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"Como é triste ver pessoas gastando energia com disputas e inveja em vez de viverem em paz."
Caetano Veloso
Algumas pessoas não são feitas para ficar. São feitas para atravessar a nossa história, deixar alguma coisa em nós e seguir. E talvez aceitar isso seja uma das formas mais difíceis de entender que nem toda partida significa que o que vivemos foi menos verdadeiro.
Se tem algo que os Idiotas adoram é o Vitimismo; qualquer um que se faça de Vítima pode arregimentá-los.
A vítima, nesse teatro, não precisa necessariamente ter razão — basta parecer perseguida, ameaçada ou ferida.
E quanto mais simples for a narrativa, melhor: de um lado, o inocente perseguido; do outro, os culpados de sempre.
Não há espaço para nuances, contradições ou responsabilidade pessoal.
Há apenas a confortável sensação de pertencer ao lado dos “bons”.
O vitimismo é uma ferramenta poderosa porque dispensa o esforço de pensar.
Quem se apresenta como vítima conquista imediatamente uma espécie de imunidade moral: seus erros tornam-se justificáveis, seus excessos viram reação, sua agressividade passa a ser defesa.
E aqueles que se apaixonam pela narrativa não querem investigar os fatos; querem apenas encontrar alguém para defender e alguém para culpar.
O mais curioso é que esse mecanismo pode funcionar em qualquer seara.
Basta trocar os personagens, inverter as acusações e preservar a mesma estrutura emocional.
O sequestrador mental de hoje pode ser a vítima de amanhã — e seus seguidores estarão sempre prontos para a próxima indignação.
Talvez seja por isso que o vitimismo seja tão sedutor: ele oferece a quem o abraça a rara oportunidade de sentir-se moralmente superior sem precisar enfrentar a parte mais incômoda da liberdade — a responsabilidade por aquilo que pensa, faz e escolhe.
No fim, quem vive se declarando vítima acaba precisando de perseguidores para continuar existindo.
E quem vive para defendê-lo precisa acreditar que toda história tem apenas um inocente e um culpado.
Pensar dá muito mais trabalho.
É muito mais fácil escolher um lado, vestir a fantasia da indignação e chamar isso de consciência.
*O LUGAR ONDE A POESIA NÃO SERVIA PARA NADA*
Eu era novo na cidade e ainda não tinha escolhido um lugar para beber. Toda cidade exige isso de você. Um lugar onde entrar sozinho não pareça uma declaração de fracasso. Um balcão onde ninguém pergunte seu nome. Uma mesa onde você possa ficar olhando para o copo como se houvesse alguma resposta lá dentro.
Encontrei o pub perto de um parque.
Era pequeno. Bucólico demais para o meu gosto, mas não o suficiente para me fazer ir embora. Havia árvores antigas do lado de fora, bancos de madeira e uma iluminação amarela que fazia tudo parecer mais importante do que realmente era.
Dentro, havia estantes cheias de livros, quadros de artistas locais e alguns instrumentos musicais pendurados nas paredes. Um pequeno tablado, quase no mesmo nível do chão, servia para música, debates literários e noites de poesia.
Pedi uma bebida e sentei no canto do balcão.
Era um bom lugar para observar.
E observar é uma das poucas coisas que ainda consigo fazer sem estragar tudo.
Uma mulher subiu ao pequeno tablado.
Trazia algumas folhas na mão.
Começou a declamar.
Não era uma poesia bonita.
Ainda bem.
Falava de solidão, de perdas, de um homem que foi embora, de uma mãe que nunca soube abraçar, de noites em que o telefone não toca e de manhãs em que ninguém tem coragem de admitir que gostaria de não ter acordado.
Falava de gente.
Isso já era uma coisa bastante desagradável para algumas pessoas.
No canto próximo ao balcão havia um grupo de homens e mulheres que parecia ter escolhido aquele lugar por engano. Tinham roupas boas, relógios caros e aquele tipo de conversa que costuma começar com dinheiro e terminar em dinheiro.
