O Amor tem que ser Alimentado
“O senso comum raramente é comum por ser verdadeiro; normalmente é comum por nunca ter sido questionado.”
“Nenhum dos meus livros foi escrito para ser compreendido; todos foram escritos para tornar insuficiente quem tenta compreendê-los sem antes compreender a si mesmo.”
“Quando a educação proíbe o pensamento de pensar o próprio pensamento, ela deixa de ser educAÇÃO para se tornar condicionAÇÃO.”
“O maior medo do ser humano não é descobrir quem é; é descobrir que passou a vida inteira defendendo a máscara que o impediu de ser.”
“O maior paradoxo da existência humana é que o homem nasce com uma alma buscando ser, recebe uma identidade ensinando-o a parecer e passa a vida inteira tentando encontrar fora aquilo que perdeu no instante em que deixou de ser, para parecer ser”.
“O homem passa a vida tentando ser humano, sem perceber que nasceu humano e foi educado para esquecer.”
“A maior tragédia da vida humana é que o homem nasce sendo um ser, passa a vida inteira tentando se tornar alguém e morre sem perceber que o personagem que construiu para existir foi exatamente aquilo que o afastou da humanidade que nasceu para viver.”
“O ser humano nasce humano, passa a vida aprendendo a ser homem e, no fim, descobre que sua maior evolução não era conquistar o mundo que o cercava, mas destruir o mundo que o impedia de revelar a humanidade que sempre esteve escondida dentro dele.”
Os pais que mais poupam os filhos costumam ser os mesmos que mais empobrecem o futuro deles. Poupam do esforço e colhem a preguiça. Poupam da disciplina e colhem a indisciplina. Poupam das consequências e colhem a irresponsabilidade. Poupam da frustração e colhem a revolta. Poupam da realidade e colhem adultos que vivem em guerra contra ela.
Toda vez que um pai faz pelo filho aquilo que o filho já deveria fazer por si mesmo, não demonstra amor; decreta uma pequena falência da educação. E falências morais não aparecem no extrato bancário, aparecem no caráter.
Há pais obcecados em deixar herança, mas completamente desinteressados em deixar herdeiros. Acumulam patrimônio enquanto desperdiçam princípios. Financiam confortos enquanto hipotecam consciências. Protegem o corpo dos filhos e abandonam a formação da alma.
No tribunal da vida, a sentença é implacável: a conta que os pais poupam na infância é a conta que os filhos pagarão na maturidade. Porque toda proteção que substitui a educação deixa de ser amor e passa a ser uma dívida. E dívidas educacionais não vencem no banco; vencem na consciência, na dignidade e na incapacidade de caminhar sem alguém empurrando por trás.
A decadência de uma geração começa quando os pais preferem ser amados a ser obedecidos, preferem comprar sorrisos a construir caráter, preferem poupar os filhos da dor a prepará-los para a realidade. A partir desse dia, deixam de formar seres humanos e passam a fabricar adultos cronologicamente maduros, mas moralmente inacabados. A vida não é para amaDORES que poupam; é para enfrentaDORES que educam.
NÃO SOU O MUNDO — SOU O QUE ELE ME PERMITE SER
Por Marco Arawak
A Terra não é cenário. É a condição de tudo o que acontece. Antes de qualquer pensamento, existe aquilo que sustenta. Antes de qualquer palavra, existe aquilo que torna possível existir.
Nada em mim começou inteiramente em mim. Meu corpo é feito de coisas antigas: água que já foi nuvem, minerais que atravessaram montanhas, elementos forjados muito antes que meu nome existisse. Sou um encontro provisório de matérias que já pertenciam ao mundo antes de pertencerem a mim.
Não sou origem. Sou continuidade.
A Terra não me acolhe por escolha. Ela simplesmente existe. E, enquanto suas condições permitem, eu existo com ela. O chão não me sustenta por cuidado; sustenta porque é chão. Se deixa de existir sob meus pés, eu caio. Sem intenção. Sem julgamento.
A água não me protege. Ela corre. Quando está limpa, sustenta a vida; quando está contaminada, pode carregar essa alteração para dentro dos sistemas dos quais dependemos. O ar não se oferece. Ele está. E quando deixa de estar em condições que permitam a vida, não há filosofia capaz de substituí-lo.
Nada na natureza precisa me explicar o sentido da vida. Sua função não é me oferecer respostas. Basta que suas condições tornem a vida possível.
