Querer bem e uma Prece que se Reza por Alguem

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RITUAL

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Amanhã bem cedinho esperarei teus passos,
teu silêncio e depois a tua voz sumida,
um instante, uma vida que um instante vale
no compasso excessivo do meu coração...
Logo após um olhar que diz tudo pra mim,
sob as cordas do quanto não podes falar,
entre os ares de sim que ficarão nos ares,
pois nos cabe sonhar sem pretensão além...
A exemplo da espera das demais manhãs,
quero crer na manhã de qualquer amanhã
desses velhos encontros que marco sozinho...
Abrirei bem cedinho a janela do sonho,
deixarei meu silêncio te chamar sem eco
nesse peco, não peco de faz tantos anos...

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ESTADOS MUNIDOS

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Roraima despista,
mas bem que se orgulha
da Boa Vista...
Quanto ao mais,
há um Belo Horizonte
nas Minas Gerais.
Se por sorte,
todo dia é Natal
no Rio Grande do Norte,
seja lá como for,
a Bahia está salva
por ter Salvador...
Entretanto,
quem tem mesmo a Vitória
é o Espírito Santo.

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AMOR AO PRÓXIMO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

É bem cômodo este meu amor ao próximo que me agrada e oferece contrapartida. Massageia o meu ego, por estar sempre de acordo com as minhas ideias e corresponder às mais fundas expectativas.
Amo ao próximo que sempre soma para os meus ideais e fecha comigo no que der e vier. O próximo bem próximo, por ser aquele que dá vantagem, é meu cúmplice ou confidente, me dá razão, me admira, obedece ou apoia, seja qual for a causa.
Ou amo aquele próximo distante, que dá status amar. Que me deixa bem, aos olhos da sociedade, cada vez que ostento amor com um gesto remoto e único, para também fazer as pazes com a própria consciência.
Mas não amo aquele próximo que me desconforta. Tão próximo e sem afinidade. Sem possibilidade, promessa e sentido para para os gritos de minha vaidade; as necessidades mais profundas; aquele velho egoísmo da voz ansiosa pelo próprio eco.
No fim das contas, reconheço que o que faço e difundo como tal, não é exatamente amar ao próximo. É cuidar dos meus interesses.

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PAIXÃO EM GUERRA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Sei tão bem o que pensas, porque vivo aí;
moro em teus pensamentos; povoo saudades;
quando mentes verdades muito além das tuas,
vejo vãos reticentes; lacunas em branco...
Teu afeto negado é meu filme contínuo,
pois estou na plateia da tua emoção,
sou expectador que não sai da poltrona
desse teu coração que já faliu no meu...
Finges bem, mas nem tanto para quem já sabe
quem é quem desde o fundo à fina flor da tez;
fez um ninho durável nos teus devaneios...
Tenho todas as cotas das tuas ações,
emoções, fantasias, verdades ocultas
pela guerra forjada; raiva de festim...

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SABENÇA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quem aprendeu a viver
tem um trunfo a seu favor;
bem discreto; quase mudo;
sabe quando não saber,
em auxílio ao falador
que se ostenta o sabe-tudo...

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DOCE ILUSÃO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Improvável doce humano;
iguaria sem igual...
bem ao gosto da ilusão.
Uma torta de virtudes
recheada de verdades...
e coberta de razão.

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MALÍCIA ÉTICA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Sempre fale bem daquela pessoa que você sabe que fala mal de você. Não faça isso por bondade, mas por malícia, mesmo. Malícia ética de quem sabe que o tempo e as comparações de comportamentos desenharão seu prestígio; sua boa imagem. Ao mesmo tempo a maledicência, por si só, corroerá por completo a falsa fina estampa de quem a exerce. Você não precisa fazer nada para se defender. A própria convivência de seus afetos com os maledicentes derrubará todas as máscaras.

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MOMENTO ETERNO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Tem um lá bem pra lá dessa canção
do silêncio afinado em seu olhar,
que me faz esquecer o mundo à volta
e calar as angústias de costume...
Sonho lento igual chuva branda e fina
fertiliza esperanças em meu chão,
desafia os quilômetros do tempo
tão sem tempo e sentido para nós...
Há um mundo inventado no seu colo,
uma paz que a verdade não explica,
pólo neutro das minhas emoções...
Você sabe que o sol de seu silêncio
é a nota perfeita pra minh´alma
entre a calma infinita desta hora...

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PERDÃO POP STAR

Demétrio Sena, Magé - RJ.

É bem fácil pros lábios conjugar perdão;
perdoar é grandeza para o próprio ego,
quando a mão estendida propaga seu feito
e compõe mais um prego na cruz do pedinte...
Para quem se agiganta o perdão é brinquedo
que se quebra e se doa pra comprar um novo,
pão azedo com ovo doado ao faminto
pela força do brio e por bênçãos astrais...
Esse show de grandeza indefere a canção,
pois entoa o refrão para o mundo escutar;
tem um tom que apodrece o teor e o sentido...
Neste caso a virtude só é de quem pede,
quem não mede humildade nem humilhação;
perdoar se assemelha com pedir perdão...

