.
Porque, quando o observador percebe que também faz parte da cena, perde a vantagem de julgar.
Não há mais plateia.
Não há mais personagem principal.
Há apenas alguém olhando.
E esse alguém também está sendo observado pela própria consciência.
Nesse instante, minha história pareceu menos importante.
As coisas que eu havia defendido.
As coisas que eu havia perdido.
As pessoas que eu culpei.
As versões que construí para suportar determinadas noites.
Tudo começou a parecer uma coleção de móveis dentro de uma casa que eu já não precisava habitar.
Foi estranho.
Não houve revelação.
Nenhuma luz desceu do céu.
Nenhuma música começou a tocar.
Apenas uma pequena suspeita.
Talvez eu não seja aquilo que penso sobre mim.
Talvez você também não seja.
Talvez sejamos menos definidos do que passamos a vida tentando parecer.
Fiquei ali por mais alguns minutos.
Sem procurar significado.
Sem tentar consertar o mundo.
Sem transformar o parque em uma lição.
As pessoas continuavam passando.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu não precisei decidir o que aquilo significava.
Foi quase nada.
Mas, para quem passou anos carregando explicações, quase nada já é uma forma razoável de liberdade.

Eu ainda prefiro as fofocas das vidas dos artistas do que saber das fofocas dos políticos. Nestes últimos anos desfrutamos quase nada de fofocas das vidas dos artistas.

Mentes livres não se permitem envolver por políticos que criam situações rocambolescas 24 horas para viver com um triplex montado em nossos pensamentos.

O gatilho que alguns políticos conquistaram algumas populações foi através dos redemoinhos de probleminhas que obrigam a todos a ficar ligados neles como eles fossem uma novelinha boa interminável, que não verdade não é. Eles viciam através dos problemas que causam.

O silêncio absoluto da mente não é a ausência de pensamento, mas o instante em que a própria existência esquece que precisa se traduzir.
Reno Fioraso

Enfermaria


Demétrio Sena - Magé 


Esperar como alguém que jamais corre,
que dispõe do seu tempo além de si,
toma porre de cosmo e cai no caos
ou no cais do silêncio em gritos mudos...
Entender, mesmo sem entender nada,
que preciso ter calma, embora tenso,
não há fada que mude a minha espera,
porque tudo eterniza o por enquanto...
Mas é muito esperar sem qualquer vinda,
um ainda que assume o horizonte,
para lá do que os olhos ousam ver...
Aqui dentro se vive desta espera,
não tem era e dissolve a nossa história,
ninguém sabe quem é ou quem está...
... ... ...


Respeite autorias. É lei

A realidade é muito dura para algumas pessoas, não sabemos oque elas passam no dia a dia delas, tenham simpatia com o próximo.

“Resiliência é reencontrar direção em meio à adversidade.”

“A verdadeira fortaleza não reside na calma, mas na resiliência; é na lucidez diante da adversidade que encontramos direção e propósito.” — Leonardo Azevedo.

“A paz é o único tesouro que cresce à medida que a gente compartilha.”

A "fornada" contemporânea de cristãos parece mesmo saber tudo de divindade... só não sabe (pois não pratica) nada de humanidade. 


Demétrio Sena - Magé 


Respeite autorias. É lei

"Proteja seus passos, mas ouse caminhar."

"Há poemas que nascem para ser lidos. Outros esperam pacientemente até encontrar o dia em que descobrirão, que sempre foram canções."

Receio ou medo?

Ao toque das mãos, se encolhe — comprime-se, se esconde.
No olhar, a busca pela aprovação do nada que fez.

Às vezes, surpreende-se desprotegida
e então é natural —
é cândida,
é apenas uma menina.

Sem perceber, procura nos outros um abraço, um carinho, talvez mais:
procura um colo, quem sabe perdido na infância.

Se soltasse as amarras,
se o sorriso florescesse livre,
mais bela seria —
se é que ainda pode ser mais.

Ivo Terra Mattos

Sentir o amor certamente é algo de mais belo que sentimos na vida, pois podem existir vários, ambos são a projeção do amor que existe na gente que transmite ao outro, amor familiar, amor de amigos, amor de paixão. São tantos, na nossa vida certamente é impossível viver sem esse amor, por eles somos capazes de algo quase sobrenatural, ser melhor por amor, se cuidar por amor e cuidar dos outros por amor é algo extremamente belo.


