Quando os Bons se Unem
Todo e qualquer projeto ao qual o homem se dedique está fadado ao fracasso quando confrontado com a complexidade do universo.
Onde moramos, onde desejamos viver — quando amamos alguém, esse alguém torna-se nosso lugar de repouso. A ausência seria o desespero de não ter para onde voltar. Assim eu sinto: ela é minha casa, meu lugar de morada. Não desejo outro canto, ainda que às vezes eu saia; sei que existe um lugar no mundo para o qual posso sempre retornar em segurança. Contudo, essa certeza também é conflitante: saber que, sem ela, meu mundo se perderia, sumiria junto com sua ida. Se um dia isso ocorrer, serei nômade, alguém em fuga, em profundo desamparo, à procura daquilo que já não pode mais ser encontrado.
Tudo o que amei, amei sozinho. A solidão é o estado original da alma quando ela não negocia consigo mesma. É nesse espaço sem plateia que o amor existe inteiro, sem função, sem utilidade, sem promessa. Só somos nós quando estamos sós. O resto é adaptação ao olhar alheio, ruído social, sobrevivência simbólica.
Sou um completo desconhecido para os outros. O que chega até eles são fragmentos, gestos toleráveis, versões aceitáveis. O essencial não atravessa. A identidade real não circula, não se presta, não se oferece. Ela permanece recolhida, densa, silenciosa. A alma humana não se deixa tocar sem perder forma.
Minha canção nasce no silêncio. No silêncio onde se cria o absurdo. Onde o impossível se organiza. Onde a palavra não explica, apenas existe. No silêncio onde se esconde o medo. O silêncio sustenta aquilo que não pede tradução, aquilo que não aceita clareza.
Essa é a autópsia da alma humana. Amar sozinho. Pensar sozinho. Existir sem testemunha. Permanecer inteiro longe da compreensão. O que importa não se anuncia. Não se justifica. Não se resolve. Fica. Em silêncio.
Quando o amor encontra seu lar, ali permanece, não por inércia, mas por escolha. Ele se acomoda nos gestos mínimos, na repetição dos dias, no reconhecimento silencioso de um no outro. Ficar não é fraqueza, é decisão cotidiana. O amor cria raízes, aprende o ritmo da casa, conhece seus ruídos, suas sombras e suas promessas.
O vento não chega de uma vez. Ele começa como estagnação, como descuido quase imperceptível, como a falsa segurança de que tudo está garantido. É a falta de escuta, a ausência de curiosidade pelo outro, o adiamento constante do cuidado. O vento é o silêncio que se prolonga, a palavra que deixa de ser dita, o toque que vira hábito sem presença.
A casa não cai por ódio, nem por grandes tragédias. Cai porque deixa de ser habitada por dentro. O vento apenas revela o que já estava frágil. O amor não acaba quando o vento sopra; ele se desfaz quando ninguém mais sustenta as paredes.
A Nave do Bem
Respire sempre antes de pronunciar um palavrão;
Avise quando for chegar ou partir;
Cultive clichês de amabilidade e empatia;
Ofereça, com frequência, teu ombro amigo;
Manifeste, com sinceridade, teus ideais;
Leia livros até sobre temas banais;
Adormeça sempre pensando em boas-novas;
Fale baixo, alto ou apenas quando necessário;
Permita-se iludir, mesmo sabendo;
Escute, vez ou outra, as músicas do vizinho;
Mergulhe de cabeça, ainda que sem proteção;
Ilumine o dia de um ranzinza;
Mantenha a calma e evite inutilidades;
Seja secular, mas também ponderado;
Evite a gula, ainda que esporadicamente;
Assista apenas ao final de alguns filmes;
Tolere um pouco mais;
E mantenha sempre sintonizadas as coisas boas.
Quando a vida se tornar insípida, cubra-se de autenticidade e procure harmonizar-se ao fluxo da existência.
Quando cientes
de nossa missão nesse mundo, deixamos de ser
um símbolode resistência
e nos tornamosum
modelo desuperação!
Quando os 'deuses da razão'
tramam nos punir,
eles atendem nossas preces!
Não com aquilo que desejamos,
mas com aquilo que
precisamos!
... desejar
um viver sem culpas
é render-se ao inconcebível -
refreando possibilidades; quando
não ,o próprio destino - na verdade,
cada homem vive sob os limites
de sua própria índole
sempre carente de
reparos!
... o significante
da vida, como sabemos,
tem sido desavergonhadamente
hostilizado - quando não, mediocremente
censurado pelo insignificante dessa
mesma vida - por essa razão,
que ao menos saibas
escolher!
... quando
alegações antirracistas se
dispuserem a assistir as diferentes
vertentes da 'cadeia alimentar'- a
ponto de abdicarem dos raivosos inconformismos e suasbarulhentas verborragias - ambososlados
se sentirão, enfim,
saciados!
... cada vez mais
fica claro que 'estar de acordo'
é o pior dos enganos, especialmente,
quando nossa luta é a busca pela
coerência que, aos poucos, se somará
ao nosso espírito. Portanto,
questione e, sobretudo,
questione-se!
... dizem
os mentores da luz que
somos todos verdadeiros,
mesmo quando flagrados mentindo;
pois o ato de mentir evidencia nossa
estatura moral: os valores e questões que
pobremente discernimos - e o tanto
que ainda nos falta
percorrer!
... quando
reiteradamente aguçada
pelos desvarios das submissões cegas,
mesmo a vulgaridade torna-se,
se não um vício, ao menos
um tentador estímulo
ao intolerável!
... é inegável
que a apatia de muitos,
como por encanto, se diluíra
quando questões sensíveis à sua
subsistência lhes forem brutalmente
usurpadas: seus bens, seus bolsos
e o mais valioso dos seus
predicados, a sua
liberdade!
... a autodeterminação
é a única 'rota de fuga' que
nos resta, quando fustigados pela
apatia ou, pior ainda, pelo
medo!
... quando
o 'micro', por força de sua
autodeterminação, busca contribuir
com o imensurável movimento da
vida, o 'macro' se transforma e
se expande um pouco
mais!
... quando
fraudulentos, excessivamente
falaciosos, substituímos o verbo 'otimizar'
pelo verbo 'vitimizar', issonão representa
um edificanteprotesto,tampouco, um
elogiável repúdioàs diferenças - mas
um convite à incultura
e ao atraso!
Não sabeis vós que uma praga, quando não combatida, tende a expandir-se de forma descontrolada. Assim sucede com a religião.
