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A primeira vista acontece dentro de uma alma que ela tinha certeza que nao ia desabar..




Sonia Solange da Silveira


Ssolsevilha
Pietisa do cerrado

Don’t show your work to an idiot before you finish it.

Não mostre o seu trabalho a um idiota antes de terminá-lo.

Não tenho uma alma indizível, mas confesso que sempre carreguei um olhar de confissão silenciosa. Meus olhos frequentemente denunciam aquilo que minhas palavras, por mera civilidade, ainda procuram preservar. Tenho ouvidos atentos à exiguidade cognitiva e observo, quase com assombro, a desenvoltura com que alguns transitam pela própria ignorância.

Você conhece o lema dos políticos? As melhores mentiras quase se tornam verdades.👀

⁠Bons tempos eram os em que os políticos só saqueavam cofres públicos; agora saqueiam as cabeças apaixonadas.


Roubar dinheiro sempre foi uma atividade relativamente simples de compreender: havia um cofre, uma chave, um desvio e, quase sempre, algum rastro. 


Já o saque das consciências é uma operação ainda muito mais sofisticada. 


Não leva apenas recursos — leva discernimento, senso crítico e, sobretudo, a capacidade de desconfiar de quem promete pensar por nós.


O político que saqueia o erário deixa a conta para a sociedade pagar. 


O que saqueia cabeças consegue algo ainda mais valioso: transforma o próprio prejudicado em defensor do saqueador. 


A paixão política, quando substitui a reflexão, faz com que a vítima passe a vigiar o cofre em nome do ladrão.


E talvez essa seja a grande perversidade dos nossos tempos: já não é necessário convencer alguém de que determinada ideia é verdadeira; basta convencê-lo de que questioná-la é uma espécie de traição. 


A partir daí, qualquer crítica vira ataque, qualquer evidência inconveniente vira conspiração e qualquer contradição é perdoada em nome da “causa”.


O saque perfeito não é aquele em que o ladrão foge levando tudo. 


É aquele em que ele permanece no palanque, acena para a multidão e recebe aplausos daqueles que acabaram de entregar a própria capacidade de julgar.


Cofres podem ser reabastecidos. 


Orçamentos podem ser recompostos. 


Dinheiro, por mais doloroso que seja, pode voltar a circular.


Mas uma consciência sequestrada é outro problema.


Porque, quando alguém entrega a própria cabeça em troca de uma narrativa confortável, já não precisa de um político para roubá-la. 


Mas para protegê-la do pensamento por conta própria.

A política brasileira necessita de elucubração.

Cada segundo corresponde muito, quando estamos esperando por algo que não está sob nosso controle...
Porém, o que nos move, é a confiança em Deus que tem o controle de tudo e nos
faz saber que não tem a palavra
IMPOSSÍVEL no seu dicionário.

SE
- BIANCA RODRIGUES

Se os outros perderem a razão,
não tenhas tanta pressa de perder a tua.
Há emoções que chegam como tempestades,
mas se tu estiveres dentro de ti, não se molharão.

Se te julgarem, escuta.
Talvez exista alguma verdade na acusação;
ou exista apenas a necessidade do outro
de colocar em ti aquilo que não suporta em si.

Aprende a diferença.

Nem toda crítica merece resposta.
Nem todo silêncio significa rejeição.
Nem toda rejeição significa falta de valor.

Às vezes, nós tentamos transformar
incerteza em certeza,
porque a certeza, mesmo dolorosa,
parece menos ameaçadora que o desconhecer.

Então espera.

Não pense que esperar seja covardia,
porque nem todo impulso
é um chamado.

Se desejares alguma coisa com toda a força, permite-te desejar.
Mas não entregues tua existência ao teu desejo.

Querer não é possuir.
Perder não é deixar de ser.

E esta é uma das maiores
e mais desagradáveis descobertas da vida:

você pode fazer tudo corretamente
e ainda assim as coisas darem errado.

A vida não assinou contrato comigo e nem contigo.

Há fatos que não conhecemos, e nem controlamos, histórias que ainda não foram contadas,
corpos que adoeceram,
pessoas que vão se mudar, em algum momento,
circunstâncias que simplesmente acontecem.

Não transformes o acaso em tragédia.
O acaso faz parte do trajeto.

Se vencer, desfruta
mas não construa uma identidade sobre a tua vitória.

Se perder, sofra
mas não construa uma identidade sobre a tua derrota.

Você não é o acontecimento.

É também aquilo que faz
depois que o acontecimento termina.

E quando perder alguém,
um sonho, uma oportunidade
ou aquela versão sua
que acreditava saber para onde estava indo,
não se apresse a chamar isso de fim.

Há coisas que precisam morrer
para que deixemos de viver em torno delas.

Recomeçar não é voltar ao ponto inicial.
É só continuar diferente.

Se ninguém reconhecer teu esforço,
ainda assim será teu esforço.

Se todos te aplaudirem,
desconfia um pouco da própria vaidade.

O aplauso é agradável,
mas é um péssimo lugar para fazer morada.

Aprende a permanecer
quando não houver plateia.

A ser gentil sem ser submisso.
A ser firme sem ser cruel.
A dizer não sem transformar o outro em inimigo.
A dizer sim sem abandonar a si mesmo.

E, sobretudo, aprende isto:

sentir intensamente não significa precisar agir imediatamente.

A emoção pode ser verdadeira
sem ser um alarme de incêndio.

A raiva pode existir
sem escolher tuas palavras.

O medo pode existir
sem escolher teu caminho.

A tristeza pode existir
sem decidir teu futuro.

Tu não precisas lutar com cada emoção.

Elas só precisam ter um bom condutor.

E talvez seja isso que significa
tornar-se humano:

não eliminar o caos,
mas aprender a reduzir a velocidade
enquanto ele estiver passando.

Porque ninguém escolhe todas as circunstâncias
que encontrará nesta vida.

E quando chegar o último minuto,
não será importante saber
quantas vezes venceu,
quantas pessoas te admiraram,
quantas certezas acumulou,
ou quantas batalhas suportou.

Penso eu que importe apenas isto:

quanto de ti permaneceu teu
depois que a vida tentou te transformar
em alguém que você não queria ser.

E se, apesar de tudo,
ainda conseguir olhar para o mundo
sem precisar possuí-lo,
olhar para os outros
sem precisar decrescê-los,
olhar para tuas feridas
sem transformá-las em identidade,

então talvez tenha aprendido
a mais difícil das artes:

não controlar a vida,
mas não entregar a ela
o governo de quem você é.

pródigo.