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LOUCURA CURA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Muito além de mim mesmo estou aqui;
numa luta do bem com ele próprio;
entendi que a montanha move a fé
neste ser ou estar que me compõe...
Os moinhos passados movem águas,
é aí que mergulho e me aprofundo,
porque tudo que sei é que sei algo
e preciso viver até que morra...
Tem um mundo pedindo pra ter vida,
fico louco e de tanto é que me curo,
jogar pedras alivia meus rins...
Já me cansa o destino bem traçado;
nada como meu outro a cada dia;
hoje sei musicar conforme a dança...

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CIÊNCIA E PRAZER

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Nunca deixe de fazer aquilo que lhe faz bem, só porque não existe comprovação científica de que aquilo que lhe faz bem lhe faz bem.

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PRÉ-NATAL

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Posso amar em agosto, fevereiro e março;
um abraço é bem-vindo no dia do fico,
tem seu pico em dezembro, mas não quer dizer
que fazê-lo em abril fecha todas as portas...
Eu te amo em setembro, no cio das cores,
mas também na metade final de janeiro;
dou as flores de maio pras mães em novembro;
entre neve ou geada no sul do país...
O natal chega em julho, qualquer mês do ano,
pra qualquer ser humano que destile amor,
seja festa junina; dia das crianças...
Vem amar, tira os olhos desse calendário,
que o amor é diário e não sabe das horas;
não tem rito, cenário, nem religião...

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TER QUE TER

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Admiro terrenos bem mais do que às casas
com as suas mobílias, os lustres, detalhes,
abro as asas pro ar, não pras grades douradas
que despertam desejos e depois os prendem...
Gosto mais do caminho que do caminhão,
mais da fé, propriamente, que do seu efeito,
quero a mão mais que todas as luvas do mundo
e do mundo só quero meu saber viver...
Precisamos de coisas, a vida requer,
mas as coisas não devem nos coisificar;
sei amar o meu corpo vestido de alma...
Somos mais do que o ter, temos tudo que somos,
é melhor do que os cromos os traços que o ganham,
entre o ter e não ter não quero ter que ter...

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A JOVEM DO LOTAÇÃO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quando a mocinha ruiva e muito bem vestida entrou no lotação, só havia uma vaga para sentar. Um jovem negro que ocupava o assento ao lado se ajeitou para que ela ocupasse confortavelmente a vaga. A moça não quis. Agradeceu educadamente, meio de viés, e permaneceu como estava. O assento logo foi ocupado por outra pessoa.
Era uma viagem demorada e cansativa, e o lotação lotou. As pessoas ficaram espremidas e a moça continuava em pé. Bem depois, um rapaz que desembarcaria no próximo ponto a cutucou pelas costas e convidou a ocupar antecipadamente a vaga. No assento à direita, uma senhora bem idosa, em trajes encardidos e muito pobres, abriu um sorriso muito simpático, de alguns dentes cariados, como se desse boas vindas à moça. Mas a moça continuava bem. Não estava cansada. Outra vez agradeceu educadamente... e de viés.
Mas ninguém é de ferro. Quando o lotação começou a esvaziar, e ainda restava um bom pedaço de asfalto para chegar ao ponto final, onde a mocinha ruiva desembarcaria, mais um passageiro desembarca e deixa um novo lugar, ao lado de um moço forte, alto, branco e metido em trajes sociais. Aí a moça se rende: lentamente se dirige à poltrona, dá um sorriso simpático, seguido de um 'com licença', senta, se recosta e dorme.
Não tarda muito, e o moço bem apessoado sai, de forma bem delicada para não acordar a moça. No mesmo ponto, embarca no lotação um idoso esquelético, visivelmente esgotado e carregando pesados sacos de sucata, que ele catara provavelmente o dia inteiro. Deixa os sacos perto da porta, se dirige à vaga na mesma poltrona da mocinha ruiva, e com expressão de alívio se acomoda, sem demorar também a dormir.
Regidas pelo cansaço, o conforto da poltrona quase macia, o vento da janela e o ruído suave do veículo em movimento, ambas as cabeças pendem, cada uma para o ombro ao lado. É nessa entrega inocente, simbólica e desarmada que ambos seguem viagem para o mesmo bairro, onde moram cercados pelas mesmas realidades diárias.

