Poema Passei para Deixar um Beijo

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⁠As Aventuras da Chapeuzinho Crescida ou O Depoimento de um Lobo Domesticado

dos pés à cabeça
quis desejá-la,
da cabeça aos pés
quis absorvê-la.

dos pés à cabeça
quis saboreá-la,
da cabeça aos pés
assim, eu quis tê-la;
entretê-la.

ela me converteu
dos pés à cabeça,
da cabeça aos pés
ela me dominou.

a fera enjaulada
estava abatida,
deixou-se abater,
na fúria incontida.

um conto de fadas
sem nenhum paralelo,
a saliva molhada
num beijo sincero.

foi o filme mais lindo
que jamais filmaram,
o desenho mais vívido
guardado no peito.

foi o sonho mais belo
que nunca sonharam,
o Morango mais doce,
em seu mais doce efeito.

(Michel F.M. - Trilogia Ensaio sobre a Distração - 29/10/23)

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⁠Outro Evento de Extinção
Neste Pequenino Orbe Azul

você implodiu a minha vida
de um jeito diferente,
e se eu tivesse
uma máquina do tempo,
faria tudo do mesmo jeito,
exatamente.

porque apesar de toda vida,
nalgum momento chegar ao fim,
nesta pequenez valiosa,
até mesmo as tuas moléculas
brilharam para mim.

e assim sobrevivemos
ao inverno nuclear,
afinal, os corpos celestes
queimam tudo ao seu redor,
antes de acabar.

(Michel F.M. - Trilogia Ensaio sobre a Distração - 31/10/23)

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⁠Um Cataclisma de Cada Vez

a vida adulta
é um gigante tão cruel,
mas há beleza
mesmo nesta batalha terrível.

me conte em detalhes,
as utopias que tem colecionado.
relate a mim, os devaneios
tantos que armazenaste.

coloridas quimeras
e fabulação,
a fantasmagoria
das fantásticas ficções
fantasiosas.

pois sou desprovido
de imaginação,
um reles sonhador
desmemoriado,

que em sua jornada
desesperada pelos sonhos,
ainda não aprendeu a sonhar.

(Michel F.M. - Trilogia Ensaio sobre a Distração - 05/11/23)

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⁠[De um biscoito da sorte
encontrado na sarjeta]

se foram
quase todos os tipos.

você já tentou
com o tipo namorado.
já tentou com o tipo marido.

com aqueles
que juraram fidelidade
e comprometimento.

e chegamos até aqui.
mas, há algo inédito.

que tal, tentar com o poeta.
sem compromissos
ou arrependimentos.

ele vai te amar
apaixonadamente,
como nenhum outro
jamais poderia.

mas sem vínculos
convencionais.
sem alianças ou papéis,
sem contratos ou convidados.

sem promessas.

só o poeta, você
e toda a poesia
que puder suportar.

(Michel F.M. - Trilogia Ensaio sobre a Distração - 05/11/23)

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[⁠Ensaio sobre os Motivos]

muitas coisas ruins
foram feitas
em nome de um bem maior.
mas ele nunca chega,
não é ?!
o bem maior,
nunca chega.

(Michel F.M. - Trilogia Ensaio sobre a Distração - 05/11/23)

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⁠se torna impossível controlar
um elemento concebido
pelo fogo,

advindo deste único
propósito,
nascido para queimar.

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⁠Em um Império remoto,
Longe de qualquer progresso,
Imperava um Imperador,
Temido por seus excessos.

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⁠Nos registros do reinado
Anotava-se um prefácio,
A paixão de um sangue azul
Pela empregada do palácio.

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⁠O Imperador Pirou,
se fez de camponês,
Um barril de rum bebeu,
rasgou seu manto em três,

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⁠Uma bomba relógio
Dentro de um petroleiro,
Com prazo vencido
E contagem agressiva esgotada.

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⁠Sou um incomodado,
Perito em contradição,
Especialista em constrangimento.

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⁠Existe o que sempre existiu,
Um parto trágico e impreciso,
Temporadas no calabouço febril,
Equilibrando na ala do improviso.

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⁠Aspirante a Vilão

Berto se revoltou completamente ontem, um surto capaz de mudar toda a sua trajetória até então, mas ele não mudou. Era imutável, era fechado, era Berto. Pediu demissão de mais um emprego entre inúmeros no último ano, eremita insaciável, insatisfeito, inconsolado. Mandou seu superior pro inferno, engolia ofensas há meses, Berto não nasceu para se submeter, era insubmetível. Jogou uma caixa de arquivos na cara do canalha, que lhe ordenava ordens insensatas, um cretino munido de idiotices hierárquicas.