Eu não pareço com ele.

Pelo menos não quando me olho.

Algumas pessoas dizem que sim.

Dizem que existe alguma coisa no meu rosto, no meu jeito, em alguma expressão que faço sem perceber.

Eu escuto.

Talvez elas estejam certas.

Talvez exista alguma coisa.

Mas eu nunca soube enxergar.

Quando olho para mim, não vejo ele.

Vejo a mim.

E talvez seja justamente isso que me faça pensar tanto nele.

Porque, se existe alguma coisa que eu realmente herdei, não foram os olhos, nem a voz, nem o rosto.

Foram os vícios.

Os malditos vícios.

Talvez essa tenha sido a única herança que encontrou um jeito de chegar até mim.

E é estranho pensar nisso.

Porque eu não herdei as conversas que poderiam ter existido.

Não herdei conselhos.

Não herdei lembranças de infância ao lado dele.

Não herdei aquelas pequenas coisas que parecem tão banais até você perceber que passou a vida inteira sem elas.

Mas herdei isso.

E, as vezes, parece que meu próprio corpo conhece caminhos que eu nunca quis aprender.

Eu tento parar.

Consigo por um tempo.

Depois volto.

E quando volto, existe aquela sensação incômoda de que talvez eu esteja repetindo alguma coisa que começou muito antes de mim.

É aí que ele aparece.

Não na minha frente.

Dentro da minha cabeça.

No subconsciente.

Naquela parte de mim que funciona antes que eu consiga pensar.

Uma reação.

Um impulso.

Uma escolha.

E, por um segundo, eu paro e penso:

“Isso veio de mim?”

Ou veio dele?

Eu odeio não saber.

Talvez seja por isso que eu não consiga perdoá-lo.

Não é só pela ausência.

É pelo que a ausência deixou.

Porque é fácil imaginar que alguém que foi embora simplesmente desapareceu.

O problema é quando a pessoa vai embora e alguma coisa dela continua funcionando dentro de você.

Aí você não sabe mais se está tentando esquecer alguém ou tentando arrancar uma parte de si mesmo.

E eu não quero ser ele.

Nunca quis.

Não quero olhar para as minhas próprias mãos e encontrar as escolhas dele.

Não quero reconhecer nele aquilo que existe em mim.

Não quero que os meus erros tenham o nome dele escondido em algum lugar.

Mas talvez eu precise admitir uma coisa.

Talvez algumas pessoas estejam certas.

Talvez eu realmente carregue alguma coisa dele.

Só que não é isso que me define.

Porque eu também carrego tudo o que veio depois.

As pessoas que me ensinaram.

As que me machucaram.

As que eu amei.

As escolhas que fiz sozinho.

As vezes em que consegui ser diferente.

As vezes em que falhei.

Tudo isso também sou eu.

E talvez seja essa a parte que ele nunca vai conseguir tocar.

Ele pode ter deixado os vícios.

Pode ter deixado perguntas.

Pode ter deixado uma raiva que ainda não sei onde colocar.

Mas não pode decidir o que eu faço com tudo isso.

Talvez eu nunca consiga perdoá-lo.

Talvez um dia consiga.

Hoje eu não sei.

E talvez eu não precise saber.

Porque perdoar não pode significar fingir que nada aconteceu.

Nem transformar ausência em presença só porque seria mais bonito contar a história assim.

Ele não esteve.

Isso também faz parte da história.

E eu não preciso inventar outra para conseguir seguir.

Talvez um dia eu consiga me livrar de tudo aquilo que herdei sem escolher.

Talvez um dia eu olhe para algum vício e não reconheça nele nenhuma sombra.

Talvez eu consiga pensar nele sem sentir que alguma coisa dentro de mim se contrai.

Mas, enquanto esse dia não chega, eu continuo tentando.

Não para provar que sou diferente dele.

Mas porque quero descobrir quem eu seria se não precisasse passar tanto tempo tentando não ser.

Porque eu não sou ele.

Mesmo que exista alguma coisa dele em mim.

Mesmo que às vezes eu me reconheça em coisas que gostaria de não reconhecer.

Mesmo que o subconsciente ainda saiba o nome dele.

Ele pode fazer parte daquilo que explica de onde eu vim.

Mas não precisa fazer parte daquilo que eu vou me tornar.

E talvez seja isso que eu esteja tentando aprender:

eu não escolhi o que herdei.

Mas ainda posso escolher o que fica.

A verve do poeta popular é, às vezes, sufocada pela ignorância dos que só enxergam os clássicos.

"Avida, em algum momento, recolhe o que veio emprestado.
Um foi embora entre o almoço e o jantar; outro, sem se despedir. Outro avisou, arrumou as coisas, esperou o dia certo.
Alguns partem em paz; outros atravessam dores que nunca compreenderemos.
Existem pessoas que partem levando um pedaço de nós.
O que fica não é apenas a saudade.
É um espaço estranho no peito. Uma ausência branca que, de vez em quando, ainda faz eco.
Existem partidas que rasgam. Outras apenas despertam lembranças.
Silêncios adormecidos.
E, por mais que tentemos, nunca sabemos exatamente como lidar com isso. Porque somos humanos.
E somos limite.
Não entendemos o porquê de certas ausências. Não compreendemos nem a nós mesmos, quem dirá a lógica do universo, do início e do fim da vida.
Nunca saímos ilesos. Choramos não apenas por quem partiu, mas por quem ficou tentando juntar os próprios cacos: pelas mães, pelos filhos, pelas promessas que ficaram pelo caminho, pelas conversas interrompidas, pelos dias que imaginávamos viver ao lado de quem se foi.
As histórias não terminam quando queremos; terminam quando a vida decide. E tudo o que podemos fazer é continuar vivendo.
Mesmo sem compreender algumas perdas e sem respostas para quase todas as perguntas.
A dor nem sempre traz clareza, mas todo sofrimento invariavelmente nos transforma.
Saber perder é um aprendizado silencioso: é deixar ir o que não volta, mesmo com o coração apertado.
É como um banho de chuva fria que limpa, mas também faz tremer. Um adeus engasgado que, um dia, precisa ser dito, porque adeus também foi feito para ser dito, e dizer essa palavra dói como poucas coisas nesta vida.
Talvez a eternidade nunca tenha sido viver para sempre.
Quem sabe, ela sobreviva nas mãos que ainda amassam o pão do mesmo jeito, no abraço que repete um antigo afeto, no sorriso que herdou um traço de quem partiu."
(S.H.M.)

