O Homem que Nao se Contenta com pouco
Não tenho a menor ambição de tornar-me um educador: não pretendo, como um déspota, "conduzir ou guiar" ninguém e muito menos limitar caminhos de quem tem imaginação tão promissora. Pretendo, antes, ser um PROFESSOR: o indivíduo que professa algo, que alimenta o espírito crítico com seu conhecimento, permitindo ao semelhante um encontro com sua liberdade e identidade única!
Não sonho em lecionar para sujeitos que se comportam como alunos! Estes, como o próprio vocábulo apregoa, são pobres infelizes “sem luz” e que podem, para o bem ou para o mal, ser dirigidos por “iluminados” tirânicos. Sonho sim em ter, sob minha responsabilidade, estudantes, que, - oh, redundância absoluta! -, estudam e compreendem o mundo por si próprio.
Eu não fumo, não bebo, não sou boêmio e nem dado a colecionar amantes. Sinal de que também não sou poeta!
Eu não aprovo a presumida substituição de um grande amor, assim como não creio que o advento da lua invalida o legado do sol!
Não posso afirmar que sou melhor cristão do que aqueles que estão dentro das igrejas, mas duvido muito que eu possa estar em piores condições espirituais que eles!
Não sei até que ponto seja vantajoso esse tal dom da oratória, posto que ninguém é tão desacreditado quanto aqueles que o possuem!
Não é fácil conviver com a oposição das trevas, todavia por mais densas que sejam, elas nunca serão capazes de deter o avanço da luz e o advento das manhãs!
Não sei dizer por quantos dias de minha vida fui feliz, mas admito que toda ela até aqui valeu a pena, por cada minuto de felicidade que proporcionei a alguém!
Não creio em reencarnação e sim em dupla existência, sendo a segunda a colheita do arado que a primeira semeou!
Sou um dos lobos bons numa sociedade de galinhas assustadas. Claro que não as mato, só as assusto mais ainda com argumentos e fatos.
- Desvendas-me ou devoro-te?
E não se desvendou. Foi devorado. Incapaz de se desconstruir, incapaz de peregrinar no seu interior, de desvendar as suas quimeras, foi devorado pela esfinge. Agora, jaz aos seus pés, sem nunca conseguir misturar a infância, o tempo, sem nunca ter sido sobressaltado consigo mesmo, pelos seus tédios, sem nunca se ter devorado a ele próprio.
Morreu numa contemplação permanente das vidas alheias, na monotonia de si mesmo, na constância das horas sem insistências metafísicas, morreu sem nunca se ver ao espelho em esgares de libertação. Viveu numa felicidade indefinida, uma felicidade de abstenção, viveu na vã glória de se deixar arrastar pelo destino.
