Pensamentos Mais Recentes
A terra seca canta por uma gota d’água
Ela canta para sentir o líquido que sacia a sede;
Ela canta para provar da umidade do tempo;
Ela canta para lembrar-se que o oásis existe;
Ela canta porque sente saudade da biodiversidade;
Ela canta com o sonho de voltar a ser fértil;
Ela canta por uma gota d’água na esperança de que venham muitas delas até que nela se crie um belo manancial.
A atmosfera clama por sua pureza.
Ela sonha em ter de volta sua perfeita presença na Terra.
A cada árvore que nasce;
A cada lixo reciclado;
A cada eliminação de gases tóxicos,
Ela vibra de alegria,
e nela renasce a esperança de continuar exercendo sua missão:
proteger-nos do calor excessivo,
equilibrar as temperaturas
e garantir o ar puro que respiramos.
O Grito
Era uma fazenda basicamente de gado. Muito gado. Vez ou outra, era necessário mudar aqueles animais de pasto. À medida que o capim ia escasseando, chegava a hora da mudança, o que exigia toda uma preparação: homens, cavalos, cachorros etc.
A labuta começava cedo, nas primeiras horas da manhã, e demandava, às vezes, o dia todo e parte da noite. Em quase todas elas, lá estava eu: eu, meu cavalo e meu cachorro, de nome Gigante.
Numa dessas mudanças de pasto, aconteceu um incidente meio misterioso. Eu sempre era convocado para ficar na frente da boiada, e eu até gostava; sentia-me importante. Meu serviço, basicamente, se resumia a ir abrindo as porteiras dos pastos.
Naquele dia, o trabalho para reunir o gado demorou mais do que o normal. Quando conseguimos colocar a boiada na estrada, já estava escurecendo, e ainda havia um bom pedaço de caminho até o outro pasto. Abri a primeira porteira e o gado foi me seguindo.
Depois de uma hora, mais ou menos, de estrada, umas cinco ou seis porteiras abertas, já com a noite fechada, ouvi o primeiro grito. Um grito de arrepiar, estridente. Achei que fosse meu cunhado com suas brincadeiras, mas não era. Fui olhando para trás: não dava para ver quase nada, apenas as cabeças dos animais. E, para piorar, estava chovendo, com direito a trovões e quedas de raios.
Depois de um silêncio, ouvindo apenas o barulho das pisadas dos animais, veio outro grito, esse mais próximo. Quando me virei, vi, no meio dos animais, um vulto. Parecia um homem a cavalo. Chamei pelo meu cunhado. Silêncio. Apenas uma risada debochada.
Depois que chegamos ao pasto onde os animais ficariam, fiquei aguardando as brincadeiras de todos. Seria normal. Mas nada. Ninguém falou coisa alguma. Eu nunca contei essa passagem para o meu cunhado.
A Paz em Algum Lugar
O vento bate nas araucárias,
e a sensação é tão boa: o ar nos pulmões,
a sensação de espaço que te faz flutuar.
De repente, é ali que você quer estar.
É ali que sente que o mundo poderia cair
e você iria junto com ele, claro, em câmera lenta...
Frio e aconchegante, digo para mim mesmo:
será que alguém mais já provou
uma sensação tão igual a essa?
Como se o universo te desse autorização
para mover as montanhas com as palmas das mãos —
no sentido figurado, claro.
A paz reina em algum lugar...
Viva a vida.
A percepção de insatisfação
é o seu cérebro simplesmente te dizendo:
“Vá viver.”
_Autor: James Richard Ferreira Pantoja
Às vezes passamos por baixo de escadas, cruzamos com um gato preto e quebramos um espelho no mesmo dia. Como se os infortúnios nos perseguissem insistentemente por todos os lugares, uma vida de azar que não vai melhorar. Embora corramos por todos os lados, o reflexo no espelho é o mesmo rosto de sempre.
Aposte sua vida em um giro de moeda, acredite que será cara, mas sempre vai dar coroa. O seu trevo sempre terá três folhas. Minta para si mesmo que tudo ficará bem, mas não importa aonde vá, não importa onde se esconda, mesmo onde tenha certeza de que nunca será encontrado, ainda será você e então vai entender que o azar nunca esteve atrás de você. Era você quem o carregava.
julie.
