Poemas de Dor
No final, o que nos salva é ter nome para o que sentimos. Nomear a dor, a alegria, o medo, a graça. Com o nome, a sensação perde um pouco de potência destrutiva. Passa a ser matéria que podemos trabalhar. E assim, transformando linguagem em trato, vamos vivendo.
Continuo. Não porque seja fácil, mas porque a vida, em toda sua dor e beleza, ainda merece a minha presença.
Sou um grito que aprendeu a cadência da respiração. A dor continua lá, mas eu aprendi a caminhar com ela.
Meu maior receio é a domesticação da dor, o dia em que eu parar de estranhá-la e passar a chamá-la de rotina.
Escrever é o meu método de hemorragia controlada: deixo sair a dor para que ela não me mate por dentro.
Exauriu-me a tarefa de legendar minha dor para quem não sabe ler sentimentos. Prefiro o silêncio de quem escreve.
Tenho pavor da apatia. Prefiro a dor que me lembra que estou vivo ao gelo que me protege de sentir qualquer coisa.
Minha dor é um texto longo, cheio de notas de rodapé e silêncios estratégicos que nenhuma frase curta consegue resumir.
Não uso a dor como tema, uso como tinta. É a partir dela que desenho os contornos do que ainda resta de mim.
Há dias em que a existência se manifesta como dor física, cada respiração é um lembrete de que ainda estou na arena.
A dor é o único mestre que nunca mente, ela nos despe de todas as vaidades até que sobre apenas o osso da nossa fragilidade radical.
O mundo exige uma produtividade que minha dor desconhece, pois ela opera em um fuso horário onde o segundo é uma eternidade de esforço apenas para respirar. Sou um desertor dessa guerra pela felicidade compulsória, preferindo a paz de ser apenas um resto de esperança.
Às vezes, o que as pessoas chamam de "cura" é apenas o hábito de carregar a dor sem mancar tanto, um jeito de esconder a deficiência da alma para não incomodar a estética alheia. Eu prefiro mancar abertamente, exibindo minha humanidade defeituosa como uma bandeira de resistência.
Cada lágrima cai como aço incandescente, não é fraqueza, é raiz, é a dor que germina força no deserto da alma.
Transformar dor em combustível é alquimia selvagem, a chama que nasce do abismo, a vida que renasce incendiada pelo próprio sofrimento.
O fim não existe, é apenas o instante em que a dor vira recomeço, quando a queda se converte em força.
Minha alma ergue muralhas invisíveis, mais forte que qualquer dor, abrigo que nenhuma sombra destrói.
