Prefiro
O medo que carrego tem nome e endereço. Se eu chamasse, apareceria com mala pronta. Mas prefiro observar de longe, sem travar porta. Aprendi que é sábio não convidar certos inquilinos. Eles ficam, mas não precisam morar na sala principal.
Exauriu-me a tarefa de legendar minha dor para quem não sabe ler sentimentos. Prefiro o silêncio de quem escreve.
Tenho pavor da apatia. Prefiro a dor que me lembra que estou vivo ao gelo que me protege de sentir qualquer coisa.
Navego o deserto de almas vazias sob a bússola do impossível, pois prefiro o açoite do vento que sopra do norte à mansidão de um rio que me arrasta para longe de quem eu sou.
Entre apoderar-me da Verdade para julgar alguém, prefiro togar-me da Justiça Poética para julgar os que o julgam.
Talvez porque a Verdade — essa palavra tão invocada — raramente chega pura às mãos humanas.
Quase sempre, ela vem filtrada por convicções, interesses, ressentimentos ou paixões mal resolvidas.
E, quando alguém acredita possuir a Verdade absoluta, o julgamento deixa de ser um exercício de consciência para se transformar num espetáculo de vaidade moral.
A Justiça Poética, por outro lado, não se preocupa em parecer infalível.
Ela apenas observa, com a paciência do tempo, como cada gesto humano acaba escrevendo a própria sentença.
Quem julga com excesso costuma revelar mais de si do que daquele que está sendo julgado.
No tribunal silencioso da vida, o eco das palavras denuncia as intenções que tentavam se esconder atrás delas.
Há uma estranha pressa em condenar.
Como se apontar o erro alheio fosse uma forma rápida de limpar a própria biografia.
Mas a experiência ensina que os dedos que se erguem para acusar, quase sempre ignoram o espelho que os acompanha.
Por isso, em vez de disputar a posse da Verdade — como se ela fosse um troféu moral — prefiro assistir ao lento trabalho da coerência e das contradições humanas.
A Justiça Poética tem um modo curioso de agir: ela não grita, não se apressa e não faz discursos inflamados.
Apenas permite que cada um seja, com o tempo certo, revelado pelas próprias atitudes.
E, no fim das contas, quase sempre descobrimos que julgar os juízes é menos sobre condená-los… e mais sobre lembrar que ninguém deveria ocupar o tribunal da consciência humana sem antes revisitar, em silêncio, o próprio banco dos réus.
Prefiro me preservar no Direito de não me Descrever para não tropeçar no infortúnio de me Enaltecer
ou me Limitar.
Toda tentativa de nos definir carrega um risco muito silencioso: o de transformar um instante em sentença.
Pois, quando nos descrevemos, quase sempre recorremos ao que já sabemos sobre nós, ao que já fomos, ao que os outros reconheceram ou criticaram.
E assim, sem perceber, vamos vestindo uma versão de nós mesmos que pode até nos servir por um tempo, mas que também nos aprisiona.
Enaltecer-se demais é cair na armadilha da própria estátua: bonita, admirável, mas imóvel.
Limitar-se demais é aceitar uma moldura estreita para uma vida que ainda tem espaço para tantos contornos inesperados.
Entre uma coisa e outra, talvez exista uma Sabedoria Discreta em permanecer inacabado.
Há uma liberdade profunda em não se definir com tanta pressa.
Em permitir que a vida nos contradiga, nos amplie, nos transforme.
Quem se descreve demais começa a defender a própria descrição; quem se preserva um pouco mais, continua disponível para se tornar algo que ainda nem sabe.
Talvez seja por isso que algumas pessoas preferem caminhar sem tantas legendas sobre si mesmas.
Não por falta de identidade, mas por respeito ao grande mistério de ainda estar em construção.
No fim, há algo de muito belo, charmoso e humano em aceitar que somos maiores que qualquer frase que possamos escrever sobre nós.
Seria muito confortável pensar com a cabeça dos Sequestradores de Mentes, mas prefiro o caos da minha Autonomia.
Seria de fato confortável como uma poltrona que abraça o corpo e acaricia a consciência.
Não haveria dúvidas, nem o peso das escolhas.
As opiniões já viriam prontas, embaladas em slogans, mastigadas por vozes eloquentes que prometem pertencimento em troca de obediência.
Pensar daria trabalho; repetir, nem tanto.
Os Sequestradores de Mentes oferecem mapas prontos para quem tem medo de se perder ou se encontrar.
Transformam complexidade em palavras de ordem, divergência em ameaça e reflexão em fraqueza.
E, pouco a pouco, a autonomia vira um luxo dispensável.
Mas há algo profundamente humano no caos de pensar por si.
A autonomia não é confortável.
Ela é inquieta.
Obriga-nos a rever certezas, a admitir contradições, a mudar de rota sem plateia nos aplaudindo.
Quem escolhe a própria cabeça como morada precisa conviver com o silêncio das decisões solitárias e com a responsabilidade pelos próprios erros.
Ainda assim, prefiro o caos da minha autonomia.
Prefiro o desconforto de construir minhas convicções ao conforto de terceirizá-las.
Prefiro a dúvida honesta às certezas emprestadas.
Prefiro tropeçar nas minhas próprias ideias do que marchar seguro sob a sombra das ideias alheias.
Porque, no fim, o caos da autonomia pode até me desorganizar — mas é ele que mantém viva a liberdade de ser inteiro e a graça de poder conviver comigo mesmo.
Todos tem sua lua, e os seus encantos que os inspiram, mas na dúvida de encontrar uma Diva prefiro a solidão.
Prefiro ouvir os que duvidaram aos que aceitaram tudo como verdade sem questionar. Quem questiona aprende mais e melhor.
Cansei de esperar,
prefiro passar vergonha e assumir,
Do que apenas desistir,
Talvés se transforme em fracasso,
Até mesmo decepção,
Mas pelo menos eu fui corajozo,
E enfrentei determinada situação.