A ONÇA DENTRO DE NÓS


Por: Marco Arawak


Há uma região em nós que não aparece nos espelhos.


É nela que permanecem as lembranças que o tempo não dissolveu, as perguntas que nunca terminamos de formular, os desejos que modificamos para caber nas expectativas alheias e os receios que, silenciosamente, participam de nossas escolhas.


Talvez conhecer essa região seja uma das tarefas mais difíceis da existência.


Porque olhar para dentro não significa simplesmente recordar. Significa interrogar a própria história.


Perguntar de onde vieram nossas certezas, quais experiências moldaram nossas convicções, por que determinadas situações despertam determinadas reações e até que ponto aquilo que chamamos de personalidade é, na verdade, uma construção feita de hábitos, circunstâncias e memórias.


É nesse território que encontramos a nossa autoanamnese.


Uma cartografia interior.


Um retorno às próprias origens para compreender os caminhos que nos trouxeram até aqui.


Quem fui antes de saber quem deveria ser?
O que escolhi por desejo e o que escolhi por necessidade?
Quais partes de mim nasceram de convicções e quais nasceram de adaptações?


Dentro de cada pessoa existe uma natureza que nem sempre se revela.


Há uma força silenciosa que observa antes de agir, percebe antes de responder e reconhece aquilo que muitas vezes tentamos ignorar.


É a onça dentro de nós.


Ela não precisa rugir para existir.


Move-se no silêncio das nossas percepções, atravessa nossas memórias e surge nos momentos em que algo essencial é ameaçado: nossa liberdade, nossos valores, nossos limites ou aquilo que profundamente reconhecemos como parte de nós.


Mas essa onça não representa apenas força.


Ela também representa consciência.


O instinto que observa.


A presença que não se precipita.


A capacidade de permanecer em silêncio antes de escolher um movimento.


Talvez por isso olhar para dentro exija coragem.


Porque podemos descobrir que aquilo que nos perturba nem sempre está no mundo exterior.


Às vezes, está naquilo que ainda não compreendemos em nós mesmos.


Há pensamentos que nos perseguem.


Há medos que condicionam escolhas.


Há padrões que se repetem porque jamais foram examinados.


E há partes de nossa própria história que permanecem à espera de serem reconhecidas.


Nem tudo aquilo que habita em nós precisa nos governar.


Pensar não significa necessariamente estar certo.


Sentir não significa necessariamente obedecer ao sentimento.


Ter medo não significa ser fraco.


E reconhecer uma parte difícil de nós não significa aceitá-la como destino.


A consciência começa justamente quando conseguimos observar aquilo que acontece dentro de nós sem sermos imediatamente dominados por isso.


Somos, ao mesmo tempo, experiência e observador.


Sentimos e podemos refletir sobre o que sentimos.


Pensamos e podemos questionar nossos próprios pensamentos.


Erramos e podemos compreender o erro.


É nessa distância entre o impulso e a escolha que surge uma das formas mais profundas de liberdade.


Também o passado precisa ser contemplado com honestidade.


Não para justificá-lo.


Não para condená-lo.


Mas para compreendê-lo.


A pessoa que fomos não possuía necessariamente os conhecimentos que possuímos hoje. Julgá-la apenas pelos olhos do presente pode transformar aprendizado em culpa.


O passado não pode ser refeito, mas pode ser compreendido.


E quando compreendemos aquilo que vivemos, nossa relação com a própria história começa a mudar.


A autoanamnese atravessa todas as dimensões da existência.


Está na família, onde recebemos histórias, valores e comportamentos que muitas vezes carregamos sem perceber.


Está nas amizades e nos afetos, onde descobrimos como confiamos, como estabelecemos limites e como nos relacionamos com o outro.


Está no conhecimento e no trabalho, onde nossas escolhas revelam aquilo que valorizamos e aquilo que desejamos construir.


Está nos erros, porque toda experiência pode se transformar em aprendizado.


Está nos sonhos, porque nem todo desejo que carregamos nasceu verdadeiramente em nós.


E está no futuro, porque nenhuma transformação consciente acontece sem alguma compreensão de quem somos hoje.


Por isso, talvez a pergunta mais profunda não seja simplesmente:


“Quem sou?”


Mas:


“O que está participando da construção de quem estou me tornando?”


Somos memória, mas não somos somente memória.


Somos consequência, mas também escolha.


Somos herança, mas também transformação.


Somos passado, mas ainda somos possibilidade.


A onça dentro de nós talvez seja essa parte primordial que nos lembra de permanecer atentos à própria existência.


Ela observa.


Espera.


Reconhece.


E nos ensina que força verdadeira nem sempre precisa fazer barulho.


Há momentos em que a maior demonstração de força é permanecer em silêncio.


Há momentos em que é preciso recuar.


Outros em que é necessário avançar.


E existem aqueles em que a verdadeira coragem consiste simplesmente em reconhecer o que acontece dentro de nós.


Conhecer-se não é domesticar a própria natureza.
É aprender a caminhar conscientemente com ela.


Talvez a maturidade seja justamente isso:


olhar para dentro sem medo de encontrar imperfeições;


compreender sem transformar compreensão em desculpa;


reconhecer nossas sombras sem permitir que elas ocupem todo o horizonte;


honrar nossa história sem permanecer prisioneiro dela;


e aceitar que ainda somos capazes de mudar.


A vida não é uma obra concluída.


Somos seres inacabados.


Cada experiência acrescenta uma camada.


Cada encontro desloca alguma perspectiva.


Cada perda modifica alguma medida de valor.


Cada descoberta reorganiza parte daquilo que acreditávamos saber.


Por isso, a autoanamnese não é uma resposta definitiva sobre quem somos.


É uma pergunta que aprendemos a fazer novamente.


De tempos em tempos, precisamos retornar ao silêncio e escutar aquilo que o ruído cotidiano impede de ouvir.


O que em mim é escolha?
O que é hábito?
O que é herança?
O que é medo?
O que é desejo?
E o que, finalmente, começa a ser liberdade?


Talvez a verdadeira autoanamnese seja esse retorno.


Não ao passado.


À consciência.


Entrar na própria floresta.


Reconhecer os rastros.


