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A Vida Começa a Mudar Quando Você Decide Caminhar
Será que adianta continuar falando sobre caminhadas aos meus amigos, se muitos deles não fazem o menor esforço para começar? Essa pergunta já me passou pela cabeça inúmeras vezes. Entretanto, depois de tantos anos percorrendo caminhos, descobri que incentivar alguém a caminhar também é uma maneira de demonstrar amizade, carinho e preocupação com sua qualidade de vida.
Caminhar talvez seja uma das maneiras mais simples e gentis de cuidar do corpo e apaziguar a mente. Não exige grandes investimentos nem equipamentos sofisticados. Sabe o que é preciso para começar? Pernas, quando elas nos permitem, e vontade. E, para quem enfrenta limitações de mobilidade, existem outras maneiras de se movimentar e aproveitar o ar livre, respeitando as próprias possibilidades.
Há quem diga que até os mais lentos conseguem chegar longe, desde que não desistam. Eu acrescentaria que ninguém precisa caminhar depressa, muito menos competir com os outros. Basta substituir aquela velha promessa, "Amanhã eu começo", por uma decisão muito mais poderosa: "Hoje eu vou caminhar!"
Certa vez, enquanto pesquisava sobre os benefícios das caminhadas, encontrei uma reflexão que me chamou a atenção: a parte mais difícil de uma caminhada nem sempre é o percurso, mas o primeiro passo para fora de casa. E como isso é verdadeiro! Muitas vezes, inventamos desculpas antes mesmo de calçar os tênis. Entretanto, basta começar para perceber que alguma coisa muda dentro de nós. O corpo desperta, a respiração encontra seu ritmo, as preocupações perdem intensidade e a mente finalmente encontra espaço para respirar.
Hoje, depois de quinze anos de caminhadas e milhares de quilômetros percorridos, já não me preocupo tanto em bater recordes ou competir com alguém. Continuo gostando de grandes desafios, mas minha maior satisfação está na liberdade de caminhar, na alegria de contemplar a natureza e na certeza de que ainda tenho forças para seguir em frente. A cada caminhada, é como se eu lembrasse aos meus pés que eles conhecem o caminho e ao meu corpo que ele não nasceu para ficar parado.
Com o passar dos anos, percebi que o mundo se tornou mais leve aos meus olhos. Não porque os problemas tenham desaparecido, mas porque aprendi a enfrentá-los de outra maneira. As caminhadas mudaram minha vida, e mudaram para melhor. Ensinaram-me a ter paciência, respeitar meus limites, valorizar pequenas conquistas e compreender que a felicidade muitas vezes está nas coisas mais simples.
Além de proporcionar momentos agradáveis, caminhar regularmente traz inúmeros benefícios à saúde. Para muitos adultos, trinta minutos de caminhada moderada, cinco vezes por semana, já representam uma excelente contribuição para uma vida mais saudável. A atividade ajuda a melhorar a circulação sanguínea, controlar a pressão arterial, fortalecer músculos e ossos, auxiliar no controle do diabetes e do peso corporal, reduzir o estresse e a ansiedade, melhorar o sono e preservar a saúde do cérebro.
Mas existe um benefício que considero especialmente importante: caminhar nos devolve o prazer de estar vivos.
Eu me considero uma pessoa feliz por tudo aquilo que ainda consigo fazer. Quando me lembro do câncer que enfrentei, dos medos que precisei vencer e das incertezas que me acompanharam, compreendo o quanto as caminhadas foram importantes para reconstruir minha confiança. Não posso afirmar que tenham sido a única razão para minha recuperação, mas tenho a convicção de que contribuíram enormemente para minha qualidade de vida.
Houve um tempo em que eu temia o futuro. Hoje, prefiro caminhar em direção a ele.
Talvez seja por isso que continuo tentando convencer meus amigos a caminhar. Não quero transformá-los em atletas, muito menos levá-los a percorrer os mesmos quilômetros que percorro. Quero apenas que descubram o prazer de sair de casa, respirar um pouco de ar puro, contemplar a natureza e conversar sem a pressa que domina nossas vidas.
