Pensamentos Mais Recentes

Olho , escuto e penso:

A estupidez não tem apenas CPF, tem diploma

Segregação política nos eleitores

Saudade da época que não existia segregação na política no eleitorado apenas adversários políticos, que divergiam de opiniões respeitosamente, sem ameaças à democracia, sem apologia ao ódio, sem agredir o próximo, sem criminalizar o serviço público, sem normalizar a ditadura, sem demonizar a cultura, sem prestar desserviço aos cidadãos.

O tempo não é uma borracha que apaga o que você escreveu nas páginas da vida.

O tempo é uma caixinha de lembranças, fechada por uns e aberta por outros

Dormir, essa morte temporária,
onde o corpo se entrega ao abismo do sono.
É uma morte breve, um mergulho no silêncio,
onde os pensamentos se dissipam e a alma flutua leve, sem rumo,
como se fosse também despojada de si mesma.
É o fim das correntes do dia,
o fim da jornada que nos pesa,
e, por algumas horas, morremos.
Mas na morte do sono,
não há despedida definitiva,
não há luto nem sepultura.
Ressuscitamos ao amanhecer,
com os olhos ainda tingidos de sonhos,
e o coração pulsando de nova vida.
Dormir é morrer por algumas horas, é a outra face da morte que ainda não chegou.
A morte do sono é suave,
como a brisa que afaga a face,
e ao despertar, somos mais inteiros,
como se a vida nos fosse devolvida
em doses pequenas de milagres diários.

Inserida por Iaponira

Não compartilhem notícias criminosas.

Ativistas antivacina, movidos por ideologias políticas e econômicas, estão contribuindo para a morte de inocentes ao redor do mundo. É um retrocesso trágico ver crianças morrendo de sarampo, difteria, infecções respiratórias; jovens sendo vítimas da tuberculose; grávidas morrendo de tétano , doenças evitáveis com vacinas.
Espalhar desinformação que mata é um ato desumano. É cruel, diabólico, especialmente quando se aproveita da vulnerabilidade de quem, por ignorância ou déficit cognitivo, acredita nessas mentiras.
O mais revoltante é saber que, muitas vezes, quem produz e divulga essas fake news são pessoas instruídas, com acesso à informação, que se vacinam, vacinam seus filhos e netos , mas condenam outros à morte.

-Iaponira Barros-

Fé sem amor, sem gratidão, sem humanidade, sem humildade é como um eco vazio que ressoa em um templo sem alma; não é divina, pois o divino se revela onde o essas virtudes são verdadeiras, sem isso a fé se torna uma crença sem essência, algo distante da verdadeira natureza de Deus.

Santa Ana e São Joaquim,
avós benditos do Menino Deus,
acolhei nossa prece simples e sincera
que brota do coração agradecido.
Iluminai nossos passos
na missão sagrada de sermos avós,
para que nossas mãos sejam abrigo,
nossa voz seja consolo
e nosso silêncio, presença amorosa.
Concedei-nos saúde que permaneça,
paciência que floresça nos dias longos,
coragem diante dos desafios
e sabedoria que nasce da fé.
Que sejamos amor que acolhe,
calmaria que acalma,
porto seguro onde nosso neto encontra paz,
assim como nossa filha e nosso genro.
Ajudai-nos a ser bons exemplos,
na formação cristã e humana,
plantando no coração do nosso querido
JC
sementes de fé, esperança e amor,
que também alcancem os netos que ainda virão.
Hoje, com gratidão profunda,
louvamos a Deus por este momento divino,
por este dom que nos foi confiado,
e por caminharmos sob vossa intercessão.
Santa Ana e São Joaquim,
rogai por nós.
Amém. 🙏

Favor tem preço. Caridade tem valor.

O que não se paga é caridade.
Favor se paga, sim , não na mesma moeda nem no mesmo tempo, mas no seu tempo e na sua moeda.

Caridade nasce do coração desprendido, não espera retorno, nem reconhecimento. É feita por amor, por compaixão, e por isso, não se mede nem se cobra.
Favor, por outro lado, é um gesto de ajuda com vínculo pessoal. Ainda que não seja cobrado imediatamente, carrega consigo uma expectativa: de gratidão, reciprocidade ou até lealdade.
Saber diferenciar preço e valor é maturidade: o preço do favor é o reconhecimento; o valor da caridade é o silêncio.
Entre o preço e o valor"
Há coisas que não se cobram e há coisas que não se esquecem.
Favor tem um preço , ainda que simbólico. Caridade tem um valor , ainda que invisível.

