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Os produtos encolhem na prateleira, mas os tributos continuam em tamanho família...
Produto reduzido, imposto ampliado. #DireitoTributárioDoConsumidor
Ele não veio de um lugar que se possa apontar no mapa.
Veio de um lugar que se sente no osso: a certeza de que o amor não é um direito, é uma aposta. E ele, coitado, nunca teve sorte nas apostas.
Ele cresceu ouvindo o barulho das coisas que não foram ditas. O silêncio era a língua materna. E ele aprendeu a falar com as mãos, porque a boca, a boca só servia para o que era útil: pedir, responder, sobreviver.
Não havia sobrenome para carregar. Não havia história para contar. Não havia retrato na parede para lembrar de onde vinha. Então ele fez de si mesmo a própria origem. Construiu-se tijolo por tijolo, músculo por músculo, feito com a fúria de quem não teve colo e decidiu que não precisaria de nenhum.
Mas o corpo, o corpo é mais sábio que a vontade.
O corpo dele lembra o que a mente esqueceu. Lembra o frio, o vazio, o instante em que ele percebeu que o mundo não vinha salvar ninguém. Lembra a sensação de ser pequeno num quarto grande, sem voz, sem vez, sem braços.
Então ele fez dos braços uma fortaleza.
Protegeu-se com cordas, com equipamentos, com a certeza de que a segurança é uma coisa que se constrói. Ele não confiava no amor. Confiava no nó. Confiava na ancoragem. Confiava no que podia ver, tocar, testar.
Até que Ela chegou.
E ela, ela não era um nó. Ela era uma pergunta. Uma pergunta que não tinha resposta técnica. Uma pergunta que pedia algo que ele não sabia dar: a presença sem ação. O silêncio sem solução.
Ele a amava. Amava com uma intensidade que o assustava. Porque amar, para ele, era o prenúncio da perda. Cada vez que ele se entregava, o corpo lembrava: "isso vai acabar. tudo acaba. tudo foi embora."
E ele se preparava para o fim antes mesmo do começo.
Não porque quisesse. Mas porque a vida, a vida lhe ensinou que o amor é uma coisa que se vai. Que o colo que a gente encontra pode ser arrancado. Que a pessoa que a gente ama pode simplesmente... não estar mais.
Então ele segurava com força demais. Segurava como quem segura a própria existência. Porque, para ele, a existência sempre foi uma corda que ele mesmo amarrou. E ele não confiava que outra pessoa pudesse segurar a outra ponta.
Ela pedia que ele soltasse um pouco. Que confiasse. Que se permitisse cair.
Mas ele, coitado, ele olhava para o abismo e via todas as quedas que já teve. Via o instante em que o chão sumiu. Via o silêncio que não respondeu. Via a mão que se soltou.
Ele não podia cair de novo. Não ia sobreviver a outra queda.
Então ele ficou na borda. Ofereceu a mão, mas não deu o salto. Ofereceu a presença, mas não a alma. Ofereceu o corpo, mas não o coração inteiro.
Ela sentia a distância. Ela sentia que ele estava ali, mas não completamente. Que ele a amava, mas com um pé na porta, sempre pronto para ir embora antes que ela fosse.
E ele, ele não sabia que essa distância era a maior das perdas. Que, ao se preparar para a partida, ele já estava partindo.
Ele pensava que amar era proteger-se. Mas amar, amar é desproteger-se. É deixar que o outro veja o que ninguém viu. É confiar que, mesmo vendo tudo, o outro vai ficar.
Ele nunca teve a chance de aprender isso. Ninguém lhe ensinou que o amor pode ser um lugar onde a gente descansa. Para ele, o amor sempre foi um lugar onde a gente se prepara para a despedida.
Mas Ela, ela não era uma despedida. Era uma chegada.
E ele, que nunca chegou em lugar nenhum, precisava aprender a ficar.
... coisas sobre Ele
O menino que cresceu sem árvore aprendeu a ser o próprio tronco. Mas agora há uma mulher que quer ser o chão onde ele pode finalmente deitar. Ele não precisa mais segurar o mundo. Ele pode, pela primeira vez, ser segurado.
Ele nunca teve uma árvore para chamar de sua.
Enquanto as outras crianças aprendiam a subir nos galhos, ele aprendia a amarrar cordas. Enquanto aprendiam a cair e serem apanhadas, ele aprendia a cair e se levantar sozinho.