Não vivo em um mundo que foi criado para me refletir. Vivo em um mundo que me antecede e continuará depois de mim.
Minha história não é o centro da história da Terra. É uma passagem. Sou um instante dentro de algo muito maior, um acontecimento breve em um processo que não começou comigo e não terminará comigo.
E, ainda assim, existo.
Não como dono.
Como parte.
Cada respiração revela uma dependência. Cada passo pressupõe um chão. Cada alimento carrega uma cadeia de vida, matéria, água, energia e trabalho. Cada dia é uma experiência de equilíbrio que não controlamos inteiramente.
Nada em nós é garantido.
A Terra não é boa nem má. Não cuida de nós como uma consciência materna, nem nos pune como um juiz. Ela simplesmente segue suas leis e seus ciclos.
Mas nós sentimos.
Nós tememos.
Nós lembramos.
Nós escolhemos.
E é exatamente aí que algo muda.
A natureza não precisa ter intenção para produzir consequências. E nós não precisamos controlar o planeta para interferir profundamente nele.
A vida acontece enquanto suas condições permitem.
Dentro dessa fragilidade, construímos cidades, cultivamos alimentos, inventamos máquinas, criamos culturas, amamos, lembramos e sonhamos. Somos capazes de transformar o mundo porque dependemos dele. Essa é uma das grandes contradições da nossa existência: temos poder suficiente para modificar aquilo que não podemos substituir.
Somos forma por um tempo.
E toda forma, cedo ou tarde, muda.
O corpo retorna aos ciclos da matéria. A água continua circulando. Os elementos permanecem em movimento. Aquilo que chamamos de fim, muitas vezes, é apenas uma transformação dentro de processos muito maiores que nós.
Mas a nossa experiência individual é finita.
Eu posso desaparecer.
Você pode desaparecer.
Uma geração pode desaparecer.
E é justamente porque somos passageiros que nossas escolhas importam enquanto estamos aqui.
Existir é frágil. Não porque a vida não tenha valor, mas porque ela não vem acompanhada de nenhuma garantia de permanência.
O mundo não foi feito para mim.
Eu fui feito dentro dele.
E o modo como escolho viver dentro dele não é neutro.
Tudo o que faço interfere em alguma coisa: aquilo que extraio, consumo, desperdiço, transformo, descarto ou preservo. Nem tudo retorna diretamente para mim, nem tudo retorna da mesma maneira, mas quase nada simplesmente deixa de existir porque decidi chamar de “lixo”.
O que descartamos continua fazendo parte do mundo.
O que degradamos pode alterar os sistemas dos quais dependemos.
O que destruímos pode levar décadas, séculos ou gerações para se recompor — quando ainda pode se recompor.
Por isso, a natureza não precisa pedir admiração.
Precisa que reconheçamos limites.
Não precisa dos nossos discursos.
Precisa das nossas escolhas.
Não somos espectadores de um planeta externo a nós. Somos participantes de sistemas dos quais dependemos a cada instante.
Talvez esse seja o erro mais profundo da nossa época: imaginar que estar no mundo significa estar separado dele.
Não estou fora da natureza observando-a.
Estou dentro dela.
Meu corpo não é estrangeiro ao planeta. Minha água veio de ciclos anteriores. Meu alimento depende de solos, chuva, luz, organismos e trabalho. Minha respiração depende de uma atmosfera que não produzi.
Não carrego a Terra dentro de mim como símbolo.
Dependo dela como condição.
Se ela sustenta as condições necessárias à vida, eu existo.
Se essas condições se degradam, minha existência também se torna mais vulnerável.
Isso não é metáfora.
É condição material.
A natureza do planeta não é apenas uma ideia, um símbolo ou um consolo espiritual. É a base física sobre a qual a vida acontece.
Compreender isso não deveria nos tornar maiores.
Deveria nos tornar responsáveis.
Porque não estou aqui para dominar o mundo.
Estou aqui dentro dele.
E aquilo que me sustenta também sustenta milhões de outras formas de vida.
Talvez, portanto, a pergunta não seja “o que o mundo pode me dar?”.
Talvez seja:
“O que a minha presença deixa no mundo?”
Depois de mim, o que permanece?
Uma marca?
Uma ferida?
Uma construção?
Uma memória?
Um cuidado?
Uma possibilidade?