Maria, Mãe de Todas as Mães
Virgem Maria, mulher escolhida por Deus, bendita entre todas as mulheres, Mãe de Jesus e nossa Mãe,
Tu que conheceste o milagre da vida gerada em teu ventre e sentiste em teu coração o amor mais puro de mãe,
olha com ternura para todas as mulheres que sonham com a maternidade.
Hoje, com fé viva e esperança confiante, peço-Te:
concede, Mãe Santíssima, a bênção da maternidade
a cada mulher que guarda no coração o desejo de gerar um filho.
Oh! Mãe querida, atende o clamor da minha filha ( nome da filha/nora) que com amor e confiança, espera o dia de segurar seu filho nos braços.
Intercede junto a teu Filho Jesus,
para que, no tempo divino, perfeito e abençoado,
a vida floresça no ventre dela e de todas que esperam com fé.
Que a criança tão desejada venha com saúde e paz,
e que a gestação seja abençoada, protegida e serena,
repleta de luz e cuidado,
tanto para a mãe quanto para o filho(a).
Maria, Mãe das Mães,
Nossa Senhora, Mãe de todas as mães,
escuta os corações aflitos, acolhe os pedidos sinceros
e derrama tuas graças sobre cada mulher que espera pelo milagre da vida.
Quando chegar a hora da graça,
cobre-as com teu manto de amor,
protege cada gestante, concede força, coragem e serenidade,
para que tenham uma gestação tranquila
e um parto saudável e abençoado.
Mãe Santíssima, atende ao pedido desta mãe
que confia plenamente em teu amor materno
para ver realizado o sonho de sua filha ( nome da filha/nora)

Amém.

Somos mães , somos pais

Somos aqueles que, antes mesmo de conhecer o rosto de nossos filhos, já os amávamos com uma intensidade que não cabe em palavras. Somos aqueles que dedicam décadas (não dias, não meses ) à construção de algo que o mundo parece, cada vez mais, disposto a desmontar.
Vivemos tempos sombrios. Tempos em que pessoas que não conhecem nossos filhos, que não os amam, que não participaram de nenhuma lágrima, de nenhum cuidado, de nenhuma noite em claro, querem destruir o que levamos uma vida inteira para construir . Nós, mães e pais, não criamos apenas indivíduos, criamos seres humanos. Ensinamos amor próprio e amor ao próximo. Ensinamos que a vida só é possível porque existe o outro, porque vivemos em sociedade.
A maternidade e a paternidade são caminhos de amor, mas também de renúncia. De tempo dedicado, de investimentos invisíveis, de cuidados constantes. A partir do momento em que um filho nasce, a vida já não é mais apenas nossa. Não vivemos mais só por nós. Caminhamos por uma estrada desconhecida, sinuosa, cheia de medos e inseguranças. Ainda assim, seguimos. Desbravamos. Enfrentamos tudo e todos. Vivemos momentos de entrega profunda, de exaustão extrema. Passamos por fases difíceis e superamos, uma a uma.
Aquilo que para nós é amor, para muitos se tornou algoritmo e lucro. Há quem esteja vendendo a desumanidade como estilo de vida, auto ajuda. Estão transformando o egoísmo em virtude, a indiferença em proteção, a falta de empatia em força, o individualismo em conquista.Uma ambição desenfreada que corrói o que o ser humano tem de mais belo: as relações humanas, o cuidado com o outro, o amor.
O que vemos crescer é uma geração cercada por vozes que ensinam a se desconectar, a endurecer, a se fechar. Humanos cada vez mais vazios, mais intolerantes, mais agressivos, mais autossuficientes , ou pelo menos acreditando que são. Consumidores de ideias que os afastam daquilo que os torna verdadeiramente humanos.
Mas há algo que muitos esquecem.
A mãe vida e o pai tempo não dormem. Não se cansam. Não desistem. Não param.
E mais cedo ou mais tarde, eles ensinam aquilo que quem não ama jamais conseguirá ensinar: que ninguém vive só por si. Que existir é, inevitavelmente, coexistir. Que o amor , esse que tentam reduzir, distorcer ou vender , continua sendo a única força capaz de sustentar o que ainda nos resta de humanidade.
Que toda mudança seja pra dignificar o ser humano, jamais desumanizar. E que nossos filhos sejam exemplos de mães e pais , humanamente melhores.

Iaponira Barros

É preciso LULAR

Mas tem de ser LULAR do verbo LUTAR

LULAR não é esperar
LULAR é se levantar
LULAR é ir adiante
LULAR é se organizar
LULAR é transformar
LULAR é não desistir
LULAR é LUTAR por uma educação que liberte, por uma inclusão que acolha a todos
LULAR é NÃO se vender
LULAR é LUTAR POR DIREITOS PARA A MAIORIA, e não defender apenas privilégios para a minoria
LULAR é avançar com o povo para resgatar a nossa dignidade e construir o país que nós merecemos, mais justo, mais digno, mais humano e soberano.
LULAR é VOTAR 13

Aquele cujo não possui a habilidade mudar a si mesmo, não conseguirá acreditar na mudança do próximo.

