Poemas Decidi Ficar na minha
MINHA CASA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Uma casa não tem, seja ela qual for,
a beleza do arbusto e da flor no quintal;
a riqueza das sombras que as árvores dão;
o valor da nascente ou do poço de anéis...
Toda casa precisa do chão ao redor,
passarinhos, lagartas, depois borboletas,
vira-latas, besouros e camaleões;
emoções delicadas e restauradoras...
Meu quintal só tem cerca por identidade,
minha casa modesta pode ver a rua,
da janela sem grade; a porta sempre aberta...
Uma casa tem vida se tiver lá fora
uma rede, um lá fora que nos dê prazer,
umas horas pra ler, pra sonhar e dormir...
PRESENTE DO FUTURO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Minha idade não mente pro meu corpo;
ela toma o seu tempo, seu espaço,
tem o passo maior que minhas pernas
e me deixa perdido na jornada...
O meu corpo aprendeu a não tentar
ser mais forte que os dias do presente;
sente o peso da pressa e se acomoda
para dar de beber ao meu deserto...
É assim que me acho e ganho tempo,
perco medo e me aceito como estou,
com as perdas e os danos que sofri...
Mas vivi meus estágios de viver;
fecho a conta, me sinto ganhador;
ter futuro é presente do meu fim...
PAZ PRA SEGUIR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Já pequei minha cota e fui além;
foram muitos os passos desmedidos,
mas também não faltaram promissórias
regiamente cumpridas por meu tempo...
Sei que o tempo não pôde me conter
de voltar a ferir os estatutos,
cometer novos erros, repeti-los
quando a casca da idade me blindou...
Mesmo assim honrei todos os boletos,
hoje acerto resquícios de passados
que ressurgem dos guetos da memória...
Quando penso no quanto caminhei,
no que sei que não sei, pois aprendi,
quero paz pra seguir meus dias bônus...
READOLESCÊNCIA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Entenda minha carência;
tenho cinquenta e poucos anos;
estou na segunda adolescência...
RODA MORTA-VIVA
Demétrio Sena, Magé – RJ.
A não ter minha essência preservada,
é melhor não ter nada e nada ser;
estancar os projetos de uma vida;
ter a vida volátil dos insetos...
Se não for como sou, como serei?
Quem terei pra mostrar ao meu espelho,
meu silêncio, meu recanto mais fundo,
pra que o mundo me veja quando olhar?
E não tendo a mim próprio, que teria
para dar ao momento em que me dê
à magia dos relacionamentos?
Não me peçam pra ser conforme a moda,
pra dançar como a roda morta-viva
ou a dança das massas amestradas...
MÁGICO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
É minha magia;
meu grande show:
quando me sinto
ser extinto,
me substituo
por quem sou.
AMOR PROIBIDO
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Sei que nunca entendeste o gostar despojado,
minha fila de olhares e gestos contidos,
a canção do silêncio que vai nas palavras
entre tons comedidos pra conter deslizes...
Nunca tive projetos de me projetar
nessas águas que avisam sobre seu perigo,
fecho tudo comigo e sei me dar sem troco
e me sinto feliz, apesar de não ser...
Sempre fui esse fruto que não colherás,
mas respeito a recusa, quase te agradeço,
quero a paz de te amar sem temer o pior...
Só me deixes fingir que te sinto querer,
que não vais me morder, mas teu olhar me lambe
sem o risco formal de machucar o mundo...
SONETO SURTO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
És meu lado perverso, escuridão,
minha parte sinistra e venenosa,
distorcida, manchada e sem perdão;
lado espinho mortal de minha rosa...
Quem azeda o poema, faz a prosa
se perder nos umbrais do coração,
quando sou natureza perigosa
numa fuga da própria perdição...
Mas meu lado melhor tem mais espaço;
não estás na magia do compasso
que me rege no tempo habitual...
Minha vida prossegue, traço planos,
em meu lado melhor morreste há anos;
és apenas um surto pontual...
A NAVE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Minha mala está feita, não sei quando vou,
mas a lida está leve; sem tanto a fazer,
só me dar ao prazer de sentir essa brisa
de além-mar, além-chão, além sonhos daqui...
Já deixei de querer o que a vida requer,
desejar o que o mundo promete aos meus olhos,
quero ver a passagem da estrela cadente
que anuncia e desenha o caminho a seguir...
Deixo a mala em seu canto e desfruto das horas;
o que tenho a fazer é deixar que se faça
e tomar uma taça de bebida extra...
Minha nave projeta sinais evidentes;
minhas unhas e os dentes desgarram do chão;
não há pressa nem praça, mas estou aqui...
MEDO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
O seu olhar inocula
em minha força vencida,
uma paixão incontida;
a maluquês de quem pula
em um abismo sem fim...
você me dá medo de mim.
CARA COROA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Hoje quero mostrar meu rosto interno;
minha cara coroa inusitada,
pra quem nada supõe a meu respeito
nem respeita o que lê na minha capa...
Quero expor o meu eu mais escondido,
seduzir sem os tons de sedução,
encantar seu ouvido e sua entranha;
dar ao seu coração o dom dos olhos...
Abra o livro e consulte minha escrita,
leia toda verdade que lhe conte
ou lhe grite na sombra e no silêncio...