Há uma menina que ainda não existe no mundo, mas que, de alguma forma, já existe dentro de mim.
O nome dela vai ser Julie.
Eu ainda não sei quando ela vai chegar. Não sei se será daqui a alguns anos, se a vida vai demorar para colocá-la nos meus braços ou se o destino ainda está decidindo se nossos caminhos realmente precisam se encontrar. Talvez ela nem saiba que eu já penso nela. Talvez, enquanto eu escrevo isso, ela esteja em algum lugar que eu jamais poderia imaginar, vivendo uma vida que ainda não tem nenhuma relação com a minha.
Mas eu já a amo.
E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas sobre o amor de um pai. Ele pode começar antes mesmo de existir um rosto para olhar.
As vezes eu me pego imaginando os olhos dela. Não sei exatamente como serão, mas já consigo imaginar a maneira como eles vão me procurar quando ela estiver assustada, quando precisar de colo ou simplesmente quando quiser encontrar o pai no meio de uma multidão. Imagino o sorriso, o jeito de falar, as manias que provavelmente vão me tirar do sério e, ainda assim, fazer com que eu queira guardar cada uma delas para sempre.
Imagino seus primeiros passos pela casa.
Imagino a voz me chamando de pai.
E acho que é nesse momento que eu percebo que existe uma versão de mim que ainda não conheço.
O pai da Julie.
Talvez ela transforme completamente a minha vida sem sequer perceber. Talvez eu passe a dirigir mais devagar, a olhar o relógio com mais frequência, a pensar duas vezes antes de tomar certas decisões. Talvez minhas preocupações deixem de ser apenas sobre mim. Talvez eu descubra que existe alguém capaz de ocupar um espaço dentro de mim que eu nem sabia que estava vazio.
Eu imagino uma menina pequena segurando meu dedo com a mão inteira.
E acho que, naquele instante, eu entenderia que faria qualquer coisa por aquilo.
Não porque ela teria feito alguma coisa para merecer.
Não porque ela precisaria me devolver alguma coisa.
Mas simplesmente porque seria minha filha.
Esse é o amor que ainda não conheço, mas que já consigo sentir chegando de longe. Um amor que não pede reciprocidade, que não depende de respostas, que não precisa ser escolhido todos os dias porque já nasceu decidido. Um amor que provavelmente vai me ensinar que existem pessoas pelas quais você não pensa duas vezes antes de colocar o mundo inteiro nas costas.
Eu penso na Julie crescendo.
Na primeira vez que ela cair e olhar para mim esperando que eu diga que está tudo bem.
Na primeira vez que ela chegar em casa chorando porque alguém machucou seu coração.
Na primeira vez que ela quiser sair sozinha e eu precisar aprender que protegê-la também significa deixá-la ir.
Talvez eu seja aquele pai meio bobo que vai querer saber onde ela está, com quem está, se chegou bem. Talvez eu seja exageradamente protetor. Talvez eu precise aprender, todos os dias, que ela não nasceu para viver dentro das minhas mãos, mas para construir a própria vida.
E mesmo assim, em algum lugar dentro de mim, sempre vai existir aquele homem olhando para uma menina pequena e pensando:
"Como pode alguém tão pequena significar tanto?"
Eu não sei como serão os olhos dela.
Não sei se ela vai gostar de música, de livros, de filmes, de desenhar ou de qualquer coisa que eu imagine hoje.
Não sei se ela vai parecer comigo.
Não sei se vai torcer para o Palmeiras(mas deveria)
Não sei se vai herdar meu jeito, minhas manias ou se vai ser completamente diferente de mim.
E talvez seja justamente isso que torne tudo tão bonito.
Porque eu não amo uma pessoa que conheço.
Eu amo a possibilidade dela.
A possibilidade de um dia abrir uma porta e encontrar uma menina correndo na minha direção.
A possibilidade de ouvir uma voz dizendo "papai".
A possibilidade de segurar alguém nos braços e perceber que, depois daquele momento, minha vida nunca mais vai ser somente minha.
Julie ainda não sabe se vem.
Eu também não sei quando.
Mas, se um dia ela vier, espero que encontre em mim um lugar seguro para voltar.
