Poemas de Memória
A memória é pássaro que pousa em qualquer janela. Quando pousa, canta e revela céu. Algumas músicas me levam a lugares que nem sei nomear. Elas nascem de saudade e terminam em consolo. E eu as coleciono como quem junta estrelas.
Minha infância ainda soluça em algum sótão da memória. Peço perdão ao menino que fui por não ter sido o herói que ele esperava.
Viver é equilibrar-se no fio da navalha entre a memória que nos prende e a esperança que nos puxa, tentando não cortar os pés enquanto caminhamos em direção a um futuro que nunca promete nada, mas que nos seduz com a possibilidade de um novo amanhecer.
O Primevo nunca nasce nem morre. Precede o tempo, sobrevive à memória e permanece indiferente às metamorfoses da identidade. Apenas aguarda o instante em que as máscaras se enfraquecem para recordar ao homem aquilo que jamais deixou de ser.
Cada osso guarda uma memória mais antiga que a própria história. O Primevo não habita apenas a alma; sedimentou-se na carne, nos nervos, no sangue e na arquitetura silenciosa do corpo. Antes que a consciência aprendesse a pensar, o corpo já sabia sobreviver, temer, desejar e recordar. Há memórias que jamais passaram pela linguagem, porque foram inscritas na matéria muito antes de existirem palavras para descrevê-las.
A memória é um espelho quebrado que reflete não o que fomos, mas o que tememos que sejamos. Cada gesto carregado de intenção deixa rastros invisíveis, e o mundo, indiferente, coleciona-os como quem guarda cinzas frias. No fundo, toda presença é sombra de ausência, e toda certeza, prelúdio de um silêncio que ninguém ousa ouvir.
A memória não guarda fatos, mas cicatrizes; cada lembrança é uma ferida reorganizada em narrativa, e quanto mais a repetimos, mais nos afastamos da verdade e mais nos aproximamos do mito íntimo que nos sustenta.
O tempo esmaga com delicadeza cruel: cada memória se desfaz, cada esperança se dobra, e no espaço entre o que fomos e o que seremos, o vazio se revela como o único companheiro fiel.
Há algo anterior ao nome, ao trauma e à memória — o PRIMEVO — onde a alma não se explica, apenas pulsa. É desse território que brotam as neuroses, não como falhas, mas como mensagens mal traduzidas do fundo arcaico que insiste em existir. Quando a consciência tenta domesticar o PRIMEVO, nasce o sintoma; quando aprende a escutá-lo, nasce o sentido. Toda cura começa no instante em que o ser aceita que não é senhor da própria origem, apenas intérprete tardio de um chamado antigo.
A memória não é arquivo — é seleção inconsciente daquilo que ainda não foi elaborado. O aparato psíquico não retém o que passou: retém o que insiste, o que retorna em busca de sentido que não encontrou, o que permanece aberto como ferida que nunca cicatrizou por completo. Lembrar não é revisitar — é testemunhar o retorno do recalcado que, sob a forma de imagem, afeto ou sintoma, continua reclamando o trabalho psíquico que lhe foi negado. A memória, portanto, não fala do passado: fala do que, no passado, ainda não terminou de acontecer.
“Reavivar na memória as situações tristes e dolorosas da vida pode fazer-nos pensar que já não vale a pena viver.”
Daniel Perato Furucuto
“O Direito é a memória institucional das sociedades sobre aquilo que elas decidiram não permitir novamente.”
Duas coisas deixamos registradas na memória dos outros: a palavra e o humor -
digo os conselhos e as boas gargalhadas
Amar de verdade é consentir em ser o esquecimento de quem foi a nossa maior memória. É entender que o desfecho não anula o que foi vivido; o amor legítimo não exige permanência, ele se transforma na renúncia absoluta de quem prefere ver o outro voar em céus alheios a trancá-lo na gaiola da nossa própria solidão.
- Relacionados
- Poemas de Lembranças
- Memória de Carlos Drummond de Andrade
- 37 poemas sobre o tempo para pensar na passagem dos dias
- Poemas de Mario de Andrade
- Frases de saudades de quem morreu para manter viva a sua memória
- Frases para ex-namorado que ainda vive na memória
- Frases de momentos felizes que ficam eternizados na memória
