Perda de um Amor por Orgulho
Às vezes a vida parece um grande jogo de desilusão,
e eu suspeito fortemente que ganha mais pontos
quem desilude mais
e se desilude menos.
Aquele a quem se permite actuar à sua vontade em breve baterá com a cabeça contra um muro de tijolos de pura frustração.
Em cada um de nós existe um pecador e um santo, se desenvolvendo cada qual em seu próprio plano.
Ambos ao mesmo tempo.
Enquanto o santo se desenvolve o homem é santo, o pecador dentro dele se desenvolve apenas no plano imaginativo...
Se o homem é um pecador,se o pecador leva mais vantagem que no imaginativo( um desejo de santidade).
É por isso que um pecador convertido nunca começa do nada.
Fez algum progresso durante sua vida de pecado.
De repente fiquei inchada, com um apetite voraz e com desejo de comer salgadinho de pizza com bomba de chocolate e calda de caramelo. Comprei um teste de farmácia e comprovei o que eu mais temia mas que uma hora, na vida de toda mulher, ia acabar acontecendo: tô gorda.
Hoje à noite eu estive a passear, vendo as luzes da cidade, percorrendo um caminho que eu fazia
com minha amada deitada em meu colo, enquanto eu dirigia,
ao som de Rod Stewart...
Sorri comigo, e de repente eu senti saudade daquilo
que eu já não quero pra mim...
Senhor, meu Deus e Pai,
livrai-me do despeito feminino!
= Poucas coisas são tão terríveis para um homem
do que uma vingativa mulher despeitada.
Amém.
A fila
A dúzia, o maço, um bocado
Um pedaço e um buquê
Avisa
Que eu procuro o mais barato pra sobrar
O dinheiro que eu preciso pra comprar
Muitas flores pra você...
Eu nunca matei um homem, mas li muitos obituários com muito prazer.
Quando o presidente de um país que promove duas guerras ao mesmo tempo recebe o Prêmio Nobel da Paz, tremei: isto só pode ser sinal de que o mundo está mesmo muito doente. Num estado crônico.
Só agora eu percebia que antes vivera dentro de um cubo.
Será essa história um dia o meu coágulo? Que sei eu. Se há veracidade nela – e é claro que a história é verdadeira embora inventada – que cada um a reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro – existe a quem falte o delicado essencial.
Pego mais um ovo na cozinha, quebro-lhe a casca e forma. E a partir deste instante exato nunca existiu um ovo. É absolutamente indispensável que eu seja uma ocupada e uma distraída. Sou indispensavelmente um dos que renegam. Faço parte da maçonaria dos que viram uma vez o ovo e o renegam como forma de protegê-lo. Somos os que se abstêm de destruir, e nisso se consomem. Nós, agentes disfarçados e distribuídos pelas funções menos reveladoras, nós às vezes nos reconhecemos. A um certo modo de olhar, há um jeito de dar a mão, nós nos reconhecemos e a isto chamamos de amor. E então, não é necessário o disfarce: embora não se fale, também não se mente, embora não se diga a verdade, também não é necessário dissimular. Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque o amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é prêmio, por isso não envaidece, amor não é prêmio, é uma condição concedida exclusivamente para aqueles que, sem ele, corromperiam o ovo com a dor pessoal. Isso não faz do amor uma exceção honrosa; ele é exatamente concedido aos maus agentes, àqueles que atrapalhariam tudo se não lhes fosse permitido adivinhar vagamente.
Nota: Trecho da crônica Atualidade do ovo e da galinha (II).
...MaisVida e morte foram minhas, e eu fui monstruosa. Minha coragem foi a de um sonâmbulo que simplesmente vai. Durante as horas de perdição tive a coragem de não compor nem organizar. E sobretudo a de não prever. Até então eu não tivera a coragem de me deixar guiar pelo que não conheço e em direção ao que não conheço: minhas previsões condicionavam de antemão o que eu veria. Não eram as antevisões da visão: já tinham o tamanho de meus cuidados. Minhas previsões me fechavam o mundo.
Não a claridade que nasce de um desejo de beleza e moralismo, como antes mesmo sem saber eu me propunha; mas a claridade natural do que existe, e é essa claridade natural o que me aterroriza.
Embora eu saiba que o horror – o horror sou eu diante das coisas.
Há um mau-gosto na desordem de viver. E mesmo eu nem saberia, se tivesse desejado, transformar esse passo latente em passo real.