Espero que ela saiba que pode errar sem deixar de ser amada, cair sem ter vergonha de pedir ajuda, crescer sem medo de me perder.
Espero que, quando ela for grande o suficiente para entender essas coisas, saiba que antes mesmo de existir para o mundo, já existia em meus pensamentos.
Que antes de eu conhecer seu rosto, eu já imaginava seus olhos.
Antes de ouvir sua voz, eu já imaginava como seria escutar "papai".
E antes de poder segurá-la no colo, eu já sabia que, se a vida me desse a oportunidade de ser o pai dela, eu faria tudo o que estivesse ao meu alcance para que ela nunca duvidasse do quanto é amada.
Talvez esse seja o maior sonho que eu ainda não vivi.
Uma menina chamada Julie.
A menina do papai.
Uma pequena pessoa que ainda não chegou, mas que já ocupa um pedaço enorme de um coração que nem sabia que estava esperandp por ela.
E quando ela finalmente chegar, se chegar, talvez eu olhe para aqueles olhos que passei tantos anos imaginando e perceba que eu estava errado sobre uma coisa.
Porque talvez eu tenha passado a vida inteira tentando imaginar como seria amar minha filha.
Quando na verdade, bastaria conhecê-la
Na prosódia do amor, a propaganda engana, o offside separa, ustedes observam, e Dionísia ensina que até o coração, quando ama, aprende a dançar com o infinito.
Você não precisa ser excepcional em suas atividades, nem mesmo destacado, mas ao realizar suas tarefas com carinho e esforço, pode ter a certeza de que alcançará um resultado admirável.
Bem, acontece que li alguns contos do capitão Hastings e pensei em tentar escrever também alguma coisa semelhante.
sfj,Christie,a,citações
E se um dia teu toque me matasse
Então eu amarei você
mesmo assim, pois eu quero procuro em você não é só físico
— Patrick Wallace
Ultimamente as coisas estão dando errado
Até quando feita certas, com tudo.
Pessoas, trabalho, escola
Sou julgado por todos, apontado por todos.
E é aí que eu não entendo, qual o erro?
Sou eu? Eu sou o erro?
O que eu fiz? Meu jeito, meu ser ?
Ou até mesmo minha alma?
Porquê me punes tanto?
Porquê me machucar tanto?
O vida sofrida, tão dolorida
E doentia
Estou cansando disso
Cada vez mais e mais esgotado
Me tornando incapaz de continuar tentando
No fim todos se vão, todos se afastam
E me deixam sozinho dnv e dnv
O ciclo sempre se repete e se repetirá
Pessoas vêm me conhecem e me deixam
Logo depois, nada está diferente tudo está igual
Do jeito que sempre esteve.
Espero qua algum dia as pessoas não se vá, é que esse vazio em meu peito diminua
“Uma trajetória vitoriosa demonstra que o verdadeiro vencedor não é aquele que nunca foi derrotado, mas aquele que se recusou a permitir que uma derrota se tornasse o capítulo final de sua história.”
Filho do pobre não tem o luxo de parar. Cada aprendizado é uma arma para o futuro, porque por trás do seu sonho existe uma família inteira esperando pela sua vitória.
Longe do alcance,
absoluto no coração,
Indomável desejo
de fogo e rendição,
És a melhor pretensão,
de viajar na sedução.
O seu maior obstáculo para performar não é a falta de tempo, é o excesso de cobrança na sua própria cabeça.
A História do dízimo
Antes de mais, ninguém cobra dízimos! Quando muito alguém pode ensinar que o cristão, segundo a bíblia deve dar o dízimo! Dar o dízimo não está errado. Pois o velho e o novo testamento falam do dízimo.
Dizer que o velho Testamento já passou, tá errado, pois lá porque somos salvos pela Graça, não anulamos a Lei. Antes confirmamos a Lei, pela Graça de Deus. Agora não somos salvos pelas obras da Lei. Mas somos salvos, para fazer as obras da Lei, pela fé EM JESUS CRISTO. Como é evidente entre essas obras que Deus preparou para as fazermos pela fé , por meio da Graça, está a obra do dízimo. Que o cristão dará se tiver fé para Dar. O pecado não está em dar ou não dar, mas sim se dar, sem fé. Ou se não dá, sem fé. O problema nas igrejas é fazer negócio com Deus. Isso tá errado.
