Pensamentos Mais Recentes
Toda democracia precisa de tribunais capazes de dizer “não” quando o poder aprende a dizer “sim” a si próprio.
*O BAR ONDE AS ALMAS BEBEM* - O bar nunca fechava.
Porque o bar era o mundo.
Os balcões eram estradas polidas pelos cotovelos de homens que aprenderam a negociar a própria alma antes mesmo de aprenderem a pronunciá-la. Ali ninguém chegava para beber. Chegava para esquecer o nome daquilo que um dia acreditou ser.
O barman nunca servia bebidas.
Servia sentenças.
Seu rosto era o meu, alguns fracassos mais velho. Seus olhos não julgavam. Apenas devolviam a imagem de um homem que descobriu cedo demais que a consciência é o único carrasco que jamais dorme.
Sentava-me diante dele como quem comparece ao próprio julgamento.
Não havia defesa.
Ao meu redor, os copos tilintavam como sinos de um funeral interminável. As vozes enchiam o ambiente, mas nenhuma dizia coisa alguma. Eram ruídos produzidos por almas que confundiram existência com sobrevivência e passaram a chamar adaptação de virtude.
As cadeiras vazias pesavam mais do que as ocupadas.
Porque a ausência também possui corpo.
Ela senta ao nosso lado, acende um cigarro invisível e nos acompanha até o último gole.
Acendi meu charuto.
A fumaça subiu lentamente, desenhando pensamentos que jamais encontrariam repouso. Não era fumaça.
Eram ideias recusando o cemitério.
Flutuavam acima da minha cabeça como corvos circulando um campo onde Deus esqueceu de aparecer. Algumas morriam antes de ganhar forma. Outras retornavam para devorar aquilo que eu ainda chamava de esperança.
O barman serviu o whisky.
Não veio da garrafa.
Veio dos grãos espalhados pelo caminho. Da terra pisada por desconhecidos. Das derrotas herdadas de homens que nunca conheci. Das lágrimas que não eram minhas, mas que fermentaram dentro de mim até perderem o gosto de sal e adquirirem o gosto amargo da lucidez.
Bebi devagar.
Cada gole era um verso.
Cada verso era uma hemorragia que aprendera a sangrar para dentro.
Foi então que compreendi a maior mentira já aceita pelos frequentadores daquele lugar.
Não haviam destruído os valores.
Apenas mudaram seus nomes.
A covardia vestiu a roupa da prudência.
A indiferença passou a ser maturidade.
O egoísmo ganhou o perfume da liberdade.
A mentira tornou-se diplomacia.
A rendição foi chamada de paz. E a consciência... essa foi trancada no porão para que ninguém precisasse ouvir seus gritos durante o jantar.
Todos brindavam.
Não à vida.
Mas ao alívio de não precisarem mais distinguir o certo do conveniente.
É mais fácil dormir quando se assassina o espelho.
Olhei novamente para o barman.
Ele sorriu com uma tristeza antiga.
Como quem sabe que nenhum homem sai dali melhor do que entrou. Apenas mais consciente da própria escuridão.
E talvez seja esse o verdadeiro inferno.
Não o fogo.
Nem os demônios.
Mas caminhar entre milhões de pessoas e descobrir que a maioria já não vendeu a alma.
Descobrir que sequer acredita possuir uma.
Apaguei o charuto.
As últimas espirais desapareceram no teto como desaparecem as civilizações: não quando deixam de respirar, mas quando deixam de reconhecer o peso da verdade.
Deixei o copo vazio sobre o balcão.
O barman nada disse.
Também não era necessário.
Há silêncios que escrevem poemas com mais sangue do que qualquer homem conseguiria suportar
*O QUE A RAIZ SABE*
Às duas da madrugada eu acordei com aquela sensação desagradável de quem não tinha dormido direito, apenas tinha perdido algumas horas. Fiquei olhando para o teto. O quarto estava escuro. O silêncio não era exatamente silêncio. Havia um carro passando longe, um motor qualquer insistindo em existir, e os grilos fazendo seu trabalho de sempre, como se a madrugada ainda tivesse alguma importância.
O gato estava ao lado da minha cabeça. Ficou me olhando por alguns segundos. Depois levantou uma das patas e colocou-a sobre a minha testa. Talvez fosse carinho. Talvez fosse um aviso. Talvez estivesse apenas tentando me mandar de volta para onde eu deveria estar.
Não funcionou.
Levantei.
Fui até a varanda e acendi um charuto. Eu já sabia que o sono não voltaria. Quando a cabeça decide andar pela casa às duas da manhã, não existe travesseiro capaz de fazê-la parar.
O gato veio atrás.
Parou na porta da varanda e ficou me olhando. Parecia querer dizer: volte para a cama, homem. Você já tem idade suficiente para saber que pensar depois da meia-noite nunca termina bem.
Ignorei.