Perceber os movimentos.


E descobrir que, dentro de nós, existe uma natureza que não precisa ser temida nem negada, mas compreendida.


Porque conhecer a si mesmo não é encontrar uma identidade imóvel.


É perceber o próprio movimento.


É compreender de onde viemos sem nos aprisionarmos à origem.


É reconhecer aquilo que nos constitui sem permitir que isso determine tudo o que ainda podemos ser.


E talvez seja essa a grande lição da onça:


a força que realmente conhece a si mesma não precisa anunciar sua presença.


Ela simplesmente sabe quando observar.


Quando esperar.


Quando avançar.


E, sobretudo,


quando permanecer em silêncio.


Marco Arawak

"Dormir tarde sonhando em não ter hora para acordar; acordar todas as noites sem saber quando vai conseguir dormir de novo. E, se der sorte, acordar só uma vez. Paciência testada e cansaço exacerbado, dia sim e outro também.
As refeições? Interrompidas. As festas? Perdidas. A vida a dois? Com hora marcada e se der. 
Sem tempo ou energia para amigos, cursos, viagens ou qualquer plano que não envolvesse um bebê. De repente, meu mundo inteiro cabia dentro de uma criaturinha que dependia de mim para absolutamente tudo.
Antes de sermos mães, somos especialistas. Educamos os filhos dos outros com facilidade, criticamos, temos respostas para tudo. Até o dia em que o nosso nasce.
Olheiras profundas, dores nas costas e um cansaço que altera o corpo, a mente e o coração. Havia dias em que eu mal reconhecia a mulher diante do espelho. A barriga parecia ainda grávida, mas o bebê já corria pela casa. Galinha Pintadinha ocupava o lugar de Raul Seixas. O banho tinha plateia. Os objetos de decoração passaram a morar acima de um metro de altura.
Foi só depois de algumas vivências que percebi o que ninguém tinha me contado. A maternidade não seria apenas cansativa. O que ninguém avisa é que, no dia em que um filho chega, a mulher que somos precisa dar lugar à mulher que precisamos ser.
Quando saí do hospital com você nos braços, eu não fazia ideia de como seria a vida dali em diante. A única certeza era que tudo havia mudado. Você precisava aprender a viver fora do ventre. Eu precisava aprender a ser mãe.
Fomos descobrindo juntas, aos tropeços, com noites mal dormidas, medo, lágrimas e uma quantidade de amor que eu jamais imaginei ser capaz de sentir. Até então, eu acreditava conhecer o amor, mas existe um amor que só se revela quando um filho chega.
Durante um tempo, deixei muitas partes de mim em silêncio para ouvir apenas você: seus choros, suas necessidades, seus pequenos sinais. Minha vida passou a seguir o ritmo da sua. 
Enquanto você crescia, eu também amadurecia. Você aprendia a reconhecer minha voz; eu aprendia a reconhecer uma força descomunal dentro de mim.
Nem sempre acertei. Houve dias em que o cansaço falou mais alto. Em outros, protegi demais. E não raro me perguntei se estava fazendo o suficiente. Nunca fui a mãe perfeita, mas isso deixou de importar quando entendi que você também não precisava de perfeição. Precisava de alguém que estivesse ali, aprendendo todos os dias, errando, pedindo desculpas quando fosse preciso e recomeçando no dia seguinte.
As revistas venderam uma maternidade impecável, com bebês limpos, casas organizadas e mães sorrindo o tempo inteiro. Na vida real, a casa fica bagunçada. A mãe chora escondido no banheiro e, quando menos se espera, nem escondido. Isso não faz de mim uma mãe pior, nem menos grata, nem menos feliz. Faz de mim uma mãe de verdade.
Você nasceu em um único dia, num estalo que mudou todo o meu mundo.
Mas eu não.
Eu continuo nascendo mãe todos os dias: nas manhãs calmas, nas tempestades da travessia, nas renúncias em silêncio e no orgulho de ver você criar as próprias asas.
Não sou mais a mulher de antes e nem pretendo voltar a ser.
Descobri que a maternidade não me anulou: ela apenas trouxe uma versão minha com um brilho que nunca mais vai se apagar."
(S.H.M.)

3347 📜 Eu disse para Meus Cunhados: Quero ver fazerem, ao invés de só falarem! Não se mancam?

Leiam. Construam um raciocínio próprio a partir de informações confiáveis e do olhar atento sobre o mundo. A leitura nos proporciona a possibilidade de parar e refletir, de costurar o conhecimento à realidade e aos nossos valores. Ela amplia o nosso mundo e, por consequência, expande a nós mesmos.

AUTOANAMNESE


Entre a memória e o que ainda podemos ser


Existe uma história dentro de cada pessoa.


Uma história que não está escrita apenas em fotografias, documentos ou lembranças. Ela também vive nos gestos, nas escolhas, nos medos, nos sonhos, nas palavras que ficaram e, principalmente, naquilo que fazemos sem perceber.


Somos feitos de encontros, despedidas, descobertas, perdas, conquistas, erros e recomeços. Somos também feitos de perguntas que nunca encontraram respostas e de respostas que o tempo modificou.


Talvez por isso a autoanamnese seja tão importante: porque, antes de compreender o mundo, precisamos aprender a observar aquele que o contempla.


Volto os olhos para trás,
não para morar no passado,
mas para compreender
as pegadas que deixei.


Há caminhos que escolhi conscientemente. Outros surgiram diante de mim quando eu sequer sabia para onde estava indo. Alguns abandonei. Outros me abandonaram. E existem aqueles que ainda percorro, tentando compreender por que os escolhi.


Fazer uma autoanamnese é estabelecer um diálogo sincero com a própria história.


É perguntar:


Quem fui?
Quem sou?
O que me trouxe até aqui?
O que ainda carrego?
E o que já posso deixar partir?


Não se trata de procurar culpados, nem de transformar o passado em sentença. Trata-se de compreender.


Porque aquilo que não compreendemos muitas vezes se repete.


Repetimos comportamentos, escolhas, relações e pensamentos sem perceber que estamos seguindo antigos caminhos.


Por isso, olhar para dentro pode ser um ato de liberdade.


Há hábitos que herdei,
há pensamentos que aprendi,
há caminhos que percorri
sem jamais perguntar
se realmente eram meus.


A autoanamnese nos permite separar aquilo que somos daquilo que simplesmente aprendemos a ser.