Por: J. Leão.

Depois de passar cerca de três meses parado, gastando muito e sem ganhar nada, surgiu uma oportunidade de voltar a trabalhar na área energética.

Tudo começou numa conversa com um amigo que trabalhava em uma empresa de equipamentos de segurança. Como seus clientes eram empresas do setor elétrico, ele comentou sobre uma fábrica em São Bernardo do Campo que produzia escadas para concessionárias de energia e tinha a intenção de entrar no mercado de linha viva, justamente a minha especialidade.

Ainda decepcionado com a experiência da empresa anterior, ouvi a proposta com certa desconfiança. Porém, como precisava urgentemente voltar ao mercado de trabalho, resolvi conhecer a empresa e conversar com seu proprietário.

O dono era o Sr. João, um homem de aproximadamente sessenta anos, cheio de ideias e entusiasmo, embora com poucos recursos financeiros para investir. Os equipamentos utilizados na fabricação de ferramentas para linha viva eram caríssimos e, pior, não eram produzidos no Brasil.

Passamos algumas horas conversando. Ele me mostrou a fábrica de escadas para o setor energético e, ao lado dela, um enorme galpão onde eram fabricadas escadas domésticas, bancos-escada e tábuas de passar roupa, produtos destinados ao mercado residencial.

Como eu já estava há algum tempo sem trabalhar, acertamos uma experiência voltada aos setores elétrico e telefônico. O salário era bem inferior ao que eu recebia na empresa anterior, mas minha situação não permitia muitas exigências.

Comecei realizando um trabalho de divulgação das escadas junto às companhias elétricas. Como eu já conhecia muitos clientes daquele segmento, o desenvolvimento do trabalho foi relativamente fácil. Em seguida, passei a atuar também no setor telefônico.

Atendendo a solicitações das concessionárias de energia, desenvolvemos algumas escadas especiais montadas sobre veículos. Com esses equipamentos voltei a viajar, embora em uma frequência muito menor do que nos tempos anteriores.

Com o passar do tempo, após a saída do gerente da área doméstica, acabei assumindo a parte comercial das duas fábricas.

Foi nessa época que vivi um episódio que jamais esqueci.

Certo dia, eu conversava em minha sala com minha esposa sobre a situação da minha sogra. Ela estava muito doente e internada em um hospital de Osasco. Seu estado de saúde se agravava a cada dia, e o atendimento que recebia nos preocupava muito.

O Sr. João entrou na sala e ouviu parte da conversa. Ao entender o que estava acontecendo, pegou o telefone e ligou para um amigo que era diretor do Hospital de São Caetano.

— Qual é o nome da sua sogra? Em qual hospital ela está internada?

Passei as informações.

Ele falou com o amigo, explicou a situação e, ao desligar, disse apenas:

— Vamos tirar ela de lá.

E foi exatamente o que aconteceu.

Minha sogra foi transferida para o Hospital de São Caetano, onde permaneceu internada por cerca de trinta dias. Recebeu um atendimento excelente e saiu de lá recuperada.

Naturalmente, minha preocupação seguinte foi com os custos.

— E a conta, Sr. João? Como vamos pagar?

Ele respondeu com a maior tranquilidade:

— Não se preocupe. Quando ela chegar, a gente dá um jeito.

Algum tempo depois a conta chegou. Eu nunca soube o valor. O Sr. João não deixou que eu a visse.

Mais tarde fiquei sabendo que ele ligou para o diretor do hospital e fez um acordo. Em seguida, carregou um caminhão com uma grande quantidade de tábuas de passar roupa, bancos-escada, escadas metálicas e escadas de alumínio, enviando tudo para o bazar beneficente do hospital.

O assunto morreu ali. Ele nunca mais comentou sobre isso.

Os anos seguiram seu curso. Continuávamos trabalhando e, de vez em quando, viajávamos juntos para visitar clientes, principalmente no Rio Grande do Sul, estado pelo qual ele tinha uma admiração especial. Adorava ir a Caxias do Sul.

Até que um dia a telefonista transferiu uma ligação para minha sala.

Do outro lado da linha estava o diretor de uma empreiteira que prestava serviços para a CESP — Centrais Elétricas de São Paulo. Chamava-se Dr. Rubens.

