Pensamentos Mais Recentes

Grande Lição




​Caí na vida foi para eu aprender a valorizar o lugar que eu não conseguia perceber.
Às vezes que eu caí na vida foi para ser mais forte, entender que não sou maior nem melhor que a própria morte.
Às vezes que eu caí na vida, eu caí.
Destas vezes, muitas, eu só fiquei no chão, mas cada vez que eu caí foi uma grande lição.
​Nildinha Freitas

Num mundo que grita por atenção o tempo todo, o que tem valor costuma estar em silêncio.

As palavras pesam na mesma proporção da consciência de quem as profere.

A geometria descreve estruturas. A física descreve transformações. A matemática permite encontrar relações entre ambas.

⁠Há 19 anos eu já tinha fé, mas descobri — às duras penas — que ainda não era fiel o suficiente para não lamentar a “volta para casa do Pai” do meu pai.


E talvez tenha sido justamente naquele momento que comecei a compreender a diferença entre acreditar em Deus e aprender a confiar nos desígnios de d'Ele.


Até então, minha fé habitava, de alguma maneira, o território das convicções. 


Eu acreditava na Eternidade, professava a esperança da ressurreição e reconhecia, racionalmente, que a morte não deveria representar o fim de tudo aquilo que o amor construiu. 


Entretanto, quando a finitude bateu à minha porta com o rosto de meu pai, descobri que uma coisa é professar a fé diante dos mistérios da existência; outra, inteiramente diferente, é sustentá-la quando a vida nos impõe uma despedida que o coração não estava preparado para compreender.


Naquele dia, aprendi que a fé não nos torna imunes à dor, tampouco nos transforma em criaturas desprovidas de lágrimas. 


Afinal, até Jesus chorou diante da morte de Lázaro (João 11:35). 


E há algo profundamente humano e divinamente revelador nesse pequeno versículo: mesmo conhecendo o poder da vida, Cristo não desprezou a linguagem do sofrimento.


Talvez porque chorar não seja necessariamente duvidar de Deus. 


Talvez seja apenas a maneira mais sincera que encontramos de demonstrar o quanto alguém foi indispensável à nossa existência.


Demorei a compreender que lamentar a partida de meu pai não significava desconfiar da promessa divina. 


Significava, antes, reconhecer a dimensão do amor que sua presença havia plantado em mim. 


Porque a saudade é, muitas vezes, o preço que a eternidade cobra de quem experimentou a bênção de amar alguém profundamente em toda a linha do tempo.


A teologia nos ensina a olhar para a morte sob a perspectiva da eternidade; a filosofia nos provoca a reconhecer nossa vulnerabilidade diante do inevitável; e a poesia, generosa em sua capacidade de traduzir aquilo que a razão não alcança, nos permite perceber que algumas ausências continuam habitando os lugares mais profundos da presença.


Hoje, talvez eu compreenda melhor aquilo que, há 19 anos, minha humanidade ainda não conseguia conciliar com minha espiritualidade: ter fé não significa deixar de desejar que aqueles que amamos permaneçam conosco. 


Significa, apesar desse desejo tão legítimo, encontrar forças para continuar acreditando que o amor não se encerra na sepultura.


Como escreveu o apóstolo Paulo, há três virtudes que permanecem: a fé, a esperança e o amor, sendo o amor a maior delas (1 Coríntios 13:13).


E talvez seja exatamente aí que resida o maior ensinamento dessa travessia: a fé pode nos ajudar a aceitar aquilo que não podemos mudar, mas é o amor que nos impede de esquecer aquilo que jamais deveria ser perdido dentro de nós.


Não sei se, naquela ocasião, me faltou fé ou se simplesmente me sobrou humanidade. 


Hoje, prefiro acreditar que Deus nunca exigiu de mim a insensibilidade como prova de fidelidade. 


Afinal, o próprio Cristo, diante do sofrimento, conheceu a angústia (Mateus 26:38).


Por isso, depois de 19 anos, já não me cobro por ter chorado. 


Agradeço por ter tido um pai cuja partida pudesse deixar tamanha saudade. 


Agradeço pela história, pelos ensinamentos, pelos afetos e até pelas lembranças que, vez ou outra, insistem em transformar a ausência em presença.


Se naquele dia perdi a convivência física com meu pai, não perdi o significado de tê-lo tido em minha vida.


E, se ainda há saudade, que ela não seja interpretada como insuficiência da minha fé, mas como testemunho da grandeza do meu amor.


Porque, no fim das contas, talvez a maturidade espiritual não consista em aprender a não chorar quando alguém amado parte para a eternidade, mas em descobrir que podemos chorar, sentir saudade, questionar nossos limites e, ainda assim, continuar confiando em Deus.


Há 19 anos, eu já tinha fé. 


Hoje, talvez tenha aprendido um pouco mais sobre ela: não é preciso silenciar o coração para acreditar na eternidade. 


É possível sentir profundamente a dor da despedida e, mesmo com os olhos marejados, continuar dizendo: seja feita a Tua vontade.


Amém!

A autoridade jurídica não apenas descreve o mundo social; participa ativamente da produção das categorias pelas quais esse mundo é organizado.

O Direito é uma das formas mais sofisticadas de poder simbólico porque possui a capacidade de transformar classificações sociais em realidades juridicamente reconhecidas.

A normalidade pode funcionar como uma forma silenciosa de dominação quando os padrões institucionais convertem diferenças humanas em desvios administráveis.

A instituição que controla os mecanismos de classificação também influencia os limites daquilo que a sociedade considera verdadeiro, legítimo e possível.

O poder não se limita a proibir comportamentos; ele produz categorias, discursos e critérios pelos quais a realidade passa a ser reconhecida.

O poder mais duradouro não é aquele que necessita recorrer permanentemente à força, mas aquele que consegue apresentar seus interesses particulares como se fossem necessidades universais.

A igualdade proclamada pela lei pode coexistir com desigualdades concretas que esvaziam silenciosamente o conteúdo dos direitos.

O Direito não pode ser compreendido como uma estrutura isolada da história material que condiciona sua produção e sua aplicação.

A forma jurídica de uma sociedade revela não apenas aquilo que ela proíbe, mas também aquilo que considera necessário preservar.

O Direito é uma expressão institucional da solidariedade social, mas também um indicador das fraturas que atravessam a comunidade.

A autoridade política somente se distingue da violência organizada quando consegue transformar a força em legitimidade reconhecida.

O Estado de Direito não é a ausência de poder, mas a institucionalização de sua impossibilidade de se exercer arbitrariamente.

O estado de exceção revela que a ordem jurídica depende de decisões políticas que nem sempre consegue controlar.

A soberania revela sua natureza mais perigosa quando o poder encontra na exceção uma justificativa para suspender os limites que o constituíram.

A legitimidade do poder começa onde sua capacidade de impor decisões encontra limites que não pode unilateralmente remover.

Uma sociedade justa não elimina todas as desigualdades, mas precisa justificar aquelas que distribuem de maneira assimétrica as oportunidades de existência.

Nenhuma vantagem coletiva justifica tratar uma pessoa como simples instrumento de uma finalidade que ela não poderia legitimamente aceitar.

A justiça é a primeira virtude das instituições porque nenhuma eficiência administrativa pode compensar a violação sistemática da dignidade humana.

Os direitos humanos não são conquistas definitivamente incorporadas à civilização; são construções históricas permanentemente ameaçadas pelo poder.

A democracia não consiste apenas em contar vontades, mas em impedir que a vontade numericamente superior destrua as condições de existência das demais.