Um deles riu.
Outro disse que aquilo era deprimente.
Uma mulher comentou que poesia não servia para nada.
O homem do relógio concordou.
— Poesia não paga conta.
Era uma frase perfeita.
Curta.
Prática.
Estúpida.
Eles riram.
Eu bebi.
A mulher continuou.
E, enquanto ela falava, comecei a pensar que talvez aquela fosse a pergunta errada.
Para que serve a poesia?
A pergunta parecia razoável até você perceber que existe uma doença escondida nela.
A necessidade de que tudo tenha utilidade.
Se alguma coisa não produz dinheiro, produtividade ou resultado, passa a ser considerada inútil.
Uma árvore precisa dar fruto.
Um homem precisa produzir.
Uma mulher precisa vencer.
Um filho precisa ter futuro.
Uma casa precisa valorizar.
Um livro precisa ensinar.
Uma conversa precisa gerar alguma coisa.
Até o descanso precisa servir para recuperar alguém para o trabalho do dia seguinte.
Tudo precisa servir.
Talvez fosse por isso que aquela mulher incomodava tanto.
Ela estava ali fazendo uma coisa que não servia para nada.
Ou, pelo menos, não servia para aquilo que eles entendiam como vida.
Ela não estava vendendo nada.
Não estava aumentando patrimônio.
Não estava melhorando o currículo.
Não estava produzindo uma estatística.
Estava apenas dizendo alguma coisa que doía.
E talvez fosse justamente aí que estivesse a resistência.
A poesia não consertava o mundo.
Não pagava aluguel.
Não trocava o óleo do carro.
Não diminuía a fila do supermercado.
Não impedia que um idiota fosse eleito presidente de alguma coisa.
Mas resistia.
Resistia à ideia de que o ser humano pudesse ser reduzido ao que possui, ao que produz e ao que consegue provar.
Ela funcionava como metáfora daquilo que dá sentido à existência.
Não porque tivesse respostas.
Mas porque fazia perguntas que ninguém conseguia transformar em dinheiro.
Quem sou eu?
O que perdi?
Quem amei?
Quem ainda me ama?
Por que continuo aqui?
Perguntas inconvenientes.
Nenhuma delas cabe numa planilha.
O grupo continuava rindo.
O homem do relógio começou a falar do carro novo.
A mulher ao lado dele mostrou fotografias de uma viagem.
Outro falou sobre investimentos.
Tinham muito.
Era evidente.
Talvez tivessem tudo.
E foi justamente isso que me incomodou.
Pareciam ter passado tanto tempo acumulando coisas que esqueceram de acumular alguma experiência que não pudesse ser fotografada.
Talvez confundissem ter com ser.
Eu não podia julgá-los.
Também tinha passado boa parte da vida fazendo coisas que não sabia se queria fazer.
Trabalhando.
Pagando.
Cumprindo.
Esperando.
Adiando.
A diferença talvez fosse apenas o tipo de mentira que cada um contava para continuar funcionando.
A mulher terminou o poema.
Algumas pessoas aplaudiram.
Poucas.
Ela agradeceu e desceu.
Passou perto de mim.
Por um instante, olhou para o meu copo.
Depois para mim.
Não disse nada.
Talvez não precisasse.
Pedi outra bebida.
Depois outra.
A noite avançou.
O grupo foi embora.
Um deles saiu falando ao telefone sobre uma reunião às oito da manhã.
A poesia havia terminado.
O dinheiro continuava funcionando.
O mundo tinha sobrevivido a mais uma noite.
Paguei a conta e saí.
O parque estava quase vazio.
Comecei a caminhar para casa.
A cidade parecia diferente sem as pessoas falando.
Os prédios eram apenas prédios.
As lojas estavam fechadas.
As vitrines continuavam iluminadas para ninguém.
Passei por um carro importado estacionado na rua.