Na vida pessoal, ela nos ajuda a reconhecer nossos valores, limites, desejos e contradições.


Nas relações, revela como amamos, confiamos, ouvimos, perdoamos, reagimos e estabelecemos limites.


Na família, permite compreender as histórias que recebemos e decidir conscientemente quais heranças queremos preservar e quais precisam ser transformadas.


Na vida acadêmica e profissional, ajuda a perceber talentos, interesses, escolhas e caminhos que talvez tenham sido construídos mais pelas expectativas externas do que pelos nossos próprios propósitos.


Nas decisões, cria um espaço entre o impulso e a escolha.


E, nesse pequeno espaço, pode nascer a consciência.


Antes de responder,
eu observo.
Antes de escolher,
eu compreendo.
Antes de seguir,
eu pergunto
para onde estou indo.


Também precisamos fazer uma autoanamnese dos nossos erros.


Não para viver em culpa, mas para transformar experiência em aprendizado.


O erro pertence à nossa história, mas não precisa determinar nosso destino.


A pessoa que fomos tomou decisões com os conhecimentos, sentimentos e circunstâncias que possuía naquele momento. Hoje podemos saber mais. Podemos enxergar diferente. Podemos escolher diferente.


Ontem eu não sabia.
Hoje compreendo.
Amanhã talvez transforme
aquilo que hoje ainda estou aprendendo.


Isso também é amadurecer.


Olhar para quem fomos sem desprezo, olhar para quem somos sem arrogância e olhar para quem podemos ser sem medo.


A autoanamnese também alcança nossos sonhos.


Quantos desejos são verdadeiramente nossos?


Quantos nasceram das expectativas de outras pessoas?


Quantas vezes confundimos sucesso com aprovação?


Quantas vezes seguimos uma estrada porque todos diziam que era o caminho certo?


Há sonhos que permanecem,
sonhos que se transformam
e sonhos que descobrimos
que nunca foram nossos.


Conhecer a própria história é também descobrir quais sonhos ainda fazem sentido.


E talvez esse seja um dos maiores poderes da reflexão: perceber que o passado explica muito, mas não determina tudo.


Somos memória, mas também possibilidade.


Somos consequência, mas também escolha.


Somos continuidade, mas também transformação.


O passado pode explicar nossas cicatrizes, mas não precisa escrever sozinho os próximos capítulos.


Carrego o que vivi,
mas não sou apenas o que vivi.
Carrego minhas marcas,
mas elas não são meu nome.
Carrego meus erros,
mas eles não são meu destino.


A vida inteira pode ser compreendida como uma grande conversa entre aquilo que fomos e aquilo que estamos nos tornando.


E talvez seja justamente por isso que precisamos, de tempos em tempos, silenciar o mundo.


Desligar o ruído.


Parar.


Respirar.


E perguntar:


O que está acontecendo dentro de mim?


Nem toda resposta surgirá imediatamente.


Algumas perguntas precisam permanecer conosco durante algum tempo. Algumas respostas chegam lentamente, através da experiência, da reflexão e das mudanças que fazemos no cotidiano.


A autoanamnese não é uma fotografia de quem somos.


É um espelho em movimento.


Hoje enxergamos uma parte.


Amanhã compreenderemos outra.


E, enquanto vivemos, aprendemos que conhecer a si mesmo não é encontrar uma definição definitiva, mas permanecer disposto a se conhecer novamente.


Sou memória
e sou possibilidade.
Sou passado
e sou caminho.
Sou aquilo que aprendi
e aquilo que ainda posso aprender.


Por isso, fazer uma autoanamnese não é voltar para trás.


É voltar para dentro.


É revisitar a própria história com honestidade, reconhecer o que nos construiu, compreender o que nos limita, valorizar o que nos fortalece e escolher, com maior consciência, aquilo que desejamos levar adiante.


Porque a vida não é somente aquilo que nos acontece.


É também aquilo que fazemos com o que nos acontece.


E enquanto houver consciência, haverá aprendizado.


Enquanto houver aprendizado, haverá transformação.


Enquanto houver escolha, haverá possibilidade.


E enquanto houver vida,


a história ainda estará sendo escrita.

Uma palavra pode significar perda para quem escreve e liberdade para quem lê.

3342 📜 Comenta-se, não só Alhures como também Algures, que o 'Tiro do Outro' saiu pela culatra. O que sei (e continuo sabendo) é que temos um Ministro Que Não Se Intimida (seja lá quem tente Intimidá-lo). E eu, por enquanto (e ainda) continuo com ele, com o Ministro Que Salvou o Brasil de Golpe! Por enquanto (e ainda) estou com ele!

"Se vierem me procurar, me faz um favor?
Diz que fui ali viver... e já volto.
É isso mesmo.
Diz que fui perdendo o medo da vida. Cansei de complicar.
Os mistérios vou deixando de lado e aprendendo a aproveitar as coisas simples, aquelas que antes eu deixava passar despercebidas.
Passo a passo.
Um dia depois do outro. É assim que tenho vivido.
O que eu quero encontrar, eu procuro.
E, se não encontro, tudo bem.
Continuo vivendo.
Esperanças? Aprendi a viver sem elas. O hoje tem me ocupado demais para que eu passe a vida esperando pelo amanhã.
E, afinal, quem garante que ele vem?
Melhor deixar que chegue quando for a hora.
Desculpe, mas escolhi viver assim. E vou vivendo.
Sonhando com a minha realidade, em vez de passar a vida tentando realizar sonhos que me afastem dela.
Se continuarem me procurando, diz que só apareçam se quiserem viver da mesma forma.
Que não venham atrapalhar a minha paz.
Diz que fui tomar banho de chuva. Ou rolar morro abaixo na grama e morrer de rir. 
Se insistirem em me procurar, diz que depois de tudo, prefiro prender a respiração no conforto de um abraço.
Quero viver cada estação do jeito que ela vier.
Hoje não consulto mais meu horóscopo nem a previsão do tempo.
Já deixei que eles interferissem demais nas minhas decisões.
Quando, na verdade... quem estava errado eram eles. Não eu.
Se mesmo assim, ainda vierem me procurar, me faz mais um favor?
Diz que estou ocupada demais vivendo a minha vida para continuar tentando decifrá-la e fazendo os momentos valerem a pena.
Quando a gente conhece todos os caminhos que levam ao fim do jogo, ele perde a graça.
Prefiro transformar a felicidade de agora em algo real.
Aos poucos compreendi que a vida não cabe num roteiro.
E que nem tudo precisa ser entendido para ser vivido.
Se vierem me procurar...
Diz que estou por aí. Vivendo.
E que não tentem me parar.
Nem me convencer a voltar antes da hora.
Diz que fui ali viver... e que volto, sim. Mas nunca volto igual. Volto sempre um pouco diferente. Mais leve em algumas partes, mais forte em outras.
Se não me acharem, não digam que sumi. Digam apenas que cansei de esperar a vida acontecer com hora marcada.
Se eu voltar, conto como foi. Se não voltar... é porque a vida do lado de fora era bonita demais para ser interrompida."
(S.H.M)