Bate-papo com Jesus


Senhor, permita-me ser sincera.
Às vezes, olhando para o que alguns seres humanos fizeram e continuam fazendo em seu nome, chego a pensar que o Senhor deu a vida por nós em vão. Não por causa de Ti, dos teus ensinamentos ou da tua mensagem, mas por causa daquilo que alguns de nós fomos capazes de fazer com tudo isso.
A coisa aqui está feia, Senhor.
Há cristãos e, entre eles, alguns que se apresentam como teus “representantes legais” usando o teu nome de má-fé. Gente que fala em teu nome, ocupa altares e púlpitos, mas parece ter se esquecido justamente daquilo que o Senhor ensinou: amar o próximo, perdoar, acolher, repartir, ajudar os necessitados, ter misericórdia.
E quando alguém tenta viver esses ensinamentos, muitas vezes é julgado, chamado de comunista, maconheiro, vagabundo e tantos outros nomes que fazem a humanidade tremer e, imagino eu, fazem o Senhor se envergonhar do que fizeram com a sua mensagem.
Não estou falando de todos os cristãos. Sei que existem pessoas de fé que continuam tentando viver aquilo que o Senhor ensinou, muitas vezes silenciosamente, sem palco, sem microfone e sem transformar a fé em negócio. São essas pessoas que me fazem acreditar que nem tudo está perdido.
Mas o que fizeram com a sua história, Senhor?
Humildade, misericórdia e humanidade parecem, para alguns, coisas de um passado distante. E alguns dos seus supostos “legítimos representantes” parecem estar fechando as portas das igrejas e dos templos justamente para aqueles que mais precisariam encontrar ali acolhimento, esperança e dignidade.
Às vezes penso que há infiltrados do próprio Satanás falando em teu nome nos altares. Talvez seja uma provocação minha, talvez seja apenas a indignação de quem olha para determinadas atitudes e não consegue encontrar nelas nada que se pareça contigo.
E sabe o que estão fazendo com a fé de muita gente, Senhor?
Monetizando.
Transformando fé em produto, culpa em instrumento de controle e esperança em mercadoria. É a turma da exploração da fé: acende uma vela para Deus e outra para o dinheiro e, quando convém, parece até negociar com o próprio diabo.
Perdoa-me, Senhor, pela sinceridade.
E perdoa-me também pelas vezes em que questiono os cristãos. Não a Ti. Não os teus ensinamentos. Não a possibilidade de uma fé verdadeira. Questiono aquilo que alguns cristãos fizeram e ainda fazem com a tua história, com o teu nome e com aquilo que o Senhor representa.
A igreja que deixaste, Senhor, deveria ser lugar de acolhimento, de misericórdia e de transformação. Mas, em alguns lugares, parece ter se transformado em templo de vaidade, poder e luxúria, cheio de sepulcros caiados: bonitos por fora, mas escondendo por dentro aquilo que ninguém quer enxergar.
Humanos tão desumanos.
Pessoas que pregam uma coisa e vivem outra. Que falam de amor enquanto cultivam ódio. Que pregam perdão enquanto alimentam ressentimento. Que levantam as mãos para o céu e, ao mesmo tempo, fecham as mãos para quem precisa delas.
Senhor, permita-me ainda lhe dar um conselho.
Não volte.
Não agora.
Não para encontrar uma humanidade que, em tantos lugares, parece ter aprendido tão pouco sobre aquilo que o Senhor ensinou.
Tenho medo de que alguns daqueles que mais aguardam a sua volta sejam justamente os que menos suportariam ouvir o que o Senhor teria a dizer.
Tenho medo de que, diante do Senhor, alguns dos que hoje gritam seu nome fossem capazes de negá-lo novamente , não por falta de fé, mas porque talvez não reconhecessem o Senhor quando estivesse diante deles.
E, pior, talvez fossem capazes de fazer coisas ainda mais cruéis em nome da própria fé.
Seriam capazes de negar, perseguir, fuzilar, esquartejar e transformar uma praça pública em espetáculo ,enquanto acreditam estar defendendo Deus.
Que ironia, Senhor.
Talvez o maior problema não seja o mundo ter se afastado de Ti.
Talvez seja a quantidade de pessoas que dizem estar contigo sem jamais terem aprendido a reconhecer aquilo que o Senhor ensinou.
Ainda assim, Senhor, eu agradeço.
Agradeço pela vida que deste por mim.
Agradeço pelo amor que ensinaste.
E, apesar de tudo o que me revolta, ainda prefiro acreditar que a tua mensagem não fracassou.
Talvez nós é que tenhamos falhado tantas vezes em vivê-la.
Perdoa-me pela minha sinceridade.
E obrigada, Senhor, por teres dado a vida por mim.

Iaponira Barros

Quem não quer te ouvir não vai te ouvir nem se você gritar. E quem quer te entender vai te entender, mesmo que você não diga uma palavra sequer. E isso é muito real.

A única beleza é a beleza de ser única.

3686 🕳️ Minha Vizinha (de Baixo) disse estar no Buraco. Acho que ela está sendo bem Superficial, mesmo estando no Buraco, como afirma!

3685 🥱 "Eu não sei o que vocês🫵 fizeram no Verão passado"! E por que Eu deveria saber? HeuHein!

Há pessoas que confundem estabilidade com vida porque aprenderam a chamar de paz tudo aquilo que já não lhes exige coragem.

