Quem tem Telhado de Vidro Evita Chuva de Pedra

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Carrego em mim versões que não resistiram ao tempo. São fragmentos de quem eu fui e precisei abandonar para seguir adiante. Às vezes sinto falta até das dores antigas. Elas, ao menos, eram conhecidas, este vazio novo ainda me nomeia.

Existe uma distância entre quem eu sou e aquilo que o mundo espera que eu seja. E, nessa travessia, vou me perdendo em fragmentos. Há partes de mim que não retornam. O preço de caber é, muitas vezes, deixar pedaços no caminho.

Nem todo afastamento é escolha. Às vezes é sobrevivência. É o limite de quem suportou além da conta. É o instante em que permanecer custa mais do que partir. E partir, por mais doloroso que seja, torna-se necessário.

Quem vive entregue apenas aos próprios impulsos acaba se tornando estrangeiro dentro do próprio destino. Os desejos mudam, as emoções oscilam e o coração humano frequentemente se perde de si mesmo. Mas aquele que aprende o peso do dever começa a caminhar com direção, porque descobre que a alma também precisa de disciplina para não se afogar nos excessos do mundo.


- Tiago Scheimann

Existe uma espiritualidade silenciosa em quem continua respirando mesmo depois de ter perdido partes inteiras de si pelo caminho.

Nem toda fé nasce da esperança. Às vezes, ela nasce do desespero de quem já esteve tão perto do abismo que somente Deus permaneceu olhando.

Existe uma espécie de luto invisível em quem precisou abandonar versões inteiras de si para continuar existindo.

Existe uma beleza profundamente triste em quem continua sendo sensível depois de ter conhecido a brutalidade humana de perto.

Existem dores tão antigas que acabam confundindo-se com a própria identidade de quem as carrega.

Escrevo como quem acende uma vela em meio à tempestade: não para expulsar toda a escuridão, mas para provar que, mesmo ferida, a alma ainda é capaz de produzir luz.

Há tristezas que não pedem consolo, apenas uma cadeira vazia e o respeito de quem aprendeu a ouvir o próprio ruído interno.

Às vezes olho para trás e não sinto saudade de quem eu era. Sinto pena. Pena daquele homem que acreditava que a dor tinha um propósito, sem saber que algumas feridas simplesmente acontecem, permanecem e envelhecem conosco.

Creio no divino como quem confia na manhã antes de vê-la nascer.

O homem passa metade da vida construindo máscaras e a outra metade tentando descobrir quem ficou escondido atrás delas.

Há um momento em que o coração deixa de esperar milagres, ainda assim, continua batendo como quem se recusa a abandonar o impossível.

Existem pessoas que sorriem como quem acende lâmpadas, e outras que iluminam sem precisar sorrir.

Quem vive apenas de certezas nunca conhecerá a beleza das descobertas.

No fim, quem atravessou a própria dor deixa de procurar o sentido da vida. Descobre, com uma melancolia irreversível, que o sentido nunca esteve na ausência do sofrimento, mas na estranha capacidade de continuar respirando depois que uma parte da alma já morreu.

Rico não é quem acumula impérios, mas quem, ao ver a vida desabar e levar tudo embora, continua inteiro sobre as próprias ruínas.

Nem todas as cicatrizes sangram aos olhos de quem passa, as piores são justamente aquelas que permanecem invisíveis. Elas habitam nos cantos mais esquecidos do peito, doendo apenas quando o mundo exige de nós um sorriso que não temos. Sobreviver é o ato diário de carregar esse peso em segredo enquanto o resto do mundo continua girando.


- Tiago Scheimann