Pai Nao Entende nada

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Não vivemos como queremos, mas como sabemos.

Tudo o que dás, receberás de volta, / o que não dás, ficará para os outros.

Podes não ter o mundo mas tuas mãos, mas podes ser o mundo de alguém.

Serve livremente e não serás servo.

Economia: aquisição do barril de uísque de que não precisamos pelo preço da carne de vaca que não nos podemos dar ao luxo de comprar.

Vivemos com os nossos defeitos como com os odores do nosso corpo; não os percebemos, e só incomodam aqueles que vivem connosco.

O mal é necessário. Da mesma forma que o bem, tem a sua nascente profunda na natureza, e um não poderia exaurir-se sem o outro.

Os funcionários públicos são os melhores maridos: Não apenas voltam cedo e descansados para casa como já leram o jornal.

Só são paixões as que nos tocam primeiro e nos surpreendem; as outras não passam de ligações a que levamos voluntariamente o nosso coração. As verdadeiras inclinações arrancam-no mesmo quando não queremos.

O homem está cheio de intenções; não as conhece, mas elas constituem os impulsos secretos da sua ação.

Uma história vivida não tem tempo de calendário - tem-no só no que se viveu.

Vergílio Ferreira
FERREIRA, V., Estrela Polar, 1962

A pior das corrupções não é aquela que desafia as leis; mas a que se corrompe a ela própria.

O recurso dos que não imaginam é sempre contar.

Os maldizentes, como os mentirosos, acabam por não merecer crédito ainda que digam verdades.

Não desenganemos os tolos se não queremos ter inumeráveis inimigos.

Quem não espera na vida futura, desespera na presente.

Divertimo-nos com os doidos na hipótese de que o não somos.

Em ciência não existe um erro tão grosseiro que, amanhã ou depois, sob alguma perspectiva, não pareça profético.

Amas ou não uma mulher, mas não sabes porquê. Como hás-de poder saber a razão do bem e do mal?

Vergílio Ferreira
FERREIRA, V., Escrever, Bertrand, 2001

GRAUS NEGATIVOS

Encontramo-nos numa festa que não gosta de nós. Ao fim, a festa deixa cair a sua máscara e mostra-se tal como é: uma estação de manobras. Colossos gelados estão de pé, sobre os carris, no nevoeiro. Um pedaço de giz riscou as portas da carruagem.

Não se devia mencionar, mas aqui há muita violência reprimida. Por isso os pormenores são tão pesados. E é tão difícil vermos o outro, que também existe: um raio de sol reflectido que se movimenta por cima do muro da casa, que desliza através do bosque ignorado, de rostos cintilantes; uma frase bíblica que nunca se escreveu: "vem até mim, pois eu sou contraditório como tu".

Amanhã trabalharei numa outra cidade. Eu corro para lá, através da madrugada que é um grande cilindro negro e azul. Oríon está pendurada por cima da geada. Crianças num montão de mudez esperam pelo autocarro, crianças pelas quais ninguém reza. A luz cresce, pouco a pouco, como o nosso cabelo.