Fiquei ali, fumando, ouvindo os grilos cantarem na boêmia da madrugada e alguns veículos atravessarem a distância. A cidade dormia. Ou fingia.
Comecei a pensar nas imagens que a gente carrega.
Não nas fotografias.
Nas outras.
Aquelas que ficam dentro da cabeça.
A imagem de quem fomos. A imagem de quem deveríamos ter sido. A imagem que alguém criou de nós e que, por alguma razão estúpida, decidimos acreditar.
Talvez uma parte da nossa desgraça venha daí.
Passamos anos tentando caber numa fotografia que já não existe.
Olhei para a fumaça do charuto.
A fumaça desaparecia.
Pensei que nós também fazemos isso.
Só que demoramos mais.
A gente passa a vida tentando ser reconhecido. Quer aplauso. Quer aprovação. Quer que alguém diga que valeu a pena. E quando isso não acontece, começamos a acreditar que fomos derrotados.
Mas talvez não exista derrota.
Talvez exista apenas a necessidade de encontrar um lugar onde ninguém esteja distribuindo medalhas.
Um pedaço de chão.
Qualquer um.
Mesmo escondido.
Porque às vezes tudo o que você precisa é parar de disputar o lugar onde os outros foram coroados.
Fincar os pés em outro lugar.
E ficar.
Pensei também naquilo que nos alimenta quando tudo dá errado.
Não estou falando de grandes discursos.
Às vezes é uma lembrança da mãe.
Um café.
Um abraço que aconteceu há vinte anos.
Uma conversa idiota que, por algum motivo, ainda mora na memória.
É estranho como a vida consegue nos manter vivos com coisas pequenas enquanto o mundo inteiro insiste em vender soluções enormes.
Talvez sobreviver seja isso.
Aprender novamente o tamanho das coisas.
Uma respiração.
Um copo d’água.
Um cigarro.
Um gato colocando a pata na sua testa às duas da manhã.
Não parece muito.
Mas, quando tudo desaba, quase nada parece muito.
E ainda assim é o suficiente para atravessar mais uma noite.
A graça também não é gentil o tempo inteiro.
Essa é outra mentira que contamos para nós mesmos.
Às vezes a vida acolhe.
Às vezes ela bate.
Às vezes ela simplesmente passa por cima.
Há coisas que não se resolvem com frases bonitas. Há perdas que não ensinam nada. Há abandonos que não escondem nenhuma lição. Há pessoas que vão embora e deixam apenas um espaço vazio onde antes havia rotina.
E você fica olhando para aquilo.
Esperando alguma explicação.
Ela não vem.
Então você aprende a respirar sem ela.
Foi aí que pensei nas chances.
Elas raramente chegam em horário conveniente.
Quase nunca batem na porta.
Algumas aparecem quando você está cansado, quebrado, desconfiado, com o coração fechado e uma lista enorme de motivos para dizer não.
E talvez esse seja o problema.
A gente espera estar inteiro para começar de novo.
Só que ninguém está inteiro.
Não depois de certa idade.
Depois de algumas perdas, algumas traições, alguns funerais e algumas noites mal dormidas, você descobre que inteiro é uma palavra para quem ainda não prestou atenção.
O que resta é o que interessa.
Aquela parte que sobreviveu.
É dali que você tira alguma coisa.
Não porque a dor seja bonita.
Dor não é bonita.
Dor é dor.
Mas às vezes ela deixa alguma coisa escondida.
Uma habilidade.
Uma lucidez.
Uma coragem que você não sabia que tinha.
Um tipo de ouro ordinário, desses que não servem para comprar nada, mas servem para lembrar que você ainda está aqui.
O problema é que também carregamos nossas próprias imagens como condenados.
Repetimos insultos antigos.
Vozes de pessoas que já foram embora.
Frases ditas por quem nunca nos conheceu de verdade.
Você é isso.
Você não consegue.
Você nunca vai mudar.
Você não é suficiente.
E, depois de algum tempo, nem sabemos mais quem disse.
Somos nós.
A voz foi incorporada.
Virou morador.
E continuamos pagando aluguel para ela.
Talvez seja preciso expulsar algumas imagens.
Não esquecer.
Expulsar.
Porque aquilo que você repete todos os dias acaba parecendo verdade.
E algumas verdades são apenas feridas com boa memória.
O charuto estava quase no fim.
O gato continuava na porta.
Agora parecia menos paciente.
Olhei para ele e pensei que os animais talvez tenham entendido alguma coisa que nós complicamos demais.
Eles não ficam tentando justificar a existência.
Eles dormem quando têm sono.
Comem quando têm fome.
Vão embora quando querem.
E, quando gostam de você, simplesmente ficam.
Nós transformamos tudo em contrato.
Até o afeto.
Até a saudade.
Até o abandono.
Quando alguém parte, queremos explicações.
Quando alguém fica, queremos garantias.
Quando tudo termina, queremos saber por quê.
Mas o rio não explica por que seca.
Ele apenas seca.