Costumo dizer que caminhar também é uma excelente oportunidade para colocar a conversa em dia. Afinal, muitos dos meus amigos adoram conversar, mas, quando os convido para uma caminhada, parece que suas pernas entram imediatamente em greve!
Já perdi a conta de quantas vezes fiz convites como estes:
— Bora dar uma volta no cerrado hoje, no fim da tarde? Precisamos colocar o papo em dia e arejar a cabeça!
— Vamos caminhar juntos? É muito mais agradável conversar sem pressa enquanto apreciamos a paisagem.
— Não precisa vestir roupa de atleta. Basta colocar um tênis confortável e ter vontade de sair de casa.
E, para aqueles que gostam de um bom café, tenho uma proposta quase irresistível:
— Que tal caminharmos quarenta minutinhos pelo cerrado e depois pararmos na padaria para tomar um café?
Aos amigos que enfrentam uma rotina pesada de trabalho, procuro lembrar que o corpo e a mente também precisam de descanso e movimento. Uma caminhada tranquila, depois de um dia cansativo, pode aliviar as tensões e recuperar o bom humor.
Entretanto, com o tempo, aprendi uma lição importante: ninguém pode caminhar pelo outro, assim como ninguém pode viver a vida do outro. Cada pessoa tem seu ritmo, suas limitações e seu momento de despertar para a importância de cuidar da saúde. Insistir demais pode transformar um convite carinhoso numa obrigação desagradável.
Por isso, quando percebo que meus amigos não estão interessados, respeito suas decisões. Para alguns, digo:
— Tranquilo! Se um dia vocês resolverem dar uma volta, me avisem. Terei o maior prazer em acompanhá-los!
Para outros:
— Tudo bem! Vou esticar as pernas sozinho. Depois a gente conversa!
E, para aqueles com quem tenho mais intimidade, não perco a oportunidade de brincar:
— Tudo bem, vou sozinho mesmo! Mas, se encontrar alguma onça ou algum extraterrestre nas trilhas, prometo avisar vocês!
Afinal, caminhar também precisa ter bom humor. E quem me acompanha sabe que minhas jornadas já me proporcionaram encontros surpreendentes com animais, paisagens inesquecíveis e situações que renderam boas histórias.
Mas que caminhar faz bem, ah, isso faz!
Sinto uma enorme satisfação em compartilhar meus vídeos, fotografias e textos sobre os caminhos que percorro. Não faço isso para exibir os quilômetros caminhados, mas para mostrar que a vida oferece experiências maravilhosas àqueles que se dispõem a descobri-las.
Uma das minhas maiores alegrias acontece quando pessoas que nem conheço entram em contato comigo para pedir informações sobre algum caminho. Algumas contam que assistiram aos meus vídeos, leram minhas histórias e decidiram conhecer lugares por onde passei. Nessas horas, percebo que meus passos podem estar incentivando outros passos. E isso, para mim, vale mais do que qualquer recorde.
Sei perfeitamente que nem todos poderão caminhar quarenta, cinquenta ou cem quilômetros. Aliás, ninguém precisa fazer isso para desfrutar dos benefícios de uma boa caminhada. Cinco minutos, dez minutos, meia hora ou uma volta pelo quarteirão podem representar uma grande conquista para quem estava acostumado a permanecer parado. O importante é começar, respeitando a saúde e os próprios limites.
Às vezes, fico imaginando quantas pessoas deixam de contemplar um belo pôr do sol, ouvir o canto dos pássaros, sentir o perfume da terra molhada ou descobrir uma paisagem encantadora simplesmente porque ainda não tiveram coragem de dar o primeiro passo.
A natureza não cobra ingresso para nos oferecer seus espetáculos. O vento não pergunta nossa idade, os pássaros não querem saber nossa profissão e o sol nasce todos os dias sem exigir que sejamos atletas. Basta estarmos dispostos a aproveitar esses pequenos presentes da vida.