Berto virou um demônio e pediu a Deus que lhe desse discernimento, para não cometer ali uma atrocidade. Aquela saleta fedia uma loção barata e desodorante vencido, misturado com cheiro de banheiro e desinfetante caseiro. Divisórias mofas exerciam sua tarefa mal sucedida de serem repartições, isolando os ambientes, descumprindo a missão de ocultarem as conversas em voz alta e os berros exaltados de chefes e subordinados neuróticos e estressados.

Aquele bairro tinha se tornado uma grande privada satélite, anexada ao centro velho e abandonado da cidade, um território esquecido por seres civilizados, antro supremo das mais relevantes categorias do tráfico, drogas, armas, contrabandos e piratarias de todos os gêneros imagináveis, prostituição. O lar do crime rigorosamente organizado, refúgio de marginais, imigrantes, putas, travecos, ligeiras, minorias, desempregados, miseráveis e mais miseráreis, mas nenhum culpado.

Dizer que não é fácil ser honesto no paraíso dos corruptos seria inocência demais, honestidade e dignidade não existem, são basicamente impossíveis de serem praticadas, num lugar como este. O próprio ar em si é corrompível, as ruas não alimentam o crime, o crime alimenta as ruas, sem ele não há forma de vida aqui; e ninguém é culpado.

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⁠Na Temível Batalha de um Só contra Si,
Intimamente confrontado, vê o que vi,
Culposamente inocente, lê o que li,
Despovoado está;
Só está em Si.

Está Só em Si,
Na Temível Batalha de um Só contra Si.

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⁠A Temível Batalha de um Só contra Si

Os Relacionamentos cristalinos,
São Turvos como as profundezas,
O Forasteiro é baleado sem motivos,
Os Pretextos comprovam incertezas.

Surge migrando como uma gaivota,
O Enraizado patriota, peregrino.
Gigantesco, porte-médio, pequenino,
Estrangeiro perto de ser recebido,
Fatalmente banido, bandido.

Nem tudo precisa rimar,
Nem tudo precisa fazer sentido,
Mas tudo precisa ser escrito,
Como se tudo fosse aquilo.

Na Temível Batalha de um Só contra Si,
Intimamente confrontado, vê o que vi,
Culposamente inocente, lê o que li,
Despovoado está;
Só está em Si.

Está Só em Si,
Na Temível Batalha de um Só contra Si.

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⁠No fundo ainda sou aquele garoto,
Que sonhava em ser herói,
Salvar a ninfa, abater o nefasto,
Um garoto com um hobby que não dói.

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⁠O heroísmo me levou a um cortiço,
Afastado, mal localizado, onde me entoco.
Pago aluguel do buraco,
Prestes a ser interditado,
Saio ou serei despejado.

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⁠O contrário de deslumbrante,
Até que seria um título instigante:
“O mito que o mundo não conheceu”
Ele não viveu feliz para sempre, mas viveu.

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⁠Sete é um número forte,
Fui ele durante as chamadas;
A Professora lia, eu respondia presente,
Me chamava atenção suas requebradas.

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⁠Meramente Mafuá

Sete é um número forte,
Fui ele durante as chamadas;
A Professora lia, eu respondia presente,
Me chamava atenção suas requebradas.

Sedução adolescente ou recordação recortada,
Recordo os apelidos e palmas nas conclusões,
Lembro antes das palmadas pelas malcriações.
Senhorita apalpada atrás da sala, colo e acolá.

Aprendizados presos aos costumes,
Acostumado com repreensões.
Abandonado por falta de ciúmes,
Quem compreende compulsões ?

Obrigado ao constrangimento,
Sou grato pelas humilhações;
A difícil fase, face ao descontentamento,
Cria e resolve as perseguições.
E criará...

Nicotina pra quem não fuma,
Barulho pros que dormem,
Trânsito pra quem apressa,
Obediência na desordem.

Fartura sem fortuna,
Firula sem fratura,
Conferindo o ferro que fere,
Ferindo a fé que confere.

Confete é o que há,
Só o que há.
Sol que arde há.
Meramente Mafuá.

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