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ENTRE A VONTADE E A CONSCIÊNCIA
A coragem fortalece nossas escolhas, enquanto a razão procura indicar-lhes o caminho. Dentro de nós habitam desejos, necessidades e impulsos que fazem parte da própria condição humana. Não há erro em desejar, ambicionar ou procurar aquilo que nos realiza. O verdadeiro conflito começa quando nossas vontades ultrapassam os limites da consciência e passam a conduzir nossas atitudes sem o discernimento necessário. O desejo pelo poder, por exemplo, pode despertar a grandeza de quem pretende servir ou revelar a fragilidade moral de quem deseja dominar. Não é a força da ambição que determina o valor de uma pessoa, mas a consciência com que ela orienta suas escolhas. Porque a verdadeira justiça não se estabelece apenas nas regras que organizam uma sociedade, mas também na harmonia interior de quem aprende a governar a si mesmo.
Antes de desejar governar o mundo ao nosso redor, precisamos aprender a governar aquilo que existe dentro de nós.
A FEIRA DOS DESEJOS
Esta manhã, meus desejos organizaram uma feira na sala. A liberdade vendia gaiolas abertas; a felicidade oferecia sapatos para dançar nos dias difíceis; e a ambição, de cima de uma escada, anunciava o céu em suaves prestações. Eu queria um pouco de tudo: conhecer o mundo, escrever um livro, mudar a vida e ainda chegar a tempo para o café. Foi quando a paz apareceu carregando uma cadeira. Sentou-se entre minhas vontades e perguntou: “Se todos os seus sonhos se realizarem, haverá lugar para você?” Fiquei pensando. Enquanto isso, um pequeno desejo, que eu quase havia esquecido, puxou minha manga: queria apenas uma tarde com alguém querido. Dei-lhe a mão. Os outros continuaram anunciando suas maravilhas, mas saímos juntos para tomar um sorvete.
Interpretação:
Essa crônica fala da variedade dos nossos desejos e pergunta se, na vontade de conquistar tantas coisas, ainda reservamos espaço para viver e estar com quem amamos. O surrealismo transforma sua vida interior numa feira: cada vontade tem uma voz e oferece algo atraente.
“Meus desejos organizaram uma feira na sala” mostra muitas aspirações reunidas, disputando sua atenção. A sala, um espaço íntimo, fica ocupada por tudo aquilo que você gostaria de realizar.
A liberdade vendendo gaiolas abertas representa a possibilidade de sair das limitações. A porta está aberta, mas atravessá-la ainda exige uma escolha e, às vezes, coragem.
A felicidade oferecendo sapatos para dançar nos dias difíceis sugere a capacidade de encontrar alegria mesmo quando existem problemas. Os sapatos permitem continuar participando da vida, com seus tropeços e suas possibilidades.
A ambição anunciando o céu em suaves prestações brinca com a promessa de alcançar tudo. Como numa propaganda, um objetivo enorme parece fácil de adquirir. As “prestações” também podem sugerir seu custo: tempo, esforço e compromissos que vamos assumindo.
Quando você deseja conhecer o mundo, escrever um livro, mudar a vida e chegar para o café, aparecem juntos os grandes projetos e os pequenos hábitos. Há entusiasmo, mas também a vontade de fazer tudo caber no mesmo dia.
A paz chega com uma cadeira porque propõe uma pausa. Sua pergunta “Se todos os seus sonhos se realizarem, haverá lugar para você?” é o centro da crônica. Ela pergunta se suas conquistas permitirão que você descanse, reconheça seus sentimentos e desfrute daquilo que construiu. Uma vida pode ficar tão cheia de metas que a própria pessoa se sinta apertada dentro dela.
O pequeno desejo que puxa sua manga representa uma necessidade afetiva quase esquecida. Ele fala baixo, enquanto os outros anunciam suas maravilhas: quer apenas uma tarde com alguém querido.
Ao lhe dar a mão e sair para tomar um sorvete, você escolhe atender esse desejo naquele momento. Os grandes sonhos continuam existindo, mas o carinho também recebe seu tempo.
O sorvete representa uma alegria simples, concreta e compartilhada. A crônica nos convida a perceber que uma tarde assim também faz parte da vida que desejamos construir e não precisa esperar até que todas as outras conquistas estejam prontas.