Ele disse que precisava tratar de um assunto confidencial e perguntou se eu poderia encontrá-lo no dia seguinte.

Conversei com o Sr. João e expliquei que uma empresa havia me procurado, mas que eu não fazia ideia do motivo.

Na manhã seguinte fui ao endereço combinado.

Ao chegar à portaria da empreiteira, me identifiquei e pedi para falar com o Dr. Rubens.

O porteiro respondeu:

— Aqui não tem nenhum Dr. Rubens.

Estranhei.

— Claro que tem. Ele marcou uma reunião comigo.

Nesse momento o telefone interno tocou. Após atender, o porteiro mudou imediatamente de atitude.

— Desculpe, eu me enganei. Ele vai recebê-lo.

A conversa foi cordial, mas algo me chamou a atenção. De cada dez palavras que o Dr. Rubens dizia, oito eram sobre a Munck.

A Munck era, naquela época, a maior fabricante de guindastes da América do Sul. Tinha sua principal fábrica em São Paulo, filiais no México e na Argentina, distribuidores espalhados por toda a América do Sul e uma operação em Londres que atendia o Oriente Médio.

Era uma gigante do setor.

Ao final da reunião ficou evidente para mim que alguém queria me contratar, mas não era aquela empreiteira.

Apesar da insistência, deixei claro que não tinha interesse imediato na proposta. Mesmo assim, prometi pensar e dar uma resposta no dia seguinte.

Saí dali e segui para o trabalho.

Durante o caminho, uma conclusão se formou naturalmente na minha cabeça: quem realmente estava tentando me contratar era a Munck.

Assim que cheguei à empresa, peguei o telefone e liguei diretamente para a fábrica da Munck.

— Gostaria de falar com o Dr. Rubens.

A telefonista perguntou quem estava ligando. Eu me identifiquei.

Poucos segundos depois ele atendeu.

Não fez apresentações nem rodeios.

Perguntou apenas:

— Quando você pode vir conversar aqui na Munck?

Foi naquele momento que percebi que minha vida estava prestes a mudar mais uma vez.

E mudou.

O Cinema, a Sorveteria e o Banana Split

...e eu nem tive tempo de agradecer. Quem sabe um dia...

Em frente à pracinha havia um cinema: o Cine Rios.

Nos intervalos das “engraxadas” — eu era engraxate, ainda iniciante — ficava na porta do cinema, viajando naqueles painéis de fotografias de “mocinhos e bandidos”.

Eu gostava de ficar olhando para aquelas imagens e imaginando as histórias. Depois, ficava esperando a matinê de domingo, quando, então, aconteciam aquelas batalhas do bem contra o mal.

O mocinho bom sempre vencia.

No fim do filme, vinha a continuação dos seriados intermináveis, que sempre terminavam com algum suspense. Acho que era para a gente voltar no domingo seguinte.

Perto do cinema havia uma sorveteria.

A mais linda do mundo.

Pelo menos era a única que eu conhecia.

Nas paredes, ficavam expostos grandes desenhos dos sabores dos sorvetes. Eu passava um tempo enorme olhando para aqueles painéis e viajando naquelas imagens.

O meu preferido era o banana split.

Eu nem conhecia o sabor.

Gostava da imagem.

O dono da sorveteria classificava os meninos que podiam ou não entrar no recinto. Lógico, pela aparência.

Como eu era um dos que não podiam entrar, o negócio era ficar do lado de fora, olhando pelo vidro e imaginando.

E foi ali, naquela sorveteria, que um dia aconteceu uma coisa que nunca esqueci.

Um homem bom, usando botas e chapéu de boiadeiro, entrou.

Ele mandou que o homem ruim servisse o melhor sorvete — justamente aquele da fotografia que eu tanto admirava: o banana split — para aquele menino que não podia entrar na sorveteria.

E assim foi feito.

Sem relutar.

Talvez aquele homem nunca tenha imaginado o que fez.

Talvez nem tenha percebido.

Mas, naquele dia, alguém abriu uma porta para mim.

Uma porta que, até então, eu só conseguia olhar de fora.

E eu nem tive tempo de agradecer.

Quem sabe um dia...

Do outro lado da pracinha havia um bar que vendia umas balas com figurinhas de jogadores de futebol.

Havia também a promessa de ganhar uma bicicleta, desde que você conseguisse preencher um álbum imenso.

