Poema Nao Ame sem Amar
O sofrimento, quando não me destrói, me afina, ele remove excessos e deixa exposta a nota grave que sempre esteve escondida.
Há um tipo de tristeza que não afunda: ela paira, pesada, sobre a rotina, transformando o banal em lembrança de naufrágio.
O que me fere não é apenas perder, mas descobrir que parte de mim já havia se despedido antes de eu perceber.
Existem dias em que o coração não quebra, apenas se torna mais nítido, e essa nitidez dói como luz em olhos cansados.
Aprendi que a dor não pede licença para existir; ela entra, rearranja a casa e, se eu sobreviver, ainda me obriga a agradecer pela mobília que restou.
Quando ninguém me espera, o tempo perde sua educação e mostra que a existência não tem plateia, tem apenas presença.
Há solidões que não expulsam, apenas iluminam o contorno exato daquilo que eu nunca tive coragem de admitir.
O vazio não me assusta quando o reconheço, o que me apavora é a tentativa de preenchê-lo com qualquer coisa que não seja verdade.
A solidão não me roubou; ela retirou o excesso de vozes até sobrar a pergunta que realmente importava.
Voltar ao começo não é caminhar para trás. É ter coragem de encontrar, entre os escombros, a versão de nós mesmos que ficou esperando para ser amada.
O arrependimento é uma espécie de fantasma: não grita, não corre, não ameaça. Apenas senta ao nosso lado nas madrugadas e nos obriga a lembrar.
Às vezes olho para trás e não sinto saudade de quem eu era. Sinto pena. Pena daquele homem que acreditava que a dor tinha um propósito, sem saber que algumas feridas simplesmente acontecem, permanecem e envelhecem conosco.
Minha maior epifania foi perceber que eu não corria de volta ao passado para corrigir meus erros; eu corria para abraçar o menino que ficou perdido lá, acreditando que nunca seria suficiente para ninguém.
Algumas despedidas não terminam quando a porta se fecha; continuam acontecendo dentro de nós por anos, em silêncio, como um inverno que se recusa a partir.
A tragédia de algumas vidas não está no abandono que sofreram, mas na incapacidade de acreditar que ainda podem ser escolhidas.
Existem feridas que não querem ser curadas; querem apenas que alguém reconheça que elas existiram e que doeram mais do que as palavras conseguem contar.
A maior prova de existência não é ser visto, mas continuar íntegro quando ninguém se dispõe a compreender.
Não desperdiço energia discutindo com o inevitável. Transformo cada golpe da existência em matéria-prima para construir uma versão mais sólida de mim mesmo.
