Poema Passei para Deixar um Beijo

Cerca de 314912 frases e pensamentos: Poema Passei para Deixar um Beijo

Tu pega um papel de bala e o teu peito desaba porque lembra do dia exato, do cheiro do perfume dela e da temperatura do vento naquela tarde.

Para qualquer outra pessoa, é lixo; para mim, era a prova material de que o que eu vivi não foi um delírio da minha cabeça.

O telefone virou só um pedaço de vidro e metal que serve pra me lembrar, em alta definição, do tamanho da minha solidão.

Há um ano, a gente estava fazendo planos pro futuro; hoje, eu sou o cara que torce pra essa data passar logo, como quem espera uma tempestade forte passar debaixo de um telhado velho.

A liberdade só é bonita quando é uma escolha tua; quando ela é o resultado de um abandono, ela tem muito mais cara de solidão.

Não tô pronto pra dividir o mesmo aleatório com um fantasma no meio da semana.

Apaguei letra por letra. Devagar, quase com respeito, tipo quem desliga um som que já não devia ter ligado.

Aquele gosto de ‘quase’ entalado, que dói até mais que um ‘não’ de verdade, porque o ‘quase’ fica ali, mofando, esperando uma próxima brecha de fraqueza.

Talvez a gente só se sente do mesmo lado do balcão porque, de um jeito ou de outro, os dois sabemos guardar silêncio quando dói.

O compasso hoje desafinou de um jeito mais quieto, tipo quem finalmente entende que o relógio de verdade não é o meu.

Talvez seja assim mesmo que a coisa funciona. Não é uma porta que fecha de um dia pro outro, é mais um instante aqui, um minuto ali, se somando devagar, sem pedir licença…

Fiquei com vergonha de ter ficado bem por um tempo. Como se esquecer, nem que por meia hora, fosse uma espécie de traição — traição à dor, que já virou quase uma companhia velha.

Quase um reflexo, tipo um músculo que ainda lembra o movimento mesmo depois de parar de usar.

Setenta dias é tempo suficiente pra aprender um idioma novo, pra treinar um corpo diferente, pra plantar uma horta e já colher alguma coisa. E eu, nesse mesmo tempo, aprendi só a beber devagar e a não mandar mensagem.

Cada dia um tijolo, meu, empilhado sem muita lógica, mas de algum jeito formando uma parede que já não desaba tão fácil quanto desabava lá no início.

O compasso hoje não desafinou nem uma vez. Ele só ficou mais lento, tipo música de final de um show longo, quando a plateia já sabe que a noite tá quase acabando, mas ainda quer mais uma música antes de ir embora.

Hoje o brinde é por reconhecer a armadilha antes de cair nela — mesmo sentindo, por um instantinho besta, vontade de cair mesmo assim.

O compasso hoje bateu descompassado de um jeito novo — não de tristeza, nem de raiva. De esperança sem fundamento nenhum, que talvez seja o tipo mais perigoso de todos.

Por um segundo, só um segundo besta, eu senti uma pontada de esperança. Uma esperança idiota, sem pé nem cabeça, do tipo que eu já devia ter aprendido a não alimentar.

"O progresso de um povo não se mede pela pressa de quem sempre teve tudo, mas pela dignidade conquistada por quem não tinha nada."⁠