Ganhar aquela bicicleta era quase impossível.

Mas sonho de criança não entende de impossibilidade.

Foi assim que, um dia, aos oito anos, eu comprei o salário inteiro do meu pai em figurinhas.

Eu nem tinha um álbum de figurinhas.

E, claro, também não ganhei a bicicleta.

Mas acho que, naquele dia, eu comprei alguma coisa que não cabia em álbum nenhum.

Comprei um sonho.

E, para um menino de oito anos, talvez isso já fosse uma espécie de riqueza.

Hoje, acho que foi assim:

A vida, aleatoriamente, foi ajustando nossos destinos
e colocando, equivocadamente, nossas almas frente a frente.

Nunca foi para ser,
mas foi.

E a vida, sem saber como desfazer o que fez,
escondeu-nos das consequências,
deixando que cada um levasse,
para sempre,
um pedaço do outro.

Ivo Terra Mattos

O meu eu de 1975

Tenho vários “eus” dentro de mim.

Gosto de todos eles. Cada um viveu seu tempo, enfrentou suas dificuldades, teve seus sonhos, seus medos e suas escolhas.

Mas existe um que é especial.

Ele nasceu em 1975.

Foi assim.

Eu trabalhava como vendedor externo em uma empresa de materiais elétricos. Visitava empresas de grande porte na região de Guarulhos e, naquela manhã, estava na antessala do comprador da Philco, aguardando para ser atendido.

Havia outros vendedores esperando também.

Por curiosidade, comecei a mexer em um rádio que estava fixado em um painel de demonstração dos produtos Philco.

Não estava exatamente olhando para ele.

Estava tentando ligá-lo.

E não conseguia.

Foi quando um dos vendedores que estavam ali se aproximou, apertou alguma coisa e o rádio funcionou.

Ele olhou para mim e disse:

— Demorei para aprender. Outro dia fiquei um tempão tentando ligar. Fui mexendo nele até ele funcionar.

Rimos.

Como o comprador estava demorando para nos atender, começamos a conversar.

Foi uma conversa simples, dessas que normalmente começam e terminam ali mesmo.

Mas aquela conversa mudou a minha vida.

Ele trabalhava em uma empresa de Belo Horizonte, uma multinacional do setor energético, dividida em vários segmentos de produtos elétricos. Em um deles, estavam procurando uma pessoa para uma determinada função.

Ele perguntou se eu não gostaria de tentar.

Eu era jovem e solteiro, dois requisitos importantes para o trabalho, principalmente porque seria necessário viajar muito. Ele não poderia assumir a função porque era casado.

Fiquei interessado naquele “projeto”, mesmo sem saber exatamente do que se tratava.

Ele pediu que eu passasse no dia seguinte pela filial de São Paulo, onde me explicaria melhor.

Marcamos.

Foi então que descobri que aquela multinacional fabricava ferramentas especiais para trabalhos em redes elétricas de alta tensão.

Eram ferramentas fabricadas em fibra de vidro que permitiam ao eletricista trabalhar com a rede energizada, sem precisar desligar o sistema.

Para explicar melhor, ele fez uma comparação:

— É como se você estivesse tomando banho e precisasse trocar a resistência do chuveiro sem desligar a energia da casa.

Achei aquilo meio loucura.

Mas minha vontade era maior do que minhas dúvidas.

Talvez eu já fosse assim naquela época.

Tem pessoas que nascem como postes: ficam sempre no mesmo lugar.

Outras nascem como vento.

Eu nasci vento.

Não paro. Nunca.

Na semana seguinte, eu estava em Belo Horizonte para uma reunião com o presidente e o vice-presidente da empresa.

A entrevista foi objetiva.

Fiz o psicotécnico, acertamos a parte financeira e, quinze dias depois, lá estava eu mudando para Belo Horizonte.

Comecei estudando o material técnico.

Pela manhã, lia e estudava.

À tarde, tinha contato direto com as ferramentas.

Eram inúmeras.

A técnica de trabalho em linha viva, ou linha energizada, ainda estava começando no Brasil. Nos Estados Unidos e no Canadá também era uma tecnologia relativamente recente.

A empresa possuía um campo de treinamento onde os trabalhos eram simulados.

Ali eu treinava todos os dias.

Montava as ferramentas.

Desmontava.

Subia nos postes.

Descia.

Montava novamente.