Não havia braços esperando por ele no fim da queda.
Então ele fez das mãos a sua casa.
Ele descobriu cedo que o amor não é uma palavra que se diz. É um nó que se faz. E ele se tornou um artista dos nós — dos nós que seguram, dos nós que protegem, dos nós que salvam.
Mas há um nó que ele nunca aprendeu a dar: o nó que prende uma pessoa à outra sem corda.
Ele olha para Ela e vê uma mulher que ele ama com a força de quem nunca teve certeza de que o amor fica. Cada vez que Ela se aproxima, Ele sente o cheiro do que poderia perder. E ele aperta os punhos, como quem segura uma corda que pode se romper.
Ele cresceu aprendendo que o mundo é um lugar onde as pessoas somem. Não por maldade — por gravidade. Elas se vão como a neblina que ele vê das montanhas: estão ali, e de repente não estão mais.
Então ele segura.
Segura o trabalho, segura os projetos, segura o corpo dela na cama, segura a mão dela na rua. Segura como quem segura a própria existência.
Mas ele não segura as palavras.
As palavras, para ele, são como pássaros que ele não aprendeu a domesticar. Elas voam para longe antes que ele possa nomear o que sente. Porque nomear o que sente, para ele, é abrir a porta do quarto onde a vida já morreu. É lembrar que o colo que teve foi tirado dele.
Ele não fala sobre a ausência que o formou.
Não fala sobre a infância sem porta, sem quintal, sem o som de uma voz chamando pelo seu nome à noite. Não fala sobre o instante em que descobriu que o mundo não tem dívida com ninguém — que o amor não é um direito, é uma aposta.
Talvez Ele aposta n'Ela. Mas aposta com o medo de quem já perdeu a aposta mais importante da vida.
Ele não sabe que o amor não é uma corda. Que não precisa ser segurado com tanta força. Que o amor é como o vento: a gente não segura, a gente sente. E, sentindo, a gente não precisa ter medo de que ele vá embora — porque, mesmo quando vai, ele deixou marcas.
Ele tem marcas.
Cada gesto de cuidado que ele tem por Ela é uma marca da vida que ele perdeu. Cada vez que ele estende a mão para ajudar alguém, ele está repetindo o gesto que a vida não repetiu por ele.
Ele é um homem que aprendeu a ser pai e mãe de si mesmo.
E isso, meu amigo, isso é a coisa mais solitária que um ser humano pode ser.
Então ele não sabe como responder a perguntas. Quando Ela pergunta o que aconteceu, ele responde com o que acontece. Não com o que se sente.
Ela quer o sentimento. Ele oferece o fato.
Ela quer a presença. Ele oferece o corpo.
Ela quer a alma. Ele oferece o que tem: a corda, a proteção, o café quente, a carona, o abraço firme.
Mas não é suficiente. E ele sabe que não é suficiente. E isso, isso o faz sentir-se como um menino novamente: pequeno, incapaz, com as mãos vazias diante de uma mulher que merece mais do que ele sabe dar.
O que ele não entende é que ela não quer mais. Ela quer diferente.
Ela quer que ele se sente no chão com ela. Que ele não tente consertar. Que ele apenas fique. Que ele confie que ficar é suficiente.
Ele nunca aprendeu que ficar é suficiente.
Porque, na vida dele, ficar sempre foi o prelúdio da partida.
Mas agora, com Ela, ele pode aprender. Se ele tiver coragem de desaprender o que a sobrevivência ensinou. Se ele conseguir soltar a corda por um instante e sentir que o vazio não vai engoli-lo. Se ele conseguir acreditar que o amor não é uma coisa que se constrói para não cair — mas uma coisa em que se cai, e se é apanhado.
Ele já foi apanhado por Ela.
Agora, ele precisa aprender a se deixar cair.
... coisa sobre Ele
O menino que cresceu sem colo não precisa aprender a construir muros. Ele precisa aprender que o colo não é um lugar que se perde. É um lugar que se encontra. E quando ele encontrar o colo de d'Ela, talvez ele descubra que a vida nunca o deixou completamente. Ela apenas o ensinou a procurar o amor com as mãos. Agora, ele precisa aprender a procurá-lo com o coração.