E talvez algumas pessoas sejam assim.
Elas atravessam a nossa vida, deixam alguma coisa, levam outra e desaparecem.
Não é justo.
Nunca foi.
Então chega a hora de quebrar.
Não necessariamente por fraqueza.
Às vezes quebrar é a única maneira de deixar alguma coisa ir embora.
A gente segura tanto que começa a confundir apego com amor.
Não é a mesma coisa.
Amor sabe partir.
Apego exige cadáveres.
Fiquei olhando para a rua vazia.
Pensei no medo de esperar.
A espera é cruel.
Ela coloca você diante de si mesmo sem distração.
Sem barulho.
Sem pessoas.
Sem a próxima novidade.
E talvez seja justamente ali que estejam os tesouros que ninguém encontra porque ninguém suporta ficar tempo suficiente no escuro.
A gente foge.
Liga a televisão.
Abre o celular.
Procura alguém.
Procura qualquer coisa.
Tudo para não ficar sozinho com a própria cabeça.
Eu também fiz isso.
Muitas vezes.
Talvez ainda faça.
Mas naquela madrugada eu estava ali.
Sem fugir.
E percebi uma coisa desagradável.
A vida não estava me devendo nada.
Nem explicações.
Nem reparações.
Nem um final bonito.
Ela simplesmente continuava.
O mundo continuaria girando depois de mim.
Os grilos continuariam cantando.
Os carros continuariam passando.
Alguém estaria beijando alguém.
Alguém estaria chorando.
Alguém estaria nascendo.
Alguém estaria morrendo.
E nada disso pediria minha autorização.
Talvez maturidade seja aceitar essa humilhação.
Você não é o centro.
Nunca foi.
Mas isso não significa que sua vida não tenha valor.
Significa apenas que você precisa parar de esperar que o mundo confirme isso.
A Terra continua.
Ela parece cansada.
Mas continua.
E talvez ainda queira ser tocada.
Não com discursos.
Com presença.
Com verdade.
Com coragem para sentir novamente aquilo que você passou anos tentando anestesiar.
Inclusive a partida.
Porque todo recomeço cobra alguma coisa.
Às vezes cobra uma pessoa.
Às vezes uma versão antiga de você.
Às vezes uma esperança que já estava morta e você ainda carregava como se fosse viva.
Eu terminei o charuto.
O gato continuava olhando.
Talvez fosse hora de voltar.
Talvez não.
Fiquei mais alguns minutos.
Pensei nas raízes.
Elas não são bonitas.
Ficam enterradas.
Ninguém fotografa uma raiz.
Ninguém elogia uma raiz.
Ela trabalha no escuro.
Aguenta a terra.
Encontra água onde parece não existir nada.
E, se tiver sorte, algum dia aparece uma flor.
Talvez seja isso que nos resta.
Não tentar parecer flor o tempo inteiro.
Aceitar a raiz.
Aceitar o escuro.
Aceitar a parte de nós que ninguém vê e que talvez nem nós mesmos gostemos muito.
Porque pode ser justamente ali que alguma coisa esteja começando.
Não uma versão melhor.
Não uma versão perfeita.
Apenas uma versão verdadeira.
Olhei novamente para o gato.
Ele virou e voltou para a cama.
Sem discurso.
Sem terapia.
Sem conclusão.
Fui atrás.
A madrugada continuava lá fora.
E, pela primeira vez naquela noite, não precisei que ela me dissesse nada.
Eu já tinha entendido.
Algumas coisas precisam morrer.
Algumas precisam ser deixadas.
Algumas precisam ser perdoadas.
E algumas precisam permanecer enterradas.
Não para desaparecer.
Mas para criar raiz.
Porque, no fim, talvez reescrever a própria vida não seja começar do zero.
É olhar para o que sobrou.
Parar de mentir sobre isso.
E decidir, mesmo com medo, que ainda dá para plantar alguma coisa.
A cruz é a declaração de Deus de que tudo o que pertence à velha criação tem que morrer.
sfj,frases cristãs 4
Olha nenhuma batalha é em vão.
Cada cicatriz é medalha.
Cada queda te ensinou a ter equilíbrio.
Cada não te empurrou pro sim certo.🫡
Tem batalha que é silenciosa.
É a que ninguém vê. É dentro da sua cabeça, de madrugada.
É ansiedade, medo, vontade de desistir.
É você contra você. E vencer essa é a maior vitória de todas.
A vida não é passeio.
A vida é campo de guerra. E cada dia é uma batalha diferente.
Tem batalha que dói.
É a perda, é a traição, é a porta que bate na cara.
Ela te derruba, te arrasta no chão e te faz duvidar de tudo.
Mas é ela também que te ensina a levantar sozinho.
Tem batalha que liberta.
É quando você diz não pra quem te diminui.
É quando você corta o que te prende.
É quando você escolhe sua paz ao invés da aprovação dos outros.
Essa dói no começo, mas cura pra sempre.