3780 🤔 Para Mim é fácil, normal e usual ter apenas Uma e não Duas ou Mais Contas aqui, para passar pela vergonha de se destacar falsamente. Por isso tenho apenas Uma e não Duas ou Mais Contas aqui. Por isso!
3779 🤔 O que peço, encarecidamente, é que não me imitem, não utilizem Minhas Idiossincrasias. As Minhas são Minhas, Hum!
3778 🤔 Acredito que Idiossincrasias, a exemplo de nariz, "praticamente" todos temos, em especial os que negam. Acredito nisso, mas posso deixar de acreditar caso me convençam!
QUE A FOME NÃO ENCONTRE O CAMINHO DE VOLTA
Vi a fome sentada à mesa,
usando o prato de uma criança.
Comia as horas,
roía os domingos,
deixava os ossos do tempo
debaixo da cama.
A mãe mexia uma panela
onde a água sonhava ser feijão.
O menino desenhava um pão,
e o papel fazia um barulho
que ninguém tinha coragem de ouvir.
No meu Brasil,
houve quem dormisse cedo
para encurtar a distância
até uma refeição.
Mas a noite crescia,
esticava suas pernas sobre a casa,
e a manhã demorava
uma eternidade para chegar.
Depois, em tantas mesas,
o alimento voltou.
O arroz soltou pequenos sóis,
o feijão abriu suas janelas,
e uma criança largou o lápis
para segurar uma colher.
A mãe chamou pelo nome de cada filho.
A fome ouviu.
Recolheu sua cadeira
e saiu arrastando os pés.
Agora falam de uma caixa
que chegará à nossa porta.
Vem embrulhada em promessas,
com uma fita feita de amanhã.
Eu olho para ela
e penso nas mesas do meu povo.
Quem sabe o que dorme lá dentro?
E se houver uma mão
capaz de apagar o fogo?
E se aquele velho visitante
estiver dobrado entre os papéis,
esperando que alguém
lhe devolva a cadeira?
Meu medo atravessa a distância,
bate nas portas do Brasil,
encosta o ouvido nas cozinhas.
Quero ouvir pratos,
conversas,
uma criança perguntando
se ainda pode repetir.
Não quero ouvir outra vez
uma colher raspando o vazio.
Que abram essa caixa à luz do dia,
diante de quem conhece
o peso de uma panela sem comida.
Que cada promessa diga
o que fará com aquela mesa.
Meu povo já ensinou o pão
a encontrar o caminho de casa.
Que nenhuma mão
lhe troque o endereço.
Interpretaçâo:
Esse poema expressa a preocupação com quem já passou fome e o medo de que essas pessoas voltem a sofrer. Ele reúne a lembrança da privação, a alegria de ter comida novamente e a incerteza diante de uma mudança de governo.
O surrealismo transforma esses sentimentos em cenas impossíveis, mas que conseguimos sentir:
* “A fome sentada à mesa, usando o prato de uma criança”: a fome ocupa o lugar do alimento. A imagem da criança torna essa ausência especialmente dolorosa.
* “Comia as horas, roía os domingos”: a fome consome também o tempo, o descanso e a alegria. Até um domingo pode se tornar apenas mais um dia de espera.
* “A água sonhava ser feijão”: representa uma mãe tentando alimentar os filhos com recursos insuficientes. O desejo de oferecer comida está ali, mas falta o alimento.
* O menino desenhando um pão: a criança tem no papel aquilo que deveria ter no prato. O “barulho” desse papel é uma denúncia que incomoda quem a escuta.
* Dormir cedo e a noite se alongar: dormir aparece como uma tentativa de escapar da fome. Para quem espera uma refeição, o tempo parece não passar.
Quando “o arroz soltou pequenos sóis” e “o feijão abriu suas janelas”, a comida devolve calor, esperança e possibilidades à casa. A criança deixa de desenhar o pão e passa a comer: aquilo que era apenas desejo se torna realidade. A fome recolhendo sua cadeira representa o fim daquela privação.