E começava tudo outra vez.

Durante aproximadamente noventa dias fiquei naquele ritual.

Até que chegou o momento de sair do treinamento e enfrentar a realidade.

A empresa possuía um técnico que havia sido treinado pelos americanos. Ele seria responsável pela entrega das primeiras ferramentas vendidas no Brasil e também ministraria o treinamento aos eletricistas.

Agora seria de verdade.

Era junho de 1975.

A primeira operação aconteceu na Celpe — Centrais Elétricas de Pernambuco.

As ferramentas haviam sido adquiridas para trabalhos em uma linha de 69.000 volts.

Durante aproximadamente um mês, quase todos os dias, subíamos e descíamos das estruturas, trabalhando com a rede energizada.

Depois fomos para Curitiba, para a Copel.

Agora a tensão era de 230.000 volts.

Mais um mês de treinamento.

Na sequência, fomos para Paulo Afonso.

Ali o desafio era ainda maior.

A tensão da rede chegava a 500.000 volts.

Nessa operação, a empresa americana enviou um técnico para ministrar um treinamento chamado bare hand — trabalho com contato direto do eletricista com a rede energizada.

Quanto maior a tensão, maiores são as distâncias necessárias entre os componentes que isolam os cabos da torre.

Chega um momento em que o eletricista precisa ser conectado ao próprio potencial da rede, no ponto energizado, para realizar determinados serviços.

Para isso, utilizava-se uma roupa especial, extremamente condutiva, além de uma plataforma isolante que permitia levar o eletricista até o ponto de trabalho.

Era uma tecnologia que, para mim, parecia quase inacreditável.

Hoje, trabalhos desse tipo também podem ser realizados com o auxílio de helicópteros.

Depois de todo aquele período de treinamento, começamos a ministrar cursos para outras empresas.

Passei a atender São Paulo, trabalhando principalmente com a Cesp, a Eletropaulo e a CPFL.

Meu amigo ficou responsável pelo Norte e Nordeste.

Como aquela tecnologia era uma novidade no Brasil, algumas escolas de engenharia nos convidavam para fazer apresentações aos alunos e explicar aquela nova maneira de trabalhar com redes energizadas.

Aquela atividade acabou se tornando muito mais do que um emprego.

Era uma profissão.

Era uma especialidade.

E, de certa maneira, era uma parte da minha identidade.

Depois de alguns anos, meu instrutor abriu sua própria empresa e eu passei a atender também os clientes do Norte e Nordeste.

Foi quando comecei a perceber que estava sobrecarregado.

Eu já era casado.

E quase não parava em casa.

Vivia dentro de aviões.

Às vezes ficava quinze, vinte dias fora.

Até que surgiu um convite irrecusável.

Uma empresa de São Paulo havia se associado a uma empresa americana, concorrente daquela onde eu trabalhava, e me fez uma proposta.

O salário e a possibilidade de voltar a morar em São Paulo pesaram muito na minha decisão.

Aceitei.

Não foi fácil deixar a empresa que havia mudado a minha vida.

Foi ali que eu havia aprendido uma profissão que jamais imaginara existir. Foi ali que conheci a linha viva e descobri um caminho profissional que me levaria a lugares que eu nunca tinha imaginado.

Mas não havia outro jeito.

Fui admitido na nova empresa.

Comecei fazendo aquilo que sabia fazer: divulgando a tecnologia, visitando clientes e trabalhando com as empresas que já conhecia.

Parecia que começava uma nova etapa.

Mas seis meses depois aconteceu algo que eu não esperava.

A empresa americana que era sócia da empresa onde eu havia acabado de ingressar comprou a parte brasileira.

Mais uma vez, minha vida profissional mudou de direção.

Pedi demissão.

E recomecei.

Hoje, quando olho para trás, percebo que aquele rapaz que, numa manhã qualquer, estava tentando ligar um rádio na antessala de um comprador da Philco não fazia ideia do que aquela conversa iria provocar.

Ele só estava esperando ser atendido.

E, enquanto esperava, a vida apareceu.

Foi assim que nasceu o meu eu de 1975.

"Não faça nada de absurdo! Pois, a vida é simples para quem entende o seu mecanismo! Venha, podemos cuidar dessa dor! "_ O Humanizado ☺️🙏 #setembroamarelo #conscietizacaocontraosuicidio