Dar o dízimo, para esperar que Deus dê de volta muito mais. Se damos ou não damos, deve ser com fé. Porque o que não é com fé é pecado.
Portanto se alguém dá o dízimo deve fazer isso pela fé. Se não dá deve fazer isso pela fé. Aqui é apenas algo entre Deus e a pessoa.
Mais uma coisa na igreja ninguém obriga o crente a dar o dizimo. O crente dá de vontade própria! Ou não dá de vontade própria!
🌅 O Desafio dos 7 Dias para a Prosperidade
Como fazer: Todos os dias, antes de realizar qualquer outra atividade no seu dia, ajoelhe-se ao lado da sua cama e declare as duas frases abaixo.
🛐 As Duas Declarações Diárias:
1. Primeira: "Senhor Todo-Poderoso, eu te agradeço por mais esse dia de vida que me deu. Peço que a tua presença nunca se afaste de mim e que o Senhor caminhe na minha frente hoje, abrindo as portas que eu não consigo abrir."
2. Segunda: "Senhor, eu declaro quebradas todas as amarras do inimigo e quebradas as correntes da escassez. Que onde eu tocar seja abençoado. De joelhos eu peço e te agradeço. No santo nome de JESUS, Amém."
John Rabello de Carvalho
@j.rabello.c_888oficial
#jrabellodecarvalho
*O FOGUETE QUE FICOU NO QUINTAL*
O sábado amanheceu com aquele sol que parece ter preferência pelos sábados.
Durante a semana ele se esconde atrás de nuvens, prédios, compromissos e caras fechadas. No sábado, resolve aparecer. Como se também tivesse direito a descansar.
Eu estava na varanda quando ouvi o primeiro grito.
Depois outro.
Depois uma discussão sobre quem tinha pegado o brinquedo de quem.
As crianças tinham chegado.
Meus filhos, meus netos, suas vozes, suas provocações e aquela capacidade irritante de transformar qualquer cinco minutos de silêncio em uma guerra civil de pequenas proporções.
A casa ficou diferente.
O gato também percebeu.
Era talvez sua primeira experiência com crianças. No começo ficou parado, olhando para aqueles pequenos seres correndo pela sala como quem observa uma espécie desconhecida. Depois descobriram o gato.
Em menos de dez minutos ele já estava sendo disputado.
Um queria pegar.
Outro queria fazer carinho.
Outro dizia que era dele.
O gato olhava para mim com uma expressão que parecia perguntar por que eu tinha permitido aquela invasão.
Não fiz nada.
Algumas coisas precisam ser vividas até o fim.
Inclusive a paciência de um gato.
Na cozinha, as crianças descobriram a torta.
Uma delas desapareceu.
Depois outra parte.
Quando percebi, havia apenas algumas migalhas e uma espécie de silêncio constrangido entre os pratos.
Teria que encomendar mais duas.
Talvez três.
Na sala, atacaram a estante.
Mexeram nos livros.
Puxaram alguns.
Empilharam outros.
Os livros que ainda estavam nas caixas abertas foram parar no chão.
Fizeram castelos.
Muralhas.
Fortalezas.
Durante alguns minutos, aquela pilha de livros que eu passei anos tentando conservar em ordem parecia ter encontrado uma função muito mais honesta.
Servia para brincar.
No pátio, havia três balanços presos às duas árvores.
Nunca tinham parecido um playground.
Naquele sábado, pareciam.
Havia caixas de madeira, pedaços de tábua, coisas esquecidas na garagem.
Então meu neto olhou para um tambor velho e decidiu que aquilo era um foguete.
Um foguete.
Fiquei olhando para ele.
Ele não precisava de tecnologia.
Não precisava de combustível.
Não precisava de autorização da NASA.
Precisava apenas de um tambor velho, algumas tábuas e uma noite estrelada.
E então me lembrei de uma coisa que eu havia esquecido.
Eu também já quis ir para o espaço.
Houve um tempo em que eu acreditava que pisaria num foguete.
Não porque entendesse de ciência.
Porque toda criança precisa inventar um céu onde a vida pareça valer a pena.
O foguete nunca foi um veículo.
Era uma mentira bonita.