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FRAUDES ETÁRIAS

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Ouça bem o seu tempo e não tente poupar a alma. Muito menos procure reciclá-la. Entenda que o corpo segue o tempo. As entranhas também. Não há de ser diferente com a alma, por mais que você a tranque no freezer. No vácuo do seu medo insano da vida... e da morte.
Também não queira empalhá-la viva. Isso não tem como dar certo. Embora esteja presa no corpo, ela sempre terá como fugir. Sua tentativa será desperdício incontestável desse formol que só preserva lembranças e saudades.
Você não será um velho de alma jovem. Ninguém será. Só um velho de alma em conflito. Angustiado com a plástica interna falha, sem efeito e sentido, e chorando a perda do tempo precioso em que tentou burlar a idade.
A melhor idade se foi. Ela teve o seu tempo, e agora é tempo do tempo que pode ser melhor, sem as tentativas de fraudes etárias. Corpo, alma e mente não se dissociam. Somos um todo, e a alma não pode ser algo estranho enfiado inadequadamente nesse todo.

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TODO BEM DESTE MUNDO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

O que tenho que ter pra ser pleno e feliz
é um canto em que possa libertar meus textos,
um quintal todo verde bem maior que a casa
que não fiz pra servir de outdoor do que sou...
Tenho tudo que tenho que ter pra sorrir ;
duas filhas, irmãos, muita troca de amor,
a mulher que nasceu porque nasci pra ela,
feito flor que não vive num chão diferente...
Se não tenho valores pra comprar mais coisas,
tudo quanto mais quero já tenho de graça
numa praça de afetos que me fazem pleno...
Todo bem deste mundo enriquece meus bens
ao alcance dos olhos, dos passos, das mãos,
contra os nãos duma vida que nem ouço mais...

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DO QUE SEI QUE NÃO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Se lhe quero tão bem que nem sei lhe dizer,
é querer sem querer me servir de sentidos,
desfrutar do prazer que o desejo procura
e não quer encontrar, apenas presumir...
Sempre a quis e não quis lhe perder porque tive
ou porque me joguei sem medir minha queda,
sou a pedra plantada no caminho incerto
de sonhar com quem dorme muito bem sem mim...
Mas lhe quero tão bem que não sei não querer,
sei conter e sentir pelo que sinto em vão,
dar a mão ao meu sonho e plantar fantasias...
Não a quero pra lá desse meu querer bem,
só lhe quero tão bem que o querer se transgride
num eterno esperar o que será que não...

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SEJA BEM IDA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Pergunte aos meus ex-amores que um dia resolveram partir, como foi fácil me dar adeus. Como lhes dei prontamente o sinal verde. Alforria imediata para o que não era escravidão.
Depois pergunte ao meu coração, se por acaso ele saiu pela boca. Também indague ao meu peito se lhe faltou ar; se a pulsação coronária o nocauteou. Você há de constatar, talvez com alívio, que não me rasguei todo em tiras e que a polícia, em todas essas dispensas, não teve o menor trabalho comigo. Nenhuma das algumas partidas de meus ex-amores terminou em prisão para mim, porque nunca tentei ser prisão de quem um dia me amou ou fez que o fizesse. Respeito amores e vontades. Verdades e mentiras. Não cobro juros por juras não cumpridas.
Se seu desejo é partir, não se avexe. Só preciso saber. Não posso responder ao adeus não dado, e quem quer partir não sou eu. Sendo assim, não imponha esse jogo de me cansar. De me fazer tomar uma decisão que é sua. Facilitar o que já é fácil, quando afinal, será exatamente como foi com os demais amores desistentes. Não se acanhe por me desamar e se desmentir de seus tantos “eu te amo”. Do seu automático “não vivo sem você”. Da sua mania de “você é tudo pra mim”, entre outras declarações que se tornaram clichês; carimbos compulsivos de seus lábios que já nem precisavam articular para reproduzir esses textos.
Conheço bem essa hora. Esse olhar. Essa distância, mesmo de perto. Esse mesmo silêncio. Tive outros amores que seriam pra sempre. Que até foram, mas o sempre se limitou. Ficou curto. Depois mais curto, até se tornar nunca mais, e sempre com o mesmo jogo no qual não entrei: o de forjar minha desistência; dizer adeus em meus lábios; acenar com a minha mão. Quando não teve outro jeito, a surpresa: foi tão fácil me dar adeus; fui tão compreensivo e liberal, que me acusaram de frio; que se revoltaram posteriormente com a facilidade, pois doeu na vaidade humana.
Vá em paz. Não é preciso jogar. Estendo meu tapete à sua partida. Seja bem ida e se avexe não... a porta pro mundo é a serventia... do meu coração.

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PLÁGIO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Hoje olho meu rosto e fico bem;
meu espelho não diz pra tomar jeito;
tenho vícios, defeitos e manias,
mas nos moldes de minha humanidade...
Sobretudo, já sei me perdoar;
sei pedir o perdão que não detenho,
revoar, conhecer o meu deserto
e colher uma flor entre as escarpas...
Aprendi a me ver em mais alguém;
a.medir os meus erros ou deslizes,
evitar as reprises que magoam...
Quem me dera chegar a tal estágio,
sou apenas um plágio do que sonho,
me componho, me forjo, tento ser...

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SABEDOR

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Sei
que
sei
bem
menos
do
que
não
sei
que
não
sei.

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