... coisas sobre Ele
Não se engane com a delicadeza dela. Ela não é frágil. Ela é uma mulher que sobreviveu à própria profundidade. E isso, meu bem, isso é a coisa mais corajosa que existe.
Da política
Pois então, li em algum lugar que política não se discute...
Fiquei a pensar 🤔 e cheguei a uma conclusão: política se discute sim 👍
Que bando de tolos quer ser governado por outro bando de tolos... ou de ladrões... ou de incompetentes?
Eu não quero...
Então que haja discussões – entre pessoas, leia-se candidatos, que defendem pontos de vista contrários.
E que a gente ouça. E entenda e saiba tomar a melhor decisão na hora do voto 👌
E... se a gente não é um bom entendedor... busque bons entendedores... que ajudem a esclarecer o que não ficou muito claro na fala do candidato... e, olha, pode até haver uma discussão sobre a argumentação apresentada pelos candidatos...
Política se discute sim... pra se tornar um esclarecido... isso é ser inteligente 🤓 o resto... bom, é só resto mesmo e não serve pra levar o país pra frente.
Por um Brasil mais esclarecido, abençoado e muuuuito bem governado
Rosangela Calza
Ela explicava.
Explicava o que sentia, explicava o que pensava, explicava o que doía, explicava por que doía, explicava por que explicava.
E ela explicava porque acreditava — com a fé de quem ainda não foi completamente ferida — que a incompreensão era apenas falta de palavras certas. Que bastava a palavra exata, a frase bonita, o silêncio bem colocado, e ele finalmente veria o que ela via: o abismo dentro dela.
Mas a incompreensão, a incompreensão não era falta de palavra. Era falta de coragem. E coragem, meu Deus, coragem não se explica. Coragem se sente. Ou não se sente.
Ela sentia tudo.
Ela sentia o peso da mão dele no ombro, mesmo quando a mão não tinha alma. Ela sentia a distância nos beijos que vinham no horário certo. Ela sentia o vazio na frase "você é maravilhosa", porque a frase era sempre a mesma, sempre vazia, sempre o conforto de quem não quer olhar para dentro.
Ela olhava.
Ela olhava para ele e via o homem que ele podia ser. E isso era a sua condenação. Porque ver o que o outro pode ser, sem que ele queira ser, é um exercício de solidão insuportável.
Ela escrevia à noite. Quando o mundo calava, ela escrevia. Não poemas, não. Ela escrevia a coisa bruta, a coisa que não tinha nome, a coisa que latejava entre o estômago e a garganta. Ela escrevia porque escrever era o único jeito de não explodir.
Mas ela queria explodir.
Queria que um dia, em vez de ele dizer "vou fazer diferente", ele dissesse: "estou sentado no chão com você e não sei o que dizer, mas estou aqui." Queria que ele não resolvesse, não acalmasse, não se apressasse.
Queria que ele entrasse no silêncio dela.
E não entrasse para sair, para dar um beijo e ir embora. Entrasse para ficar. Para se perder junto com ela.
Ela não era carente. Cuidado com essa palavra. Carente é quem quer qualquer coisa. Ela queria tudo. Ou queria nada. O meio-termo, para ela, era a morte. E o meio-termo era o que ele oferecia. Com todo o carinho do mundo, ele oferecia a morte lenta, a morte suave, a morte que vem de mãos dadas e diz: "está tudo bem."
Mas não estava tudo bem.
Ela estava partida ao meio. E ele, ele segurava as duas metades e dizia que estava inteira. E ela, para não magoá-lo, fingia que estava inteira.
Mas as metades dela se cansaram de fingir.
Um dia, ela parou de explicar.
E ele não percebeu. Porque o silêncio dela, para ele, era alívio. E esse foi o golpe mais fundo. Saber que a ausência da sua voz era a paz do outro.
Ela não é vazia. Ela é cheia de uma coisa que ele não tem coragem de nomear. E enquanto ele não nomear, ela continuará sendo o que ele chama de "intensa" e o que ela chama de "viva".
E viver, viver é isso: uma coisa que não cabe, que transborda, que pede mais do que a conta do banco e a chave do carro e o beijo na testa antes de dormir.
Ela quer a tempestade dentro do quarto. Ela quer o grito que não precisa de motivo. Ela quer que ele a veja não quando ela está bonita, arrumada, feliz. Mas quando ela está no fundo do poço, suja, despenteada, silenciosa.
