Poema Nao Ame sem Amar
Minhas palavras não buscam salvar o mundo, buscam apenas ser o espelho onde alguém possa se olhar e dizer: "pelo menos não sou o único que se sente assim". A validação da dor alheia é o maior ato de caridade que um escritor pode oferecer ao seu leitor cansado.
Quando olho minhas cicatrizes, percebo que elas não são falhas, mas mapas de lugares onde um dia a minha esperança foi reduzida à poeira e ainda assim se recosturou.
Existir não é um presente é uma condição, e talvez o erro esteja em esperar conforto disso, porque a consciência não foi feita para ser leve, ela foi feita para perceber,
e perceber quase sempre dói.
Há uma diferença entre estar vivo e estar consciente da vida, e eu já não consigo mais separar os dois, porque cada instante carrega uma análise implícita, e, nesse excesso de lucidez, a simplicidade se tornou inacessível.
O vazio não é ausência, é presença sem significado, é estar cercado de tudo e ainda assim não encontrar sentido, e talvez seja isso que mais desgasta, não a dor em si, mas a falta de razão para ela existir.
Pensar é um risco contínuo, porque cada conclusão abre espaço para novas dúvidas, e não existe ponto final nesse processo, apenas pausas temporárias antes de recomeçar.
A consciência não permite descanso completo, porque mesmo no silêncio ela continua ativa, revisando, questionando, reconstruindo, como se existir fosse um trabalho que nunca termina.
Há uma exaustão que não vem do corpo, mas do peso de sustentar pensamentos que não descansam, como se minha mente fosse um tribunal permanente, onde eu sou, ao mesmo tempo, acusado, juiz e sentença.
Há uma solidão que não depende da ausência de pessoas, ela se instala mesmo em meio à presença, porque não é sobre estar acompanhado, é sobre ser compreendido, e isso é algo que raramente acontece de verdade.
O pensamento não resolve a existência, mas torna impossível ignorá-la, e quando se enxerga demais, não há retorno para a ignorância confortável que um dia protegeu.
A dor não chegou de uma vez, ela foi construída, em camadas tão sutis que quase passaram despercebidas, até que um dia percebi que já não era mais o mesmo, mas também não era alguém completamente perdido.
Eu não tenho medo da dor, tenho medo da ausência de sentido, porque sofrer sem direção é como existir no vazio absoluto, e eu já me perdi vezes demais dentro de mim, mas foi nesse labirinto que encontrei pequenas razões para continuar.
A vida não me deu respostas, me deu resistência, e talvez isso seja mais útil do que qualquer explicação, porque entender não muda o que aconteceu, mas resistir muda o que ainda pode acontecer.
Eu não sou forte, eu sou persistente, e existe uma diferença tênue entre os dois, porque a força se esgota, mas a persistência se arrasta, e, mesmo aos pedaços, eu continuo.
A dor me ensinou a falar uma língua que não se aprende em livros, uma língua feita de silêncio, de lágrimas contidas e de gritos que nunca encontraram eco e ainda assim, eu me tornei fluente nela.
A fé não é uma luz constante que ilumina o caminho, mas uma chama frágil que você protege com as mãos enquanto o mundo inteiro sopra contra você.
Ser forte nunca foi sobre não cair, mas sobre levantar com o coração em pedaços e ainda assim acreditar que vale a pena continuar tentando.
A dor não me destruiu, ela me desfez em mil pedaços e foi ali que eu aprendi a me reconstruir de formas que jamais imaginei.
A vida não ficou mais leve, eu que aprendi a carregar o peso com uma dignidade que nasceu do sofrimento.
O sofrimento me atravessou como uma lâmina, mas não encontrou em mim um lugar definitivo para morar.
