Orfaos do Amor
O deserto que me cerca não me intimida como antes, me vejo agora entre quem fui e quem estou buscando me tornar, velhos hábitos me cercam para me afastar dos novos hábitos. Não pude extinguir meu apego a ela, mas não a amo mais e nem tenho todo apego antigo, já me encontro me abrindo para uma nova paixão.
Fiz duas pinturas, que refletem meus últimos eventos, o conhecer da vida e o cruzar do deserto da minha existência. A vida como uma flor é efêmera, bela, triste, feliz, luz e sombras. Para me encontrar é preciso ir a fundo em minha existência, para me superar preciso enfrentar quem fui, devo cruzar o deserto, enfrentar a seca, superar as trevas, o calor e o frio e abraçar a luz, acompanhado das lamentações, do fantasma do passado, do medo, da angústia e do apego que a me tentar me persegue em minha jornada.
Nada mais triste que os pensamentos, os poemas e os momentos, que aqui não estarão, pelo esquecimento, erros do sistema, temor ou peso. Porém, nada mais alegre, até porque minha existência não pode ser contida em tão pouco.
Deixei a espera pelo momento certo para uma espera ativa, sigo analisando para achar os momentos adequados, mas não espero o momento perfeito. Momentos perfeitos não existem, mas esperar eternas sim. Esperar eternamente em uma vida finita é tolice e assim tomarei postura e irei enfrentar o desconhecido e adverso nos momentos ideais e imperfeitos de agir.
Bati o martelo, partirei daqui e avançarei contra o mundo, hora de abrir as asas e sair do ninho indo de encontro com a dureza da vida adulta. Após tanto esperar, tanto deixar para amanhã, amanhã pode não existir e nunca realizar esse desejo, devo agir, mesmo não sendo o momento perfeito.
ESTADO DE SATISFAÇÃO (soneto)
Deixo a inquietude do versar na medida
Em cata duma beleza e de um esplendor
E, assim, de inspiração liberta, pela vida
Vou. Cheio de matiz em uma variada cor
É tom de ventura, o sentimento na lida
Desabrochado tal qual uma poética flor
Daquele especioso verso que dá guarida:
O doce beijo, olhar trocado, terno amor
A poesia nunca deixa a gente esquecer
Faz querer mais, faz o coração sorrindo
É o cântico em que a alma se põe a dizer
E, trovando, escorre pelas mãos, que diz
Um contentamento sempre bem-vindo...
Animando, o poeta, ser o menos infeliz.
© Luciano Spagnol - poeta do cerrado
18 junho, 2025, 18’23” – Araguari, MG
Eu me afastei de duas redes sociais, fiz isso junto ao término, na verdade, eu já desejava fazer isso, porém me via preso as necessidades de minha antiga companheira e assim evitava isso, ou apenas temia que rumo essa escolha me levaria na época. Agora busco evitar validações externas, busco fazer não para mostrar, mas porque quero fazer, quero me aprofundar em quem sou e em minha autenticidade. Esse caminho junto ao termino me levou ao tédio.
Ao abrir as portas da minha vida ao tédio recebi um visitante ainda mais incomodo, o vazio, não sei se eles são um casal ou um ser só, mas estão sempre juntos.
Vazio possui vários nomes, eu diria, abismo, domingo a noite, "Quem você é quando não tem ninguém olhando?", "Você faz isso porque gosta, deve ou o externo decidiu por ti?", "O que lhe prende em sua vida?", perguntas profundas sobre si mesmo.
No vázio, vemos apenas a nossa propria existência, vemos sua insignificancia, vemos nossa ignorância de nós mesmos, vemos as influências externas, vemos o que mais fugimos e tememos. O abismo é o reflexo do que somos e não contemplamos.
NOVO ALENTO (soneto)
Encontrei-te nas nuances do meu verso
Por suave direção, assim, me levaram
Pelos caminhos da paixão, e tão imerso
Que os meus devaneios estranharam
Em cada estrofe um sentimento diverso
Ritmos afáveis de cada tom brotaram
Sou, de novo, feliz, ó destino controverso
Pois, ímpar amor, aos versos inspiraram
Antes, na poesia, conduzida a esmo
Quinhoando solidão de mim mesmo
Era pesar, inquietude, tudo dava dó
Agora, alojado pelo teu terno carinho
Os versos descrevem o nosso cantinho
Em uma poética onde não me sinto só.
© Luciano Spagnol - poeta do cerrado
23 junho, 2025, 19’17” – Araguari, MG
EU (soneto)
Nasci em Araguari, das Minas Gerais
Daqueles imortais causos narrados
Guardados na imaginação, tão reais
Mineiro, dos sentimentos arretados
Da cidade sorriso e sonhos divinais
Dos portais do cerrado, encantados
Vivo carpindo a saudade, ademais
Cá tenho contos, tão afortunados
Nasci em Araguari, que me viu nascer
Que no aconchego teu, eu pude viver
Ó chão que amo e amar me ensinou
Atravessando o tempo, caminhando
Na ilusão de ser um poeta, passando,
Vou. Apenas um alguém que sonhou!
© Luciano Spagnol - poeta do cerrado
24 junho, 2025, 18’24” – Araguari, MG
Sinto que o apego está a dar sua última respiração e uma nova fase com uma nova pessoa esteja próxima, não sou mais o mesmo de antes, obrigado abismo, obrigado oh pessoa que deixou de me amar, obrigado meu querido irmão e minha querida amiga por me aconselhar e acolher.
TOCAIA (soneto III)
E o entardecer que suavemente emoldura
O cerrado, onde repousa o sublime poente
Turvará ele, assim, cessante, resplandecente
Num suntuoso final do dia, cheio de textura
Pois o tempo findando arrasta o olhar da gente
Em um encantamento, com uma doce ternura
Revelando formosura, feita, nesta entalhadura
Do anoitecer, que até a sensação pulsa e sente
Então, da luminosidade do sol pouco restou
Absorvida pela escuridão da noite, passou
E, agora, o sombreado se fazendo tão certo
Sem deixar resquício nem fulgor, esvaeceu
Cá no sertão o continuado obscurecer e eu
Concernente, de tocaia, com fascínio inserto.
© Luciano Spagnol - poeta do cerrado
26 junho, 2025, 19’27” – Araguari, MG
EM MOVIMENTO (soneto)
Ó, notai, que este versejar traz poesia
um cântico que anuncia doce sensação
e, embora seja contido, vem do coração
destacando os encantos de variada via
Quanto sentimento, incluindo alegria
vai-se em busca do amor, da emoção
são versos tão imersos na inspiração
enchendo a métrica com terna magia
Paixão, condição, cada dia um arrepio
deixando a prosa inquieta, imprecisa
e ao soneto, a cada olhar, uma prova
Não só de sofrência, tampouco estio
é tanto a tempestade quanto a brisa
pois, a cada ação, uma poética nova!
© Luciano Spagnol - poeta do cerrado
30 junho, 2025, 21’59” – Araguari, MG