Aos meus amigos que ainda resistem aos meus convites, deixo uma reflexão: não esperem que a idade avance, que a saúde reclame ou que o médico recomende uma mudança de hábitos para descobrir o prazer de caminhar. Sempre que possível, comecem enquanto têm disposição e condições para isso.
E não se preocupem comigo. Continuarei caminhando, com ou sem companhia, porque descobri que os caminhos também são meus grandes amigos. Neles encontro silêncio quando preciso refletir, respostas quando estou inquieto e motivos para agradecer a Deus por mais um dia de vida.
Se algum dos meus textos ou vídeos conseguir despertar em uma única pessoa a vontade de se levantar do sofá, calçar um tênis e sair para uma caminhada, já terei encontrado mais uma razão para continuar compartilhando minhas experiências.
Porque a maior vitória de um peregrino não está apenas nos quilômetros que ele percorre, mas também nos passos que consegue inspirar outras pessoas a dar.
E, se você chegou até aqui, permita-me fazer um último convite: não deixe para amanhã a caminhada que pode começar hoje. Não importa a distância, a velocidade ou o destino. O importante é dar uma oportunidade ao seu corpo, à sua mente e à sua vida.
Afinal, quem começa caminhando para cuidar da saúde pode acabar descobrindo, pelo caminho, uma nova maneira de ser feliz.
Bora caminhar!
Peregrino Nino Carneiro
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Que o Senhor da Vida liberte os que trilham as Estradas da Saudade calçados com as Sandálias do Remorso!
Amém!
Liberta, Senhor, onde dói!
Arrebentai as Sandálias do Remorso de todos que revisitam as lembranças dos que partiram antes de nós!
Saudades, sim — Tristeza, não!
Amém!?!
Que o Senhor da Vida, em Sua infinita Misericórdia, nos ensine a distinguir a saudade que nos aproxima do amor da culpa que nos aprisiona às ruínas do passado.
Porque a saudade, por si só, já é estrada longa o bastante — feita de memórias, silêncios e ausências que, embora invisíveis aos olhos, continuam aprendendo a conversar conosco nas profundezas da alma.
É estrada que não se percorre com os pés, mas com o coração; não se mede em quilômetros, mas na intensidade dos afetos que sobreviveram à despedida.
Nela, cada lembrança é uma estação, cada fotografia é uma janela para o tempo e cada silêncio guarda a eloquência de tudo aquilo que a morte interrompeu, mas não conseguiu apagar.
Afinal, morrer é deixar de habitar o tempo dos nossos encontros, mas não necessariamente abandonar o território das nossas permanências.
Há pessoas que partem do mundo sem partir inteiramente de nós.
Permanecem nos gestos que aprendemos, nas palavras que repetimos, nos conselhos que, inesperadamente, reaparecem em nossa consciência, na maneira como abraçamos alguém porque um dia fomos abraçados por elas.
Permanecem, sobretudo, naquilo que nos tornamos depois de tê-las conhecido.
E talvez seja essa uma das mais belas contradições da existência: há ausências que continuam produzindo presenças, assim como há presenças que, mesmo estando ao nosso lado, jamais conseguem alcançar a profundidade de uma ausência amada.
Entretanto, nem todos percorrem as Estradas da Saudade com a serenidade de quem reconhece a eternidade dos afetos.
Há quem caminhe por elas ferindo os próprios pés, calçado com as Sandálias do Remorso.
São almas que transformam lembranças em tribunais, recordações em sentenças e despedidas em processos intermináveis, nos quais o coração assume, simultaneamente, os papéis de acusador, réu e carrasco.
Revisitam o passado não para reencontrar o amor, mas para interrogar a própria consciência.