Daquelas que a gente conta para si mesmo antes de descobrir que o mundo costuma distribuir mais boletos do que milagres.
Depois vieram os quarenta.
A idade em que o espelho deixa de fazer gentilezas.
Foi quando percebi que nenhum foguete pisou no quintal daquela casa.
O que chegou foram contas.
Responsabilidades.
Cansaço.
Algumas mulheres que passaram como chuva de verão.
Amigos que aprenderam a sorrir para fotografias enquanto enterravam silenciosamente a própria fome de existir.
Eu ainda procurava alguma coisa.
Não sabia exatamente o quê.
Chamava de sentido porque qualquer palavra menor pareceria covardia.
Aos quarenta ainda existe uma certa arrogância.
A gente acredita que está atrasado, mas que ainda dá tempo.
Aos sessenta e dois, a conta fica diferente.
Não dói apenas o corpo.
Doem também as expectativas que sobreviveram tempo demais.
Os dias começam a parecer copos vazios esperando uma bebida que ninguém serve.
Não é exatamente tristeza.
É um cansaço antigo.
Uma coisa que dorme no peito e acorda antes da gente.
Às vezes olho para uma folha caindo de uma árvore e tenho vontade de colocá-la de volta no galho.
É um impulso ridículo.
Mas compreensível.
Porque a gente passa boa parte da vida tentando devolver as coisas ao lugar.
Um casamento ao começo.
Uma amizade ao primeiro abraço.
Um pai à juventude.
Um amor ao instante anterior à despedida.
Só existe um problema.
Folhas não voltam.
Pessoas também não.
E o tempo é o sujeito mais mal-educado que conheço.
Ele não pede licença.
Não negocia.
Não aceita pagamento parcelado.
Enquanto isso, o mundo continua vendendo a mesma velha mentira.
Todo mundo merece um dia melhor.
É bonito dizer isso.
O problema é que ninguém ensina o caminho.
Ensinaram-me a trabalhar.
A competir.
A produzir.
A acumular.
A parecer bem.
Ninguém ensinou a existir.
Talvez por isso tanta gente tenha aprendido a construir uma vida que parece ótima por fora e não serve para morar por dentro.
Basta abrir qualquer tela.
Casas perfeitas.
Viagens perfeitas.
Corpos perfeitos.
Casamentos perfeitos.
Famílias sorrindo diante de uma paisagem que provavelmente alguém levou vinte minutos para escolher.
A vida virou vitrine.
E ninguém quer aparecer com a mercadoria quebrada.
Eu olho para antigos amigos.
Alguns parecem ter vencido.
Casas maiores.
Carros melhores.
Viagens.
Fotografias.
Sorrisos impecáveis.
Mas já não acredito muito nessa luz.
Existe um sol artificial iluminando a terra da normalização.
É uma luz forte.
Só não aquece.
Ali, o verbo ser foi lentamente assassinado pelo verbo ter.
As pessoas compram identidades em prestações.
Vendem a própria autenticidade em troca de aprovação.
Sorriem como quem cumpre expediente.
Abraçam como quem assina contrato.
A empatia virou artigo de luxo.
A delicadeza passou a parecer fraqueza.
A verdade tornou-se inconveniente.
E talvez seja por isso que eu viva dentro de uma espécie de bolha.
De um lado, o mundo do faz de conta.
Do outro, o mundo real que quase ninguém parece querer habitar.
Eu ainda acredito em coisas que parecem ter ficado velhas.
Palavra.
Lealdade.
Silêncio.
Afeto.
Presença.
Acredito que uma pessoa pode sentar ao lado da outra sem precisar fotografar o momento.
Acredito que carinho não precisa de testemunhas.
Acredito que uma amizade não deveria depender de utilidade.
Talvez eu esteja errado.
Aos sessenta e dois, já aprendi que estar errado é uma das poucas coisas que ainda podemos fazer de graça.
Durante muitos anos procurei minha rainha da beleza.
Não a mulher das revistas.
Essa desaparece quando a maquiagem encontra a primeira lágrima.
Eu procurava outra coisa.
Uma beleza sentimental.
Uma mulher cuja inteligência soubesse abraçar sem tocar.
Que pudesse permanecer em silêncio sem transformar o silêncio em distância.
