Poemas de quem Deu um Fora
A Minha Voz No Vento
Eu solto a minha voz no vento
E deixo ela ser levada pra longe
Pra que ela vá de encontro
Ao teu sofrimento
Isolados em terra de monge
Eu solto a minha voz no vento
Como quem solta por ai
Algum pensamento
Na ponta da lingua
Um amor ciumento
E de tanto ser assim
Muitas vezes até cai
Só não morre a míngua
Porque tem documento
E o amor não é assim
Um ser lazarento
Quando eu solto
A minha voz no vento
É como quem dar mil saltos
E perde a noção do tempo
Na pressa eu já calço
Os sapatos
Pra dar chute na cara
De alguns ratos
Quando insistirem
No meu encalço
E se mesmo assim
Eles resistirem
No seu pescoço
Eu faço um laço
Depois amarro e dou um nó
E faço isso com um cadarço
Pois quando eu solto
A minha voz no vento
Eu também me revolto
E brigo pelo movimento
Mas se tu é meu amigo
E tem sentimento
Eu te dou o meu abraço
Pra que faça dele o teu abrigo.
Casaco Marrom
Ainda lembro
Daquele casaco marrom
Todo em mosaico
E sujo de batom
E quando eu usava
Ficava parecendo um atum
Mas todo mundo me aturava
E achava aquilo
Tudo muito comum
Todo mundo queria me ver
Como antes nunca se quis
Todo mundo via o casaco
Como antes nunca se viu
Assim fazia essa essa gente
Sempre que me vestia
Aquele casaco marrom
E não queria nem saber
Se pra quem sorria tava bom
E se o tempo tava quente
Ou fazia muito frio
Se a estrada era aquela
Que já não levava a lugar nenhum.
O Canto Da Sereia
Os meus passos
Eu deixo na areia
Pra que homens devassos
Não roubem o canto da sereia
Pois a minha presença
A eles faz pirraça
E quando eles caiem na cachaça
Assinam logo a sua sentença
Os meus passos
Se apagam com o vento
Mas não há tempo que apaga
Cada passo do meu sentimento
Pois a minha marca
Eu deixo no chão
Mas tudo que eu sinto
É guardado no coração
Os meus passos
Eu deixo no ar
Quando eu soubo
Em cima da árvore
E o vento me joga no mar
E quando eu piso
Na pedra de mármore
Eu vejo o mundo rodar
E todo que é riso mudar de lugar
Eu me rasgo na cerca de arame
Pois sou mais liso do que sabão
E quando eu soubo nesse tatame
Sempre me jogam de cara no chão.
Abutre
Você mentiu
E dissimulou
Nada você sentiu
E logo me condenou
Querendo cobrar em mim
Sempre um bom respeito
E logo eu percebi
Que isso era o fim
Porque há muito tempo você
Já havia perdido esse direito
De exigir o que nunca deu
E tentar ressuscitar em mim
Aquilo que nunca morreu
Você magoou o meu coração
E toda esperança que eu tinha
Fez eu perder a ilusão
E tudo que lá dentro continha
Amassou todos os meus sonhos
Como se eles fossem latinha
Você passou por cima de mim
Como se fosse um caminhão
Que recolhe detritos no jardim
Pra levar depois ao lixão.
Amigo
Amigo é jornada
Que não se cansa
E quando chora na madrugada
Tem sempre a mão
Que nos alcança
Pra nos levantar do chão
Quando cair feito criança
Amigo nunca perde a esperança
É distância que não separa
Pois ele estar sempre vivo
Em nossa lembrança
E mesmo longe ele nos ampara
Amigo é a palavra mais certa
Uma espécie de abrigo
E um sinal de alerta
Quando vem a dor de umbigo
E a nossa mão ele aperta
Amigo é o sentimento mais certo
Talvez o mais o puro
E também o mais antigo
Quando estamos em apuros
E quando vem o perigo.
Ademanes
Quando o meu sorriso
Não te disser mais nada
Talvez as minhas lágrimas
Possam te dizer
Tudo que eu tenho
Aqui dentro guardado
E guardei só pra você
Quando o meu olhar
Não te disser mais nada
Talvez a minha boca
Possa te mostrar
A sede que ela tem guardada
É de secar uma nascente
Ou morrer afogada
Quando o meu jeito
Não representar
Eu te apresento
Um outro jeito
Onde a gente possa fazer direito
E de uma vez se ajeitar
Sem olhar os nossos defeitos
Pois eles são de arrepiar
Mas tudo é questão de conceito
E um dia pode mudar
No amor a gente pensa primeiro
Porque é coisa
Que vem do coração
É fogo que arde certeiro
E não cabe na palma da mão
É voz que não cala o dia inteiro
E quando fala tem sempre razão.