O asfalto sempre soube o nome de Joaquim. Ele era o homem de 60 anos que corria pelas ruas da cidade grande desde os seis anos de idade. Cresceu na periferia cinzenta, em um cortiço apertado perto dos trilhos do trem. Filho de uma lavadeira que trabalhava dezoito horas por dia, ele não tinha brinquedos nem espaço, mas descobriu cedo que a rua era de graça. Ele corria pelos becos de terra batida para esquecer o estômago vazio, corria para não se misturar com a violência que engolia os garotos da sua idade e corria simplesmente porque o vento no rosto era a única coisa que o fazia se sentir dono de si mesmo.
Na idade adulta, a vida continuou pesada. Joaquim trabalhou por quase quarenta anos como gari, correndo atrás do caminhão de lixo todas as noites, debaixo de sol ou de chuva temporal. Era um trabalho invisível, mas ele o fazia com uma dignidade rara. Joaquim conhecia cada morador de rua pelo nome, e muitas vezes tirava do próprio bolso o dinheiro de um pão para entregar a quem não tinha nada. Ele limpava a sujeira do mundo e, nas madrugadas em que não estava trabalhando, continuava correndo pelas avenidas desertas. A corrida não era um esporte para ele; era o seu santuário, o único momento em que não era o homem que recolhia as sobras dos outros, mas sim um homem livre.
Ele finalmente havia conseguido se aposentar. Suas articulações doíam pelo cansaço de uma vida inteira de trabalho braçal, mas seus pés continuavam firmes no asfalto. Até que a brutalidade do acaso o alcançou. Na calçada de uma padaria, enquanto tomava seu café da manhã, um motorista embriagado perdeu o controle do veículo e o prensou contra a parede de concreto. Joaquim não teve culpa de nada. O impacto destruiu sua coluna. No hospital, os médicos informaram que o trauma na medula era definitivo e que a paralisia total avançaria pelo corpo em poucas horas, tirando dele para sempre a capacidade de andar ou correr.
Foi uma injustiça imensa com alguém que passou a vida inteira fazendo o bem e cuja única alegria era o movimento. Joaquim não merecia aquele fim. Ele olhou para as pernas cobertas pelo lençol e soube que não sobreviveria trancado em uma cama de hospital. Sua alma morreria muito antes da carne.
Naquela mesma madrugada, sentindo a dormência começar a subir pelos tornozelos, ele arrancou os acessos do braço. Desabou da cama, arrastou-se pelo chão até a saída de emergência e ganhou a rua escura. Sob o ar frio da madrugada urbana, ele forçou os joelhos trêmulos e, por um último esforço de pura teimosia, o corpo obedeceu. Joaquim começou a correr.
A paralisia subia como uma maré lenta por suas pernas, mas ele continuou avançando pelas avenidas vazias da periferia. Sem sentir o impacto dos tênis velhos contra o chão, ele corria guiado apenas pelas suas memórias. A cada quilômetro, sua mente resgatava o passado: lembrou-se de si mesmo correndo na chuva para levar o remédio da mãe quando era jovem, dos dias de trabalho correndo atrás do caminhão com um sorriso no rosto e do menino que apostava corrida com o barulho do trem nos trilhos do cortiço.
Ao amanhecer, ele alcançou as margens de um pequeno lago esquecido no limite entre a cidade e a rodovia, o único lugar com árvores onde ele costumava descansar na infância.
O quadril travou por completo. Joaquim desacelerou no ritmo exato em que o controle de suas pernas desaparecia, até que os pés se fixaram na terra de uma vez por todas. Ele parou na beira da água, o corpo inteiro tremendo pelo esforço sobre-humano, e desabou de joelhos na grama.
Ele chorou. Foi um choro silencioso, pesado, o choro de um homem que passou sessenta anos apanhando da vida, mas que havia cruzado a sua última linha de chegada exatamente como escolheu: livre.
Joaquim olhou para o reflexo do sol nascente na água do lago, o mesmo sol que iluminava suas corridas quando ele era apenas um menino inocente fugindo da fome nos becos do cortiço. Ele não olhou para o céu com raiva do motorista que o atropelou, nem com rancor do mundo que sempre lhe deu o lixo e o esquecimento.
Com as mãos trêmulas apoiadas na terra úmida, ele respirou fundo o ar frio da manhã. Juntou o restinho de ar que ainda sobrava em seu peito cansado e, com as lágrimas escorrendo pelos sulcos do rosto enrugado, moveu os lábios. O sussurro saiu rasgado, mas firme:
— Obrigado... por terem me aguentado até aqui.
Não era um agradecimento ao destino cruel, mas sim um obrigado direcionado às suas próprias pernas, que nunca o abandonaram. Um obrigado ao seu corpo velho, que o carregou por tantas madrugadas solitárias e que guardou forças para lhe dar aquela última gota de liberdade.
Joaquim deitou-se de lado na grama, encolhendo os braços junto ao peito e recolhendo as pernas agora completamente paralisadas, como um menino cansado que finalmente chega em casa depois de um longo dia de correrias. Ele fechou os olhos devagar. O coração valente do gari deu uma última batida orgulhosa e parou.
À distância, o som dos motores e o barulho da cidade grande começavam a aumentar. O mundo acordava para mais um dia comum, inteiramente indiferente ao fato de que mais um homem honesto e inocente era injustiçado e encontrava seu fim.

3684 🥱 Não é verdade que Eu POUCO me importo. Na verdade Eu NADA me importo. Essa é a verdade e verdade só há uma!

O filósofo não é aquele que possui respostas para o mundo, mas aquele que aprende a transformar cada resposta em uma pergunta mais profunda.

Ensinar a responder ou ensinar a decidir?

Eis aqui uma questão a ser analisada minimamente. 

Um aluno tira dez na prova.

Outro sabe repetir a definição exatamente como aparece no livro.

Um terceiro resolve todos os exercícios depois de memorizar o procedimento apresentado pelo professor.

Qual deles aprendeu?

A resposta parece simples até mudarmos ligeiramente a situação.

