Pés
Quando carregamos o peso do passado, ele se torna uma âncora presa aos nossos pés. Ao perceber que estamos sobre as águas do mar da vida, compreendemos duas verdades inevitáveis: podemos escolher manter esse fardo e afundar lentamente nas profundezas de nossas dores e arrependimentos, ou podemos nos libertar dessa carga opressiva, emergindo para a superfície, onde a luz e a liberdade nos aguardam. A decisão de abandonar o passado e ascender é um ato de coragem e redenção, que nos permite respirar novamente e abraçar o presente com plenitude.
Apenas Criança
Pés descalços que sentiam o chão,
Brincadeiras de meninos, meninas e a pureza na mão.
A rua era o nosso reino, o lazer sem fim,
Onde a imaginação brotava como flor no jardim.
Lá, o nada virava tudo, o simples era invenção,
Brinquedos ganhavam forma no centro do coração.
Ganhar um presente era luxo, raridade de um dia,
No aniversário, a caixa aberta era pura euforia.
Vestíamos histórias em roupas de outros carnavais,
Passadas de mão em mão, heranças dos nossos pais.
Mas quando o tecido era novo, guardado com devoção,
Era para os momentos solenes, de grande celebração.
Lembro dos vestidos rodados, rendas e babados ao vento,
Costurados pela mãe, com carinho e sentimento.
Cabelos esvoaçantes, laços presos com cuidado,
Enquanto o joelho trazia o selo do tombo levado.
Marcas de bicicleta, do carrinho de rolimã na ladeira,
Cicatrizes de uma infância vivida inteira.
As pétalas de rosas eram unhas de rainha,
E o lençol no corpo, a mais nobre baianinha.
Eu descia a escada, princesa em meu castelo de pano,
Vivendo mil vidas num só dia, num só plano.
Tinha a amiga imaginária, segredo só meu,
E o cachorro fiel, o protetor que Deus me deu.
Ser criança era assim: um mundo criado do nada,
Onde a felicidade morava na estrada.
(Inspirado nas memórias de Roseli Ribeiro)
Pergunte o que quiser
"Caminho com meus pés firme no chão, jamais andando na contra mão, rumo a tranquilidade e o destino a felicidade".
" A folha que dança no ar
Que vem cair aos teus pés
Que canta ao teu pisar
E não sabe quem Tu és.
A folha que acorda no chão
E procura companhia
A folha que já foi verde
E alegrou teu dia..."
Eis que o mistério encontrou braços de aconchego. Que os pés encontraram o atalho para o caminho certo das tuas pegadas e os traços de suas mãos. A partida agora é figurinha descartada porque me sinto feliz sendo mantida numa direção que ao mesmo tempo me desnorteia no tempo. Não voltava atrás. Mas agora vou lá atrás quase todos os dias relembrar do começo e como é doce recomeçar. Não tem mais jogos, porque jogamos no mesmo time. Chegou meu regimento de leis. Por me manter sempre aquecida, por me fazer sorrir em demasia, por me beijar a anatomia não exata da ciência. Com você meu corpo fala e dá seminário cardíaco porque falamos a mesma língua.
É tão humano escrever sobre conscientização ambiental. Díficil é sustentar essa idéia quando uma pessoa joga o lixo na rua.
Carrego nos pés o frevo que de vez em quando samba. Na minha terra tem carnaval que quase sempre é prévia. Sou das ladeiras que musicaliza beleza. Aqui é festa até domingueira.
Ando de mãos dadas com a liberdade e não abro mão da coragem para ser o que sou. Com os pés descalços enraizo a sabedoria da natureza em meu corpo, mente e espírito. Sou raiz que brota jardim na alma. No encanto do sentir, sou magia e mistério do luar com escritos nas estrelas.
Tenho fases de fazer minguar meu canto, tenho fases de me deixar luz crescente e vibrante, tenho fases de me renovar, tenho fases de me encher e ser cheia do que eu transbordo. Porque só posso ser o que sou. Apogeu e perigeu, breu e luz, mistério e ciência, razão e emoção.
Caminho com o vento seguindo a voz do coração, contemplando os horizontes da vida. A água me cura, protege e abençoa. O fogo me ilumina, consagra e acende a chama da vida. O ar liberta e transforma. A terra firma, energiza, e fortalece. Porque sou a morada do sagrado. Sou o universo dentro de mim.
Quando foi?
Quando foi que você olhou para seus pés
enquanto caminhava,
e viu exatamente por onde pisava?
Que enxergou uma planta
que sempre esteve na porta da sua casa
mas nunca teve sua atenção?
Quando foi a última vez que
tocou por algumas coisas
enquanto caminhava,
assim como fazia quando era criança?
Que olhou para o céu,
não para saber se estava nublado,
mas, só quis ver o que se passa acima de você?
Que puxou ar prolongado,
não porque estava ofegante,
não porque queria ter mais paciência,
não porque precisava controlar
o que diria em seguida,
mas porque queria sentir a sensação da vida
preencher seus pulmões?
Quando foi que parou
de ensaiar pensamentos no banho,
e apenas deixou a água banhar
suas dores e levar embora suas preocupações?
As vezes a palavra "amar" não é tão convincente como o sentimento de poder amar aquela pessoa que tanto gosta, mas mostrar verdadeiro sentido dessa palavra em sentimentos geram grandes resultados para vida toda.