Pensei no homem do relógio.
Ele provavelmente chegaria em casa, colocaria as chaves sobre uma mesa cara e dormiria numa cama confortável.
Talvez fosse feliz.
Eu não sabia.
E esse era o problema.
Ninguém sabe.
Passamos a vida tentando construir uma resposta com coisas que podem ser medidas.
Salário.
Cargo.
Casa.
Carro.
Viagens.
Seguidores.
Objetos.
Conquistas.
E, no fim, quando tudo isso fica em silêncio, sobra uma pergunta que não pode ser respondida por extrato bancário.
Você viveu?
Ou apenas funcionou?
Continuei andando.
Pensei novamente na mulher do pub.
Talvez poesia fosse isso.
Não um luxo.
Não uma distração para quem não tem problemas.
Mas uma espécie de resistência contra a vida automática.
Um pequeno defeito na máquina.
A recusa em aceitar que nascer, trabalhar, pagar contas, envelhecer e morrer seja uma biografia suficiente.
Talvez um poema seja apenas alguém dizendo: eu estive aqui.
Eu senti isso.
Eu perdi aquilo.
Eu amei alguém.
Eu tive medo.
Eu não entendi.
Mas estive aqui.
E talvez fosse isso que aquelas pessoas não compreendessem.
A poesia não precisava salvar ninguém.
Bastava impedir que alguém se transformasse completamente naquilo que o mundo queria que ele fosse.
Cheguei em casa.
Abri a porta.
Acendi a luz.
Meu gato apareceu no corredor.
Olhou para mim com aquela expressão de quem estava profundamente decepcionado com a minha pontualidade e com a espécie humana em geral.
Tinha fome.
Claro que tinha.
Coloquei comida no prato.
Ele comeu.
Depois passou pela minha perna e desapareceu.
Fiquei alguns segundos parado no meio da sala.
A casa estava silenciosa.
Não havia aplausos.
Não havia relógios caros.
Não havia gente discutindo patrimônio.
Não havia ninguém perguntando quanto eu ganhava ou o que eu possuía.
Havia apenas um gato, uma garrafa pela metade e eu.
E foi ali que entendi uma coisa bastante simples.
Talvez a poesia não sirva para nada.
Talvez nunca tenha servido.
Talvez esse seja justamente o seu valor.
Porque algumas coisas precisam existir sem prestar contas.
Uma música.
Um beijo.
Uma conversa inútil às três da manhã.
Um homem bebendo sozinho.
Uma mulher lendo seus versos para meia dúzia de desconhecidos.
Um gato esperando alguém voltar para casa.
Nada disso aumenta o patrimônio.
Nada disso melhora a produtividade.
Nada disso aparece no currículo.
Mas, quando tudo o que pode ser comprado, medido e contabilizado finalmente perde importância, são essas coisas que permanecem.
Fiquei olhando para o gato.
Ele me olhou de volta.
Nenhum dos dois tinha uma resposta.
Pela primeira vez naquela noite, isso não pareceu um problema.
Talvez viver seja justamente continuar fazendo coisas que não servem para nada e que, por alguma razão, fazem a existência valer alguma coisa.
Talvez seja por isso que ainda escrevemos.
Por isso que ainda ouvimos música.
Por isso que ainda amamos mesmo depois de descobrir que amar não oferece nenhuma garantia.
A poesia não existe para tornar a vida mais útil.
Existe para impedir que a vida se torne apenas útil.
E naquela noite, sozinho em casa, com um gato faminto andando pela sala e a cidade inteira funcionando do lado de fora, percebi que talvez essa fosse a única forma de resistência que ainda me interessava.
Continuar vivo.
Mas não apenas funcionando.
Deus brasileiro, que não nasceu em palácios
ordenados a ouro, mas em um simples celeiro;
aquele que não se ausenta da alegria, mas que, enquanto seu povo canta, dança.