Retire o modelo.

Mude o problema.

Apresente uma informação contraditória.

Peça que explique por que escolheu aquela resposta.

Mostre uma evidência nova.

Pergunte o que seria necessário para fazê-lo mudar de opinião.

Agora talvez estejamos avaliando outra coisa.

A escola aprendeu a medir respostas. O desafio contemporâneo é descobrir quanto do pensamento continua funcionando quando a resposta conhecida deixa de estar disponível.

Saber a resposta e saber decidir não são a mesma competência

Durante grande parte da escolarização, premiamos aquilo que pode ser demonstrado.

Acertar.

Recordar.

Definir.

Resolver.

Reproduzir.

Essas capacidades são importantes. O problema começa quando tomamos sua presença como evidência suficiente de autonomia intelectual.

Um estudante pode memorizar uma resposta sem compreender os critérios que a tornam adequada.

Pode executar um procedimento sem reconhecer quando ele deixa de funcionar.

Pode repetir um argumento sem conseguir compará-lo com outro.

Pode conhecer uma informação verdadeira e não saber avaliar sua relevância.

Pode acertar e não saber por que deveria confiar no próprio acerto.

É justamente aí que a educação encontra um problema mais profundo que a memorização.

Não basta perguntar o que o aluno sabe.

Precisamos investigar o que ele consegue fazer com aquilo que sabe quando precisa julgar.

O erro que ensina mais que o acerto

Há respostas erradas que revelam pensamento.

E há respostas corretas que escondem sua ausência.

Isso acontece porque o resultado final não revela necessariamente o processo que o produziu.

Quando perguntamos ao estudante por que escolheu determinada alternativa, que evidência considerou mais importante, qual informação descartou, o que o faria rever sua conclusão ou quanto de confiança atribui à própria resposta, deixamos de observar apenas o produto.

Começamos a observar critérios.

Essa mudança é decisiva.

Porque uma pessoa intelectualmente autônoma não é aquela que nunca erra.

É aquela que desenvolve condições melhores para perceber por que acredita, quanto acredita e quando deveria reconsiderar aquilo em que acredita.

Pensamento crítico não deveria terminar na crítica

A expressão “pensamento crítico” tornou-se central na educação contemporânea.

Com razão.

Mas existe uma pergunta posterior à crítica.

Depois de analisar argumentos, identificar inconsistências, comparar fontes e examinar evidências, o estudante ainda precisa decidir.

Qual evidência merece maior peso?

Que informação é relevante para este problema?

Quanto de confiança esta conclusão merece?

Uma evidência nova é suficientemente importante para modificar minha posição?

Estou mantendo uma ideia porque as evidências continuam sustentando-a ou porque já me comprometi com ela?

Pensar criticamente ajuda a desmontar.

Mas formar autonomia também exige aprender a reconstruir.

Aprender também é conseguir desaprender.

A educação costuma tratar a aprendizagem como aquisição.

Aprender seria acrescentar algo: uma informação, uma habilidade, uma fórmula, um conceito, uma explicação.

Mas há momentos em que aprender exige operação inversa.

Uma explicação antiga deixa de ser suficiente.

Uma evidência contradiz aquilo que sabíamos.

Um procedimento funciona em determinada situação e fracassa em outra.

Uma convicção precisa ser revista.

Nesses casos, o problema educacional deixa de ser apenas como incorporar conhecimento.

Passa a ser também:

como retirar autoridade de uma resposta que já aprendemos sem precisar apagar aquilo que aprendemos?

Essa distinção é fundamental.

Desaprender não precisa significar esquecer.

Pode significar reorganizar o peso atribuído ao que sabemos.

Uma ideia pode continuar na memória sem continuar governando o julgamento.

É aqui que entra o discernimento.

Nos trabalhos que venho desenvolvendo, tenho procurado examinar o discernimento para além de seu significado cotidiano de prudência ou bom senso.

A hipótese de trabalho é mais exigente: investigar se determinadas operações envolvidas em avaliar, ponderar, revisar e decidir podem ser descritas de maneira suficientemente precisa para se tornarem ensináveis, operacionalizáveis e testáveis.

Foi desse problema que emergiram diferentes frentes de investigação: METADISCERN, Pedagogia do Discernimento, Alfabetização do Discernimento Consciente, calibração discernitiva e estudos sobre a relação entre conteúdo recuperado, emoção, julgamento e ação.

Essas propostas não deveriam ser tratadas como resultados definitivamente estabelecidos. Elas compõem uma agenda que precisa enfrentar comparação teórica, operacionalização, mensuração, replicação e teste empírico.

Isso não diminui a proposta.

Define exatamente onde começa o trabalho científico.

Uma escola que também ensine a mudar de ideia.

Talvez uma das competências mais difíceis de ensinar seja justamente aquela que raramente aparece no boletim:

Mudar de posição pelas razões certas.

Não porque o professor mandou.

Não porque a maioria pensa diferente.

Não porque uma autoridade afirmou.

Não porque uma resposta apareceu primeiro no Google.

Não porque uma inteligência artificial escreveu com segurança.

Mas porque novas evidências alteraram justificadamente o peso das alternativas disponíveis.

Uma educação orientada para a autonomia não deveria formar pessoas incapazes de serem influenciadas.