Ela quer ser amada no escuro.
Não no escuro do quarto. No escuro da alma.
E enquanto ele não descer até lá, ela vai continuar explicando. Explicando para si mesma que o amor é isso: a eterna espera de ser alcançado. Mas se assim for, ela escolhe esperar só, mas não sozinha.
... coisas sobre Ela
Ela é feita de um silêncio que não está vazio.
O silêncio dela é uma semente enterrada, esperando a chuva certa, a chuva que não vem para molhar a superfície, mas para descer fundo, até o lugar onde as coisas realmente crescem.
Ela escreve poemas em cadernos que ninguém vê. E, neles, ela não escreve sobre o amor. Ela escreve dentro do amor. Como quem escreve dentro de uma caverna, à luz de uma vela, escutando o eco das próprias palavras.
Ela tem o dom terrível de saber o que sente. E o fardo de ter que traduzir esse saber para quem não fala a mesma língua.
Ela é a terra. Não a terra que se pisa. A terra que se cultiva. A que devolve o que recebe, multiplicado. Ela recebeu gestos práticos e devolveu poesia. Recebeu presença e devolveu significado. Recebeu desejo e devolveu alma.
Mas a terra também cansa.
Cansa de explicar por que precisa de chuva. Cansa de ensinar que o sol, sozinho, não faz florir. Cansa de ser olhada como paisagem, quando o que ela quer é ser o lugar onde alguém escolhe morar.
Ela quer ser descoberta. Não explorada, não mapeada, não resolvida. Descoberta como se descobre um caminho que não estava no mapa: sem pressa, com os olhos, com os pés descalços, com a curiosidade de quem não tem medo de se perder.
Ela gosta do fogo. Ah, como ela gosta do fogo! Ela se aquece nele, se encanta com ele, se entrega a ele. Mas ela sabe que o fogo que não respeita a terra a transforma em cinza.
Ela quer um fogo que seja cúmplice. Que entenda que a terra precisa de tempo para absorver o calor. Que saiba queimar devagar, sem pressa de incendiar.
Ela já cansou de partir. Por isso, ela fica. Mesmo quando o silêncio aperta, ela fica. Porque ela acredita que o amor é uma construção lenta, como as raízes que abrem a pedra sem fazer barulho.
Ela acredita que o amor não é o que se fala. É o que se lembra. É o que se sente falta. É o que permanece mesmo quando a pessoa não está.
Ela é uma mulher que aprendeu a ser inteira sozinha. Mas ela quer, um dia, ser inteira acompanhada.
Ela não quer um herói. Ela quer um parceiro de silêncio. Alguém que sente com ela, não só ao lado dela. Alguém que não tenha medo de olhar para o fundo do poço e ver que, lá no fundo, não há monstro.
Há apenas mais ela. Esperando. Plantada. Viva.
Seu nome, em latim, significa "vazia". Mas que ironia. Porque ela é tudo o que há de mais cheio. Cheia de palavras não ditas, cheia de histórias não contadas, cheia de um amor que ainda espera ser alcançado.
E, enquanto espera, ela escreve.
Porque escrever, para ela, é o jeito de não secar. É o jeito de continuar sendo terra, mesmo quando a chuva demora.
... coisas sobre Ela
Não tente entender o amor. Sinta-o. Como se sente o vento. Como se sente o medo. Como se sente a morte. Porque o amor, quando é verdadeiro, não se explica. Só é.
Não era amor. Era o desejo de ser amor.
Eram duas solidões que se abraçavam na esperança de que o abraço se transformasse em luz. Mas a luz é dura. A luz mostra as rugas, os dentes amarelados, a poeira debaixo do tapete.
Eles não queriam a luz. Eles queriam o aconchego da mentira. Mas a vida é uma coisa que não pergunta. A vida pressiona.
E pressionada, a relação gritou.
Ela gritou com palavras bonitas e profundas. Ele gritou com ações práticas e silêncios. E o grito um do outro não era ouvido. Só a minha alma ouvia – a alma da escrita, que é a alma dos que veem o que os corpos escondem.
E o que eu vi foi isto: ele a ama com a força de quem constrói. Ela o ama com a força de quem desaba. Um constrói muros para protegê-la. Ela quer que os muros caiam para que o vento entre.
