Poema Passei para Deixar um Beijo
*Sede de nome*
Um homem apaixonado é diferente
desaprende a mastigar o dia
troca o prato pelo copo
e a fome vira silêncio.
Não come, não dorme direito
só bebe o tempo pensando nela
cada gole é uma tentativa torta
de afogar o que não sai do peito
Mas a sede não passa, só muda de estado,
desce amarga, volta em saudade
e no fundo do copo vazio,
ainda mora o rosto que ele jamais esquece.
Cuidado que essa conta é cara
e não vem só em real no papel,
vem em manhã seguinte
com o nome dela intacto na sombra da parede do quarto.
(Saul Beleza)
*Maluquice autorizada*
Hoje meu juízo tirou folga
e deixou a chave com um grilo
que toca guitarra no meu cérebro
usando fios de macarrão.
O sol me mandou um bilhete
escrito em língua de girafa
dizia "vem brincar de nuvem"
e eu fui, de pijama e guarda-chuva.
Os ponteiros do relógio
fizeram greve por mais alguns segundos,
agora o tempo anda de patinete
cantando funk pro calendário.
Meu café levantou sozinho,
foi dar bom dia pra torradeira,
o pão respondeu com poesia
e a manteiga virou plateia.
Se a sanidade bater na porta
finge que eu mudei de planeta,
tô ocupado sendo astronauta
no espaço entre dois pensamentos, um em Goiás e outro no Mato grosso tomando sopa de osso.
(Saul Beleza)
*Saudade Perfumada*
A casa limpa e perfumada,
mas existe um cantinho que não se dissimula.
O pano passou,
a vassoura dançou,
só não tirou
o cheiro que você deixou.
Vem, o sono ainda te espera.
Na cama feita, na luz que acalma,
teu espaço mora aqui,
intacto, na casa e na alma que quer sonhar ao teu lado.
(Saul Beleza)
casa limpa, cheiro bom no ar e um vazio que só você preenche.
A orquídea negra do lençol ainda disfarça, mas não engana. O perfume que ficou na casa é você, e nenhum outro vai substituir.
Vem dormir. O sono te espera aqui do lado, junto com esse cheiro que insiste em ficar.
(Saul Beleza)
*Sem Cobrança*
Não me cobre um sorriso
pra alegrar tua alma.
Sorriso de encomenda
nasce torto, sem calma.
Tudo que não se conhece
é bonito, dá encanto.
Não tem marca, não tem peso,
não carrega o meu pranto.
Mas o que eu já conheço
tem raiz e tem espinho.
É feio de tão doído,
é lindo de ter tido caminho.
Então me deixa quieto
se hoje a boca não ri.
Silêncio também é casa
de tudo que já vivi.
Não me peça flor aberta
se por dentro é temporal.
Eu te dou minha verdade:
às vezes, só ser real.
(Saul Beleza)
*Ciclo*
Quando o fim é um começo
Fim da manhã, fim da tarde
Fim da noite, fim da madrugada
E tudo recomeça
Começo do dia, começo da tarde
Começo da noite, começo da madrugada
Tudo se renova a cada fim
Assim sou eu
Perto de ti
Termino em calma
Recomeço em ti
Sou fim que espera
Sou começo que vai
Todo tempo é pouco
Quando o fim me leva
Pro teu começo
Você transforma hora em poesia. É relógio e é eternidade.
(Saul Beleza)
*Raízes e Asas*
Um sorriso que não esconde a tristeza,
um olhar que busca o infinito
e uma lágrima que escorre
para molhar a semente plantada.
Um futuro que ainda não chegou
e um passado que se faz presente,
raízes e asas no mesmo peito,
esperando a hora de florescer.
Saudade que virou solidão,
palavras que perderam a chance de serem ditas
e promessas que o dia vai nascer
mesmo que a noite insista em não ter fim.
(Saul Beleza)
Não precisamos machucar a alma, não precisamos entender muita coisa. Mas seria bom sentir um carinho, um abraço, ver um sorriso, sentir o acelerar do coração. Pensamentos vão além. Aí um amor começa, e por
um descuido nos apaixonamos.
(Saul Beleza)
*Cavalo de Aço*
Eu sou um cavalo de aço
chamado liberdade.
Relincho contra o vento
e galopo na imensidade.
Minhas crinas são fumaça,
meus cascos batem no céu.
Voou acima das ondas
sem medo de cair no véu.
Lá de cima eu vejo o mar
morrer mansinho na areia,
deixar espuma na praia
como quem despede a cheia.
E eu sigo, livre e selvagem,
sem rédea, sem arreio, sem jaula...
Porque ser livre é isso:
ser aço que não se amarra.
(Saul Beleza)
*É por nós que canto.*
Quando a noite cai e o mundo silencia,
meu peito encontra um motivo pra ser melodia.
Não é acaso, não é sorte, não é dia qualquer —
*é por você que canto*, é por nós dois pra sempre.
E se um dia o vento levar minha voz,
que ela volte no eco e diga: somos nós.
Porque amar é isso, dividir a canção,
e fazer de um "eu" bonito, em um "nós" em oração.