Deveria formar pessoas cada vez mais capazes de avaliar suas influências.

Isso muda inclusive a maneira como compreendemos o professor.

Professor não é apenas aquele que transmite respostas.

É também aquele que pode criar situações nas quais o estudante precisa justificar escolhas, comparar evidências, reconhecer limites, revisar conclusões e reconstruir aquilo que julgava saber.

A prova decisiva talvez aconteça depois da prova.

Uma avaliação consegue mostrar parte do que o estudante aprendeu.

Mas existe outra prova que começa quando ele deixa a sala de aula.

Quando encontra uma informação que contradiz o que estudou.

Quando alguém tenta convencê-lo.

Quando precisa tomar uma decisão sem professor por perto.

Quando percebe que estava errado.

Quando uma resposta pronta aparece antes que tenha formulado a própria pergunta.

Quando aquilo que aprendeu deixa de funcionar.

É nesse momento que conhecimento e autonomia finalmente se encontram.

A educação não deveria preparar alguém apenas para encontrar a resposta certa.

Deveria ajudá-lo a reconhecer por que uma resposta merece ser aceita, quando precisa ser questionada e em que momento deve ser abandonada.

Porque o objetivo final da educação não pode ser fazer o aluno depender eternamente de quem o ensinou.

Ensinar também é preparar alguém para o momento em que já não precisará que decidamos por ele.

Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Autor e Pesquisador

"O verdadeiro poder da escrita não reside na autoridade de quem assina o texto ou em pretensiosas fórmulas de mercado, mas na misteriosa liberdade com que cada leitor acolhe, interpreta e reconstrói as palavras a partir da sua própria vivência."
— Prof. Marcio Ueda (Jornada da Escrita)

Sentir intensamente não significa decidir intensamente

O celular vibra.

Antes mesmo de sabermos o que aconteceu, nossa atenção já foi capturada.

Uma mensagem chega. Uma publicação provoca indignação. Um comentário desperta raiva. Uma imagem produz medo. Uma notícia gera ansiedade. Um vídeo nos entusiasma. Uma notificação cria a sensação de que alguma coisa precisa ser vista imediatamente.

Poucos segundos depois, podemos estar respondendo, compartilhando, comprando, discutindo ou tomando uma decisão.

Entre aquilo que sentimos e aquilo que fazemos existe um intervalo.

Talvez uma das disputas mais importantes da vida contemporânea aconteça justamente dentro dele.

A economia da atenção também disputa nossa reação

As plataformas digitais não competem apenas pelo tempo que permanecemos diante de uma tela.

Competem pela nossa atenção.

Notificações, recomendações, vídeos curtos, métricas de aprovação, conteúdos personalizados e sequências praticamente infinitas de estímulos fazem parte de ambientes construídos para manter interação.

Isso não significa que toda influência digital seja nociva, tampouco que as pessoas sejam passivamente controladas por algoritmos.

O problema é mais interessante.

Quanto mais estímulos disputam nossa atenção, mais importante se torna compreender o que fazemos com aquilo que consegue capturá-la.

Porque prestar atenção em alguma coisa não significa que essa coisa mereça determinar nossa próxima ação.

Intensidade não é autoridade

Sentir é parte da experiência humana.

Raiva pode sinalizar uma injustiça. Medo pode indicar perigo. Ansiedade pode antecipar uma ameaça. Entusiasmo pode mobilizar. Tristeza pode revelar perda. Desejo pode orientar aproximação.

O erro não está em sentir.

O problema começa quando confundimos a intensidade de uma experiência com a autoridade que ela deve exercer sobre uma decisão.

Quanto mais forte eu sinto, mais verdadeiro é aquilo que penso?

Quanto maior a urgência que experimento, mais urgente é realmente agir?

Quanto mais indignado estou, maior deve ser a velocidade da minha resposta?

Não necessariamente.

Uma emoção pode ser intensa e informativamente relevante.

Pode ser intensa e pouco útil para determinada decisão.

Pode ainda conter informação importante sem, por isso, justificar sozinha aquilo que faremos em seguida.

É justamente por isso que sentir intensamente não é o mesmo que autorizar intensamente.

Entre sentir e agir existe uma decisão que quase nunca enxergamos

Costumamos descrever determinados comportamentos dizendo:

“Fiquei com raiva e respondi.”

“Fiquei ansioso e cliquei.”

“Fiquei com medo e compartilhei.”

“Fiquei empolgado e comprei.”

A linguagem aproxima emoção e comportamento de tal maneira que o segundo parece consequência inevitável do primeiro.

Mas entre ambos pode existir uma operação decisiva.

A emoção ocorreu.

Isso não está em discussão.

A questão seguinte é outra:

Quanto poder aquela emoção receberá sobre aquilo que faremos?

Essa pergunta ocupa lugar importante nas pesquisas que venho desenvolvendo sobre discernimento e sobre a regulação da relação entre emoção e ação.

Da regulação emocional à autorização funcional

No artigo em que examinei especificamente essa relação, trabalhei com uma distinção que considero fundamental: intensidade emocional, valor informacional, tendência de ação, autorização funcional e ação realizada não precisam ser tratados como se fossem a mesma coisa.

Uma emoção pode existir sem ser eliminada.

Pode continuar intensa.