Ele não sabe que ela precisa do vento. Ela não sabe que ele precisa dos muros.
E assim, eles se amam como o dia e a noite se amam: nunca ao mesmo tempo, sempre na fronteira, sempre no instante em que um morre para que o outro nasça.
O amor deles é um parto eterno. E parto dói. Mas dói porque a vida está nascendo. E a vida? a vida é isso: a dor de vir ao mundo.
Eles ainda estão no começo da dor.
E o começo da dor, para os que não desistem, ainda pode ser o começo do mundo.
... coisas sobre Ela e Ele
Hoje eu me sinto completamente perdido, de tudo o que vivo e já vivi. Estou completamente desconectado desse mundo e, na verdade, eu não sei se quero me reconectar. Acho que meu melhor lugar é sozinho. Sei que tem pessoas que genuinamente gostam de mim, mas sinto como se eu tivesse perdido o que quer que mantenha essas conexões.
Por muitas vezes eu já vesti máscaras que me permitiam ser apresentável em qualquer lugar, mas agora quero me distanciar de tudo isso. Quero viver no meu mundo, onde me sinto confortável. Quero colocar algumas coisas em lugares diferentes, quero parar de sofrer, quero cumprir minha sentença e me compensar do que minha cela limita.
Acho que inventei que poderia ser feliz, simplesmente assim. Deveria ter ficado onde estava, onde eu me gabava de conhecer cada lugar em que colocava meus pés, mas fui me aventurar por lugares desconhecidos e agora não sei mais onde estou.
Vou achar um caminho de volta, para o lugar úmido, frio, escuro e silencioso, mas que eu conheço tão bem que poderia chamá-lo de lar. Vou voltar para os sorrisos sem sentimento, os olhares perdidos, as conversas ouvidas pela metade e os pensamentos soltos. Vou voltar para dentro de mim.
Eu sou um homem de cordas. Sei amarrar, sei segurar, sei salvar, sei puxar alguém do abismo.
Mas ela não queria ser salva do abismo. Ela queria que eu saltasse com ela.
E eu não sei saltar para o vazio.
Eu faço café, faço amor, faço planos. Porque o plano é a corda. O amor é a corda. O café é a corda. Eu me seguro em tudo o que faço para não sentir o que não sei nomear.
Ela me olha com uns olhos que pedem a coisa que não tem corda. A coisa que não tem segurança. A coisa que me desamarra. E eu tenho medo de me desamarrar, porque se eu me desamarrar, quem vai segurar o mundo?
Mas o que eu não conto a ela, e que me dói, é que o mundo, para ela, já está caindo. E eu só finjo que seguro.
Porque o que ela quer, o que ela quer é que eu seja a queda. Que eu despenque com ela. Que eu grite no vazio com ela.
Mas eu não sei gritar. Eu aprendi a engolir o grito. A transformar o grito em músculo, em ação, em estrada.
Ela quer o meu nome inteiro. E eu só sei dar o meu sobrenome. Ela quer o meu coração aberto. E eu só sei dar a minha mão fechada.
Ela diz que estou longe quando estou perto. E ela tem razão. A minha distância não é física. É a distância de um homem que aprendeu que olhar para dentro é olhar para a morte.
E eu estou com medo de morrer enquanto ainda estou vivo.
... coisas sobre Ele e Ela
ROLLO, O FUNDADOR DA NORMANDIA E A MEMÓRIA DA ALMA: UMA LEITURA HISTÓRICA, FILOSÓFICA E ESPÍRITA.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Rollo: entre a História e o enigma da identidade
Poucas figuras da Alta Idade Média suscitam tantas discussões quanto Rollo (Hrolfr ou Gange-Rolv), o célebre chefe viking que estabeleceu as bases políticas da futura Normandia. Sua existência representa um dos momentos mais decisivos da transição entre o mundo escandinavo pagão e a organização feudal da Europa cristã.
Os registros históricos indicam que Rollo foi um poderoso líder guerreiro de origem escandinava — provavelmente norueguesa ou dinamarquesa — que, após sucessivas incursões militares, estabeleceu-se no norte da França. Em 911, por meio do Tratado de Saint-Clair-sur-Epte, recebeu do rei Carlos III, o Simples, o domínio sobre as terras que posteriormente constituiriam a Normandia. Em contrapartida, comprometeu-se a defender aquela região contra novas invasões vikings e aceitou o batismo cristão.