Aqueles que estão no Inferno, levariam qualquer um junto apenas para não ficar sozinhos
-Jesus, Alexandre

NÃO SOU O MUNDO — SOU O QUE ELE ME PERMITE SER

Por Marco Arawak

A Terra não é cenário. É a condição de tudo o que acontece. Antes de qualquer pensamento, existe aquilo que sustenta. Antes de qualquer palavra, existe aquilo que torna possível existir.

Nada em mim começou inteiramente em mim. Meu corpo é feito de coisas antigas: água que já foi nuvem, minerais que atravessaram montanhas, elementos forjados muito antes que meu nome existisse. Sou um encontro provisório de matérias que já pertenciam ao mundo antes de pertencerem a mim.

Não sou origem. Sou continuidade.

A Terra não me acolhe por escolha. Ela simplesmente existe. E, enquanto suas condições permitem, eu existo com ela. O chão não me sustenta por cuidado; sustenta porque é chão. Se deixa de existir sob meus pés, eu caio. Sem intenção. Sem julgamento.

A água não me protege. Ela corre. Quando está limpa, sustenta a vida; quando está contaminada, pode carregar essa alteração para dentro dos sistemas dos quais dependemos. O ar não se oferece. Ele está. E quando deixa de estar em condições que permitam a vida, não há filosofia capaz de substituí-lo.

Nada na natureza precisa me explicar o sentido da vida. Sua função não é me oferecer respostas. Basta que suas condições tornem a vida possível.

Não vivo em um mundo que foi criado para me refletir. Vivo em um mundo que me antecede e continuará depois de mim.

Minha história não é o centro da história da Terra. É uma passagem. Sou um instante dentro de algo muito maior, um acontecimento breve em um processo que não começou comigo e não terminará comigo.

E, ainda assim, existo.

Não como dono.

Como parte.

Cada respiração revela uma dependência. Cada passo pressupõe um chão. Cada alimento carrega uma cadeia de vida, matéria, água, energia e trabalho. Cada dia é uma experiência de equilíbrio que não controlamos inteiramente.

Nada em nós é garantido.

A Terra não é boa nem má. Não cuida de nós como uma consciência materna, nem nos pune como um juiz. Ela simplesmente segue suas leis e seus ciclos.

Mas nós sentimos.

Nós tememos.

Nós lembramos.

Nós escolhemos.

E é exatamente aí que algo muda.

A natureza não precisa ter intenção para produzir consequências. E nós não precisamos controlar o planeta para interferir profundamente nele.

A vida acontece enquanto suas condições permitem.

Dentro dessa fragilidade, construímos cidades, cultivamos alimentos, inventamos máquinas, criamos culturas, amamos, lembramos e sonhamos. Somos capazes de transformar o mundo porque dependemos dele. Essa é uma das grandes contradições da nossa existência: temos poder suficiente para modificar aquilo que não podemos substituir.

Somos forma por um tempo.

E toda forma, cedo ou tarde, muda.

O corpo retorna aos ciclos da matéria. A água continua circulando. Os elementos permanecem em movimento. Aquilo que chamamos de fim, muitas vezes, é apenas uma transformação dentro de processos muito maiores que nós.

Mas a nossa experiência individual é finita.

Eu posso desaparecer.

Você pode desaparecer.

Uma geração pode desaparecer.

E é justamente porque somos passageiros que nossas escolhas importam enquanto estamos aqui.

Existir é frágil. Não porque a vida não tenha valor, mas porque ela não vem acompanhada de nenhuma garantia de permanência.

O mundo não foi feito para mim.

Eu fui feito dentro dele.

E o modo como escolho viver dentro dele não é neutro.

Tudo o que faço interfere em alguma coisa: aquilo que extraio, consumo, desperdiço, transformo, descarto ou preservo. Nem tudo retorna diretamente para mim, nem tudo retorna da mesma maneira, mas quase nada simplesmente deixa de existir porque decidi chamar de “lixo”.

O que descartamos continua fazendo parte do mundo.

O que degradamos pode alterar os sistemas dos quais dependemos.

O que destruímos pode levar décadas, séculos ou gerações para se recompor — quando ainda pode se recompor.

Por isso, a natureza não precisa pedir admiração.

Precisa que reconheçamos limites.

Não precisa dos nossos discursos.

Precisa das nossas escolhas.

Não somos espectadores de um planeta externo a nós. Somos participantes de sistemas dos quais dependemos a cada instante.

Talvez esse seja o erro mais profundo da nossa época: imaginar que estar no mundo significa estar separado dele.

Não estou fora da natureza observando-a.

Estou dentro dela.

Meu corpo não é estrangeiro ao planeta. Minha água veio de ciclos anteriores. Meu alimento depende de solos, chuva, luz, organismos e trabalho. Minha respiração depende de uma atmosfera que não produzi.

Não carrego a Terra dentro de mim como símbolo.

Dependo dela como condição.

Se ela sustenta as condições necessárias à vida, eu existo.

Se essas condições se degradam, minha existência também se torna mais vulnerável.

Isso não é metáfora.

É condição material.

A natureza do planeta não é apenas uma ideia, um símbolo ou um consolo espiritual. É a base física sobre a qual a vida acontece.

Compreender isso não deveria nos tornar maiores.

Deveria nos tornar responsáveis.

Porque não estou aqui para dominar o mundo.

Estou aqui dentro dele.

E aquilo que me sustenta também sustenta milhões de outras formas de vida.

Talvez, portanto, a pergunta não seja “o que o mundo pode me dar?”.

Talvez seja:

“O que a minha presença deixa no mundo?”

Depois de mim, o que permanece?

Uma marca?

Uma ferida?

Uma construção?

Uma memória?

Um cuidado?

Uma possibilidade?