Sim, mente por detrás do universo, que, para si, ser grande não é mais do que um simples reflexo, mas que, mesmo assim, se fez pequeno e andou entre nós, os perversos.
Deus brasileiro, que sorri para um sorriso
banguela, que, para o tupi, é anga, que, do órfão, é lar.
Leão que não nos preza, porque somos filhos de sua reza. Sim, a este Deus brasileiro, que nasceu na simplicidade de um celeiro, me fiz poeta.
0294 📜 Faladores Fanfarrões não percebem, mas eles dão Notoriedade àqueles a quem xingam, invejam e odeiam. Como eles fazem com o atual Presidente, com a Primeira Dama, com o Ministro Que Não Se Intimida. Mas os Faladores Fanfarrões não percebem, que bom!"
Não se esforce para fazer os outros rirem, para não acabar sendo confundido como alguém qualquer e, para não perder a estima dos seus conhecidos.
_Autor: James Richard Ferreira Pantoja
3004 📜 BÁBA ZÉFA, a Vidente Nada Condescendente, foi-se pra Casa dela. Partiu agradecida pela hospedagem aqui no Meu Casebre, tão diferente de Outros parentes que cá recebo, tão diferente!
antes de mim.
Naquela noite eu recebi uma ligação de um número que não existia.
Não era número privado. Não era desconhecido.
Simplesmente não existia.
Ainda assim, atendi.
- Alô?
Do outro lado, silêncio.
Depois uma voz.
A minha.
- Não vá dormir hoje.
Eu ri.
Não porque fosse engraçado. Ri porque algumas coisas assustam menos quando a gente finge que são ridículas.
- Quem é?
- Você.
- Isso não tem graça.
- Eu sei.
A ligação caiu.
Fiquei olhando para o telefone por alguns segundos, esperando alguma explicação aparecer na tela. Nada.
Joguei o celular na cama e tentei esquecer.
Cinco minutos depois, bateram na porta.
Três batidas.
Sempre três.
Levantei.
Não havia ninguém.
Só um envelope no chão.
Meu nome estava escrito à mão.
Dentro havia uma foto.
Era uma foto minha dormindo.
No verso, uma frase:
“Você tem oito horas.”
Eu deveria ter chamado alguém.
Não chamei.
Talvez porque, no fundo, uma parte de mim já soubesse que aquilo não tinha começado naquela noite.
Passei a madrugada tentando encontrar uma explicação.
Procurei a origem do número.
Nada.
Revirei mensagens antigas.
Nada.
Olhei as câmeras.
Às 02:13, alguém entrou.
Era eu.
A mesma roupa que eu estava usando.
O mesmo rosto.
A mesma cicatriz pequena perto da sobrancelha.
Eu parei o vídeo.
Voltei.
Assisti de novo.
Eu entrava em casa às 02:13.
Mas eu estava em casa.
Sentado na frente daquela tela.
O vídeo continuava.
Eu aparecia no corredor.
Parava diante da minha porta.
Olhava diretamente para a câmera.
E sorria.
Depois levantava a mão.
Três batidas.
A gravação terminava.
Eu olhei para a minha porta.
Três batidas vieram do outro lado.
Não abri.
Às 05:40, alguém bateu novamente.
Dessa vez, uma mulher falou meu nome.
Eu conhecia aquela voz.
Era impossível.
Ela tinha morrido há seis meses.
Fiquei parado no meio da sala.
Ela disse:
- Você prometeu que não faria isso de novo.
Não respondi.
- Eu sei que você está aí.
Meu corpo inteiro ficou frio.
- O que eu fiz?
Silêncio.
Depois:
- Ainda não fez.
Às 06:15, recebi outra mensagem.
Uma localização.
Um endereço que eu não reconhecia.
Abaixo, apenas:
“Se quiser saber por que todos estão tentando impedir você, venha sozinho.”
Fui.
Não sei por quê.
Talvez porque algumas perguntas sejam mais perigosas quando ficam sem resposta.