A caixa embrulhada em promessas simboliza um futuro governo cujo conteúdo ainda não conhecemos. A embalagem pode ser bonita, mas o poema pergunta pelas consequências concretas: haverá alimento? As famílias estarão protegidas? A fome poderá voltar? Essas perguntas expressam um receio, sem afirmar que esse resultado acontecerá.
O trecho “meu medo atravessa a distância” mostra você longe do Brasil, mas ligado à vida de quem ficou. Seu desejo é ouvir os sinais simples de uma casa alimentada: pratos, conversas e uma criança pedindo mais.
“Que abram essa caixa à luz do dia” é um pedido de transparência. As promessas precisam ser examinadas diante de quem conhece a fome, porque essas pessoas sabem o que está em jogo.
E o final “Meu povo já ensinou o pão a encontrar o caminho de casa. Que nenhuma mão lhe troque o endereço” pede que o alimento continue chegando às famílias. É a sua maneira poética de dizer: “Quem voltou a comer não pode ser condenado a sentir fome novamente.”
Tem algo em você que me desarma, me encanta e me faz querer ficar. É como se meu coração reconhecesse no teu abraço o lugar onde sempre sonhou morar. E quanto mais a vida me aproxima de você, mais eu quero ser tua escolha, teu desejo e teu amor.
O FILÓSOFO QUE LEVAVA O INFINITO NO BOLSO
Sonhei que me tornei filósofo
numa quinta-feira qualquer;
a dúvida pediu meu currículo,
e eu perguntei: “Para quê?”
Fui comprar um pouco de sabedoria,
mas o vendedor, muito ocupado,
disse que só tinha perguntas
e um silêncio recém-chegado.
Levei três quilos de espanto,
duas ideias e um talvez;
o talvez escapou da sacola
e me seguiu pelo resto do mês.
Em casa, sentei para escrever
minhas composições sobre a existência;
a caneta criou duas pernas
e saiu à procura da própria essência.
“Volte aqui! Tenho coisas a dizer!”
Ela respondeu do portão:
“Se você quer entender a vida,
por que me prende na sua mão?”
Minha cabeça virou uma praça,
com pensamentos fazendo comício;
um queria explicar o universo,
outro só queria um sanduíche.
Dei ouvidos aos dois, por prudência,
pois pensar também dá fome;
o universo coube numa frase,
mas o sanduíche levou meu nome.
Escrevi que o tempo nos transforma.
O relógio se pôs a rir,
tirou do bolso uma foto de infância
e perguntou: “E quem me viu crescer aqui?”
A verdade chegou de chinelos,
sem diploma, gravata ou anel;
leu meus escritos, coçou a cabeça
e fez um barquinho de papel.
“Vamos testar sua filosofia.”
Pôs o barco numa poça do chão.
Embarquei com meus sonhos e versos,
e a sala virou imensidão.
Hoje levo o infinito no bolso,
embora ele insista em cair;
quero ser filósofo e, enquanto aprendo,
dou às perguntas uma cadeira
e deixo a vida me contradizer e rir.
Interpretação:
Esse poema apresenta seu sonho de ser filósofo como uma aventura de curiosidade, escrita e descoberta. O humor e o surrealismo mostram alguém que deseja compreender a existência e aprende a conviver com perguntas que não têm respostas fáceis.
A dúvida pedindo seu currículo brinca com a ideia de que seria preciso apresentar credenciais para começar a filosofar. Sua resposta “Para quê?” já inicia o exercício filosófico: você questiona a própria exigência.
A loja que vende perguntas e silêncio, em vez de sabedoria, sugere que o conhecimento não vem como um produto pronto. As perguntas abrem caminhos; o silêncio permite escutar e refletir.
“Três quilos de espanto” dão peso à capacidade de se surpreender com o mundo. E o “talvez” que escapa e acompanha você representa uma incerteza persistente: aquela questão que continua trabalhando dentro da cabeça, mesmo depois que fechamos o livro.
A caneta que sai à procura da própria essência representa suas composições ganhando liberdade. Ao perguntar por que você a prende, ela provoca uma reflexão: para compreender a vida, também precisamos permitir que ela nos surpreenda, em vez de tentar fazê-la caber inteiramente nas nossas ideias.
A cabeça transformada numa praça mostra seus pensamentos convivendo, discutindo e disputando atenção. Um quer explicar o universo; outro quer comer. Essa passagem reconhece, com graça, que quem filosofa também tem corpo, fome e necessidades cotidianas.
