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Nove Noites de Bernardo Carvalho

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"Hoje eu só quero sorrir"

Acordar nove horas, tomar chá de café da manhã, luz cortada. Deitar no sofá, admirar o teto e sorrir. Simplesmente... sorrir. Sem motivos, sem indagações. Alegria que vem de dentro, lá do fundo - paz da alma. Tranquilidade. Andar sozinha pela casa e achar graça da solidão. Pegar um livro, sentar e ler, até o horário de almoço. Ir pro quarto, pegar uma roupa e sair, porque, de algum modo, preciso botar essa alegria pra fora, nem que seja com a rua. Pegar uma carona, descer perto do destino, andar um pouco. Ir pra casa das primas, assistir um video idiota, falar besteiras e gargalhar até a barriga doer. Bom, já são 17h. Subir a rua, visitar alguém. Já são 18:40h, como passa rápido. Ir pra escola, na garoa, despreocupada. Descer no ponto errado, não faz mal; to acostumada a erros. Passos apressados, olhar pra frente, pensamento lá no alto. Lembro dele, lembro de você... e do outro. Um fio de confusão atravessa a minha cabeça... e eu sorrio. Não me importo. Nada me importa. Hoje é dia de sorrir, lembra? Motivos? Não preciso. Estar viva, já é uma dádiva.

⁠"Se eu tivesse que escrever um livro sobre moral, ele teria cem páginas e noventa e nove seriam brancas. Na última eu escreveria: 'Eu só conheço uma obrigação: a de amar.' "

A ideia do suicídio é uma grande consolação: ajuda a suportar muitas noites más.

Friedrich Nietzsche
Para Além do Bem e do Mal

Amigos
A amizade não se constrói do dia para a noite, mas com vários dias e várias noites é possível criar laços indestrutíveis. A confiança, a esperança e o companheirismo são amigos das pessoas que querem mais pessoas ao seu lado.

Amor não acaba. Filmes acabam, balas acabam, dias acabam, beijos acabam, noites acabam, chocolate acaba, o assunto acaba, a paciência acaba, a vontade acaba - desejo diminui. Mas o amor não. Ele entra em coma, fica fraco, doente e, se for o caso, morre. Amor não é um sentimento, um fato, um objeto. Amor é uma vida, é algo que sai da compreensão humana, científica, racional. Amor não começa e acaba. Amor nasce e morre.

Que faria a ciência sem o amor? Envaideceria. Que faria o amor sem a ciência? Erraria.

Não vou chorar, nem ao menos vou sofrer. Não tenho do que lamentar, pois o tempo só me fez cada dia mais te amar... e quando me deixou uma cratera dentro de mim, foi o que ficou… os dias continuam a se passar, mas toda vez que foco no relógio, os ponteiros estão sempre no mesmo lugar, no mesmo mês, no mesmo dia e na mesma hora que você me deixou, na última batida do ponteiro, meu coração parou… essa foi a nossa despedida... assim me cravou uma ferida… Um rasgo me fez a pessoa que amei um dia!

"Há quem busque o saber por si mesmo, conhecer por conhecer: é uma indigna curiosidade.

Há quem busque o saber para poder exibir-se: é uma indigna vaidade. Estes não escapam a mordaz sátira que diz: 'Teu saber nada é, se não há outro que saiba que sabes'.

Há quem busque o saber para vendê-lo por dinheiro ou por honras: é um indigno tráfico.

Mas há quem busque o saber para edificar, e isto é amor. E há quem busque o saber para se edificar, e isto é prudência".

Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria. Que ela não se afaste dos teus lábios, não se afaste de teu coração.

A causa para amar a Deus é o próprio Deus; a medida, amá-lo sem medida.

Uns estudam por puro amor da ciência: é uma curiosidade ignominiosa;
Outros o fazem para alardear um renome de sábios: é uma vaidade vergonhosa;
Outros, ainda, estudam e vendem seu saber em troca de dinheiro e honras: é um tráfico vergonhoso;
Mas, há também os que estudam para edificar seu próximo: é uma obra de caridade;
Outros, finalmente, para edificar a si mesmos: é uma atitude de prudência.

Somos como anões aos ombros de gigantes, pois podemos ver mais coisas do que eles e mais distantes, não devido à acuidade da nossa vista ou à altura do nosso corpo, mas porque somos mantidos e elevados pela estatura de gigantes.

Bernardo de Chartres
SALISBURY, John of. The Metalogicon (1159).

O cristão se glorifica na morte de um pagão, porque por ela Cristo mesmo é glorificado.

Deus quis que nada recebêssemos que não passe pelas mãos de Maria.

Queria te falar tudo que sinto
O quanto já sonhei com você
As vezes que dormi sentindo seu cheiro
E as que fiquei acordado vendo a noite passar
O quanto te senti num travesseiro...
Mas me contento muito em saber
Que o sorriso que você deu
Foi eu que coloquei lá"...

...se nos sonhos posso ter você,
então quero dormir para sempre,
por que se algum dia acordar,
a realidade poderia não me deixar sonhar jamais...

O Cão Sem Plumas

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.

Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Ventos nos umbrais
janelas antigas,
modernos varais.

Laços sonoros
asas e afagos - cacos -
tragos de luz.

Concentração é aquilo que a gente adquire para vencer desafios.