Perguntam-se, repetidamente, por que não disseram aquela palavra, por que adiaram aquele abraço, por que permitiram que uma discussão terminasse sem reconciliação, por que não perceberam que determinada visita poderia ter sido a última, que determinado sorriso poderia ter sido a derradeira imagem, que determinado adeus talvez já estivesse acontecendo sem que ninguém soubesse.
E assim, sem perceber, sofrem não apenas pela pessoa que perderam, mas também pela pessoa que acreditam ter sido quando ainda podiam amá-la de outras maneiras.
É uma segunda perda: além de perderem quem partiu, perdem também a possibilidade de aceitar a própria humanidade.
Porque existe uma dor que nasce da ausência e outra que nasce da pretensão de que deveríamos ter sido perfeitos diante dela.
A primeira é consequência do amor.
A segunda, muitas vezes, é consequência de uma exigência impossível.
Não fomos oniscientes quando amamos.
Não conhecíamos o último capítulo enquanto ainda escrevíamos a história.
Não sabíamos que aquele encontro seria o último, que aquela conversa seria a derradeira, que aquele cotidiano aparentemente banal se transformaria, um dia, em relíquia.
Vivíamos.
E viver é também não saber.
Eis uma das grandes fragilidades da condição humana: somente depois que o tempo fecha determinadas portas é que compreendemos a dimensão das oportunidades que passaram por elas.
A consciência, então, volta ao passado munida de uma sabedoria que não possuía no momento dos acontecimentos.
Reescreve diálogos, aperfeiçoa respostas, inventa atitudes e imagina reconciliações possíveis.
Mas o passado não pode ser corrigido pela tortura do presente.
Podemos compreendê-lo, reinterpretá-lo, aprender com ele e, quando necessário, reparar no presente aquilo que ainda estiver ao nosso alcance.
O que não podemos é exigir de quem fomos a lucidez que somente adquirimos depois.
A maturidade consiste, também, em perdoar a versão de nós mesmos que ainda não sabia o que sabemos hoje.
Isso não significa negar os erros, banalizar as omissões ou transformar o perdão em desculpa para a indiferença.
Significa reconhecer que a responsabilidade é capaz de produzir transformação, enquanto a culpa, quando convertida em morada permanente, pode apenas prolongar o sofrimento.
Há arrependimentos que nos despertam para a necessidade de amar melhor os que permanecem.
Outros, porém, mantêm-nos acorrentados aos que já partiram, como se o sofrimento pudesse funcionar como uma moeda de troca com a eternidade.
Como se sofrer bastante fosse capaz de desfazer o que fizemos.
Como se a nossa dor pudesse retroceder o relógio.
Como se a autopunição fosse uma forma de ressuscitar o instante perdido.
Mas infelizmente não é.
Nenhuma lágrima, por mais sincera, devolve o tempo que passou.
Nenhuma noite em claro reabre, por si só, uma porta que a morte fechou.
Nenhuma sentença pronunciada contra nós mesmos modifica o que aconteceu.
O remorso não ressuscita os mortos; apenas corre o risco de sepultar os vivos dentro de si mesmos.
E é precisamente nesse ponto que a fé se encontra com a filosofia, que a teologia se aproxima da experiência humana e que a esperança começa a sussurrar onde a razão já reconheceu os seus limites.
A fé não nos promete uma existência sem despedidas.
A filosofia não nos oferece o poder de abolir a finitude.
O amor não nos concede imunidade contra a perda.
Mas todos esses caminhos, cada qual à sua maneira, podem nos conduzir a uma compreensão muito fundamental: a impossibilidade de mudar o passado não nos condena à impossibilidade de encontrar a paz.
Na tradição cristã, o perdão não é a declaração de que nada aconteceu, mas a possibilidade de que aquilo que aconteceu não tenha a última palavra sobre a nossa existência.
A graça divina não apaga necessariamente as marcas da história; ela pode transformar a maneira como essas marcas habitam a alma.
Deus não precisa que nos destruamos para reconhecer a sinceridade do nosso arrependimento.
