Poemas Vinicius de Moraes de Mar
Quando eu pensei que estava tudo acabado...
Percebi que só estava começando, e eu teria que enfrentar aquilo e levar a vida adiante.
O que eu deixei de perceber foi que a vida adiante é cheia de surpresas. E a única coisa que acabou, foi uma fase.
paradoxo do simples;
as coisas mais simples da vida
são, de fato, as mais bonitas,
as extraordinárias, as mais desejadas:
um beijo, um abraço, uma gentileza,
saudade, vontade, lembrança.
e na ironia do cotidiano,
em cada ato, uma complexidade infinita:
um beijo, onde dançam duas mentes,
extremamente complexas e às vezes bagunçadas,
atraídas, unidas pelos lábios.
num suave abraço,
um universo se revela:
o conforto que cria a música,
um cenário onde tudo se encaixa.
e a saudade?
ela exige a angústia de um tempo ruim,
para que possamos valorizar
o brilho dos momentos bons,
e assim, sua ausência ecoa em nós.
que possamos dar valor
às coisas simples da vida,
sem ignorar sua absurda complexidade,
pois é nela que reside a beleza,
na dança sutil entre o simples e o profundo.
erros;
bastou um olhar e me vi preso
neste espelho ocular que banhei em lágrimas.
malditos olhos.
em frações de segundo, vi tudo que fiz.
a única coisa que não queria
era ver, em seus olhos, a minha imagem.
um sorriso amarelo, uma despedida,
mergulhado em remorso,
um lembrete de que eu erro.
queria gritar; gritei, por dentro.
queria chorar; chorei, por dentro.
queria morrer.
morri, por dentro.
para nunca mais nascer de novo.
ódio;
quero brigar.
te nocautear com um abraço,
te cobrir de porradas de amor,
quebrar tuas costelas com cócegas,
rasgar tua pele com carinhos,
te asfixiar com um beijo,
te matar de afeto.
eu te odeio.
reticências;
algum dia, em um supermercado,
vamos nos encontrar,
eu escolhendo um vinho,
e você, frutas.
comentaremos sobre a vida,
sobre como tudo mudou com o tempo,
como éramos imaturos,
e as chances que perdemos.
te olharei com um olhar triste
e um sorriso meia-boca,
feliz em saber que você está bem,
mas direi que preciso ir,
enquanto olho para baixo,
para o meu carrinho.
personificaremos reticências,
eternas reticências.
pra sempre...
...
armazenando lembranças;
passou-se o momento
de colocar tudo que me lembra você
na caixa de sapatos do esquecimento
e enfia-lá no fundinho escuro
do meu guarda-roupas.
só por tempo suficiente
para eu esquecer
essas memórias.
quando decidir organizar
as minhas coisas,
abrirei a caixa,
reviver cada fragmento,
cada riso, cada dor.
decidir se te dou
ou se te jogo fora,
pois você não pode morar
aí pra sempre.
talvez, um dia, eu consiga
libertar essas lembranças
e deixar que o espaço
se encha de novas histórias.
Um/Uma
Um Simples Gesto
Um Café da Manha
Uma risada sincera
Uma aventura na praia
Uma família à espera
Um jogo qualquer
Um almoço corrido
Uma noite de jogos
Uma surpresa agradável
Uma virada com fogos
Um abraço apertado
Um conselho gentil
Uma viagem inesperada
Uma sessão de cinema
Uma bela morada
Um rapaz tímido
Um paizão incrível
Uma pequena linda
Uma mãe perfeita
Uma família unida
A Girafa
Olhando para o horizonte
O tempo passa, muda a estação
Enxerga folha, arvore, bicho e chuva
Nada escapa sua visão
Alcançando tudo e todos
Com olhar sempre gentil
Observa as coisas boas
E até o amor que partiu
Defensora de si mesma
Sem atacar ninguém
Não precisa de presas e garras
Sua força vai muito além
Já não se incomoda mais
A não ser com sua família
Não se incomoda mais
A não ser com sua cria
Indo sempre adiante
Nada pode te deter
A Girafa sabe o que fazer
Saudade é uma magrela
Com uma fome sem limite.
Sedenta, com apetite
Fita quem serve a ela.
No centro da mesa dela,
Vê-se a bandeja vazia:
Sequer escapou a vela.
Como nada mais servia,
O garçom, em agonia,
Foi devorado por ela.
Cuide do meio ambiente
Para se sentir cuidado.
O mundo tá condenado
A viver com toda gente.
Pense e aja diferente,
Esteja mais envolvido
Em buscar a solução.
Se você tem poluído
E o mundo tem destruído,
Bote a mão no coração.
Seu filho fica e você não,
Então seja consciente:
Preserve o meio ambiente
Para a próxima geração!
Nasci e me criei no Ceará.
E tendo alma de poeta,
A dor não me afeta
Pois a sina é superar.
E se vejo alguém rimar
Sobre chuva no Sertão
Dou graças pelo feijão,
A canjica e o bovino.
Eu também sou Nordestino
Do jeito que vocês são.
Não existe mais amor nas ruas da cidade.
O asfalto é cinza e sem vida
As ruas são frias e solitárias
É todos os prédios espelhados que nos julgam, demonstram nossa maior fraqueza.
A vida parece não existir na metrópole
Ela fugiu ou foi roubada?
A cidade é o espelho do egocentrismo, de pessoas que carregam apenas seus corpos, pelas entranhas sem fim.