Não posso impedir que o mundo continue sem mim.

Mas posso escolher a maneira como participo dele enquanto estou aqui.

Posso consumir sem transformar tudo em descarte.

Posso construir sem considerar tudo ao redor como matéria disponível.

Posso usar sem esquecer que aquilo que uso veio de algum lugar.

Posso existir sem precisar transformar minha existência em domínio.

Porque não sou o mundo.

Não sou seu proprietário.

Não sou seu centro.

Sou uma pequena parte de uma realidade muito maior que me antecedeu, me sustenta e continuará existindo quando meu nome já não estiver sendo pronunciado.

E talvez essa consciência não seja uma diminuição.

Talvez seja uma libertação.

Não preciso ser o centro para ter valor.

Não preciso possuir a Terra para pertencer a ela.

Não preciso durar para sempre para que minha passagem tenha significado.

Sou apenas algo que acontece dentro deste mundo.

Breve.

Frágil.

Consciente.

E enquanto aconteço, posso escolher.

Posso cuidar.

Posso limitar.

Posso preservar.

Posso reparar.

Posso, ao menos, tentar não transformar em ruína aquilo que tornou possível a minha presença.

Talvez seja essa uma das formas mais silenciosas de responsabilidade humana:

saber que o mundo não existe para nós e, ainda assim, compreender que somos responsáveis pela maneira como existimos dentro dele.

Não sou o mundo.

Sou o que ele me permite ser.

E aquilo que eu fizer com essa possibilidade também fará parte do mundo.

Marco Arawak

A Casa Vazia


Existe uma casa dentro de cada ser humano. Ela não tem endereço, não aparece nos mapas e não pode ser construída por outra pessoa. É feita de memória, silêncio, desejo e consciência. É o lugar onde a nossa voz ainda é nossa. Quando somos capazes de habitá-la, conhecemos seus corredores, sabemos onde guardamos nossas alegrias, onde escondemos nossos medos, quais portas evitamos abrir e quais janelas deixamos voltadas para o mundo. No centro dessa casa existe uma chama pequena e silenciosa. É ela que nos diz: “Você está aqui.”


O problema começa quando deixamos a porta aberta por tempo demais. Lá fora, o mundo não pede licença. Ele chama, acende luzes, oferece promessas, produz urgências, entrega desejos prontos e mostra vidas cuidadosamente enquadradas. E nós saímos. Primeiro por curiosidade, depois por desejo, depois por hábito, até que um dia percebemos que estamos há tanto tempo do lado de fora que já não lembramos como era estar em casa.


Não fomos expulsos. Essa talvez seja a parte mais difícil de admitir. Nós mesmos fomos nos afastando. Trocamos o silêncio pelo ruído, a presença pela distração, a experiência pelo espetáculo e a própria voz pelo eco das vozes alheias. Começamos a conhecer a vida de pessoas que nunca encontramos, a acompanhar histórias que não são nossas e a reagir a acontecimentos que não podemos tocar, enquanto alguma coisa dentro de nós espera, em silêncio, para ser percebida.


Os espelhos se multiplicam. As telas iluminam rostos, as comparações entram pelas janelas e os sucessos alheios tornam-se medidas para a nossa própria existência. Sem perceber, começamos a perguntar menos “Quem sou eu?” e cada vez mais “Como estou sendo visto?”. Parece uma mudança pequena, mas é profunda. Quando o olhar dos outros se transforma no nosso principal espelho, começamos a construir a própria identidade do lado de fora. E uma casa construída pelo olhar alheio nunca permanece verdadeiramente nossa.


Então precisamos de mais: mais reconhecimento, mais aprovação, mais intensidade, mais alguma coisa que faça silêncio dentro de nós. Quanto mais procuramos, porém, menos encontramos. A casa permanece vazia não porque não exista nada dentro dela, mas porque ninguém está lá para perceber.


O abandono de si não acontece de uma só vez. Ele acontece em pequenas ausências: quando ignoramos aquilo que sentimos, quando dizemos “está tudo bem” sabendo que não está, quando seguimos uma direção apenas porque todos estão seguindo, quando confundimos desejo com necessidade, quando nos distraímos para não pensar ou quando falamos tanto que já não conseguimos ouvir a própria voz. A poeira se acumula, não sobre os móveis, mas sobre a memória de quem somos.


Chega então um momento em que o silêncio assusta. Depois de tanto ruído, ficar sozinho consigo mesmo pode parecer entrar em uma casa abandonada. Mas talvez o silêncio não seja vazio. Talvez seja apenas o espaço onde aquilo que foi abafado finalmente pode ser ouvido.


É ali que começa o retorno. E o retorno não exige grandes gestos. Não precisa de espetáculo, de uma nova vida ou de uma nova versão de nós mesmos. Começa pequeno: sentar, respirar, escutar, perguntar e permanecer tempo suficiente para ouvir a resposta. “O que está acontecendo dentro de mim?” Talvez ela venha baixa, talvez confusa, talvez acompanhada de coisas que preferíamos não encontrar. Não importa. A casa precisa ser reaberta.


Um cômodo de cada vez. Uma lembrança, um sentimento, uma verdade, uma escolha, uma janela. Até que a luz volte a entrar.


E então descobrimos algo essencial: voltar para si não significa abandonar o mundo. Pelo contrário. É somente quando sabemos onde estamos que podemos verdadeiramente encontrar alguém. É somente quando reconhecemos a nossa própria voz que conseguimos escutar outra pessoa sem desaparecer dentro dela. É somente quando conhecemos os nossos limites que conseguimos respeitar os limites do outro.


Uma casa habitada não é uma prisão. Tem portas, janelas e espaço para receber. Escuta o mundo, celebra, ama, aprende e acolhe, mas sabe quem possui as chaves. As paixões podem entrar sem incendiar a casa. As ideias podem entrar sem ocupar todos os cômodos. A opinião dos outros pode ser ouvida sem se transformar em sentença. O mundo pode atravessar nossas janelas sem se tornar proprietário da nossa existência.


Talvez maturidade seja isso: não fechar a porta para o mundo, mas deixar de viver permanentemente do lado de fora.


Precisamos sair. Precisamos experimentar, amar, errar, conhecer outras paisagens e encontrar outras pessoas. Mas precisamos também voltar. Voltar quando o mundo estiver barulhento demais. Voltar quando a aprovação já não bastar. Voltar quando percebermos que estamos vivendo para sustentar uma imagem que não reconhecemos. Voltar quando ninguém estiver olhando. Voltar simplesmente porque sentimos falta de nós mesmos.


