O Sorriso Adelia Prado
Você nunca deve ter procurado sentir meu toque nas outras garotas. Já sei-Já sei. Apenas gosto de pensar que vez ou outra você se lembra que eu existi na tua vida-amorosa-agitada.
Ando sentindo cada vez mais nojo de toda essa porcaria romântica, do tipo filminho, músicas de amor, casais felizes nas ruas, gente estalando o dedo na minha cara pálida.
O segredo deve ser esse: jogar tudo à pólvora! Ou mantenho as lembranças ou me mantenho viva. É instinto de sobrevivência, é questão de escolher entre mim e o passado.
Do que sinto mais falta? Certamente do abraço. Do cheiro doce e amendoado que tinha tua roupa limpa e do teu moletom macio de duas cores, azul e branco, que combinava tão bem com aquelaminha camisa pólo no mesmo tom.
Sinto saudades também daquele creme pós-barba, que deixava teu rosto parcialmente melecado, com um aroma doce-enjoativo e com gosto amargo.
Deixa-me dizer o quanto ainda te amo, o quando ainda sobrevives no meu coração destroçado, o quando ainda te busco afogado por dentro de todo meu copo de cevada ainda gelada, da espuma perdida, no álcool recém vaporizado no meu corpo cansado.
Faça um contato, joga uma luz, um sinal de vida, um rojão pra que eu veja que você não é sonho e que ainda existe – por Deus, ás vezes chego a pensar que você deve ter sido sonho, ou que alucino ou que estou maluca.
Um dia penso em escrever um livro. Já tenho um título. Algum dos lançamentos será feito na tua cidade, e farei questão de ver teus olhos brilhantes da livraria, enquanto eu estiver sentada, assinando alguns exemplares. Vejo já teu rosto corado quando me perguntarem: ‘Pra quem escreve?’. Sorrirei pra ti e manteremos pra sempre esse segredo. Será nosso.
Mas sabe amado, hoje é sábado e vou caçar o que fazer, vou arrumar um jeito de te esquecer, de não pensar em passado nem em nós.
Não esqueça de por meu coração no seu bolso de vez em quando. Vê se ainda sente ele bater. Do teu ainda lembro o ritmo.
Posso ser o que você quiser, apenas me diga o que espera. Apenas me diga se ainda espera. Espero muito, imensamente, incansavelmente.
Nada escuto a não ser as batidas do meu coração, o ritmo da minha respiração e o cansaço da vida. Tem fungo por toda parte.
Te preciso como nunca antes. Ando com saudades. Ando querendo que o mundo se foda. Que só reste nós dois, nós e o resto do resto. Nós e o resto do nosso resto.
Você me dói dentro de cada garrafa, em cada gole, em cada esquina, em cada rombo. Te sinto nos fios de cabelo, nos póros, nos dedos, na ressaca e na dor. Diga que vai me salvar, diga que vem antes que eu me jogue da torre.