Venho ter o direito a ser quem sou;
ser quem show é recurso que me cansa
sob a dança das expectativas...
PASTO À ALMA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Tenho sono de sonhos que o sono dispensa;
toda minha esperança está mesmo em ter fé
num até, num depois, um presente que venha
pra me dar de presente o futuro esperado...
Quero ter um querer que não caia esvaído,
que se rasgue, se frustre, mas nunca se renda,
não me venda pros medos de não dar em nada,
pois viver e seguir terão sido meu tudo...
Sonho ter com que sonhe sem ter que acertar,
sem nem ter que acordar para ver no que deu,
bastará ter sentido a sensação do sonho...
De sonhar acordado é que durmo sereno;
merecer minhas noites dá feno aos meus dias,
porque sei que outro dia refaz o percurso...
AQUELE QUERER
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Tenho fome das fomes que já tive,
minha sede de antes me dá sede,
pois a rede repousa o corpo inerte,
mas me cansa o sossego indefinido...
Sinto falta de abismos e vertigens,
muita falta das faltas que não sinto,
minto a esmo verdades inventadas
sobre como alcancei a minha paz...
Quero aquele querer sem tino e prumo,
retomar incertezas do passado
para mais uma vez não ter futuro...
Meu escuro e meus saltos desmedidos,
minhas cismas e o velho desconforto;
este porto seguro é fim de linha...
PECADO SACROSSANTO
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Foste minha versão de afeto extremo
sem extremos dos quais me arrepender,
nau e remo num mar de calmarias
anti-ouvidos, olhares e suspeitas...
Minha cega esperança em colo amigo,
confiança irrestrita e desarmada,
meu antigo segredo sempre novo;
emoção que o silêncio manteria...
Um ingênuo pecado sacrossanto
entre gestos contidos, conscientes
das correntes e cercas abstratas...
Eras minha saudade do futuro
em um porto seguro que não tive,
mesmo assim ancorei minha ilusão...
MINHA HORA
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Quero murchar
feito planta,
com os meus tumores,
humores e amores,
meus nós na garganta...
Fluir em silêncio
e desaguar
como um rio,
levando meus medos,
coragens, segredos,
meu por um fio...
Não serei retalhado
nem remendado,
cheio de nó,
pois quero secar
naturalmente
até virar pó...
Sorrirei de completo,
de ter vivido
a minha hora,
feliz de saber
que fui por dentro
e serei por fora...
MINHA VEZ
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Tua vez de sentir a minha falta;
minha voz de calar a tua vez;
meu amor já não salta no meu pulso
nem me sinto roer de solidão...
Desta vez doerá bem mais em ti;
esta voz que viveu de te chamar
morre aqui, se desfaz em meu cansaço
e no mar da esperança dissolvida...
Não é caso de amor que desexiste,
mas que tanto esperou que adormeceu,
de tão triste deixou de se sentir...
Minha voz de Saara pros teus gritos;
tua vez de chamar quem ficou mudo
para mitos de amores que se bastam...
A VIAGEM
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Se eu pudesse voltar na mesma casca,
repetir minha mãe, esposa, filhas,
ter os mesmos irmãos; nem um a menos;
caminhar estas milhas que já fiz...
E tivesse de novo alguns amigos,
outros não; mais por eles que por mim;
as escolhas que tive pra fazer,
cada sim, cada não nas mesmas rodas...
Partiria feliz pra reciclagem,
se tivesse a certeza de voltar
à viagem que nunca mereci...
Refaria os percursos e projetos
sem ferir os afetos, os nem tanto
e trocar tantas mágoas evitáveis...
REFORMAS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Tenho tido este sonho de nascer de novo,
sem perder minha essência, mas podar bastante;
serei menos distante pra quem me rodeia,
me darei de presença como fiz tão pouco...
Vejo meu horizonte afunilar a vista,
já não temo a certeza de que nada sei,
sigo a lei do silêncio que o futuro impõe
às perguntas dispersas do meu coração...
Só os passos refeitos poderão repor
os efeitos, a cor e a chama das horas;
preencher o vazio que se abriu em mim...
Tenho tanta esperança de voltar da ida;
uma vida foi pouco pra me construir;
quero ser o que sou, mas com muitas reformas...
SOLIDEZ DE SOLIDÃO
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Percebi que a saudade só é minha,
só meu peito está dentro desse abismo,
sou mais só do que a linha do horizonte
ou a ponte que acaba sobre o nada...
Tenho a calma tristonha do leão
numa jaula de circo clandestino,
solidão é tão sólida que a tomo
e me faço menino em seu regaço...
Recolhi as lembranças para mim,
foi assim que arquivei as esperanças
nas estantes do sonho que morreu...
O amor foi só meu desde o começo,
foi o preço de crer nos olhos vagos
de quem nunca os usou num “eu te amo”...
UM QUASE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
És a minha pendência mais remota,
uma vaga na fila dos meus anos,
minha nota mais tênue de pesar
por um belo momento não vivido...
Mesmo assim és lembrança terna e grata,
porque tive paixão correspondida,
mas a vida mostrava o julgamento
pelo qual não seríamos poupados...
Há um quase que ainda me consola,
um luar que preserva sua fase
neste sonho que sabe o quanto é sonho...
A minh´alma transporta nostalgia
desse dia que as noites perpetuam
semeando saudades do futuro...