Se estou perdido, vivo na morada eterna de minhas piores memórias.
A metrópole suja a minha vida e rouba o meu amor.
A minha dívida vai ser paga, pois devo meu tempo, minha morte e minha alma a alguns Deuses.
Eu quero ir para a Lua
Como posso chegar lá
Não sei o caminho, posso tropeçar
Uma viagem eterna
Tenho medo de me perder
Uma linha reta talvez, não, talvez não
Uma estrada esburacada, sim isso parece correto
Talvez eu me perca muitas vezes
É mais difícil do que fazem parecer
Perdi o meu guia
Não me esqueço desse dia
O Pescador disse
Astronauta você vai vencer
Ganhei um novo guia
Não me esqueço da alegria
O super herói disse
Levante a cabeça e volte a correr
Assumi o papel de guia
Mesmo não sabendo chegar
Incrível o que o tempo faz
O Astronauta está a envelhecer
Subam a bordo tem espaço
Literalmente tem espaço meus amigos
No que eu puder ajudar eu vou
Só me diga o que fazer
Não abandone a nave Capitão
O Astronauta está mais velho
Mas não se engane por favor
Ele ainda precisa de você
A quem foi abandonado no caminho
Esta trajetória teve muitos altos e baixos
Um dia feliz o outro triste
Não sei o que te dizer
Tinha um gato gordinho nessa nave Astronauta
Deixei ele pular
Esqueci o caminho
Esqueci o que queria ver
E como posso chegar lá
Voltamos para o início
Talvez tenha me esquecido da tripulação
Vi sua memória morrer
Mas vou celebrar as pequenas vitórias
O caminho esta mais claro
A escada para a lua está a minha frente
Eu preciso me mover
Oi Pescador
Não te esqueci
Eu quero ir para a Lua
Não tenho mais medo de me perder
senti algo diferente
como uma chama ardente,
ela se acendeu
e minha tristeza morreu
Depois que te vi
meu mundo começou a sorrir
quando te perdi
do meu mundo perfeito me despedi
A tristeza me fez sentir
e meu mundo vi se esvair,
o meu sonho acabou
e a vontade se esgotou
do amor desisti
minha esperança se esvaiu,
a chama agora se extinguiu,
e a minha trsteza retornou.
Mas nas cinzas da paixão,
Uma brasa ainda arde,
Lembrando-me do calor,
Daquilo que já foi.
E quem sabe, um dia,
Uma nova chama se acenderá,
Trazendo de volta a alegria,
E um novo amor que me inundará.
Ainda que use flores artificiais,
Você não as poderá regar todas as manhãs;
Ainda que se alimente de sabores artificiais,
Nunca os poderá colher em pés de uvas e maçãs;
Ainda que se criem versos artificiais,
Eles nunca sairão de um coração.
Eludir-se
Das vinhas enraizadas
Corria o sangue,
fruto do pecado original,
Sangue corruptível e devasso.
Na gestação, concebeu discursos,
Justificando os vis atos
A seu modo apologético.
Das causas semeou,
Das consequências colheu
Perenes infortúnios.
Baldado o coletivo,
apelava à autocomiseração.
De si lograria, ao menos,
nem que ínfima simpatia.
O paraíso não está aqui.
Conflituosa escrita
Seguro em minhas mãos um cilindro afunilado vermelho. Com ele percorro as alvas páginas listradas de um diário anônimo, lançando mão de palavras alvejadas de valor. Seu comprimento se estende para além do alcance de minha mão, embora metade do corpo cilíndrico afigura-se circundado por esta, cuja pegada firme não é possível testemunhar, salvo os momentos de afetada intencionalidade: o montante que permanece da vontade subjugada pela mente, que flui sob luz de pensamentos descomedidos.
Flor de lótus
Envolto por uma redoma percebo estar.
Refratam-se os raios de luz que,
ao tocar a borda,
se voltam para os materialistas que aqui vivem,
e cuja visão meu espírito deixou-se apegar,
pois, contrário ao que era aparente,
não havia livre arbítrio, e eles sabiam,
pois assim o desejavam.
Tudo isso, que jaz dentro da redoma,
me acorrenta, iludindo-me,
mas algo me transcende, mesquinho tempo,
para fora dessas paredes cristalinas,
cingindo-me de sensações estranhas,
das quais não me é possível nomear
nem apreender pelos sentidos.
Tudo isso, que jaz dentro da redoma,
turva minha visão, desnorteia-me,
como uma flor de lótus,
mas em guarda me ponho,
ávido por mais uma vez
pôr os pés naquele mundo das ideias,
pois apenas lá meu espírito edifica-se
e permite-se enxergar
aquilo que de belo nunca pôde ver.
Da caverna quero sair,
em busca da verdade.
Compasso
Vasculho pelo lago
traços de meu reflexo que,
Malgrado o aparente nada,
Trepidam,
como que conscientes
de um Primeiro Motor que,
a cada compasso,
conduz o nosso comportamento,
conquanto pensemos estar livres.
Ô cólera
Por que razão te compraz sentir tanto ódio?
Tão facilmente mergulhas em águas ociosas
perambulando por cenários de descomedida cólera,
onde anseias por justificar,
em meio a razões inóspitas,
o seu ódio infundado.
Deixas, por fim, este caminho sinuoso,
assim como um rio que,
a todo momento,
já não é mais,
pois tudo passa, efêmero que é,
e deixa de ser.