Pode possuir significado.

Pode até apontar para algo verdadeiro.

E, ainda assim, sua presença não precisa determinar sozinha a decisão subsequente.

É nesse espaço que proponho investigar a Autorização Funcional Emocional (AFE): não simplesmente o quanto alguém sente, mas o peso funcional que concede à emoção na orientação do julgamento e da ação.

Da mesma discussão emerge a Distância Intensidade–Autorização (DIA), concebida para investigar a possível diferença entre a intensidade experimentada e a autoridade funcional concedida àquela experiência.

São proposições que exigem validação empírica. Seu valor científico dependerá justamente da capacidade de serem operacionalizadas, confrontadas com explicações concorrentes e submetidas a teste.

Mas a pergunta que as origina já está presente na vida cotidiana:

Tudo aquilo que sentimos precisa receber poder proporcional sobre aquilo que fazemos?

O algoritmo pode escolher o estímulo. Não precisa escolher a resposta.

Essa questão se torna especialmente importante em ambientes digitais.

Um sistema pode selecionar o conteúdo que aparecerá na tela.

Pode aprender quais assuntos aumentam nossa probabilidade de interação.

Pode apresentar algo no momento exato em que estamos disponíveis para vê-lo.

Pode conseguir nossa atenção.

Mas existe uma diferença fundamental entre capturar atenção e possuir autoridade legítima sobre uma decisão.

Essa diferença recoloca o sujeito dentro do processo.

A discussão deixa de ser apenas “o que as plataformas estão fazendo conosco?” e passa a incluir outra pergunta:

O que fazemos com aquilo que as plataformas conseguem provocar em nós?

Não se trata de responsabilizar exclusivamente o indivíduo por sistemas tecnológicos complexos. Tampouco de absolver plataformas de responsabilidades éticas, sociais ou regulatórias.

Trata-se de reconhecer que a proteção da autonomia também exige capacidades internas de avaliação e regulação.

Preste atenção na atenção que você está prestando

A atenção parece anteceder muitas das decisões que posteriormente atribuímos apenas à vontade.

Aquilo que captura nossa atenção aumenta sua presença psicológica.

Aquilo que permanece presente pode adquirir importância.

E aquilo que parece importante pode começar a disputar autoridade sobre nossas escolhas.

Por isso, uma educação para a vida digital talvez precise ensinar mais do que segurança na internet, limitação de tempo de tela ou identificação de conteúdo nocivo.

Precisamos aprender a perceber quando atenção está sendo transformada em urgência, quando urgência está sendo confundida com importância e quando intensidade está sendo convertida automaticamente em autorização.

Esse percurso aproxima economia da atenção, comportamento digital, regulação emocional, tomada de decisão, autonomia cognitiva e discernimento.

O intervalo que preserva a autoria

Não escolhemos tudo aquilo que sentimos.

Também não escolhemos tudo aquilo que aparece diante de nós.

Não controlamos integralmente aquilo que chama nossa atenção, as lembranças que retornam ou as reações que determinados acontecimentos produzem.

Mas a ausência de controle absoluto sobre aquilo que ocorre não significa ausência de participação sobre aquilo que fazemos com o que ocorreu.

É nesse intervalo que situo uma parte importante do discernimento.

Não para deixar de sentir.

Não para transformar emoção em inimiga.

Não para produzir indiferença.

Mas para impedir uma equivalência perigosa:

“se senti, devo agir.”

A autonomia não começa quando deixamos de ser influenciados. Isso seria impossível.

Ela começa quando conseguimos examinar quanto peso cada influência merece receber.

Em uma época construída para disputar nossa atenção, talvez uma das formas mais importantes de liberdade seja justamente esta:

Não entregar automaticamente nossa ação a tudo aquilo que conseguiu provocar nossa reação.

Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Autor e Pesquisador

O problema não é acreditar em tudo. É não saber quanto acreditar em cada coisa

Nunca tivemos acesso a tanta informação / desinformação. E talvez nunca tenha sido tão difícil decidir o que fazer com ela.

Uma notícia chega pelo celular. Um vídeo apresenta uma explicação aparentemente convincente. Alguém compartilha uma denúncia. Um especialista afirma determinada coisa. Outro especialista afirma o contrário. Uma imagem parece comprovar um acontecimento. Uma inteligência artificial responde com segurança. Milhares de pessoas repetem a mesma versão.

Em poucos minutos, não estamos apenas diante de informações.

Estamos diante de disputas pela nossa confiança.

É comum imaginar que o grande problema da desinformação seja acreditar no que é falso. Evidentemente, isso faz parte do problema. Fake news, golpes digitais, conteúdos manipulados e informações deliberadamente enganosas dependem, em alguma medida, da capacidade de obter credibilidade.

Mas existe uma dificuldade anterior e mais profunda.

Mesmo quando uma informação é verdadeira, ainda precisamos decidir quanto peso ela merece.

Verdade e relevância não são a mesma coisa

Uma informação pode ser verdadeira e irrelevante para determinada decisão.

Outra pode ser verdadeira, relevante, mas insuficiente.

Uma terceira pode estar parcialmente correta e conduzir a uma conclusão equivocada porque omite elementos essenciais.

Isso significa que verificar se algo é verdadeiro constitui apenas uma parte do problema.