“O universo coube numa frase, mas o sanduíche levou meu nome” pode ser lido como uma brincadeira com nossa pretensão de explicar tudo. Você resume algo imenso numa frase, enquanto uma coisa simples recebe sua assinatura. A imagem convida a rir da vontade de produzir grandes conclusões e deixar nossa marca.
O relógio mostrando uma fotografia da infância vira sua afirmação pelo avesso. Você escreve que o tempo transforma as pessoas, mas o próprio tempo aparece como alguém que também teve infância. É uma provocação sobre aquilo que parece óbvio: afinal, como percebemos e medimos a mudança?
A verdade chegando de chinelos aproxima a compreensão da vida comum. Ela pode aparecer numa conversa, numa experiência ou num detalhe cotidiano, sem cerimônia. Ao transformar seus escritos num barco, ela propõe uma experiência: ver como suas ideias navegam quando entram em contato com a realidade.
A sala que se torna imensidão mostra como a reflexão e a imaginação podem ampliar um espaço pequeno. Você permanece em casa, mas seus sonhos e versos o levam muito além.
O final reúne o sentido do poema. Levar o infinito no bolso é desejar compreender algo maior do que nossa capacidade de guardar ou explicar. Ele insiste em cair porque sempre há alguma coisa que escapa.
E dar uma cadeira às perguntas significa acolher as dúvidas, ter paciência com elas. Deixar a vida contradizer você expressa disposição para rever suas ideias e rir preserva a leveza durante esse aprendizado.
Seu sonho aparece aqui com muita beleza: tornar-se filósofo é cultivar a coragem de perguntar, escrever o que pensa e continuar aprendendo com aquilo que a vida responde.
Nunca permita que a insegurança de alguém se torne o limite do seu crescimento. Você não precisa diminuir sua luz para que outras pessoas se sintam confortáveis. Continue trabalhando, conquistando corações e mostrando seu valor. Quem tem propósito não precisa disputar espaço: conquista seu lugar através do que faz. E o que Deus colocou no seu caminho, ninguém precisa autorizar que floresça.
Alguns acordam com o engano, e esse erro é fatal; acabam com a corda em volta do pescoço e não acordam para a verdade!
Havia música na cozinha,
panelas ao lume,
e um homem que ria alto
como se a vida não lhe pesasse.
Tinha fortuna nas mãos,
mas talvez tempestades na alma.
Porque o dinheiro enche uma casa,
mas não silencia o que nos falta.
Houve mãos que magoaram,
e feridas que não posso ignorar.
Mas também houve um riso
que ainda consigo recordar.
Hoje, sentava-me ao seu lado,
sem julgar, sem tentar adivinhar.
Perguntava-lhe apenas:
O que sentes quando estás a cozinhar?
Porque há fortunas que se contam,
e há pazes que não se podem comprar.
Ontem fui um rebelde sem causa, hoje sou uma causa sem rebeldia e amanhã serei um rebelado causador de causas rebeldes!
Para o sonho crescer, não pode faltar fermento!
Pena que alguns exageram no fermento e esquecem da farinha!
“A maioria pode até decidir quem governa, mas jamais a quem pertence a dignidade. O poder democrático tem por limite os direitos que nenhuma vitória autoriza negar.”
Nesse tempo que falta, tempo para passatempo, está difícil prever o tempo e a vida passa o tempo para trás!
Instintos descritos por uma teoria evolucionista, onde Charles Darwin nos mostra vossas pesquisas. Mas passamos a vivenciar outros tempos, percebendo na Etologia os diversos acontecimentos.
Eu não ligo pro que pensam de mim, nem pro jeito que eu falo de mim. O que me incomoda é a mentira bem contada que insistem em contar sobre nós.
O inverno criava raízes nas janelas dele, e a voz se perdia entre galhos secos. Ela, sem perceber, recolhia as penas pelo caminho. Mas não era pela primavera que ele amava sua presença. Mesmo que todas as flores voltassem, nenhuma teria o nome dela. Um dia, ela seguiu outro céu. Nele, ficou um horizonte rasgado e o amor ainda abria as asas na direção em que ela desapareceu.