O sofrimento não é um tributo que precisamos pagar para merecer Misericórdia.
Se cremos em um Deus que conhece a fragilidade humana, devemos também considerar que Ele conhece as limitações com que amamos, as palavras que não conseguimos pronunciar, os medos que nos silenciaram e as circunstâncias que, tantas vezes, nos impediram de agir como gostaríamos ou deveríamos.
O Senhor da Vida conhece o que fizemos, mas conhece também o que não soubemos fazer.
Conhece as intenções que ninguém percebeu, as lágrimas que escondemos, as batalhas interiores que jamais conseguimos traduzir em palavras.
E talvez seja justamente por isso que a misericórdia divina não deva ser confundida com uma nova acusação.
O Deus que acolhe o arrependido não o chama à autodestruição, mas à conversão do coração; não o convida a permanecer eternamente diante dos escombros, mas a aprender a construir, com a experiência adquirida, uma existência mais consciente, compassiva e amorosa.
Se o arrependimento nos ensina a amar melhor, ele pode ser caminho de transformação.
Se nos obriga a odiar indefinidamente a nós mesmos, deixa de ser ponte para o aprendizado e se converte em prisão.
Por isso, Senhor, liberta-nos!
Liberta-nos da ilusão de que a dor prolongada é prova de amor.
Liberta-nos da crença de que precisamos permanecer infelizes para demonstrar que não esquecemos.
Liberta-nos da ideia de que seguir vivendo significa abandonar aqueles que partiram.
Porque não é a tristeza que preserva os mortos em nossa memória, assim como não é a alegria que os expulsa do nosso coração.
Podemos sorrir e sentir saudade.
Podemos celebrar a vida e chorar diante de uma fotografia.
Podemos agradecer pelos dias vividos e lamentar os dias que não chegaram.
Podemos reconhecer que houve imperfeições sem permitir que elas destruam a beleza de uma história inteira.
A alma humana não precisa escolher entre a gratidão e o lamento, entre a memória e o recomeço, entre a lágrima e o sorriso.
Há espaço para tudo isso dentro de um coração que aprende a amar sem exigir que o passado seja diferente do que foi.
Saudades, sim — Tristeza, não!?!
Mas não porque a tristeza seja proibida, vergonhosa ou incompatível com a fé.
A tristeza também merece acolhimento.
O luto tem seus próprios ritmos, e nenhuma consciência pode ser obrigada a atravessá-lo segundo o calendário de outras pessoas.
Há dias em que a saudade chega de mansinho, quase como uma visita querida.
Em outros, chega metendo os pés na porta, invadindo a casa inteira, ocupando os cômodos da memória e nos faz sentir que o mundo prosseguiu depressa demais para quem ainda está aprendendo a conviver com a ausência.
Não há pecado em chorar.
Até o Filho do Homem chorou.
Não há fraqueza em sentir falta.
Não há falta de fé em admitir que determinadas despedidas doem mais do que conseguimos explicar.
A questão não é eliminar a tristeza, mas impedir que ela seja transformada em condenação.
Não é exigir que a saudade deixe de doer, mas permitir que, com o tempo e o acolhimento necessário, a dor encontre outros modos de existir.
Não é esquecer quem partiu, mas aprender a recordá-lo sem converter cada lembrança em uma nova punição.
Porque a saudade pode continuar sendo profunda sem precisar ser destrutiva.
E o amor pode permanecer vivo sem exigir que a nossa vida seja interrompida junto com a vida de quem perdemos.
Descalçar as Sandálias do Remorso é, portanto, um gesto de coragem espiritual.
É admitir que somos seres finitos, falíveis e incompletos.
É reconhecer que nem sempre dissemos tudo o que deveríamos, que nem sempre compreendemos tudo o que vivemos e que nem sempre soubemos oferecer o amor na linguagem de que o outro precisava.
É aceitar que algumas histórias terminaram sem a conversa que mereciam, que certas reconciliações não aconteceram e que algumas perguntas talvez permaneçam sem resposta.