Alguém cuja alma não estivesse à venda por curtidas, status ou conveniências.
Ainda procuro.
Talvez ela também esteja perdida em algum balcão de bar.
Talvez esteja cansada.
Talvez tenha desistido.
Talvez tenha encontrado alguém.
A vida não costuma prestar contas.
Naquela tarde, porém, havia outras coisas acontecendo.
Meu neto continuava construindo o foguete.
Pegou uma caixa.
Depois uma tábua.
Depois o tambor.
Pediu ajuda para amarrar uma coisa na outra.
Disse que precisava ficar pronto antes da noite.
Queria olhar as estrelas de dentro dele.
Eu ajudei.
Não porque acreditasse que aquilo fosse realmente um foguete.
Mas porque, naquele momento, percebi que talvez eu tivesse passado tempo demais tentando provar que os foguetes não existiam.
Talvez essa seja uma das doenças da idade.
A gente descobre como o mundo funciona e começa a desprezar quem ainda acredita que ele pode funcionar de outra maneira.
Olhei para aquelas crianças correndo pelo pátio.
O gato fugindo de um lado para outro.
Os livros espalhados.
As migalhas da torta.
As caixas.
As tábuas.
O tambor.
A casa completamente fora do lugar.
E, pela primeira vez em muito tempo, aquilo não me incomodou.
Talvez porque o caos deles tivesse alguma coisa que o meu mundo organizado perdeu.
Vida.
Não a vida vendida nas fotografias.
A outra.
A que grita.
Que suja.
Que derruba.
Que quebra.
Que pergunta.
Que inventa foguetes com um tambor velho.
Fiquei pensando que talvez envelhecer seja descobrir que o mundo nunca prometeu salvação.
O foguete não veio.
Aos quarenta, eu descobri.
Aos sessenta e dois, aceitei.
Mas naquele sábado alguma coisa mudou.
Porque o foguete não precisava mais ser meu.
Ele estava ali.
No quintal.
Construído pelas mãos pequenas de quem ainda não sabia que o mundo cobra caro pelos sonhos.
E talvez seja isso que eu queira para eles.
Que demorem muito para descobrir.
Que tenham coragem de olhar para as estrelas sem perguntar quanto custa.
Que não confundam sucesso com felicidade.
Que não entreguem a própria autenticidade em troca de aplausos.
Que saibam amar sem transformar o amor em vitrine.
Que tenham amigos capazes de permanecer quando não houver fotografia.
Que aprendam a sentir a dor sem fazer dela uma identidade.
Que não tenham vergonha da delicadeza.
Que não deixem ninguém convencer que possuir é mais importante do que ser.
E, principalmente, que vivam.
De verdade.
Porque talvez a grande tragédia não seja envelhecer.
Talvez seja chegar aos sessenta e dois, olhar para trás e perceber que passamos a vida inteira tentando parecer vivos.
Naquela noite, meu neto entrou no tambor.
Olhou para o céu.
Perguntou se eu achava que dava para chegar até as estrelas.
Eu olhei para ele.
Depois olhei para o foguete improvisado.
E disse que sim. Olhe bem para o infinito, feche os olhos e demore um pouco. Abra, feche e demore. Isso irá fotografar o céu. Depois, ligue a inguinação e voe.
Ele sorriu.
Foi um sorriso verdadeiro.
Sem câmera.
Sem postagem.
Sem filtro.
E foi provavelmente a coisa mais verdadeira que vi naquele sábado.
Fiquei na varanda enquanto as crianças brincavam.
O sol já tinha ido embora.
As estrelas começaram a aparecer.
E, por alguns minutos, eu não pensei nos quarenta.
Nem nos sessenta e dois.
Nem nas coisas que não voltam.
Nem nos amigos que se perderam.
Nem nas mulheres que foram embora.
Nem nos boletos.
Nem nesse mundo que aprendeu a vender felicidade em prestações.
Fiquei apenas ali.
Ouvindo meus netos.
E percebi uma coisa que talvez eu tenha levado sessenta e dois anos para entender:
alguns foguetes não foram feitos para sair do chão.
Foram feitos para nos lembrar de olhar para cima.
E talvez seja isso que importa.
Não chegar às estrelas.
Mas não perder a capacidade de procurá-las.