Talvez essa seja a verdadeira casa: não o lugar onde nos escondemos do mundo, mas o lugar a partir do qual conseguimos habitá-lo sem nos abandonar.


No fim, não precisamos construir uma nova casa. Ela já existe. Talvez esteja apenas silenciosa. Talvez tenha algumas janelas fechadas. Talvez haja poeira sobre aquilo que um dia foi importante. Mas a chama ainda está lá, esperando.


E talvez ela não diga muita coisa. Talvez diga apenas: “Volte.”


Quando voltamos, percebemos que nunca estivemos realmente perdidos. Estávamos apenas longe demais para ouvir a nossa própria voz.


A porta sempre foi nossa. A casa sempre esteve lá. E a luz nunca deixou de esperar por nós.

Há assuntos que, à medida que nos aprofundamos neles, se encaminham para a religião, simplesmente por não haver outra área capaz de dar algumas explicações.

Inserida por nubia_medeiros

A Ilusão da Perfeição: A Redescoberta do Valor Humano em um Mundo de Pressões Sociais


A opressão exercida pelas expectativas sociais, reforçada por mensagens e imagens incessantes de perfeição, somada à obsessão pela beleza exterior, juventude, etnia, riqueza, status social e fama, contribui para a fragmentação das relações humanas e para a erosão do sentido de valor interior.


A discriminação baseada na idade, o racismo, as diferenças econômicas, sociais, políticas e religiosas, assim como a comparação constante com os outros, podem produzir sentimentos de inadequação e desvalorização — como se fôssemos atores “cegos, surdos, mudos e irracionais”, colocados diante de obstáculos aparentemente intransponíveis.


O peso de corresponder a ideais irreais de beleza e sucesso ignora nossas qualidades interiores, nossas experiências e nossas conquistas. Em seu lugar, alimenta uma cultura de insatisfação permanente e fragiliza nossa percepção de valor.


O julgamento constante baseado na aparência e na posição social cria um ambiente tóxico, no qual a validação é buscada em fatores superficiais e passageiros, em detrimento de valores mais profundos e duradouros.


A sociedade frequentemente estabelece expectativas impossíveis de alcançar. E, pouco a pouco, podemos ser levados a acreditar que nosso valor depende da maneira como somos percebidos pelos outros.


Quando isso acontece, tornamo-nos mais vulneráveis à manipulação, à comparação permanente e à insatisfação crônica.


É fundamental reconhecer a influência nociva dessas pressões e buscar um caminho de aceitação de si mesmo e de valorização daquilo que verdadeiramente somos.


Aceitar nossas imperfeições não significa abandonar o desejo de crescer.


Significa compreender que crescimento não exige rejeição de quem somos.


O valor humano não pode ser reduzido a padrões superficiais de beleza, juventude, riqueza, status ou reconhecimento.


Quando compreendemos que nosso verdadeiro valor ultrapassa a aparência e a aprovação externa, abrimos espaço para uma vida mais autêntica, consciente e significativa.


Essa mudança de perspectiva favorece uma cultura de respeito e empatia, na qual as diferenças deixam de ser vistas como defeitos e passam a ser reconhecidas como parte da própria diversidade humana.


Todos carregamos limites, contradições, fragilidades e particularidades.


Reconhecer isso nos torna mais capazes de compreender o outro.


Quando deixamos de exigir perfeição de nós mesmos, também podemos aprender a exigir menos perfeição dos demais.


O respeito mútuo cresce quando abandonamos julgamentos superficiais e começamos a enxergar o valor humano que existe para além daquilo que pode ser visto, medido ou exibido.


Além disso, a aceitação das próprias imperfeições pode fortalecer nossa segurança interior e nossa capacidade de enfrentar as dificuldades da vida com mais coragem e serenidade.


Aceitar-se não significa permanecer imóvel.


Ao contrário.


Significa criar uma base mais saudável para crescer, aprender, mudar e explorar nosso potencial sem transformar a própria existência em uma competição permanente.


Valorizar autenticamente o ser humano em sua totalidade — com suas características, diferenças, limitações, capacidades e singularidades — contribui para criar ambientes nos quais o crescimento pessoal e coletivo possa acontecer.


Uma sociedade mais humana não nasce da eliminação das diferenças.


Nasce da capacidade de conviver com elas.


Precisamos romper com as amarras de uma perfeição imposta e aprender a reconhecer a diversidade e a singularidade de cada pessoa.


Precisamos também redefinir o próprio conceito de valor e sucesso.


Em um mundo que frequentemente estimula a competição e a comparação, torna-se essencial fortalecer uma cultura de colaboração, respeito e aceitação mútua.


Isso exige rever as narrativas que nos foram apresentadas como verdades absolutas e construir novos discursos que coloquem no centro aquilo que realmente nos conecta: humanidade, dignidade, cooperação e solidariedade.


O verdadeiro sucesso não precisa ser medido pela quantidade de pessoas que nos admiram.


Nem pela aparência que conseguimos sustentar.


Nem pela posição que ocupamos.


Talvez esteja, antes, na capacidade de viver de maneira coerente com aquilo que somos, sem precisar diminuir o outro para nos sentirmos maiores.


No fim, libertar-nos da ilusão da perfeição não significa abandonar a busca por excelência.


Significa compreender que excelência e perfeição não são a mesma coisa.


Podemos desejar evoluir sem desprezar quem somos hoje.


Podemos buscar beleza sem transformar a aparência em medida de valor.


Podemos buscar prosperidade sem confundir riqueza com dignidade.


Podemos conquistar reconhecimento sem depender dele para existir.


E podemos ser diferentes sem precisar ser superiores ou inferiores.


Por isso, é necessário questionar e transformar as estruturas que perpetuam desigualdade, exclusão e desumanização.


Precisamos recuperar a capacidade de enxergar pessoas antes de rótulos, histórias antes de julgamentos e humanidade antes de aparências.


Porque a verdadeira realização não nasce da tentativa impossível de parecer perfeito.


Ela nasce da liberdade de ser humano.


Com nossas qualidades.


Com nossas limitações.


Com nossas diferenças.


Com nossas imperfeições.


E, sobretudo, com a consciência de que o valor de uma pessoa jamais deveria depender daquilo que o mundo consegue enxergar nela.


Marco Arawak