Mas é também compreender que uma história de amor não pode ser reduzida aos seus últimos minutos, assim como uma vida inteira não deve ser julgada exclusivamente pelas suas últimas páginas.
Houve um tempo antes da despedida.
Houve encontros, risos, cuidados, aprendizados, cumplicidades e gestos que talvez tenham parecido pequenos demais para serem lembrados, mas que hoje sustentam a grandeza da memória.
Houve amor, mesmo quando imperfeito.
Houve presença, mesmo quando insuficiente.
Houve vida, mesmo quando não sabíamos que estávamos diante de algo irrepetível.
E é injusto permitir que aquilo que faltou apague tudo aquilo que existiu.
Talvez o perdão de que precisamos não seja apenas aquele que esperamos receber de quem já não pode nos responder.
Talvez precisemos também conceder a nós mesmos a liberdade de continuar vivendo.
Não para absolver irresponsabilidades, mas para reconhecer que o aprendizado precisa de futuro.
Não para negar o passado, mas para impedir que ele se transforme em uma prisão permanente.
Não para diminuir a importância de quem partiu, mas para honrar essa importância por meio da maneira como escolhemos viver daqui em diante.
Afinal, se aqueles que amamos deixaram marcas em nós, que essas marcas se tornem sementes de bondade, e não instrumentos de sofrimento.
Se nos ensinaram a cuidar, que cuidemos.
Se nos ensinaram a perdoar, que perdoemos.
Se nos ensinaram a rir, que não tenhamos vergonha de sorrir novamente.
Se nos ensinaram a importância de uma presença, que estejamos mais presentes na vida daqueles que ainda caminham ao nosso lado.
Talvez uma das formas mais bonitas de honrar os mortos seja permitir que aquilo que recebemos deles continue produzindo vida em nós.
Que a memória se transforme em responsabilidade amorosa.
Que a ausência se converta em sensibilidade diante da dor alheia.
Que a despedida nos ensine a não adiar indefinidamente as palavras necessárias.
Que a experiência da perda nos torne menos arrogantes diante do tempo e mais generosos diante das imperfeições humanas.
E que o amor, agora amadurecido pela consciência da finitude, encontre novas maneiras de se manifestar.
Porque a morte pode interromper uma conversa, mas não precisa interromper tudo o que aprendemos com ela.
Pode encerrar uma convivência, mas não consegue determinar, sozinha, o significado de uma existência.
Pode separar corpos, mas não transforma automaticamente em nada aquilo que, durante a vida, se tornou parte da nossa história.
Quanto ao mistério do que existe depois da morte, a fé pode contemplar a promessa da ressurreição e da vida eterna; a razão, por sua vez, reconhece os limites do que pode demonstrar.
Entre a esperança e o mistério, que permaneça a dignidade de viver o presente com amor.
E talvez seja nessa fronteira entre o que sabemos, o que cremos e o que esperamos que a saudade revele uma de suas dimensões mais profundas: ela nos recorda que amar alguém é aceitar a possibilidade de perder sua presença sem precisar negar o valor de sua passagem por nossa vida.
Por isso, quando voltarmos a percorrer as Estradas da Saudade, que não o façamos como prisioneiros de um passado que já não pode ser alterado.
Que caminhemos como guardiões de uma história que merece ser lembrada por inteiro e sem remorso.
Que levemos conosco a gratidão pelo que recebemos, a humildade diante do que erramos e a serenidade de reconhecer que nenhuma vida humana é perfeita o bastante para não deixar lacunas, nem imperfeita o bastante para que todas as suas belezas sejam anuladas por elas.
Que as fotografias não sejam apenas testemunhas do que perdemos, mas também provas silenciosas do que tivemos.
Que os nomes pronunciados com saudade não nos façam esquecer os nomes daqueles que ainda precisam ouvir de nós uma palavra de carinho.