O lugar era uma casa abandonada.
Entrei.
Havia fotos nas paredes.
Centenas.
Todas minhas.
Eu criança.
Eu adolescente.
Eu adulto.
Eu dormindo.
Eu chorando.
Eu dirigindo.
Eu trabalhando.
Eu abraçando pessoas.
Eu terminando relacionamentos.
Eu sozinho.
E então encontrei uma foto que me fez parar.
Era eu, sentado naquela mesma casa.
Com cinquenta e poucos anos.
Ao meu lado havia uma mulher.
Não reconheci.
Atrás da foto estava escrito:
“Primeira tentativa.”
Outra foto.
Eu, mais velho.
Sozinho.
“Segunda tentativa.”
Outra.
Eu sorrindo.
Uma família ao meu redor.
“Terceira tentativa.”
E então uma última.
Eu, exatamente como estava naquela manhã.
Abaixo:
“Quarta tentativa.”
Foi quando ouvi passos.
Virei.
Um homem entrou.
Eu conhecia aquele rosto.
Era o homem do vídeo.
Era eu.
Só que mais velho.
Muito mais velho.
Ele fechou a porta.
- Finalmente.
- O que está acontecendo?
Ele sentou.
- Você vai me odiar.
- Quem é você?
Ele respirou fundo.
- Sou a única versão sua que conseguiu chegar até aqui.
- Até onde?
Ele olhou para o relógio.
06:59.
- Até antes da escolha.
Ele explicou tudo como se estivesse contando uma história que já tinha contado muitas vezes.
Disse que aquela noite acontecia repetidamente.
Sempre.
Eu recebia a ligação.
Recebia a foto.
Via as câmeras.
Ia até aquela casa.
Encontrava ele.
E então precisava escolher.
Existiam quatro possibilidades.
Em uma, eu permanecia exatamente como era.
Em outra, mudava tudo.
Na terceira, esquecia completamente aquela noite.
Na quarta...
Ele parou.
- Na quarta, você me mata.
Eu ri.
- Por que eu faria isso?
Ele olhou para mim.
- Porque eu sou a única coisa impedindo você de ter a vida que quer.
- Que vida?
Ele não respondeu.
Foi até uma parede.
Havia uma porta.
Uma porta que eu não tinha visto antes.
Ele colocou a mão na maçaneta.
- Você precisa escolher antes das oito.
- E se eu não escolher?
- Já escolheu.
- O quê?
Ele abriu a porta.
Do outro lado havia meu quarto.
O meu quarto.
Exatamente como estava naquela noite.
Minha cama.
Meu celular.
A janela.
O envelope.
Tudo.
Eu entrei.
Na cama havia alguém dormindo.
Eu.
Ele estava dormindo profundamente.
O homem mais velho apareceu atrás de mim.
- Essa é a primeira vez.
- Primeira vez o quê?
- A primeira vez que você conseguiu chegar até aqui sem lembrar.
Olhei para o homem na cama.
- Então quem é ele?
O velho ficou em silêncio.
- Você.
- Não.
- Sim.
- Mas eu estou aqui.
Ele sorriu.
- Esse é o problema.
O relógio marcou 07:59.
Uma sirene começou a tocar em algum lugar distante.
Eu olhei novamente para a cama.
O homem dormindo abriu os olhos.
Sentou.
Olhou diretamente para mim.
E falou:
- Não vá dormir hoje.
Eu senti o sangue desaparecer do rosto.
Era a mesma frase.
A mesma voz.
A minha voz.
O velho começou a chorar.
- Não...
- O quê?
- Dessa vez foi diferente.
- O que foi diferente?
Ele apontou para mim.
- Você nunca deveria ter me visto.
A luz apagou.
Por alguns segundos, não existiu absolutamente nada.
Então ouvi uma porta fechando.
Quando a luz voltou, o velho tinha desaparecido.
A casa estava vazia.
As fotos haviam sumido.
A porta também.