Não posso impedir que o mundo continue sem mim.
Mas posso escolher a maneira como participo dele enquanto estou aqui.
Posso consumir sem transformar tudo em descarte.
Posso construir sem considerar tudo ao redor como matéria disponível.
Posso usar sem esquecer que aquilo que uso veio de algum lugar.
Posso existir sem precisar transformar minha existência em domínio.
Porque não sou o mundo.
Não sou seu proprietário.
Não sou seu centro.
Sou uma pequena parte de uma realidade muito maior que me antecedeu, me sustenta e continuará existindo quando meu nome já não estiver sendo pronunciado.
E talvez essa consciência não seja uma diminuição.
Talvez seja uma libertação.
Não preciso ser o centro para ter valor.
Não preciso possuir a Terra para pertencer a ela.
Não preciso durar para sempre para que minha passagem tenha significado.
Sou apenas algo que acontece dentro deste mundo.
Breve.
Frágil.
Consciente.
E enquanto aconteço, posso escolher.
Posso cuidar.
Posso limitar.
Posso preservar.
Posso reparar.
Posso, ao menos, tentar não transformar em ruína aquilo que tornou possível a minha presença.
Talvez seja essa uma das formas mais silenciosas de responsabilidade humana:
saber que o mundo não existe para nós e, ainda assim, compreender que somos responsáveis pela maneira como existimos dentro dele.
Não sou o mundo.
Sou o que ele me permite ser.
E aquilo que eu fizer com essa possibilidade também fará parte do mundo.
Marco Arawak
Entranhas da Estranha
Eu quero ser o intenso que sou
Experimentar no plural o singula
Sem me limitar a espinho ou flor
Quero ser chegada, partida
E ainda assim ser lar
AUTOANAMNESE
Entre a memória e o que ainda podemos ser
Existe uma história dentro de cada pessoa.
Uma história que não está escrita apenas em fotografias, documentos ou lembranças. Ela também vive nos gestos, nas escolhas, nos medos, nos sonhos, nas palavras que ficaram e, principalmente, naquilo que fazemos sem perceber.
Somos feitos de encontros, despedidas, descobertas, perdas, conquistas, erros e recomeços. Somos também feitos de perguntas que nunca encontraram respostas e de respostas que o tempo modificou.
Talvez por isso a autoanamnese seja tão importante: porque, antes de compreender o mundo, precisamos aprender a observar aquele que o contempla.
Volto os olhos para trás,
não para morar no passado,
mas para compreender
as pegadas que deixei.
Há caminhos que escolhi conscientemente. Outros surgiram diante de mim quando eu sequer sabia para onde estava indo. Alguns abandonei. Outros me abandonaram. E existem aqueles que ainda percorro, tentando compreender por que os escolhi.
Fazer uma autoanamnese é estabelecer um diálogo sincero com a própria história.
É perguntar:
Quem fui?
Quem sou?
O que me trouxe até aqui?
O que ainda carrego?
E o que já posso deixar partir?
Não se trata de procurar culpados, nem de transformar o passado em sentença. Trata-se de compreender.
Porque aquilo que não compreendemos muitas vezes se repete.
Repetimos comportamentos, escolhas, relações e pensamentos sem perceber que estamos seguindo antigos caminhos.
Por isso, olhar para dentro pode ser um ato de liberdade.
Há hábitos que herdei,
há pensamentos que aprendi,
há caminhos que percorri
sem jamais perguntar
se realmente eram meus.
A autoanamnese nos permite separar aquilo que somos daquilo que simplesmente aprendemos a ser.
Na vida pessoal, ela nos ajuda a reconhecer nossos valores, limites, desejos e contradições.
Nas relações, revela como amamos, confiamos, ouvimos, perdoamos, reagimos e estabelecemos limites.
Na família, permite compreender as histórias que recebemos e decidir conscientemente quais heranças queremos preservar e quais precisam ser transformadas.
Na vida acadêmica e profissional, ajuda a perceber talentos, interesses, escolhas e caminhos que talvez tenham sido construídos mais pelas expectativas externas do que pelos nossos próprios propósitos.
Nas decisões, cria um espaço entre o impulso e a escolha.
E, nesse pequeno espaço, pode nascer a consciência.
Antes de responder,
eu observo.
Antes de escolher,
eu compreendo.
Antes de seguir,
eu pergunto
para onde estou indo.
