Poemas Vinicius de Moraes Patria minha
“Se o homem só é bom vigiado por um deus, ele não é moral — é um animal adestrado.
A moral religiosa não cria homens bons, cria covardes obedientes.
Onde a bondade depende do medo do inferno, não há virtude — há servidão.
Quem precisa de um céu para não ser um canalha já escolheu a própria miséria.
Deuses são muletas morais para quem não sustenta o próprio caráter."
Somos Brevidades
Vivemos apenas uma vez.
E nesse único sopro de existência,
resta-nos provar da vida
a sutileza dos instantes mais nobres —
aqueles que, embora raros,
carregam em si uma eternidade condensada.
Mas tais instantes são breves.
E quando falo em brevidade,
é porque o ser humano nada mais é
do que um viajante de passagem.
Como um compasso invisível,
nosso coração marca o ritmo,
nossa alma vibra,
até que, um dia, a música silencie.
E de nossa curta travessia
sobre esta esfera que chamamos Terra,
não herdaremos riquezas,
não guardaremos posses.
Restarão apenas lembranças —
essas frágeis centelhas de eternidade.
Porém, quantas vezes as ignoramos?
Quantas vezes as deixamos adormecer,
cegos pela pressa,
surdos pelo ruído do mundo?
E, assim, distraídos,
nos perdemos no caos,
renunciando, ironicamente,
à face mais bela da existência.
Só então, diante do tarde demais,
lembramos daquilo que esquecemos.
Pois somos brevidades —
fagulhas efêmeras
em meio ao infinito universo.
Para o Infinito
Escrevo, pois sinto.
E se sinto, é porque vivo.
Sinto meu coração pulsar
enquanto minha mente se projeta no infinito —
lá, onde as palavras não bastam,
onde me recuso a ser limitado.
Vou além,
tocando a beira do universo.
Sou um instante,
um sopro breve,
que, em certos momentos,
se ilude com a eternidade.
Ignorância minha.
Nada sou além de um simples ser humano:
respiro, sinto, falho.
Sinto demais.
Sinto que, por instantes,
o mundo ainda é um lugar bom.
Falho em acreditar que realmente seja.
Respiro…
e ergo meus olhos ao céu,
atento aos detalhes secretos,
às minúcias mágicas
que o universo me entrega.
Como uma orquestra,
tudo pulsa em harmonia,
tudo ocupa o seu lugar.
Ouso dizer que sou privilegiado:
pois não prendo meu olhar ao chão,
mas o lanço ao infinito.
Os longos anos que passei na dispensa lapidando uma herança de vitórias
No armário um velho conhecido, legado sem memórias
No presente ela não o reconhece apenas pega o que pode.
Maldito seja eu pelos meus pecados.
Tão distante da perfeição estou que, ainda assim, destruo-me todos os dias, na esperança de, ao menos um dia, alcançar um ponto em que exista em mim o mínimo de fé para acreditar que posso ser santo.
Mas, como esse dia tarda, continuo a me destruir — dia após dia, noite após noite.
E, a cada amanhecer, reconstruo-me… apenas para, mais tarde, destruir-me novamente, repetindo esse ciclo até o fim da minha vida.
Vinicius Monteiro Tito
A chuva é passageira,
o orvalho da manhã seca,
as flores murcham, e a nossa beleza
se vai. Já o amor e a intensidade…
Eles permanecem, assim como as
estações do ano: às vezes mais
quentes, às vezes mais frios,
mas sempre existem.
Solitude
Outrora se preocupava,
cuidava, honrava.
Planejava o amanhã por
convicção.
Desmoronado pelo recurso da alma
corrompida, e com a dor brutal
encontrou solitude.
Entrega
Entregar-me é obrigação;
pela metade, seria falta de convicção.
E, nas notas intensas de um solo,
derreto-me como aço vencido pelo fogo.
Pai
Sempre amando, educando,
apoiando e disciplinando.
Exemplo a ser aplaudido
e jamais esquecido.
Notas não servem,
adjetivos seriam pequenos.
O que falar da grandeza do homem
franzino.
Nas noites, meu colo
Meu provedor, meu protetor.
Assumiu o que poucos assumem,
coragem que muitos não tem.
Essa grandeza apenas ele tem.
Dos de fora, meu pai.
Para mim vai além, o amigo.
Na imensidão do te amo,
fico na certeza que ainda é pouco.
Sentimento maior e mais puro que
não encontro adjetivos.
Para meu pai: Julio César Lourenço
Não sejas tu a causa da dor.
Dor que afugenta e que um dia passa,
mas a da alma permanece, não se apaga.
Atitudes
Na busca por sinais, encontrei atitudes.
No silêncio do seu olhar, descobri a verdade.
Tão profundo é esse olhar,
que nele encontro a certeza: é real.
Não seja a causa da dor de alguém.
O tempo pode silenciar o sofrimento
mas nem sempre apaga
as marcas deixadas na alma.
— Como você está hoje?
— Como eu estou? Você quer a resposta genérica ou a real?
Quer ouvir a verdade ou uma frase pronta?
“Está tudo bem.”
Apesar das dores que senti
E dos momentos tristes que vivi
A dor gerada pela sua partida
não apaga a importância que tens na minha vida
Ainda que eu nunca mais volte a te encontrar
Sei que um dia irei te levar para um certo lugar
Onde o céu não é o limite para sonhar
e que as nuvens nunca apagam o brilho do luar
Onde o tempo quem faz é a gente
e o passado não se mistura com o presente
Onde ao meu lado você terá toda a segurança
e os nossos momentos jamais ficarão na lembrança
pois o amor será fato ao invés de esperança
De que adianta um céu sem estrela
um principe sem princesa
e eu aqui na sua ausência?
De que adianta um rei sem seu trono
uma fortuna sem um dono
E as minhas noites sem sono?
De que adianta o piso sem chão
um rumo sem direção
ou você fora do meu coração?
De que adianta o tempo passar
e ele não ser capaz de apagar
a magia vinda do seu olhar?
Vogais ou consoantes
jamais serão bastante
para fazer-me expressar
Essa alegria constante
que seu sorriso brilhante
é capaz de causar
Hoje sou um amente
que espera bem distante
o meu mundo parar
e você a me chamar
Palavras que não conseguem expressar
Lembranças que me fazem viajar
Esperanças que me fazem sonhar
Distâncias que me fazem lamentar
Esses apertos que insistem em ficar
Aquele anjo que insiste em se calar
Meu coração que insiste em te amar
Minhas dúvidas que parecem não cessar
A lua que não para de brilhar
e com seu brilho só me fazes relembrar
os momentos que me punha a lhe beijar
Mas a fé que me põe a esperar
o dia que irei te reencontrar
e contigo desfrutarmos o amar
