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Deus, no alto de sua perfeição, criou o homem; o ser humano, em contraponto ao belo, cria a fealdade.
A morte é como um sono profundo, só que ao invés de acordar no mesmo corpo, acorda em outro, e nem se lembra de como dormiu.
"A omissão é a maldade dos que se dizem bons. Quantas vezes você fingiu não ver a necessidade do outro?"
CLADISSA - ROMANCE.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Ano: 2026.
CAPÍTULO XIX
CLADISSA E A SOMBRA DA ACUSAÇÃO.
O inverno já havia passado pela Úmbria quando os rumores começaram a espalhar-se entre os claustros e as aldeias. Não eram rumores vulgares, daqueles que nascem do tédio dos camponeses. Eram murmurações graves, carregadas de suspeita, pronunciadas em voz baixa pelos homens da Igreja.
Cladissa já não era apenas a jovem silenciosa que observava o mundo com curiosidade intelectual. Seus diálogos, suas perguntas e sua forma incomum de interpretar as Escrituras haviam despertado inquietação.
Naquele tempo, perguntar demais era perigoso.
Os monges estavam habituados à repetição da doutrina. A tradição transmitia-se como corrente ininterrupta. O pensamento devia apenas conservar, jamais examinar. Contudo, Cladissa possuía uma inteligência que não se contentava com fórmulas repetidas.
Certa tarde, no salão austero onde os clérigos reuniam-se para tratar de assuntos disciplinares, formou-se a discussão que alteraria profundamente o destino da jovem.
O ar estava pesado. As janelas estreitas deixavam entrar uma luz fria. Sentados ao redor de uma mesa de madeira escurecida pelo tempo, alguns sacerdotes discutiam questões de autoridade e obediência.
Foi então que um deles pronunciou algo que parecia incontestável para todos.
A Igreja, disse ele, governa as consciências porque recebeu diretamente do céu o direito de guiar os homens. Questionar esse poder equivale a questionar o próprio desígnio divino.
A frase passou pelos presentes como verdade definitiva.
Cladissa, porém, levantou os olhos com uma serenidade que surpreendeu os presentes.
Ela falou sem elevação de voz.
Se o poder espiritual procede de Deus, disse ela, então ele deve elevar as consciências, não submetê-las pelo temor.
Um silêncio espesso tomou o salão.
Alguns monges trocaram olhares. Outros permaneceram imóveis.
Um dos clérigos mais antigos inclinou-se lentamente sobre a mesa.
Estás afirmando, perguntou ele, que a autoridade da Igreja pode errar.
Cladissa respondeu com prudência.
Estou afirmando que toda autoridade humana corre o risco de afastar-se de sua origem quando deixa de ouvir a consciência.
A resposta caiu como pedra sobre águas imóveis.
O sacerdote ergueu-se.
Cuidado com tuas palavras, disse ele. A consciência individual não pode sobrepor-se à tradição sagrada.
Cladissa manteve a calma.
A tradição preserva a verdade, respondeu ela. Mas não pode substituir o discernimento que Deus colocou no espírito humano.
A tensão cresceu.
Alguns presentes começaram a perceber que aquela jovem ultrapassava um limite invisível. O limite que separava a reflexão silenciosa da suspeita pública.
Outro religioso interveio.
Quem ensina tais ideias a ti.
Cladissa respondeu simplesmente.
A observação da vida e o estudo das palavras do Cristo.
Essa resposta produziu um efeito ainda mais perturbador. Não havia mestre oculto. Não havia influência estrangeira. Apenas o pensamento autônomo de uma jovem.
E isso era ainda mais inquietante.
Na mentalidade daquele século, a unidade da fé dependia da unidade da autoridade. Se cada consciência começasse a interpretar por si mesma os princípios espirituais, a ordem social poderia fragmentar-se.
A discussão tornou-se mais severa.
Alguns sacerdotes passaram a afirmar que tal postura revelava orgulho intelectual. Outros insinuaram que aquela forma de raciocinar poderia abrir caminho para heresias.
Cladissa escutava tudo com uma serenidade quase dolorosa.
Ela não desejava combater a Igreja. Reconhecia sua importância na preservação da fé e da cultura. Porém não podia negar aquilo que sua própria consciência percebia.
E sua consciência percebia que o Evangelho falava ao coração humano antes de falar às instituições.
Um dos monges então pronunciou a frase que transformou a reunião em acusação.
Talvez tua mente esteja sendo seduzida pelo espírito da dúvida.
Naquele tempo, tal frase carregava peso terrível.
A dúvida podia ser vista como porta de entrada para o erro espiritual.
Todos os olhares voltaram-se para ela.
Cladissa respondeu lentamente.
A dúvida que busca compreender não destrói a fé. Ela apenas procura purificá-la.
Mas aquelas palavras já não eram escutadas com neutralidade.
O clima havia mudado.
A partir daquela tarde, seu nome passou a circular entre os religiosos como tema de vigilância. Alguns acreditavam tratar-se apenas de juventude ousada. Outros começaram a enxergar ali o nascimento de uma dissidência perigosa.
A própria Cladissa percebeu a mudança.
Os corredores do mosteiro tornaram-se mais silenciosos quando ela passava. Certos monges interrompiam conversas. Alguns evitavam dialogar com ela.
Era o primeiro sinal de isolamento.
E assim, quase sem perceber, a jovem que apenas desejava compreender a relação entre fé e consciência havia entrado em território delicado.
Naquele mundo medieval, onde a Igreja representava não apenas religião mas ordem social, questionar os limites de sua autoridade equivalia a caminhar sobre terreno instável.
Cladissa não havia se declarado inimiga da Igreja.
Mas suas palavras haviam produzido algo que as instituições raramente toleram.
Inquietação.
E a inquietação, quando nasce dentro das paredes do poder, costuma transformar-se rapidamente em suspeita.
Assim começou a sombra que lentamente se projetaria sobre o destino de Cladissa.
Não como rebeldia declarada.
Mas como a consequência inevitável de uma consciência que se recusava a calar-se diante da verdade que percebia.
O Teatro de Betesda.
Cinco pórticos erguidos para o olhar,
Mas as águas não se moviam para curar.
Havia um roteiro, um tempo, uma encenação:
Entrava o "enfermo" de aluguel, saía a multidão.
O milagre tinha dono, tinha preço e tinha cor,
Menos a cor da lágrima de quem sentia a dor.
Trinta e oito anos de espera e de descarte,
Enquanto o "favorecido" dominava aquela arte.
Quem pagava passava à frente, o forte vencia o réu,
E o pobre, no seu leito, olhava em vão para o céu.
Um sistema viciado, uma fila que nunca andava,
Onde a moeda do suborno era o que a água agitava.
Mas o Cristo não entra na fila, Ele quebra o esquema.
Ignora o anjo, a água e todo o estratagema.
Ele não pergunta "quem te ajuda a mergulhar?",
Ele pergunta "queres, de fato, te levantar?".
Pois para quem é a Verdade, o teatro é um insulto:
Jesus cura o homem e desmascara o culto.
O alvo foi atingido: o paralítico ficou de pé,
E a farsa do tanque afundou na própria má fé.
"Muitos se acham bons porque não fazem o mal, mas a verdadeira bondade é medida pelo bem que você deixa de fazer."
"Pense bem: o seu brilho ilumina o caminho de alguém ou serve apenas para ofuscar quem está ao seu redor?"