O Nosso Nascimento
A luta começa
Desde o nosso nascimento
Quando ainda nem temos idade
E começa aquele sofrimento
Nos sofrendo pra nascer
Pra buscar felicidade
E lutando pra vencer
Pra ser feliz de verdade
Mas pra isso acontecer
Ainda há muito o que fazer
É preciso muito luta
Pra ver tudo florescer
Muita mãe ainda chora
Pra ver seu filho nascer
Algumas tão cedo vai embora
E não ver o seu filho crescer
A nossa luta começa tão cedo
E a nossa mãe a gente faz padecer
E sem querer a gente
Faz a ela tanto medo
Pois logo ela se desespera
Achando que seu filho
Não vai nascer.
Condição
Se quiser correr
Que seja só pra me ver
Se quiser me prender
Que seja no laço
Do teu abraço
Pra que eu fique
De rosto colado
E bem grudado em você
Se quiser me vencer
Que seja com teu amor
E se quiser me enlouquecer
Tire primeiro essa dor
Que fica martelando no peito
E vai do meu lado esquerdo
Direto ao lado direito
Traga pra mim
O teu olhar
Com aqueles mesmos
Olhos de sempre
E quando me olhavam
Eu arrepiava
A sua boca eu logo beijava
E do seu corpo eu ficava afim
Traga pra mim aquela boca
Tão cheia de batom
Onde sempre eu me escondia
E fazia dela a minha toca
Isso é que era alegria
E não tinha nada tão bom.
Fadiga
Já não dar mais pra seguir
A mesma estrada sorrindo
Já não vou mais conseguir
Com tanto chão se abrindo
Eu já não tenho tantas pernas
E nem fé que a vida seja eterna
Eu vi tudo que é luz apagar
E fiquei perdido no ar
E quando olhei pra o lado
Nenhuma lanterna
Eu vi pra mim clarear
A minha vida é uma ciranda
Que roda dia e noite sem parar
Mais alto fala é quem manda
E besta é quem cala
E para pra escutar
Eu já não tenho o mesmo rojão
Que antes eu pensava que tinha
Quando acabava a farinha
E na mesa faltava o pão
Quando infeliz
Era o inimigo que vinha
E eu mandava pra longe
Ir enfrentar a multidão
Pra que ela te desse sal e açúcar
Pra adoçar a sua vida
Ou salgar de vez o seu coração
Eu já não tenho a mesma amizade
Pra quem me deixou
Em pé no portão
Questionando a minha igualdade
E sobretudo a minha condição
Como se eu e você
Não fossemos tudo igual
Feitos de carne e osso
Uma espécie de doce
Vindo da mesma fruta
E fabricado no mesmo quintal.
Frutos Do Amor
O amor é fruto
Do que não se furta
É pedra bruta
A se lapidar
O amor é o fim de toda canceira
E também da triste labuta
O amor sempre corre da feiticeira
E sabe que a luta não é passageira
O amor quer sempre acordar
E ter você do seu lado
Por isso não mede palavras
E nem gasta com besteira
Com ele não tem demora
Por isso já não pode esperar
Que tanto sentimento
Se perca no ar
Virando uma cordilheira
E na boca permanecendo calado.
O Frio Da Noite
Deixa eu tocar o meu tambor
Pra encantar o amor
E espantar essa dor
Que bole e remexe por dentro
Acompanhando
O tic, tac do despertador
Deixa eu tocar o meu tambor
Nessa noite fria
De coração gelado
Quero fazer do seu corpo
O meu cobertor
Como se a gente fosse namorado
Deixa eu tocar o meu tambor
Olhando dentro dos seus olhos
Pra te mostrar a batalha
Travada por um sofredor
De mão, braço
E perna amarrada
Congelado no breu
E no frio da madrugada.
Três Caminhos
O que não se sonha
O que não se vê
O que não se sente
O que não se ganha
É fogo apagado
É mente esquecida
Quando não se crê
Ou não se pressente
Já meio perdida
E quase ausente
Por estar descontente
Não se dar por vencida
E vê tudo acabado
Entre eu e você,
E a vida da gente
Não há fogo na palha
Nem nó na gravata
Pra o corte tem a navalha
E pra o calor a camisa é regata
Quem não ajuda
Também não atrapalha
Vem de bermuda
Mas não banca o canalha
Porque a vida te derruba
E te põe numa cangalha
A vida te mostra
Sempre três caminhos
Aquele que é certo
Aquele que é perto
E aquele que é longe
Apenas um caminho
Você vai trilhar
Escolhendo o caminho mais longo
Você demora chegar
Mas quando você chega
Lhe satisfaz
Ao contrário
Do caminho mais curto
Tão logo você chega
Mas a vida te faz voltar
Pra buscar o que se escondeu
Quando quis trapacear
Sem subir nenhuma ladeira
E sem ver tudo escurecer
Achou que estava a passear
E levou tudo na brincadeira
A vida é uma escola
E te ensina muito bem
Corda por corda
Como tocar a viola
E que a nota de cem
Vinda do marajá
Vale muito menos
Que a nota de dez
Que um coração
Te dar de esmola
A vida te ensina princípios
Que nenhum município
É capaz de ensinar
A vida é um livro de sonhos
E quem não seguir
Os seus ensinamentos
Tão cedo perdarar sua vida
E todos os seus sonhos
Serão jogados no precipício.