(Saul Beleza)
Quando você chegar
a gente acende a luz baixinha
e dança um forrozinho coladinho
com o dedo na boca, manha e carinho
e no ouvido vai tocar baixinho:
_"tão bom te ver chegar..."_
aí a gente esquece a distância
e só vamos bailar.
(Saul Beleza)
*Último brinde*
Te convido.
Nem que seja para um último brinde.
Levantamos as taças, sem esquecer do contato visual,
não pelos "e se",
mas pelos "foi bom enquanto foi".
Brindo à tua risada,
ao teu jeito de bagunçar meu silêncio,
à loucura boa que você deixou morar em mim.
Que esse brinde feche a porta
sem bater,
e abra janela
pra eu ver lá fora de novo.
Saúde.
À nós que fomos.
À mim que sigo.
(Saul Beleza)
*Estafeta*
Você quer algo sério?
Porque se não quer,
é melhor a gente seguir um rumo.
Não um rumo juntos.
Um rumo cada um pro seu lado.
Eu me apego fácil.
Eu já tô me apegando agora
só de escrever isso.
E isso vai me fazer mal.
Vai me fazer virar boneco de novo,
coleção, diversão.
Eu não quero ser teu quase.
Eu não quero ser teu depois a gente vê.
Então me diz agora, sem soslaio, sem arapuca:
Você quer algo sério?
Se não,
segue tua vida
que eu juro que tento seguir a minha.
Mesmo com a porta encostada.
Mesmo com teu cheiro no travesseiro.
Mesmo sendo nada pra ti.
Eu sigo.
Mas se for pra ficar,
fica direito.
Porque meu coração não sabe ficar pela metade.
Ou ele fica inteiro,
ou ele se quebra inteiro.
(Saul Beleza)
Se quiser
tem um quartinho ali nos fundos,
fique à vontade.
não é o quarto principal,
não tem vista bonita,
mas tem silêncio
e cabe alguém que não quer fazer barulho.
pode deixar suas coisas espalhadas um pouco,
pode chorar baixinho se precisar,
eu já me acostumei com visitas
que ficam pouco.
só tem outra coisa,
quando sair
arrume toda a bagunça,
aquela que você fez,
e aquela que já estava antes de você.
apague as luzes,
feche as janelas,
não deixe cheiro,
não deixe recado na geladeira.
E principalmente,
não esqueça nada,
nenhum casaco,
nenhuma desculpa,
nenhum beijo pela metade.
para que não precise
vir buscar.
porque quem volta pra buscar,
volta pra ficar,
e eu já não sei mais receber mais ninguém.
Não venha me bagunçar de novo.
(Saul Beleza)
Não tenho um amor,
eu tenho uma companhia.
Talvez se fosse amor,
não seria assim.
Estou amando a tua companhia,
e o amor?
Ah, o amor me acompanha
ao teu lado.
(Saul Beleza)
Procura-se um lugar para se esconder.
Às vezes me sinto tão ancho,
tão grande, tão cheio de tudo,
que não me caberia no oceano.
Outras vezes me sinto tão estrecho,
tão pequeno, tão pouco,
que me esconderia
por trás de um grão de areia.
E no meio disso tudo,
eu só procuro um lugar
onde eu caiba inteiro
sem precisar me explicar.
Saul Beleza
Tentei abrir a porta
de um mundo que não era o meu,
forcei a fechadura com a alma,
achei que ali morava o céu.
Entrei descalço, com fé,
achei que era amor,
mas lá dentro não tinha meu nome,
só tinha esplendor que não era pra mim.
Foi tudo ilusão,
um filme lindo que eu criei sozinho.
Eu e você...
dois caminhos bonitos,
mas que nunca se cruzam no fim.
Cada um com seu destino já traçado,
e eu aqui,
aprendendo a fechar portas
que nunca deveriam ter sido abertas.
Saul Beleza
Vou fazer um rango aqui...
Não vai ser um banquete,
sem toalha de linho,
sem taça cara.
Mas vai ter cheiro de casa,
panela chiando,
arroz soltinho.
Será o suficiente
para que eu me sinta um rei.
Rei do meu cantinho,
do meu prato simples,
da minha paz.
(*Saul Beleza*)
Um dia Deus soube de mim.
E agora o que eu faço?
Antes eu andava escondido,
achando que ninguém via minhas quedas.
Agora Ele sabe meu nome,
sabe minha dor,
sabe meu endereço.
Quem é Ele?
É aquele que soube de mim
e mesmo assim ficou.
Não foi embora quando viu meu caos,
não se assustou com meu pranto.
Soube de mim
e me chamou de filho.
E agora o que eu faço?
Agora eu descanso,
porque quem não me esquecia
finalmente me encontrou.
(Saul Beleza)
Não sou um macho na essência da palavra.
Sou tua cia,
alguém que só quer estar contigo,
teu companheiro de sofá,
de riso bobo,
de silêncio bom.
De pescaria, sem pegar nada, de coceira de carrapatos, de coçar tuas costas em altas horas.
Macho eu serei
só na intimidade
que não nos faz mal.
Naquela que nos faz bem,
que nos cuida,
que nos acolhe.
Lá eu sou teu,
inteiro.
Saul Beleza
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