Também precisamos fazer uma autoanamnese dos nossos erros.
Não para viver em culpa, mas para transformar experiência em aprendizado.
O erro pertence à nossa história, mas não precisa determinar nosso destino.
A pessoa que fomos tomou decisões com os conhecimentos, sentimentos e circunstâncias que possuía naquele momento. Hoje podemos saber mais. Podemos enxergar diferente. Podemos escolher diferente.
Ontem eu não sabia.
Hoje compreendo.
Amanhã talvez transforme
aquilo que hoje ainda estou aprendendo.
Isso também é amadurecer.
Olhar para quem fomos sem desprezo, olhar para quem somos sem arrogância e olhar para quem podemos ser sem medo.
A autoanamnese também alcança nossos sonhos.
Quantos desejos são verdadeiramente nossos?
Quantos nasceram das expectativas de outras pessoas?
Quantas vezes confundimos sucesso com aprovação?
Quantas vezes seguimos uma estrada porque todos diziam que era o caminho certo?
Há sonhos que permanecem,
sonhos que se transformam
e sonhos que descobrimos
que nunca foram nossos.
Conhecer a própria história é também descobrir quais sonhos ainda fazem sentido.
E talvez esse seja um dos maiores poderes da reflexão: perceber que o passado explica muito, mas não determina tudo.
Somos memória, mas também possibilidade.
Somos consequência, mas também escolha.
Somos continuidade, mas também transformação.
O passado pode explicar nossas cicatrizes, mas não precisa escrever sozinho os próximos capítulos.
Carrego o que vivi,
mas não sou apenas o que vivi.
Carrego minhas marcas,
mas elas não são meu nome.
Carrego meus erros,
mas eles não são meu destino.
A vida inteira pode ser compreendida como uma grande conversa entre aquilo que fomos e aquilo que estamos nos tornando.
E talvez seja justamente por isso que precisamos, de tempos em tempos, silenciar o mundo.
Desligar o ruído.
Parar.
Respirar.
E perguntar:
O que está acontecendo dentro de mim?
Nem toda resposta surgirá imediatamente.
Algumas perguntas precisam permanecer conosco durante algum tempo. Algumas respostas chegam lentamente, através da experiência, da reflexão e das mudanças que fazemos no cotidiano.
A autoanamnese não é uma fotografia de quem somos.
É um espelho em movimento.
Hoje enxergamos uma parte.
Amanhã compreenderemos outra.
E, enquanto vivemos, aprendemos que conhecer a si mesmo não é encontrar uma definição definitiva, mas permanecer disposto a se conhecer novamente.
Sou memória
e sou possibilidade.
Sou passado
e sou caminho.
Sou aquilo que aprendi
e aquilo que ainda posso aprender.
Por isso, fazer uma autoanamnese não é voltar para trás.
É voltar para dentro.
É revisitar a própria história com honestidade, reconhecer o que nos construiu, compreender o que nos limita, valorizar o que nos fortalece e escolher, com maior consciência, aquilo que desejamos levar adiante.
Porque a vida não é somente aquilo que nos acontece.
É também aquilo que fazemos com o que nos acontece.
E enquanto houver consciência, haverá aprendizado.
Enquanto houver aprendizado, haverá transformação.
Enquanto houver escolha, haverá possibilidade.
E enquanto houver vida,
a história ainda estará sendo escrita.
O homem é um ser que cria.
E a alegria com o movimento do objeto de seu pensamento como palavras
inventadas para leva-lo ao sempre presente ainda não dado aos olhar como a poesia que mora no encontro de palavras que convida para a frase que diz uma imagem presente no que se sente — na estadia da frase que empolga, a mente se acomoda no luxo de pensar uma frase nova, palavras compram a atenção e pagam com imaginação seus interessados que encontram a alegria sempre presente
na casa do imaginário...
Leonardo Mesquita
A conclusão de um poema espreita
o bobo poeta entretido com o ser criança das palavras convidadas pra
brincadeira de serem emoção em vez
da coisa catada do alfabeto, elas entram na brincadeira fluindo nos versos dizendo olha tio, pro poeta,
a catada não cata ela veste essa, e de
fantasia em fantasianesse universo
de repente o Booo! no começo longe da tia chata da norma padrão...
a explosão da palavra criança
o que é um fantasma?
e um dinossauro?
Leonardo Mesquita