Idílio
Como é bom sentir o cheiro
Doce de terra molhada
Junto aquele aroma
Que vem do canteiro
Remetendo a mim
Á vida passada
Em tudo que um dia
Eu já fui o primeiro
Junto á aquela beleza
De um campo todo florido
Onde sempre eu tenho corrido
Atrás daquela primavera
Que sempre deixava cair
A mais linda rosa no chão
E como se fosse uma bola
Eu pegava e segurava com a mão
Como é bom acordar de manhã
Ouvindo o cantar dos passarinhos
Pra mim já não existe o amanhã
Nem outras vidas que mostre
Esse mesmo caminho
Com aquele aroma do café
Que exala sempre
Onde você estiver
Eu não troco essa vida por nada
Nem que eu tenha
Que beber de colher
Toda a água que vem da chuva
Em uma noite de invernada.
Escachar
Ninguém é feliz aqui
Por muito tempo
Há sempre uma vida que junta
E outra que separa
Há sempre uma luz que acende
E outra que apaga
Ninguém é feliz aqui
Por muito tempo
Há sempre uma gente que rir
E outra gente que chora
Há sempre uma saudade a insistir
Quando alguém vai embora
Ninguém é feliz aqui
Por muito tempo
Há sempre uma estrada que abre
E outra que fecha
Há sempre quem joga uma pedra
Ou te atira uma flecha
Ninguém é feliz aqui
Por muito tempo
Há sempre quem faz tudo sozinho
E aquele que precisa de ajuda
Há sempre quem abre o caminho
Mas precisa se benzer com arruda.
O Brilho Da Lua
Eu vejo uma lua prateada
Tão cheia de vida
E bem animada
E quando ela brilha
Parecem dois faróis
Nos olhos da moça
Quando estar apaixonada
Eu vejo uma lua refletida na louça
E dois caracóis
Perdidos na trilha
Um se aquecendo
Com dois lençóis
E o outro em forma de colosso
Brilhando mais que o dente
Daquele cão
Quando morde o osso
O brilho da lua
Não conhece
Olhar tristonho
Ela brilha mais
Que sonho de moço
Quando ele vai pra rua
E o seu caminho ele tece
Dizendo querer sempre mais
E assim como um bom caminho
O seu brilho a gente merece.
Tempos..
Tempos de guerra!
Tempos de dor!
Tempos de revolução!
Tempos com menos amor!
Tempos bandidos!
Tempos ruins!
Tempos finais!
Ou tempos sem fim ?
Tempos de lamentações!
Tempos de brigas!
Tempos de indignações!
Tempos de partidas!
Tempo ao tempo..
E pouco temos pra pensar!
Quanto tempo sofrendo ?
Quanto tempo temos que caminhar?
Abstinência
Sinto a tua falta do lado da cama.
Saudade da tua voz dizendo que me ama.
O cheiro do perfume em meu travesseiro.
Dos toques e entrelaço de pernas e dedos.
QUE SERIA DE MIM?
Que seria de mim?
Se não fosse o teu olhar
de misericórdia...
Se não fosse o doce da tua palavra
para atenuar o amargo do meu fel.
Que seria de mim?
Se o prazer na tua Lei me faltasse,
e se a tua vontade não se cumprisse em meu querer...
Se eu não pudesse contemplar
o teu sorriso de felicidade, com o meu proceder
Que seria de mim?
Se a vida não me desse à oportunidade,
e o prazer de estar ligado em teu corpo...
Se no meu caminhar, me perdesse
no labirinto da ilusão.
Que seria de mim?
Se a minha busca por ti
fosse em vão;
e minh’alma cansada,
não alcançasse o perdão...
Se não me aceitasse como um dos teus filhos;
e, se eu,não o reconheceste como Pai.
Que seria de mim?
Se não fosse o teu imensurável amor...
E o teu sacrifício por mim
- 25.07.15
DESEJO
Navalhas em beijos recorrentes,
Hipotálamo como ouro na bateia,
e bocas com óvulos fecundantes.
O rio em seu percurso,serpenteia,
e o solo sempre,sempre anseia:
Que a cócega amoleça o breu da noite,
para quebrar a inércia da semente.
- 24.07.15
Você podia ter sido meu chão... mas escolheu ser meu céu.
O chão me manter firme, me apara em minhas quedas. Nele eu enterro o passado e cultivo o futuro. Creio meu alicerce, me torno forte...
O céu... É bonito algumas vezes, mas só serve pra ser admirado e a maioria das vezes ignorado.
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