Olhar
Deus me fez entender que nem tudo que se perde é perda. Existem perdas que protegem a alma, o olhar de fé nos mostra o valor do que se foi.
Perdi posses, ganhei horizontes, a falta ensinou a olhar além do perto, horizonte substituiu o que o tempo levou, aprendi a ver o essencial no pouco.
Olhar para a grandiosidade da Tua Obra é ajustar a minha própria escala de valores, percebendo a pequenez dos meus problemas diante do Teu poder. Essa perspectiva me liberta da ansiedade e do foco excessivo no temporário, direcionando o meu olhar para a estabilidade da Tua perfeição. Sou forte, porque Aquele que me sustenta é infinitamente maior.
O passo mais importante é o primeiro, mas o mais difícil é o de não olhar para trás para duvidar da rota.
Que a sua vida seja um texto solar, visível, mas com entrelinhas e cifras que só o olhar do seu centro possa decifrar, a transparência é uma escolha, mas a intimidade é o santuário resguardado para um só.
Carrego tempestades no olhar, mas é nelas que percebo que ainda sei sentir. A lágrima não denuncia fraqueza, denuncia existência. É a prova de que o coração, apesar de cansado, não desistiu de pulsar. E quem sente, ainda está vivo, mesmo que a vida doa.
Minhas perdas me ensinaram a ler sinais mínimos: um olhar que demora, um silêncio que não retorna, o som do telefone que não toca. Aprendi a traduzir o vazio em mapa e a seguir por rotas menos frequentadas, onde ainda existem bancos vazios e gente que aceita sentar ao lado.
O amor nasce simples como estrada de chão, cresce entre olhares contidos e promessas impossíveis, e sofre calado porque nem todo sentimento pode atravessar a cerca que separa o coração do destino.
A poesia de um gesto simples salva reputações partidas. Um olhar demorado, um silêncio que não acusa. Pequenas misericórdias costuram roupas rasgadas. A bondade costuma ser costureira de almas. E eu aprendo a valorizar cada ponto bem dado.
Sentir-se desperto em um mundo de sonâmbulos é a punição de quem ousou olhar para o sol da verdade sem a proteção das mentiras sociais.
Minhas palavras não buscam salvar o mundo, buscam apenas ser o espelho onde alguém possa se olhar e dizer: "pelo menos não sou o único que se sente assim". A validação da dor alheia é o maior ato de caridade que um escritor pode oferecer ao seu leitor cansado.
Por trás de cada olhar frio ou de cada silêncio absoluto, existe uma batalha invisível que o mundo não viu acontecer.
Olhar para o espelho e não reconhecer quem nos tornámos é o preço mais cruel que pagamos pelas feridas que o mundo nos causou.
