Poemas sobre Dias
Há dias que parecem rascunhos mal colados. As frases saem tortas e os gestos, imprecisos. Reviro-os até que encontrem forma e razão. Algumas colagens funcionam, outras viram poesia de esquina. E a vida segue, improvisando imagens que valem.
Os dias ruins ensinam a valorizar os passos pequenos. Levantar da cama já se transforma em vitória. Talvez a grandeza da vida resida nesses mínimos. Somá-los é construir um caminho inteiro. E no final, ele será o suficiente.
Houve dias em que a fé foi mão que segurou a minha. Não fez milagres espetaculares, só presença. Quando tudo fraquejava, essa mão continuou. Hoje sei que presença é forma de sustento. E a gratidão a ela é meu alimento secreto.
Há dias em que a lucidez é lâmina afiada demais. Corta sem dó as mentiras que contamos a nós mesmos. Sobra verdade e sobra cuidado para remontar. A reconstrução exige paciência e luvas firmes. E aos poucos, a mão volta a trabalhar sem medo.
Há dias em que a alma pesa mais que a gravidade, existir torna-se um exercício de resistência e respirar, uma escolha política.
Minha alma suplica por trégua, enquanto a vida exige movimento. Passo os dias negociando minha sanidade com o relógio.
Há dias em que a existência se manifesta como dor física, cada respiração é um lembrete de que ainda estou na arena.
Há dias em que o cansaço não é muscular, é um peso que vem de séculos passados, como se eu carregasse o luto de todas as versões de mim que morreram antes de florescer. A gente não envelhece apenas pelos anos, mas pelas despedidas que fazemos em silêncio diante do café frio.
Há dias em que a única coisa que me mantém de pé é a curiosidade de saber como será a próxima frase que a minha dor vai ditar para a minha mão. Sou o primeiro leitor da minha própria tragédia, assistindo ao espetáculo com a fascinação de quem não sabe o final.
Eu sobrevivi a mim mesmo nos meus dias mais sombrios, e isso é uma vitória invisível que nenhum aplauso seria capaz de traduzir.
Não me peça para ser inteiro todos os dias, pois aprendi a amar os meus fragmentos como quem cuida de cacos de vidro que ainda brilham sob o sol, a perfeição é uma mentira bonita, mas a minha imperfeição é a única verdade que me mantém humano e minimamente vivo.
Há dias em que a única vitória possível é conseguir respirar fundo e não desistir de si mesmo, e isso é mais do que suficiente para um ser humano que carrega o peso de galáxias inteiras escondidas atrás de um sorriso discreto e de um olhar cansado.
Há dias em que caminho como quem atravessa um inverno sem fim. Dentro de mim, tudo parece frio, pesado, quase irreconhecível. Cada passo é menos coragem do que insistência em não cair. E sigo, não porque a dor diminuiu,
mas porque me recuso a deixar que ela escreva o fim da minha história.
Há dias em que eu não quero ser forte. Quero apenas descansar de mim mesmo. Mas a vida não oferece pausa para a alma cansada. Então sigo, mesmo exausto, porque desistir nunca foi uma possibilidade que o destino me permitiu.
Minha escrita não nasceu dos dias fáceis. Nasceu do abandono, das perguntas sem resposta, das noites longas e das memórias que insistiam em permanecer. Talvez escrever seja apenas a forma mais humana que encontrei de resistir.
Carrego dias quebrados como quem leva vidro no bolso: com cuidado, com medo e com a estranha gratidão de ainda sentir o peso das coisas.
Existem dias em que o coração não quebra, apenas se torna mais nítido, e essa nitidez dói como luz em olhos cansados.
Em certos dias, estar vivo é apenas sustentar a consciência de que o mundo segue enquanto minha alma negocia com o próprio eco.
Em dias de ruína, minha crença não é fogueira, é brasa escondida, suficiente para não permitir que eu me torne noite inteira.
