Nosso Amor como o Canto dos Passaros
EU A DEIXO
eu a deixo
em companhia do silêncio
e levo comigo
o canto
desafinado
do desgosto
e o gosto vazio
do nada
Escolho quem adentra as portas do meu coração e faço todas as honras da casa. Faço uma faxina no passado, cicatrizo as feridas, coloco minha essência no ar. Me renovo em cada recomeço. Porque sou de escancarar as transparentes portas de vidro no meu interior. Faço do sentir uma música em tom maior. Eu canto, danço, falo e vibro amor. Por isso, meu silêncio é ensurdecedor.
Um único minuto de bondade pode valer mais do que toda uma vida repleta de complexidades. Um único livro enfim pode conter a verdadeira serenidade, a mansidão e a plena conciliação de nossa alma com tudo que existe valendo se assim bem mais do que toda uma farta bibliografia de perguntas, dúvidas e incertezas. Uma única música de amor pode valer bem mais do que toda um conjunto de falsas canções, com poucas poesias, sem as alegrias, sem rimas, sem os sorrisos e e as promessas de bons sonhos como encontramos sempre nas singelas e suaves cantigas de ninar.
PALAVRAS
Pego as palavras
E crio asas
Ébria, errante, infante,
Vestindo celestes vestes,
Estranha habitante
Desse universo brilhante
Alço etéreos vôos
Adejo, e eternizo,
Meu canto de amor.
Canto a tarde
Lá vou eu cantando a tarde, para com ela seguir mansamente meus passos. Sim, eu canto a tarde, faço-lhe serenatas junto ao vento, colho algumas flores, que este, impetuoso, teima em desfolhar e assim oferto-as, jogando-as pelo espaço e a tarde sorri para mim. Fica mais leve, mais doce e perfumada. Parece até que demora mais a ir de encontro ao horizonte, para que o dia descanse e amanhã volte a nos encantar. Namoro sim com a tarde, quando do campo, uma revoada de passarinhos vem comigo duetar e felizes vamos pelas horas, num canto primaveril, enfeitando o momento vespertino, que é vida aos que o observam e que pode ser noite linda, depois da alquimia de um sol já posto. A tarde traz lembranças boas, outras nem tanto, mas suas nuances de esperança pintam meu caminho e enchem de paz meu coração. Sei que em algum lugar, alguém com olhos de tarde morna, também assim a fita e então somos iguais em alma. Isso basta-me para ser feliz.
Não há mais palavras,
Acabou.
O vento não uiva,
O galo não canta,
A gaita, frustrada no canto.
Acabou.
As folhas se rasgam,
E tem seu som silenciado.
Corações partem,
Trens partem.
O músico, frustrado no canto,
Tem seu som silenciado.
Silenciado pelo barulho
De sua mente, de sua alma.
Seu coração já não bate,
Silenciado pelo barulho.
Do galo, ao vento, rasgando a folha.
Da última música, que o músico frustrado,
Escreveu naquele canto.
O trem partiu, a gaita ficou, naquele canto.
APAIXONADA
Rasgo trilhas no deserto,
busco oásis, rio e mar...
Paradeiro sempre incerto...
Quase nunca o seu olhar...
Num girar sobre mim mesma
meio ao mundo, e ao que será,
eu me perco das certezas...
Balbucio um la-la-lá...
Por um canto de paz, um sorriso que me leve à felicidade e um carinho que me traga de volta aos braços do amor.
“Quando as palavras não são suficientes para nos expressar, nós cantamos. Ao cantar a letra se transforma em corpo, e a música, na alma que dá vida a este corpo.”
(Alexei Lisounenko)
Não deixe
as flores murcharem em ramalhetes
que carrego para te perfumar,
nem que se cale o canto do pássaro
que em sinfonia quer nos brindar,
nem deixe que a lua se apague
escorregando pelas sombras do jardim,
não tarde amor, apresse teus passos,
caminhe firme,
em direção a mim
Se a poesia do meu canto não encanta coração nenhum, eu prefiro continuar cantando só.
Pois eu estou cansado de destinar canções inteiras a pessoas que merecem uma única nota: dó!
Contigo fui uma brisa de maio, um suicídio, um canto desafinado, uma viagem sem rumo. Contigo fui mais que uma virgem em perigo... Eu fui a fera que se lançou à chama, fui o esgotamento de uma majestade, uma enfermidade sem cura. Poderia até ser uma árvore desgastada para lembrar-me a última carta à mão que escrevi.
ANJO MULHER
Hoje um anjo veio até pra mim,
Não tinha asas,
Não voava,
Não atirava flechas
Não estava de branco
Nem cheirava alecrim
Era tipo um anjo normal.
Se é que existem anjos assim...
Hoje um anjo sorriu pra mim,
Um sorriso sem malícia,
Sem cobiça,
Que hipnotizava,
Não por ser Querubim,
Mas por ser belo
De uma beleza
Quase sem fim...
Hoje um anjo cantou pra mim,
Era um canto divino,
Não um canto qualquer...
Logo, não entendia
O que aquele anjo me dizia
Mas aí descobri
Que além de anjo
Também era mulher...
ALGUM CANTO
ainda que longe
planalto de Todos Los Santos
hei de me anelar
na tua griz juba
ser sol, sal y chuva
tatear a tua beleza
piano em teu riso
tu-eu (o banzo)
eu-tu (encantos)
afetados
n'algum
canto
Começando a viver
Se você não compõe, cante.
Se você não canta, dance.
Se você não dança, pinte.
Se você não pinta, arteie.
Se você não arteia, ame.
Se você não ama, bem... se você não ama,... resta libertar-se para ser feliz e começar a viver.
POEMA
O que é que é poema?
Será samba sem tambor?
Ou um rock sem guitarra?
Será prece sem louvor?
Ou é canto sem coral?
É cura pra todo o mal,
um remédio para a dor.
A SEREIA
Certa vez eu fui à praia,
e, num gesto muito insano,
fui até a profundeza,
bem no fundo do oceano.
Vi arraia e tubarão,
mas morri do coração,
ao ver algo não humano.
A sereia era peixe,
mas somente na metade.
Outra parte era mulher,
parecia divindade.
O seu canto enfeitiçou,
e agora eu estou
no mar pela eternidade.
Até quando você vai se diminuir,
Para encaixar-se no canto que resta na vida de alguém?
Nunca se esqueça, amor é permitir e permitir-se expandir.