A pergunta seguinte é:

O que essa informação me autoriza a concluir?

Essa distinção parece simples, mas altera profundamente a maneira como pensamos a alfabetização midiática, o pensamento crítico e o combate à desinformação.

Não basta separar verdadeiro de falso.

Precisamos aprender a distinguir evidência de conclusão, informação de decisão e presença de um argumento do peso que concedemos a ele.

O perigo daquilo que confirma o que já pensamos

Há ainda outra dificuldade.

Não recebemos informações como recipientes vazios.

Interpretamos aquilo que encontramos a partir de expectativas, experiências anteriores, emoções, crenças, interesses e referências sociais. Uma informação que confirma aquilo em que já acreditamos tende a encontrar menos resistência do que outra que ameaça nossas convicções.

É por isso que combater fake news apenas oferecendo mais informação pode não ser suficiente.

Às vezes, o problema não está na ausência de dados.

Está na maneira como atribuímos autoridade aos dados que recebemos.

Duas pessoas podem acessar a mesma informação e conceder a ela pesos completamente diferentes. E uma mesma pessoa pode exigir provas rigorosas para aquilo de que discorda e aceitar evidências frágeis quando elas confirmam aquilo em que deseja acreditar.

Pensar criticamente, portanto, também exige aprender a desconfiar da facilidade com que concordamos conosco mesmos.

Nem acreditar, nem desacreditar automaticamente

Existe uma falsa alternativa que frequentemente empobrece esse debate.

De um lado estaria a credulidade: acreditar em tudo.

Do outro estaria a desconfiança: não acreditar em nada.

Nenhuma das duas produz necessariamente autonomia.

Quem acredita automaticamente terceiriza o julgamento para aquilo que recebe.

Quem desacredita automaticamente pode continuar igualmente determinado pelo conteúdo recebido, apenas invertendo o sinal da resposta.

A questão mais importante talvez esteja entre essas duas posições:

quanto de autoridade esta informação merece receber de mim, nesta situação, diante das evidências disponíveis?

Essa pergunta desloca o problema.

Em vez de apenas aceitar ou rejeitar, passamos a calibrar.

Da informação ao discernimento

É nesse ponto que a discussão encontra o eixo das pesquisas que venho desenvolvendo sobre discernimento.

Tenho trabalhado com a possibilidade de compreender o discernimento não apenas como virtude abstrata, prudência ou expressão do chamado bom senso, mas como uma capacidade que possa ser descrita operacionalmente, examinada e submetida à investigação empírica.

Entre os conceitos explorados nesses trabalhos está a calibração discernitiva.

Em termos simples, não se trata apenas de perguntar se determinada pista, informação ou argumento está presente. Trata-se de investigar se o peso concedido a esse elemento é compatível com sua utilidade para o julgamento que está sendo realizado.

Essa diferença é fundamental.

Uma informação não deveria governar uma decisão simplesmente porque apareceu.

Uma afirmação não se torna mais verdadeira porque foi repetida milhares de vezes.

Uma fonte não se torna infalível porque possui autoridade.

Uma emoção não transforma automaticamente uma interpretação em fato.

E aquilo que confirma nossas convicções não recebe, por isso, maior valor probatório.

O desafio está justamente em aprender a ponderar sem simplesmente obedecer.

Educação contra a desinformação

Talvez por isso a educação para o enfrentamento da desinformação precise ultrapassar a orientação tradicional de “verificar a fonte”.

Verificar fontes continua sendo indispensável.

Mas podemos avançar.

O estudante pode aprender a perguntar:

Qual é a evidência?

O que essa evidência efetivamente demonstra?

Que conclusão estou acrescentando por conta própria?

Estou atribuindo peso excessivo a uma informação apenas porque ela confirma aquilo que eu já pensava?

Que informação seria capaz de me fazer mudar de posição?

Estou avaliando a qualidade da evidência ou apenas a intensidade da minha reação diante dela?

Essas perguntas deslocam a educação do conteúdo para a operação cognitiva realizada sobre o conteúdo.

É nessa direção que a Pedagogia do Discernimento, a Alfabetização do Discernimento Consciente e outros constructos que venho investigando procuram abrir uma agenda de pesquisa: não oferecer às pessoas uma lista definitiva daquilo em que devem acreditar, mas investigar maneiras de desenvolver melhores condições para que consigam avaliar quanto peso cada influência merece.

A autonomia começa onde termina o automatismo

Fake news são perigosas.

Deepfakes são perigosos.

Golpes digitais são perigosos.

Algoritmos capazes de selecionar aquilo que vemos também merecem atenção.

Mas existe um elemento comum atravessando todos esses fenômenos: Em algum momento, algo externo encontra um sistema humano que precisa interpretar, avaliar, ponderar e decidir.

É nesse encontro que a autonomia pode ser preservada ou perdida.

Por isso, talvez o enfrentamento da desinformação não dependa somente de produzir informações melhores.

Dependa também de formar pessoas capazes de não transformar automaticamente informação em convicção, convicção em certeza e certeza em ação.

Porque discernir não é simplesmente acreditar menos.

Também não é duvidar de tudo.

Discernir é aprender a decidir quanto peso aquilo que nos influencia merece ter sobre aquilo que decidiremos.

Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Autor e Pesquisador