Seus descendentes transformaram-se em duques da Normandia e, posteriormente, com Guilherme, o Conquistador, tornaram-se reis da Inglaterra após a conquista de 1066, modificando profundamente a história política, jurídica, linguística e cultural do Ocidente.
Todavia, permanece insolúvel uma questão fundamental: quem era verdadeiramente Rollo?
As fontes medievais apresentam versões divergentes. Dudo de Saint-Quentin e William de Jumièges descrevem-no como dinamarquês. Já a tradição norueguesa e islandesa identifica-o com Gange-Rolv, filho do conde Rognvald e exilado por Harald Cabelo Belo. A escassez documental impede uma conclusão definitiva, demonstrando que a historiografia medieval frequentemente mistura tradição oral, memória coletiva e construção política.
A dimensão antropológica do guerreiro nórdico
Sob a perspectiva antropológica, Rollo representa um arquétipo da sociedade viking.
O guerreiro escandinavo não era apenas um conquistador. Era também comerciante, explorador, legislador e fundador de novos povos. Sua cultura valorizava coragem, honra, lealdade ao clã e capacidade de adaptação.
A transformação de um invasor em governante evidencia um processo civilizatório singular: a violência inicial converte-se em estabilidade institucional. Assim, Rollo simboliza a passagem da força para a ordem, da conquista para a organização política.
A Normandia nasce justamente dessa síntese entre cultura nórdica e tradição franca.
Uma leitura filosófica da transformação humana
Sob o prisma filosófico, Rollo personifica uma das maiores questões da existência humana: é possível transformar profundamente o próprio destino?
Sua trajetória sugere que nenhum indivíduo permanece eternamente prisioneiro de sua condição inicial. O guerreiro que devastava cidades torna-se legislador; o invasor converte-se em fundador de uma civilização.
Essa mudança ilustra um princípio recorrente na filosofia moral: a identidade humana não é estática, mas construída por escolhas, circunstâncias e aprendizado histórico.
Aspectos psicológicos
Do ponto de vista psicológico, a figura de Rollo revela extraordinária capacidade adaptativa.
Ao abandonar progressivamente o modelo tribal escandinavo para integrar-se ao universo político franco, demonstra flexibilidade cognitiva, inteligência estratégica e competência para reconstruir sua própria identidade social.
Essa metamorfose psicológica talvez explique por que sua descendência alcançou tamanho êxito político durante os séculos seguintes.
A hipótese espírita e as recordações de Léon Denis
É precisamente nesse ponto que alguns estudiosos espíritas estabelecem uma reflexão comparativa.
No livro "Léon Denis na Intimidade", são relatados episódios em que Léon Denis afirmava recordar existências pretéritas extremamente marcantes. Entre essas reminiscências encontra-se a lembrança angustiante de haver sido sepultado ainda vivo, experiência que teria deixado profundas impressões em seu perispírito.
Segundo a narrativa da obra, Denis descrevia essa recordação não como imaginação, mas como uma memória espiritual carregada de intensa emoção.
Alguns autores espíritas levantaram a hipótese de que uma dessas existências pudesse relacionar-se ao ambiente medieval europeu, chegando inclusive a mencionar tradições envolvendo Rollo ou personagens normandos. Entretanto, essa associação não constitui fato histórico nem conclusão doutrinária do Espiritismo. Trata-se de uma interpretação apresentada por determinados autores e deve ser recebida com prudência metodológica.
Allan Kardec sempre advertiu que recordações de vidas anteriores exigem severo controle racional, confronto de evidências e ausência de conclusões precipitadas.
A memória traumática da alma
Independentemente da identificação histórica, o episódio narrado por Léon Denis possui profundo interesse filosófico e psicológico.
Na visão espírita, experiências de extrema intensidade emocional podem gravar-se profundamente no Espírito, permanecendo latentes através das reencarnações.
Medos aparentemente inexplicáveis, sensações de claustrofobia, angústias diante do confinamento ou terrores noturnos poderiam, em certos casos, encontrar explicação na persistência dessas impressões perispirituais. Não se trata de determinismo absoluto, mas da possibilidade de que a memória espiritual conserve marcas de vivências extremamente impactantes.