Só havia uma coisa sobre a mesa.
Meu celular.
Ele estava tocando.
Olhei para a tela.
Era uma chamada recebida.
O número não existia.
Atendi.
Do outro lado, silêncio.
Depois uma voz:
- Alô?
Era minha voz.
Mas dessa vez eu não falei nada.
A voz continuou:
- Quem é?
Eu reconheci a frase.
Era exatamente o que eu havia dito naquela noite.
Então percebi.
A história não estava se repetindo.
Eu estava dentro dela.
Eu não tinha recebido uma ligação do futuro.
Eu estava ligando para o passado.
E o homem que eu havia encontrado não era uma versão futura minha.
Era a versão que existia antes de mim.
A quarta tentativa.
A terceira.
A segunda.
A primeira.
Todas as vidas.
Todas as mortes.
Todos aqueles homens.
Não eram versões diferentes.
Eram pessoas diferentes que tinham recebido a mesma ligação.
Todas achando que eram eu.
Todas tentando descobrir quem começou aquilo.
Todas chegando àquela mesma casa.
Todas encontrando alguém mais velho esperando por elas.
Até que uma delas finalmente entendesse.
Não havia nenhum primeiro homem.
Não havia começo.
Só havia o próximo.
A ligação continuava.
Eu poderia desligar.
Poderia falar.
Poderia perguntar.
Mas alguma coisa me impediu.
Então fiz a única coisa que ainda não tinha feito.
Olhei para o relógio.
08:00.
E disse:
- Não vá dormir hoje.
A ligação caiu.
Fiquei parado.
Esperando.
Três batidas vieram da porta.
Eu não me mexi.
Mais três.
Depois ouvi minha própria voz do outro lado:
- Quem é?
Eu olhei para a porta.
E, pela primeira vez, entendi o que estava acontecendo.
Não havia alguém tentando entrar.
Havia alguém tentando sair.
E eu não sabia mais de qual lado da porta estava.
Fim.
Ou talvez só mais uma tentativa.
ALÉM DA ETERNIDADE
Fique ao meu lado, segure minha mão,
e vamos caminhar sem medo de errar;
que o amor seja a nossa direção,
e o destino nos ensine a sonhar.
Se o mundo mudar de repente,
que eu tenha você junto a mim,
pois amor que é verdadeiro e presente
não conhece começo, nem fim.
Quero andar contigo pela estrada,
sob o sol, sob a chuva e sob o luar;
ter sua presença em minha jornada,
e em cada silêncio, poder te abraçar.
Se houver pedras no nosso caminho,
juntos saberemos como seguir;
pois nenhum coração fica sozinho
quando encontra outro para dividir.
Fique ao meu lado, não solte a mão,
deixe o tempo passar devagar;
que cada batida do meu coração
seja uma promessa de sempre te amar.
E quando a vida perder sua voz,
quando o tempo deixar de existir,
ainda haverá um caminho para nós,
onde o amor continuará a florir.
Fique ao meu lado, segure minha mão
e vamos caminhar além da eternidade.
Porque se o amor for nossa canção,
seremos para sempre uma só saudade
que nem o tempo conseguirá apagar,
nem a distância poderá separar:
dois corações que escolheram caminhar
juntos... além da eternidade.
Os escândalos dos artistas são necessários para ensinar a sociedade discutir a própria sociedade.
Escândalos políticos não agregam em nada.
Os políticos são os nossos resolvedores de problemas apenas, e não para fazer com que nos habituemos com os problemas que eles criam.
A reputação empresarial não se forma apenas por campanhas, e sim pelos hábitos morais repetidos no cotidiano.
O Paradoxo de Te Esquecer.
Eis a armadilha:
para expulsar você da memória,
preciso primeiro encontrá-la.
Preciso lembrar do teu rosto
para dizer a mim mesmo
que não quero mais lembrá-lo.
Preciso pronunciar teu nome por dentro
para ordenar ao cérebro
que pare de chamá-lo.
