O Sorriso Adelia Prado
Agora eu pareço um pacote. Pega quem quer. Cuida quem tem paciência. Ajuda quem tem juízo. Não me largam aqueles que ainda sentem alguma compaixão.
Escrevo para alimentar a pulga atrás da tua orelha. Eu dou água e a alimento – dou até um chocolate de vez em quando - quero manter sempre a dúvida na tua cabeçinha. Quero deixar sempre a perguntinha incomoda: e-se-tivesse-dado-certo?
Acho que eu prefiro usar como sinônimo de ‘indiferença’ a palavra ‘ódio’. Errada, eu sei, mas considero mais leve. Dói menos. Ódio a gente reverte, agora indiferença é indiferente. Que se pode lutar contra indiferença? Indiferença não é pra ser debatida, é para ser aceita.
Eu ainda escrevo pra nunca quebrar esse elo invisível que existe entre nós dois. Eu posto um texto, acho que você lê e você fica indiferente, eu fico com esperanças de que tudo mude e você segue sua vida. Eu sigo escrevendo pra você, pro amor, pros orixás, pro universo.
Ainda te busco em silêncio, sem muitos alardes. Procuro-te nos meus livros, nas músicas, paro em alguns olharas, sorrio quando encontro um ou outro parecidinho com você.
Pensei que a vida pode sim ser tão boa e que estou perdendo meu tempo sofrendo, chorando, fazendo ameaças terríveis e desejando escolhas sem retorno.
Cedo ou tarde vou ter que te abandonar. Acho que estou mais para o lado do cedo. Sofrer cansa, esgota tudo.
Que me importa o que você pensa sobre todas essas baboseiras que eu relato? Importa nada. Deixa-me quieta. Você é covarde mesmo, eu sei. Vê se rasga tudo depois de ler, deleta tudinho que vê por aqui. Não deixa rastro. É feio pra tua imagem de inatingível.
Você me perturba o pensamento como uma mosca que perturba o sono zunindo nos ouvido durante as noites de verão. Tua imagem parece uma praga colada no fundo dos meus olhos - Me tira o sono, a paz e a tranqüilidade. Sinto os músculos tensos, a boca amarga, os dedos frios e coração enforcado.
E eu? Eu fico aqui. Surtando, conjecturando, amargurando, me matando e remoendo minhas paredes do estômago enquanto me ocupo com a vida dos outros, com a vida daquele que um dia foi parcialmente meu, mas que agora voa, está longe. Nem quem mais saber de mim. Triste? Muito.
Durante esse tempo, tudo que fiz foi jogar minhas perspectivas no lixo e tentar reciclar o nosso sentimento. O que é impossível. Ele já está podre, deteriorado, mofado. Já é perdido. Creio que não consigo te esquecer porque eu não assumi a postura de separação. Não te apaguei como deveria ter feito e – como quase todas as mulheres – ouvi alguns conselhos errôneos e otimistas de algumas amigas que não sabem o que é perder o amor e insistem em me dizer que um dia você vai voltar pra me resgatar, cuidar e amar como eu mereço - já que sou uma moça inteligente, legal, dá-pro-gasto e toda aquela baboseira pra tentar me motivar enquanto eu encho a cara no bar pra te esquecer, e hora ou outra grito teu nome pra algum amigo.
Eu pareço cachorro, que mija no poste pra marcar território. Eu escrevo um texto aqui, outro ali, tento chamar tua atenção, só pra ficar um resquício de lembrança minha – seja ela boa ou ruim. Só pra que você nutra ainda algum sentimento – que é de pena, eu sei, mas prefiro achar que é um daqueles amores-adormecidos-impossíveis e que um dia alguma luz vai entrar na tua cabeça oca e você vai querer voltar pra mim quando perceber o quanto era bom estarmos juntos.
Enquanto ele me acompanhava de longe eu tinha tudo sob-controle. Eu sorria tensa e tranquilamente. Não saí choro, não saí riso. Só escuto o ranger dos dentes em busca de alívio. Agora, ele perdeu o fio da meada. Não sabe mais nada. Não se importa. Me jogou pro céu na espera de Deus me pegar, do capeta de colocar de volta no inferno. Tá tudo virado, sem controle, sem salvação. Eu não levo a vida, ela é que me leva, que me direciona. Que me enfia em uns becos meio sombrios. Não estou achando a saída, não encontro mais solução.
Eu costumava ser doce. Não muito delicada, mas ainda restava um pouco de felicidade no meu olhar. Eu era mais gentil e mais bem humorada. De-vez-em-sempre tinha uns perrengues, umas chatices, uns choros, uns sofrimentos, umas paixões mal-curadas, mas era tudo tão pequeno e sem importância. Eu acreditava no amor como em um conto de fadas e vivia bem sem ele. Eu convivia em perfeita harmonia com os amigos bem-resolvidos e não me importava muito em manter um relacionamento sério apenas com a minha cerveja e as minhas noitadas. Eu andava despreocupada e distraída, com a esperança de ser resgatada ou descoberta por um cara bem foda que fosse capaz de me amar como eu mereço. Eu tinha jogado minha sorte no vento e no destino, que acredito pouco, mas eu estava feliz, evoluindo, cuidando da minha vida, dos meus fins de semana com as amigas e cara! Estava tudo bem mesmo. Eu ainda via adiante. Você me pegou na minha fase mais feliz da vida.
