Poesias de Tristeza Pois Perdi meu Avo
A minha maior arma é a
Bíblia, pois, a palavra de Deus e mais afiada que qualquer espada de dois gumes.
O meu maior escudo é a oração.
Tudo de ruim que vem, bate e volta.
CÃO SOCIAL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Protestar porque deixam, pois não dói,
ser somente um herói padronizado,
este fora-da-lei que a lei permite
porque sempre será dentro da lei...
Fazer greves legais, gritar chavões,
palavrões quando faltam as palavras,
ter coragem segura, encorajada,
como nada proíbe ou ninguém pune...
Tudo isso é bravata sem valor,
minha espada não fura uma gravata
nem a língua ferina os fere a sério...
Sou apenas um cão ladrando a esmo
para rodas que nunca morderei;
contra tudo que sei no que não dá...
BOM APETITE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Tome posse do sonho e se torne viável,
pois não tem que ser sonho a se perder da vista;
sou a pista vazia ou a dança deserta
que lhe pede socorro para ter sentido...
Venha logo e me ocupe com seu desempenho
e me faça existir como ainda não fiz,
pra morrer de feliz e de viver além
do que tenho notícia; do que sei que dá...
Coma sua iguaria, pois ela escasseia,
se digere sozinha no vão da vontade;
vira ceia do abismo; da boca do fim...
Raspe o tacho do sim, lamba os beiços, os dedos,
tenho medos curtidos em óleos e cheiros
que me servem na mesa de sua paixão...
DIA DE GENTE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Acordei ocupado. Bastante ocupado, esteja ou não, pois agora é a minha vez. Para me convencer disto, fui direto ao espelho e disse ao próprio reflexo: perdão, estou sem tempo; indisponível; pelo pescoço.
Resolvi ter meu dia de "qualquer dia destes a gente se fala", como todos os dias todo mundo tem. Pelo menos todo mundo que eu conheço. Quero degustar o sabor de ser um anjo agridoce, que mistura simpatia com arrogância. Então assumo postura de grandeza humilde; realeza devidamente contida, que acolhe com um "chega pra lá"... mas com um gesto para lá de polido. Carinho superior, como se espera de quem é ou pelo menos está sofisticado, para quebrar a rotina.
Hoje lanço meus ares de bravura mansa. De quem gira discretamente numa cadeira de gabinete; sopra espirais de fumaça; reclina e declina de qualquer convite, bate-papo, talvez conversa fiada, pois hoje, qualquer conversa é fiada para o meu discreto assoberbamento.
Quem puder me perdoe, mas também tenho essa humanidade que me faz deus, de vez em quando. Quase não a utilizo, pela pretensão de não ser pretensioso. Pelo temor das perdas que sempre vêm na carona desse deslize, porque já me consagrei como pessoa simplória; caipira disponível; poetinha carente; quase não pessoa.
PRONTO PARA VOAR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Solte a linha e me deixe achar o céu,
pois o vento me chama e quero ir,
há um véu que precisa ser rasgado
pra surgir uma nova dimensão...
Tenho sêde, preciso dessas águas
que desaguam na linha do horizonte,
minhas mágoas se agitam nesta sombra
entre as celas do mundo obrigatório...
Largue as rédeas e saia do meu ser,
já não posso levar o seu entulho,
meu orgulho me acorda e quer fluir...
Ou a faço cair da imensidão,
onde o chão se perder do seu olhar
que não sabe me ver além do embrulho...
FELICIDADE ATÓXICA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Faça tudo que o deixe completo e feliz,
pois as faltas se juntam num grande buraco,
nem um caco do todo pode se perder,
sob pena de perdas ou flancos em série...
Viva todas as vidas de sua matriz,
porque não abraçá-las é morte precoce,
tome posse do espaço que tem o tamanho
do seu sonho; seu senso do próprio direito...
Seja todo seu eu, nunca perca o sentido
e jamais se permita evaporar essência,
tenha brio e decência pra romper muralhas...
Só limite os projetos de felicidade
à verdade serena que o livre do caos,
mas não faça esse caos arrastar outra vida...
PASSO A VELA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Já não corro ao encontro do que sonho,
pois deixei de correr, me planto em mim,
ponho toda esperança nos meus tachos,
feito ebó numa velha encruzilhada...
Minhas pressas pediram sombra e rede;
minha sêde se mata nos meus mucos,
tenho sucos guardados na gastrite
que por ora deixou de ser nervosa...
Decidi abraçar as incertezas,
dispensar as verdades congeladas,
dar ao nada o sabor de não saber...
Quando quero tomar meu passo a vela,
sou a tela em meu quarto já minguante;
paraíso distante na parede...
NADA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sei que vives, pois te vejo
nos desvãos do vai e vem...
vida normal.
Sem repulsa nem desejo,
hoje não te quero bem...
nem quero mal.
Tudo em ti é tanto faz;
não me desagrada em cheio...
nem agrada.
Não há conflito nem paz,
não te amo nem te odeio...
eu te nada.
NÃO AMEI
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sei que ainda circulas entre os vivos,
pois te vejo e não sou de assombrações,
mas as minhas versões de quem é quem
te atravessam nos muros das lembranças...
Não estás no meu sótão de saudades,
nos momentos de minhas nostalgias,
longos dias de vastos pensamentos
ou aquelas quimeras que me aprazem...
na verdade me assusta essa lacuna;
ver que nunca te amei nem foi paixão;
foste chão provisório em meu naufrágio...
Fui capaz de querer sem sentimento,
meu amor se forjou pra ter contexto
em um texto que o tempo rabiscou..
MAIS DO QUE TE AMO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Deixarei que me deixes, pois me canso
dos teus ranços, das crostas que te cobrem,
dessa tua mania de tristeza
e teu vício de mágoa e solidão...