Quanto mais tento apagar você,
mais desenho os teus contornos.
Quanto mais digo
“não vou pensar nela”,
mais o pensamento pergunta:
“nela, quem?”
E então você volta.
Porque esquecer exige lembrar
exatamente aquilo
que se deseja esquecer.
Talvez seja esse o paradoxo:
você já não precisa estar comigo
para continuar presente.
Basta que eu tente te esquecer.
Porque, enquanto eu lutar contra a lembrança,
ela continuará tendo teu nome.
E talvez o verdadeiro esquecimento
não aconteça quando eu finalmente disser:
“Eu te esqueci.”
Talvez aconteça em um dia qualquer,
quando o sol nascer,
a vida seguir,
e eu simplesmente não perceber
que passei o dia inteiro
sem tentar esquecer você.
Porque nesse dia, enfim,
para te esquecer,
eu não precisarei mais
pensar em você.
Eu não acreditava que a vida era tão dura, mesmo ela sendo dura lá atrás. Achei que o mundo era colorido, os problemas possíveis de resolver e que dava para crescer sem grandes danos. Mas a realidade me cobrou caro. Sigo enfrentando batalhas sem trégua desde que nasci. Isso não alterou a minha fé, ainda que a abalasse. Minha esperança é de que, em breve, poderei romper todos os grilhões e cadeias que hoje me prendem e por fim, possa viver o melhor dessa vida ainda com plena saúde e autonomia.
10 mil pensamentos
(Mauro 1Evaristo)
Mais de 10 mil pensamentos por dia
Aquele que raciocina vence
Pois, faz o que não faz a maioria
Tem o controle da própria mente.
Tenha para si esse alerta
A mente que raciocina desperta
Tem o controle do próprio pensar
Dificilmente vai se enganar.
Observe que sistemas de enganação
Batem nas teclas da repetição
Assim fica difícil acordar, perceber
Que raciocinar controla a emoção
A ponto tal e até de antever
Que existe poder infinito em você.
feradapoesia.blogspot.com
Paz com guerra, segue sendo guerra. Guerra com paz não é paz, é guerra. A guerra está é a paz é.
A guerra é de naturezas inferiores, já a paz é o princípio do sistema, libertando para poder melhor viver e evoluir da melhor forma.
Se alguém quiser falar sobre dor, sou toda ouvidos. Conheço quase todas as dores do mundo; até as que não passei, sinto como se fossem minhas. Do psicológico ao espiritual, fui acometida de tudo.
A cultura ainda é o que nos salva da loucura de uma vida sob nós mesmos (ainda que também seja o que nos entorpece).
Melhor a cultura que a falta dela, vivida apenas com o desespero dos jovens, adultos e idosos e de uma vida seca, amargurada e vazia..
Que porre inimaginável, amigos, se não tivéssemos acesso à arte, música e cultura em geral gratuita! (Idas à cinemas, museus e shows inacessíveis à uma grande massa que tanto ainda precisa dela)!!
só não reclama de pouca cultura, cultura inacessível ou falta de cultura, quem não conhece o peso de por muitos anos, ter crescido sem poder ter tido acesso facilitado à ela!
Com ingressos que hoje que pago, a criança e família que tive, não poderia ter me apresentado nunca nem mesmo ao mpb, que determinados lugares cobra inclusive cover 'por cabeça'!
É genocídio cultural pensar mal da cultura gratuita (tudo deveria ser bom, eficiente e gratuito? Sim, em especial o principal de educação e saúde também).
Ainda assim a cultura não tem esse motivo pra ser deixada de lado, jamais.
O golpe mais cruel e baixo que a vida me deu foi perder o meu filho. Se alguém tinha que partir, eu sentia que deveria ser eu, e não consigo me conformar com essa inversão. Essa dor consegue doer mais do que a ideia da minha própria morte — e olha que eu sou absolutamente apaixonada pela vida.