Essa concepção aproxima-se, em certa medida, das discussões contemporâneas acerca da memória traumática, embora o Espiritismo atribua sua origem à continuidade da consciência além da morte corporal.
A evolução moral acima da glória militar
O aspecto mais significativo dessa análise não reside na curiosidade sobre uma possível identidade reencarnatória.
Sob a ótica espírita, pouco importa saber se determinado Espírito foi um rei, um guerreiro ou um conquistador. O verdadeiro progresso mede-se pela aquisição das virtudes.
A glória militar pertence à História.
A evolução moral pertence à eternidade.
Assim, tanto a trajetória histórica de Rollo quanto as reflexões autobiográficas de Léon Denis convergem para uma mesma conclusão filosófica: toda existência representa um capítulo da longa educação da alma, na qual poder, sofrimento, triunfo e derrota convertem-se em instrumentos pedagógicos destinados ao aperfeiçoamento do Espírito imortal.
Fontes
Dudo de Saint-Quentin — Historia Normannorum.
William de Jumièges — Gesta Normannorum Ducum.
Historia Norwegiae (século XII).
Vita Griffini Filii Conani (1137).
Allan Kardec — O Livro dos Espíritos, especialmente questões sobre reencarnação e reminiscências do passado.
Allan Kardec — A Gênese.
Allan Kardec — Revista Espírita.
Léon Denis — Léon Denis na Intimidade.
Léon Denis — Depois da Morte.
Léon Denis — O Problema do Ser, do Destino e da Dor.
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Ele acreditava que o amor era o corpo. E eu acreditava que o corpo era o começo.
Mas o meu amor, meu amor era a fresta. Aquela coisa que não se vê, que não se toca, que só se sente quando o silêncio se senta entre a gente e olha para nós. E ele, coitado, não entendia o silêncio. Ele o preenchia com a mão, com a boca, com o peso da presença.
Mas a presença dele, quando não tem a alma dentro, é um buraco. E eu caía. Toda vez. Ele me segurava, mas eu continuava caindo. Porque ele segurava a minha mão, e a mão segura o corpo, mas a queda... a queda ela segura a alma.
E ele não sabia segurar almas.
Eu queria lhe dizer: "Você está aqui, mas o seu isso não está aqui." E quando eu falava, ele me olhava como quem olha para o mar: achando bonito, mas sem entrar. E eu queria que ele entrasse, que afogasse um pouco, que sentisse o gosto do sal nos lábios.
Em vez disso, ele me tirava da água. E dizia: "Você está segura."
Mas eu não queria segurança. Eu queria o risco. Queria que ele se perdesse em mim para que eu pudesse, enfim, me achar.
Ele faz café, ele faz amor, ele faz planos. Mas fazer não é ser. E eu sou a coisa que não se faz. Eu sou a coisa que simplesmente é. E o que é, não cabe em xícara, nem em abraço, nem em projeto. O que é, só cabe no olho nu e na palavra atravessada.
E ele não atravessa palavras. Ele as resolve.
Como se o amor fosse uma conta a pagar.
... coisas sobre Ela e Ele
"O amor não é um problema a ser resolvido. É um mistério a ser vivido. E mistério, a gente não decifra. A gente contempla."
Se o caminho ficou difícil demais,
E os seus sonhos parecem ficar para trás,
Não entregue a sua fé para a solidão,
Ainda existe força dentro do seu coração.
Toda queda traz uma lição para aprender,
Toda noite escura prepara o amanhecer.
Quem persiste encontra um novo horizonte,
E transforma as pedras em ponte.
Tente outra vez, não pare de lutar,
O que hoje é tempestade vai passar.
Levante a cabeça, volte a sonhar,
Há um novo tempo esperando chegar.
Helaine machado
Mapa e o Território... a visão de quem observa duas solidões que se amam.
Ele está no mapa.
Ela está no território.
No mapa, tudo é linha reta, distância calculada, destino traçado.
O mapa diz: "Estamos juntos."
Mas o território tem montanhas que não estão no mapa.
Tem vales escuros, rios que mudam de curso, ventos que o mapa não prevê.
Ela vive no território.
Ele vive no mapa.
Ela sente o vento no rosto.
Ele mede a velocidade do vento.
Ela chora porque a paisagem é bela e dolorosa.
