Para que Tanta Mentira Magoa e Dor
A culpa, sobre algo que tenha feito, é, quase sempre, prova de empatia. Sem culpa, sem dor, sem consciência.
A dor é uma experiência de desequilíbrio ao mesmo tempo que uma manifestação do universo mostrando a fragilidade humana. Todas as pessoas chegam à vida, quando por meio de parto natural, por um ato de dor. A mãe que espreme seu filho, que abre seu útero, que dilata sua genitália, trás ao mundo uma nova esperança de humanidade. O parto, sem interferência farmacológica, é um ato de dor cujo amor se revela pelo desavio de suportá-la. O parto é um ato de fragilidade.
Compreenda a dor, aquela escondida no peito por anos provinda de experiências vividas, que se manifesta nas palavras. Só haverá dor, onde houver vida!
Nascemos por meio do gemido de dor de uma mulher sendo esse som o substrato do rebento. Entretanto, a de se compreender que a dor do parto é anúncio, com raras exceções, de felicidade e realização.
O sistema da dor é simples, ela aflige para que se possa repensar o seu motivo. A dor é sempre, do ponto de vista da espiritualidade, pedagógica.
A dor do poeta não é a dor do poema
a dor do poema e dele mesmo
a dor do poeta se confunde entre letras e lágrimas que escorrem sobre a face/folha de papel do poeta em dor
INSPIRAÇÃO E POETA
Sendo poeta
(um sonhador),
não choro versos
sem conhecer
tristeza e dor...
Também decanto
em riso farto,
se for de parto
bem natural;
só se meu canto
não for postiço...
Para ter carro,
tenha-se casa;
quero ter asas,
mas antes vou
compor meu céu...
Sentir se a poça
é funda ou rasa
dirá, com calma,
se vale a pena
pescar a lua;
lançar minh´alma...
ESTOU NO RECREIO
Sofrerei quando a dor se apresentar de fato,
quando a força do ato me atingir sem dó,
por enquanto só vivo e me deixo esvair
no que vem por aí, de surpresa e de susto...
Vou em busca do após e não quero saber
se o terei logo à frente pra fechar meu ciclo,
sei tragar o momento e tê-lo com fervor,
como aquele favor no qual finquei o dente...
Vou atento prá hora das provas finais,
farejando as matérias que chegam no vento
e me fazem querer sempre mais do que vejo...
Morrerei quando a morte não tiver mais freio,
mas estou no recreio, quero jogar bola
e chutá-la nas redes de minhas vivências...
DOR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sonha, dor;
sonha que passa,
que se cura,
ganha cor...
não é simples querer,
simples loucura
de sonhador...
sonha, dor.
DOR DE CABEÇA D´ÁGUA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Muitos ficam perdidos no coração do tempo que perderam. Presos na palma da mão do destino que julgam ter na mão. Não admitem, gritam vantagens, mas os dentes de alho da boca da noite mordem suas línguas de fogo e as apagam na própria saliva.
Quem vai além da própria ilusão perde as asas do vento. Por isso não escapa do olho do furacão e já não tem habilidade para montar na costa do sol. Gasta inteiramente seus dedos de prosa e só consegue acumular dores de cabeça d´água.
Um dia todos nós olhamos face a face da terra, quanta vida jogamos fora regando a planta do pé ou tomando banho de carne de sol. Sorte nossa, quando não é tarde demais. Quando constatamos que a unha de fome do mundo ainda não devorou as esperanças.
SOMBRA DO AMOR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Para Nathalia
Dor não dói sendo minha, se a resgato
da su´alma, do entorno, seu olhar,
nem há mar que me assombre, caso venha
das muralhas que a livrem da invasão...
Quero todo sofrer que se aproxime
dos caminhos tomados por seus sonhos,
cada verso que rime com seu pranto
e as quedas na fila do futuro...
Sangraria os mais fundos ferimentos,
tornaria infinitos no meu ser
os tormentos capazes de abatê-la...
Venham todas as causas da tristeza
compor mesa na sombra deste amor;
minha dor, quando minha, não é dor...
FUGITIVO DO AMOR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Desenhei este amor pra brincar de sofrer
uma dor colorida e com traços velados,
pra viver um enredo que valesse a pena
e ter sonhos alados; distantes do chão...
Tive medos tecidos em linhas de vento,
nostalgias voláteis de puro frescor,
dei ao meu sentimento a duração serena
do sentido que a vida permitiu fazer...
É por isso que agora preciso sair;
minha mãe já me chama para tomar banho,
almoçar e cair no cochilo da tarde...
E também é melhor não apanhar da vida
por brincar em excesso e me ferir a sério
no mistério do amor que supera o brinquedo...