Quero a luz, não gostei das tuas trevas,
tenho fome de risos e de céus,
mas me levas ao chão; ao fundo; ao poço;
ao teu osso impossível de roer...
Já não creio no amor como remédio,
e me rendo ao assédio desse adeus
que nos toma de assalto já faz tempo...
Serei livre a partir de te livrar,
escrever outro livro de quem sou
e me amar muito mais do que te amo...
IDENTIDADE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Saia dessa fachada e se permita ser,
pois estar nos anula sob as aparências;
é um ter uma vida que não tem sentido;
ter essências de gostos que não são os nossos...
Ou então se convoque, pode ser ainda,
que você não esteja no próprio casulo;
dê um pulo no espaço, tente se pescar
e repor seu extrato; sua identidade...
Só não perca seu tempo mentindo pra si;
só entenda que o só pode ser o seu tudo
e aí talvez more o maior desafio...
Entre nessa verdade que o medo rejeita;
tenha sua receita, jamais a dos outros,
no que tange o respeito pelo próprio eu...
PASTO AFETIVO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Traio todas as notas do silêncio em mim,
pois me rendo aos teus olhos cravados nos meus;
é assim que me perco do velho equilíbrio
com que acho saber o que faço aqui dentro...
Há um eu movediço no abismo que trago,
quando a tua presença me faz recuar,
tem um vago sentido que paira na treva
do meu ar preguiçoso; meu cosmo secreto...
Eu me abro no quanto me fecho pra ti,
sou exposto à medida que tento não ser
e vencer o que vence a razão embotada...
Sabes como arrancar a confissão retida,
minha vida se torna o teu filme já gasto,
se me perco nos pastos da tua expressão...
DE AMAR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sua forma de amar me desencanta,
pois é típica, estável, sem excesso,
com a mesma constância de uma planta
ou aquelas instâncias de processo...
Você ama com zelo e teme o preço;
não avança, decola ou agiganta;
tem a voz tão contrita quanto gesso
e seus olhos parecem usar manta...
Busco incêndios; desníveis; descompassos;
tenho a fome selvagem dos devassos;
venha toda, não quero seu consolo...
Se me jogo e despenco neste abismo,
caio sempre nas malhas do mesmismo;
sua fôrma de amar não faz meu bolo...
POLITICAGEM
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Ser um bom político é não ser eleito, pois é eleito quem faz acordos que não permitem ser um bom político.
JOÃO BATISTA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Acho que uma voz no deserto já tem o seu valor, pois como cheguei ao deserto, alguém mais terá chegado. De uma forma ou outra, chegar além de mim mesmo já é uma grande façanha. Se trago amor para dar, isso vale, por si só, pelos próprios encalhes de meu estoque.
O que tenho está posto por natureza, e no tempo certo haverá quem o queira. Sigo em paz, por não ser uma lacuna vazia. Sinto-me a beira que a eira encontrará no caminho, bastando-lhe apenas desejar ou não, ser cultivada em mim. É por isso que sou poeta em tempos anti-poesia. Semeio textos no chão que meus passos carimbam. Faço versos do mundo e os recheio de vida. Só não posso empurrá-los goelas nem corações adentro.
Como entro e saio quando quero, porque sempre acho a saída, e sinto que sou livre para ser quem sou, concluo que a liberdade alheia vale mais que meus escritos. Isso não me demove da ideia pretensiosa de perda irreparável para quem despreza versos e afins.
Seja como for, uma flor no deserto equivale ao próprio jardim. Por isso planto. Semeio. Sou poeta.
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Demétrio Sena, Magé - RJ.
Durma tranquilo,
pois agora
você está livre aqui dentro,
e os malvados
estão presos lá fora.
A PALAVRA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Semear a brandura nos devolve a paz,
pois desarma inimigos de agora e de após,
pela força do afeto; a magia capaz
de calar um conflito no timbre da voz...
Quando soa sincera, desamarra os nós
ou desperta o bom senso que no peito jaz;
põe as forças opostas em poder dos prós
e convence o passado a ficar para trás...
O rancor não resiste à palavra serena,
que pondera e revela quanto vale a pena
ter firmeza e coragem sem perder doçura...
Moram grandes poderes nas cordas vocais;
mar aberto, naufrágio, mas também o cais;
tem palavra que mata e palavra que cura...
TODOS NÓS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Tenho tudo com isso, pois isso me cerca,
se me cerca me atinge no tempo imprevisto,
não ter nada com tudo que acontece ao outro
é um quisto escondido; pronto pra estourar...
Este aqui é meu mundo, meu povo está nele,
minha bolha não serve pra me proteger,
sem viver não se vive, como não se pode
com a força dos fatos que pesam na alma...
todos nós temos tudo com todos os nadas
dos que vão entre nós em estado de coma
pela soma dos nós que os apertam de morte...
nada vai nos fazer não ter nada com isso,
e ninguém é ninguém pra ter como ninguém
quem está no seu campo de alcance ou visão...
VIDA REAL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Desisti de alcançar meu quinhão da verdade,
pois os donos da mesma não vendem mais cotas,
e por isso a cercaram de grades sombrias
e farparam as rotas que levam pra lá...
percebi que a verdade virou essa massa
que seus donos modelam conforme seus egos,
que obedece à trapaça da corporação
e me criva de pregos para me deter...
Na verdade a verdade se tornou mentira
quando foi loteada e passou a ter donos,
virou trono de alguns e perdeu a raiz...
Já não quero a virtude que o vício encampou,
ser quem sou é verdade que me satisfaz
e me diz o que a vida tem mesmo a dizer...