Que as lágrimas encontrem consolo, que as lembranças encontrem abrigo e que os corações cansados de se acusar descubram, finalmente, a possibilidade de descansar.
E, quando a saudade apertar os nossos passos, que nos lembremos de que não precisamos caminhar depressa, tampouco fingir que a estrada é fácil.
Precisamos apenas aprender a caminhar sem transformar cada pedra em castigo e cada lembrança em sentença.
Porque a saudade é estrada longa o bastante.
Não precisamos acrescentar-lhe os espinhos do remorso.
Que o Senhor da Vida nos conceda a graça de recordar sem nos destruir, de chorar sem nos condenar, de reconhecer os erros sem nos tornarmos prisioneiros deles e de amar os que partiram sem abandonar aqueles que ainda permanecem.
Que o perdão seja o nosso calçado.
Que a gratidão seja a nossa bússola.
Que a esperança seja a luz que ilumina os trechos mais escuros do caminho.
E que a misericórdia divina nos recorde, sempre que a culpa tentar falar mais alto, que somos mais do que os nossos erros, maiores do que os nossos arrependimentos e capazes de aprender mesmo com aquilo que já não podemos modificar.
Que a memória seja altar de gratidão, não tribunal de condenação.
Que a Saudade seja ponte entre o amor vivido e o amor que ainda podemos oferecer.
Que o passado permaneça como mestre, mas nunca mais como carcereiro.
E que a vida, apesar das ausências, continue sendo recebida como dádiva — não porque a dor deixou de existir, mas porque o amor ainda encontra motivos para florescer.
Saudades, sim — porque amar é também guardar a presença de quem partiu na intimidade de tudo o que nos tornou melhores.
Tristeza, não como sentença perpétua — porque nenhuma ausência deve exigir que renunciemos à vida que ainda nos cabe viver.
E remorso, Senhor, somente enquanto puder nos ensinar alguma coisa; jamais como uma condenação eterna contra a nossa própria humanidade.
Que saibamos, enfim, despedir-nos daquilo que não pode mais ser mudado sem nos despedirmos do amor que permanece.
Que tenhamos a sabedoria de aceitar o irreversível, a coragem de transformar o possível e a fé necessária para entregar ao mistério divino aquilo que ultrapassa a nossa compreensão.
E, quando chegar a nossa vez de partir, que as pessoas que nos amaram possam recordar-nos com lágrimas, se precisarem chorar, mas também com sorrisos, se a memória lhes devolver a alegria.
Que não se sintam obrigadas a sofrer para provar que nos amaram.
Que não carreguem como penitência aquilo que a nossa própria imperfeição humana não nos permitiu resolver.
Que encontrem, na lembrança do amor que compartilhamos, a liberdade de continuar vivendo.
Porque o amor verdadeiro não deveria transformar a ausência em cárcere, mas em uma presença interior que nos encoraja a seguir.
E, se existe uma oração capaz de resumir tudo o que aqui desejamos, talvez seja esta:
Senhor da Vida, não nos permitais confundir saudade com penitência, memória com condenação, arrependimento com autodestruição ou amor com sofrimento obrigatório.
Ensinai-nos a aceitar que nem todas as histórias terminam como gostaríamos, que nem todas as palavras chegam a ser pronunciadas e que nem todas as despedidas nos concedem o privilégio de um último abraço.
Dai-nos, porém, a graça de reconhecer que a impossibilidade de mudar o ontem não nos retira a oportunidade de santificar o hoje com gestos de amor.
E, quando nossos pés se cansarem nas Estradas da Saudade, arrebentai, Senhor, as Sandálias do Remorso!
Deixai-nos caminhar descalços sobre a verdade da nossa humanidade, amparados pela misericórdia, guiados pelo perdão e sustentados pela esperança.
Que a saudade nos faça recordar.
Que o amor nos faça agradecer.
Que o perdão nos permita descansar.
E que a vida, mesmo atravessada pela dor das despedidas, continue a florescer em nós.