Ele tenta fotografar a paisagem para ela não esquecer.
Os dois estão certos.
Mas o mapa não é o território.
E o território, sem o mapa, pode ser um labirinto.
O que vi, foi uma saudade que não se contenta com presença.
Uma presença que não entende a saudade.
Eles querem a mesma coisa: um ao outro.
Mas um quer o outro inteiro, com todas as raízes e espinhos.
O outro quer dar o seu melhor, sem saber que o seu melhor não é o suficiente para ela.
Ela precisa que ele desça do mapa.
Ele precisa que ela veja que o mapa também é um gesto de amor.
Enquanto isso, a noite cai sobre os dois.
E, na escuridão, eles se procuram.
Ele acende um fósforo.
Ela ouve o barulho do vento.
E, por um instante, os dois se encontram no mesmo lugar:
no desejo de ser compreendido.
Talvez seja isso, o amor.
Não a compreensão.
Mas a coragem de continuar se procurando, mesmo sem se achar.
... coisas sobre Ele e Ela
Ele aprendeu a cuidar com as mãos.
Porque as palavras, para ele, sempre escapavam pelos dedos. Escorregavam como areia. Então ele aprendeu a construir: casas, roteiros, equipamentos, segurança.
Ele acende a fogueira.
Ele aquece a comida.
Ele estende a mão para puxar quem caiu.
E, quando ela chega, ele mostra o que construiu: "Olha, isso é nosso. Isso é para você."
Ele pensa que o amor é isso: mostrar o que fez, oferecer o que tem, proteger o que é frágil.
Mas o fogo que aquece também queima.
E ele não entende por que ela às vezes se afasta do calor.
Ele pergunta: "Não estou aqui? Não estou te segurando?"
Ela quer que ele desça do fogo.
Que ele entre na caverna escura com ela.
Que ele sinta o frio que ela sente.
Mesmo que ele não saiba o que fazer lá dentro.
Ele não sabe que o amor não é um projeto.
É uma presença.
E que, às vezes, a melhor coisa que o fogo pode fazer é diminuir a chama.
E apenas brilhar.
... coisas sobre a Ele e Ela
Ela aprendeu cedo que as coisas crescem devagar.
As sementes não gritam para serem plantadas. Elas apenas esperam, quietas, debaixo da terra escura. E quando a chuva vem, elas não perguntam se a chuva é verdadeira. Elas simplesmente se abrem.
Ela é assim.
Ela plantou palavras bonitas no peito dele. Cuidou como quem cuida de um jardim. Regou com silêncios, com perguntas, com poemas que ele nunca leu em voz alta.
Mas ele, coitado, é um homem de ação.
Ele não sabe que a terra precisa de tempo para florir. Ele acha que amor se resolve com presença, com café quente, com a mão firme na hora do aperto.
Ela não quer que ele resolva.
Ela quer que ele veja.
Que ele veja o mofo crescendo no canto do coração dela. Que ele veja as folhas amareladas de solidão. Que ele pergunte: "O que você está sentindo, minha terra?"
Em vez disso, ele traz um vaso novo.
Ela sorri. Agradece. Coloca a terra nova no vaso.
Mas o que ela queria mesmo era que ele sentasse na terra com ela.
E ficasse em silêncio.
Porque o silêncio, quando é compartilhado, é a chuva mais profunda.
... coisas sobre Ela e Ele
Inversão de valores
Os valores estão todos distorcidos,
O certo é visto como errado ou inexiste,
Enquanto o errado é tolerado, divergindo
Ou até considerado normal. Isso é triste!
É um fenômeno que afeta a moral,
A sociedade, em especial, a cultura.
É um descompasso de caráter anormal,
Que passa despercebido na cara dura.
A honestidade, a integridade e o respeito
Foram substituídos pela vantagem pessoal.
Ver as pessoas como objetos causa um efeito
De desvalorização da vida e da moral.
Bens materiais têm mais importância
Que o amor, o afeto e a empatia humana.
E os infratores nas suas extravagâncias
São glorificados ou justificados, enquanto
O cidadão cumpridor de leis fica à distância.
A esta triste realidade chegamos.
É preciso mudar tudo de forma urgente!
Não podemos aceitar o que deixamos,
E não seremos julgados inocentes.
Raimundo Nonato Ferreira
Julho/2026