Porque quem partiu não precisa que morramos um pouco a cada lembrança.
Quem partiu merece que honremos o amor que vivemos — e quem ficou merece a oportunidade de continuar vivendo.
Que as Estradas da Saudade permaneçam abertas à memória, mas que nelas já não caminhemos calçados com as Sandálias do Remorso.
Que caminhemos com os pés livres, a consciência amadurecida, o coração reconciliado com a própria imperfeição e a alma disponível para amar novamente.
E que, ao final de cada oração, de cada lembrança e de cada lágrima, possamos encontrar não a obrigação de esquecer, mas a liberdade de recordar em paz.
Amém!?!
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O ARTEFATO PROIBIDO
Pedroca tinha nove anos e adorava “bater perna” com o avô, principalmente sair para comprar lanches para o café da manhã. Em uma das visitas, seu Enoque estava viajando. Quando Pedroca acordou, abraçou Izabel e, todo dengoso, falou:
— Vó, vamos ao supermercado?
Ela disse-lhe:
— Você sabe que não dirijo, mas vou preparar os melhores lanches para você.
— Não quero — ele respondeu secamente.
É só desta vez; logo seu avô volta e vocês continuam a rotina de ir ao supermercado comprar o que você quiser — disse com suavidade.
— Onde está a chave do carro? Eu posso dirigir!
A avó gelou dos pés à cabeça e, imediatamente, tratou logo de esconder o objeto proibido. O final de semana findou, o garoto retornou para sua casa. Na segunda-feira, ela estava no trabalho quando o pai de Pedroca enviou mensagem dizendo que precisaria do carro para ir ao trabalho. Na hora, Izabel tentou se lembrar onde havia escondido a chave. Exigiu tanto do cérebro que seu rosto avermelhou e sentiu pontadas na cabeça. Diante da frustração, disse ao filho para desbravar a casa. Alguns minutos depois, ele avisou que não havia encontrado. Ela se desesperou. Pediu a um colega para levá-la em casa. Entrou esbaforida, enquanto o homem aguardava na varanda, sentado numa cadeira de balanço.
Izabel vasculhou os lugares possíveis e inimagináveis e nada de encontrar o esconderijo. Sentiu-se exausta. De repente, ele a chamou e perguntou:
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Ela correu, olhou a garagem vazia e levou as mãos à cabeça:
— Então a chave foi encontrada — disse com resignação.
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ESCUTATÓRIA
Quão desafiadora é a arte de ouvir atentamente
Tantas pessoas ávidas para serem escutadas e acolhidas
Muitas vezes, somos tentados a interromper e aconselhar
Parece que sabemos sempre o que é melhor para o outro
Esquecemos que cada ser humano é um
mundo à parte, complexo e único
Em algumas situações, falta humildade para
entendermos que não somos donos da verdade
Para acolher alguém com empatia e humanidade
é necessário nos despirmos de toda vaidade
E assim, respeitar convicções, escolhas
limitações e os desejos do outro
O desabafo pode ser um pedido de socorro
de uma alma que chora
O acolhimento é um ato de amor que pode salvar vidas
Silenciar os barulhos internos e externos
para ouvir com atenção é raridade
Por isso, nutrimos um certo encantamento
pelas pessoas que sabem escutar
#TextoAutoral#Reflexão#Vulnerabilidade#Alma#EscutaAfetiva#Fragilidade#Humildade
#Empatia#Humanidade
"Que a proteção que construímos para não sofrer não se transforme na barreira que nos impede de viver."
"Quero um amor que respeite minhas asas, não alguém que precise cortá-las para me manter por perto.”
"Quando a conquista e a conservação do poder deixam de ser meios para a realização de finalidades públicas e passam a constituir fins em si mesmas, aumenta o risco de instrumentalização das instituições e de erosão dos limites éticos e jurídicos da autoridade."
"Não quero alguém para preencher meus vazios, mas alguém cuja presença não me faça perder a plenitude que conquistei na ausência."
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